• Nenhum resultado encontrado

O ciclo do produto e adaptações de produto

No documento China. China-em-revolta.indd 1 07/10/ :14:50 (páginas 148-156)

É inequívoco que a China passou a integrar a concorrência global no mer- cado de produção automóvel em massa (bem como noutras manufaturas) num momento tardio do “ciclo do produto”, ou seja, na fase de “estan- dardização”, em que essas atividades estavam já sujeitas a intensa concor- rência internacional – momento em que as margens de lucro se tornam extremamente pequenas. Segundo o modelo de ciclo do produto de Ver- non (1966), produtos recentes e inovadores tendem a ser produzidos em países de rendimentos elevados; no entanto, à medida que estes percorrem o seu “ciclo de vida”, começa a dar-se uma dispersão dos espaços de pro- dução que passam a estabelecer-se em zonas progressivamente mais bara- tas (particularmente no que diz respeito ao custo da mão de obra). Numa fase inicial (de inovação) do ciclo de vida de um produto há pouca pressão concorrencial, tornando os custos de produção relativamente pouco im- portantes. Mas, à medida que o produto atinge o estado de “maturidade” e, finalmente, de “estandardização” o número de concorrentes potenciais e de fato cresce, assim como a pressão para cortar nos custos.

Até agora temos sustentado que a relocalização geográfica da produção não desencadeia necessariamente um nivelamento por baixo de salários e condições laborais, uma vez que em cada novo terreno de produção são também formadas novas classes trabalhadoras e movimentos laborais for- tes tendem a emergir. No entanto, a teoria do ciclo de vida do produto assinala como a cada fase do ciclo de produção aumenta também o nível de concorrência a que um determinado produto está sujeito, à medida que se dispersam os pontos geográficos onde este é manufaturado e de que o seu processo de produção se torna mais rotineiro. Por outras palavras, cada relocalização dá origem a uma realidade progressivamente mais compe- titiva. Lucros monopolistas inesperados (windfall profits) – ou “prêmios espetaculares” como lhes chamou Joseph Schumpeter – tornam-se um ca- talisador para o empreendedor (1954, p. 73). Mas, à medida que avançamos pelas fases seguintes do ciclo do produto, vai-se dando um declínio na rentabilidade dessa atividade. Além do mais, ao dar prioridade a regiões de baixo custo para iniciar novos ciclos de expansão, a produção passa a ter progressivamente lugar em pontos geográficos onde o nível de riqueza nacional é relativamente baixo. Essas tendências têm, por seu turno, impli- cações importantes quanto às consequências de grandes vagas de agitação

148 china

laboral – especialmente quanto ao tipo de consensos entre mão de obra e capital que os movimentos operários conseguem atingir, assegurando a durabilidade das conquistas alcançadas (Silver, 2003, p. 77-97).

Com vista a clarificar este ponto recorramos de novo à analogia (ou, me- lhor dizendo neste caso, aos limites da analogia) com a era pós-New Deal nos EUA. A onda de greves que se fez sentir nos Estados Unidos durante os anos de Franklin D. Roosevelt culminou num “contrato social” estabe- lecido entre mão de obra, capital e Estado, no qual os empregadores (e es- pecialmente os afetos à produção em massa) assentiram em reconhecer os sindicatos e em aumentar gradualmente salários e benefícios na proporção em que aumentasse a produtividade da mão de obra. Em contrapartida, os trabalhadores (e seus sindicatos) deveriam usar determinados canais e pro- cedimentos formais para veicular queixas e aceitar as decisões da gestão quanto à organização e localização da produção. O Estado, por seu turno, teria de promover condições macroeconômicas adequadas a este acordo, incluindo a manutenção de níveis de desemprego baixos. Esse pacto social manteve-se efetivo nos Estado Unidos por várias décadas após a Segunda Guerra Mundial, tendo sido rompido apenas nos anos 1980. Bastante dura- douro, esse contrato social foi em grande parte sustentado pelo “monopólio de lucros inesperados” que impulsionou os empregadores do setor de pro- dução em massa em “fase de inovação” em meados do século XX.

Manifestamente, o presente ambiente concorrencial é menos favorável à maioria das atividades da indústria manufatureira. Enquanto nos Esta- dos Unidos os trabalhadores da indústria automóvel conseguiram traduzir o seu forte poder negocial no local de trabalho em várias décadas de au- mento de salários e expansão de benefícios, os seus homólogos chineses – com níveis semelhantes de poder negocial no local de trabalho – não alcançaram até agora mais que a estagnação ou declínio do seu salário real (Zhang, 2008, p. 30). Ao analisar as dinâmicas correntes pelo prisma do ciclo do produto, podemos igualmente compreender melhor as tensões e contradições em jogo na questão da firma de construção automóvel (aci- ma mencionada) que, quando confrontada com resistência por parte de trabalhadores com elevada capacidade de negociação, decidiu abandonar um modelo de produção just in time; portanto, nos seus esforços para im- plementar formas mais avançadas de organizar a produção, a empresa em questão não se propôs a (ou não foi capaz de) forjar uma alternativa em que conseguisse obter a cooperação dos trabalhadores.

a china como epicentro emergente da agitação laboral no mundo 149

Designamos tal dinâmica, que se verifica também noutros países de industrialização tardia, como “contradições sociais de sucesso semiperifé- rico”. Do ponto de vista do desenvolvimento, tal significa que empreende- dores industriais tardios, mas bem sucedidos, tendem a ter de “correr para permanecer no mesmo lugar” – o “mesmo lugar” da hierarquia do poder econômico global (Silver, 1990; Arrighi, 1990, cap. 5). No entanto, não é de todo evidente que seja esta a melhor maneira de entender as dinâmicas chinesas contemporâneas.

Em primeiro lugar permanece em aberto a questão de se a China irá conseguir progredir na hierarquia global do valor acrescentado; em tal caso, uma analogia com o pacto social de longa duração estabelecido nos EUA das décadas do pós-Segunda Guerra Mundial entre trabalhadores, capital e estado social, pode ser mais relevante do que pareceria à primeira vista. Não iremos desenvolver esta questão, mas queremos, ainda assim, assinalar os investimentos massivos a serem feitos pelo governo central chinês na expansão do ensino superior enquanto esforço consciente para “dar o salto” e capturar os lucros monopolistas inesperados que fomentam as atividades na fase “inovação” do ciclo do produto. No entanto, ainda que a China fosse capaz de subir na hierarquia global do valor acrescenta- do, uma simples cópia do modelo esbanjador e de desperdício do consumo em massa americano seria indesejável e não sustentável em termos ecoló- gicos, entre outros.

Isto leva-nos à urgente questão colocada (e, até à data, sem reposta) por Giovanni Arrighi (2007) em Adam Smith em Pequim, a saber: se o legado histórico particular da China – o legado revolucionário dos anos de Mao e a experiência histórica de longo prazo de um desenvolvimento de mercado não capitalista – deixou a porta aberta a formas de inovação social que cortem fundamentalmente com as dinâmicas capitalistas do século XX.

Trabalhadores do mundo e da China

Se, tal como sustentamos na parte inicial deste capítulo, estivermos assis- tindo a uma mudança fundamental no equilíbrio de poder entre trabalho e capital na China, quais serão as implicações para os trabalhadores e para os movimentos laborais em outras partes do mundo? Uma narrativa co- mum a grande parte do globo avança que no caso de os padrões laborais

150 china

melhorarem na China, o país perderia grande parte do seu atrativo en- quanto local de investimento estrangeiro direto. Fluxos globais de capital seriam redirecionados e as questões relacionados com movimentos labo- rais fora da China seriam em grande parte resolvidas.

Essa narrativa não é isenta de falhas, a primeira das quais foi já discu- tida neste texto: economias de aglomeração criadas por distritos e redes industriais pré-planejados, uma força de trabalho sadia e educada e a di- mensão do mercado interno são também fortes incentivos ao investimento na China, e manter-se-iam na eventualidade do custo da mão de obra su- bir substancialmente. De fato, um aumento dos salários reais faria apenas aumentar o interesse em investir neste país, uma vez que o peso global relativo do mercado chinês aumentaria ainda mais48.

Não é improvável que alguns países do hemisfério sul venham a se en- contrar numa posição melhor do que a China no que diz respeito a atrair investimento estrangeiro direto em indústrias de trabalho-intensivas – ainda que, conforme já sustentamos, não seja de todo claro que o caminho para o desenvolvimento no século XXI possa ser feito através de uma bus- ca exclusiva de manufaturas em última fase do “ciclo do produto”. Ao invés, um caminho mais favorável poderá passar pelo uso estratégico de “lucros excepcionais” no preço de mercadorias enquanto auxiliar de investimen- tos de longo-prazo em desenvolvimento; na verdade, uma consequência direta do rápido crescimento econômico chinês foi uma completa inversão das tendências de mercado no tocante às transações entre setores primário e secundário.

O aumento dos custos com a mão de obra na China irá ter um sério impacto nos trabalhadores – enquanto consumidores – fora dela, à medida que os alicerces do pacto social neoliberal (inescrupuloso e de que os EUA foram pioneiros e exportadores para o resto do mundo) começam a ruir.

48 Um segundo problema desta narrativa, que deixaremos de lado por enquanto, é a

assunção de que os problemas dos movimentos laborais fora da China são em grande medida atribuíveis à concorrência (“justa” ou “injusta”) oferecida pela China. Conforme demonstrado por Ruth Milkmam (2006), no caso dos Estados Unidos, a crise do movimento dos trabalhadores da indústria manufatureira americana é anterior ao aumento da concorrência chinesa; mais ainda, é assinalável o aumento de condições laborais em regime de quase-exploração no setor dos serviços não sujeitos às pressões da concorrência internacional, nomeadamente serviços de transporte de mercadorias e de manutenção e limpezas.

a china como epicentro emergente da agitação laboral no mundo 151

Pois se é verdade que a supressão dos salários reais nos EUA foi socialmen- te sustentável, não é menos verdadeiro que tal apenas foi possível devido à importação massiva de bens de baixo custo da China e da manutenção de um sempre crescente défice da balança corrente. Esse modelo encontra-se em franco processo de desmoronamento, e a ameaça de “estagflação” faz- se sentir; no entanto, em finais de 2008, é ainda incerto se esta será uma transição suave ou uma catástrofe social e política.

Enquanto o desmoronar do pacto neoliberal é sem dúvida algo de positi- vo para trabalhadores em todo o mundo, os investigadores e ativistas afetos às questões laborais não começaram ainda a teorizar sobre as dinâmicas políticas emergentes nesta nova era, e menos ainda a conceber uma visão global sobre novas formas de organização laboral. Sem esse processo de reestruturação teórica são grandes as probabilidades de se saltar da frigi- deira para o fogo (ver: Arrighi & Silver 1999, conclusão). Ao menos, devem ser preparadas estratégias para o atravessar do perigoso interregno político que existirá entre o colapso do antigo e a emergência do novo – por outras palavras, para que se esteja preparado (na medida em que é possível estar preparado) para um cenário catastrófico de colapso. Uma forma importan- te de começar é aceitar os fortes laços históricos que existem entre a ascen- são do “estado social” e do “estado guerra” (“warfare state”) no ocidente, ou seja, entre a emergência do poder laboral e o poder estatal (Silver 2003, cap. 4). Este elo nunca foi quebrado, apesar das tensões entre estados e força de trabalho criadas pela via neoliberal. Se, de fato, nos encontramos a cami- nho de uma redistribuição fundamental da riqueza e poder globais entre norte e sul, ocidente e oriente, então uma forma de “revolução cultural” a ocidente do hemisfério norte é indispensável: uma luta cultural que permi- ta que uma nova ordem mundial mais igualitária comece a ser vista como uma bênção em vez de uma ameaça a ser combatida por todos os meios.

Bibliografia

Arrighi, Giovanni, The Developmentalist Illusion: A Reconceptualization of

the Semiperiphery, em William G. Martin, ed., Semiperipheral States in the World-Economy, New York, 1990, p. 11-42.

Arrighi, Giovanni, Adam Smith in Beijing – Lineages of the Twenty-First

152 china

Arrighi, Giovanni & Beverly J. Silver, Chaos and Governance in the Modern

World System, Minneapolis, 1999.

Bradsher, Keith, Investors seek Asian options to costly China, New York Times, 18/06/2008.

Business Watch, Labour’s Breakthrough at Wal-Mart, Business Watch, 4/09/2006.

Chan, Anita, Organizing Wal-Mart: the Chinese trade union at a crossroads, Japan Focus, 08/09/2006.

China Labour Bulletin, Migrant workers start to win significant compen-

sation awards in the courts, China Labour Bulletin, 23/11/2007, <http://

www.chinalabour.org.hk/en/node/50878> (Acesso em: 15/11/2008) ChinaTechNews.com, Investigation arranged for Huawei’s labor. ChinaTe-

chNews.com, 06/11/2007, <http:// www.chinatechnews.com/2007/n/06/ 6056-investigation-arranged-forhuaweislabor-issue> (Acesso em: 15/11/2008)

Cody, Edward, In China, workers turn tough: spate of walkouts may signal

new era, Washington Post, 27/11/2004.

Evans, Peter, & Sarah Staveteig, The changing structure of employment in

contemporary China, em Davis, Deborah & Wang Feng, ed., Creating wealth and poverty in post-socialist China, Stanford, 2008.

Fong Mei & Sky Canaves, Factories on China’s south coast lose their edge:

thousands close as increased costs alter the equation, Wall Street Journal,

22/02/2008.

Global Labor Strategies, The battle for labor rights in China: new Devel-

opments, November 2007, <http://laborstrategies.blogs.com/global_la-

bor_strategieshoo7/n/the-battle-for-.html> (Acesso em: 15/11/2008). Lee, Ching Kwan, Against the Law: Labor Protests in China’s Rustbelt and

Sunbelt, Berkeley, 2007.

Lianhe News, Strike explosion in Vietnam. 20 taiwanese factories stop

working, Taipei, 28/04/2008.

People‘s Daily Online, Building harmonious society crucial for China’s prog-

ress: Hu, 27/06/2005, <http://english.peopledaily.com.cnh00506/27/

eng20050627_192495.html> (Acesso em: 15/11/2008).

Piven, Frances & Richard Cloward, Poor Peoples’ Movements: Why they

succeed, how they fail, New York, 1977.

Schumpeter, Joseph, Capitalism, Socialism, and Democracy, London, 1954.

a china como epicentro emergente da agitação laboral no mundo 153

Silver, Beverly J., The contradictions of semiperipheral success: the case of

Israel, em, Semiperipheral States in the World-Economy, ed. William G.

Martin, p. 161-81, New York, 1990.

Silver, Beverly J., Forces of Labor: Workers’ movements and globalization since 1870, New York, 2003.

Raymond, Vernon, International investment and international trade in the

product cycle, Quarterly Journal of Economics 80, n. 2, 1966, p. 190-207.

White, Chris, China’s new labour law: the challenges of regulating employ-

ment contracts, Evatt Foundation Papers, 2007, <http://evatt.org.au/

publications/papersl193.html> (Acesso em: 15/11/2008).

Xinhua, Hu, China to promote sustainable development, protect workers’

rights and interests, Xinhua, 7/1/2008.

Zhang Lu, Lean production and labor controls in the chinese automobile

industry in an age of globalization. International Labor and Working-

caPíTulo 8

O beco sem saída da esquerda

No documento China. China-em-revolta.indd 1 07/10/ :14:50 (páginas 148-156)