Muitos trabalhadores insatisfeitos, ainda a trabalhar ou já desempregados, estavam a “usar a retórica proletária do período maoísta na exigência de justiça social no novo quadro econômico, formulando as suas reivindica- ções em termos classistas, algo com que as autoridades lidavam com algum desconforto” (Hassard, 2007, p. 138). A resistência dos trabalhadores dos
danwei contra os despedimentos era comumente motivado por uma forma
de “economia moral”. Eles mencionavam os direitos do passado, avaliando as injustiças sofridas à luz dos padrões do socialismo ou até mesmo da Revolução Cultural. Eles desenvolveram algo parecido com um quadro de ação coletiva, na medida em que recorriam à velha “retórica” comunista na luta contra a injustiça e a desigualdade ilegítimas. Por vezes, era paten- te uma espécie maoísmo ilusório, em que o passado era distorcido num período em que os trabalhadores eram felizes e contentes. Isso era o caso, em particular, dos trabalhadores mais velhos, já reformados, da função pública. Alguns evocavam a posição do “rebelde” revolucionário-cultu- ral: “Durante a Revolução Cultural (1966-1976), a ideia do PCC como uma nova classe explorada que extraía mais-valia das classes trabalhadoras e transmitia os seus privilégios aos seus descendentes tornou-se comum en- tre os participantes mais radicais do movimento. Uma ideia que muitos deles a passaram ao movimento democrático chinês que à altura, finais da década de 1970 e inícios da década de 1980, dava os primeiros sinais” (Has- sard, 2007, p.161-162). A imagem do movimento polaco Solidariedade, dos primórdios dos anos 1980, que circulou entre os trabalhadores do Estado, sublinhava a ideia de exploração por via de uma burguesia socialista.
Vistas de fora, as lutas pareciam ser “desorganizadas e sem direção” (Chen, 2003, p. 251). De fato, os protestos e manifestações coletivas contra as autoridades locais eram (e são) habitualmente coordenadas por (antigos) quadros e capatazes, que desempenhavam o seu papel de direção “tradi- cional” e exigiam os seus direitos “legítimos”. Eles funcionavam como tra- balhadores militantes e decidiam como intervir. Ocasionalmente, desem-
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penhavam a função de consultores, uma vez que a organização aberta ou clandestina era demasiada arriscada. Apenas um pequeno número ousava organizar ações que envolviam mais do que uma fábrica.
Ainda que regional e efêmero, o impacto e o poder gerados pelos pro- testos e demais formas de auto-organização dos trabalhadores foram o resultado da sua frequência, bem como de um regime cioso da eventual expansão de um movimento que se levantasse contra o Estado ou contra o monopólio da dominação política exercida pelo PCC. Essas preocupa- ções são justificadas, uma vez que o número de conflitos entre o Estado e o movimento dos trabalhadores tem aumentado já há algum tempo. “A classe trabalhadora na sociedade chinesa está a passar de força estabilizan- te a potencial força disruptiva” (Cai, 2006, p. 185). Para tal, existem uma série de causas: a existência de um sistema social disfuncional faz com que os pobres apresentem as suas reivindicações de uma maior estabilidade social perante o governo; os governos locais encontrarem-se diretamente envolvidos nas reformas e encerramentos das fábricas; e o fato das mais que óbvias corrupção, fraude e roubo de propriedade pública, realizadas pelos quadros do PCC, altos funcionários públicos e dirigentes fabris, pro- vocando as pessoas ao ponto de as fazer exigir a intervenção do Estado – caso contrário, elas poderão por si próprias atacar as figuras e instituições responsáveis.
Com algumas proeminentes exceções, a grande maioria das mobiliza- ções manteve uma dimensão relativamente pequena. Tal deve-se ao fato de muitos danwei de maiores dimensões terem sido poupados (e não en- cerrados) ou reunirem suficiente capital para pagar os seus trabalhadores. Mas quando os métodos pacíficos e moderados não ajudaram, os protestos radicalizaram-se e conduziram a confrontos militantes. As lutas de 1997 diminuíram o ritmo dos despedimentos de vinte a cinquenta milhões de trabalhadores redundantes, impedindo a reestruturação de prosseguir à velocidade planejada. Porém, embora os despedimentos em algumas in- dústrias tenham sido atrasados, as reformas ainda assim prosseguiram.
O pau e a cenoura
Logo após 1997, durante a reestruturação das empresas públicas e os des- pedimentos, o regime viu-se obrigado a adotar medidas contra as lutas.
a geração dos trabalhadores insatisfeitos 39
Recorreu a um processo político e econômico de deliberação descentra- lizada, concedendo assim maior influência e poder às autoridades locais. Estas foram os primeiros alvos dos ataques de camponeses, trabalhado- res migrantes e proletários urbanos. O governo central de Beijing apenas intervia quando os conflitos regionais perdiam as suas estribeiras ou se tornavam explosivos. Ainda hoje, o governo central exige das autorida- des locais a contenção de “eventos inespectáveis” (tufa shijian). A influência dos governos locais junto das empresas privadas é geralmente reduzida, limitando-se a sua capacidade de intervenção àquela realizada através de sindicatos e gabinetes de trabalho locais. No entanto, não deixam de de- sempenhar um papel importante nas empresas públicas, capaz de colocar a administração sob pressão (caso assim o desejem). Porém, nada acontece a não ser que os trabalhadores tomem a iniciativa, organizando uma resis- tência clara e direta e, desse modo, aumentando a pressão.
Até agora o Estado recorreu ao uso da estratégia “do pau e da cenoura” ao longo das lutas. Por um lado, tenta acalmar os ânimos dos trabalhadores e aligeirar os efeitos de despedimentos e da “libertação” do trabalho por via de compensações e pagamentos da segurança social8. Nesse contexto, Lee se
refere à existência de “válvulas de escape”, que permitam o “desabafo” das pessoas envolvidas (Lee, 2003, p. 83). Após 1987, as recentemente criadas comissões de mediação, constituídas por oficiais dos gabinetes de trabalho e por representantes dos sindicatos e do patronato, vieram a desempenhar um papel relevante na prevenção da escalada dos conflitos. A possibilidade de uma rápida pacificação da situação depende igualmente dos recursos financeiros do governo local e do danwei, a aplicar na atenuação dos impac- tos sociais dos despedimentos ou no pagamento de salários. As autoridades e danwei das regiões costeiras mais prósperas auferiram de meios financei- ros suficientes, ao contrário das províncias da “terceira frente”, do noroeste e nordeste. E, como é óbvio, apenas os danwei de maiores dimensões foram capazes de assegurar os pagamentos. Os pequenos e médios danwei não tinham dinheiro, tendo a maioria das lutas acontecido no seu seio.
A estratégia de pagar aos trabalhadores que organizavam lutas militan- tes criou igualmente problemas. “Definir o precedente de apenas satisfazer
8 As compensações e os pagamentos de reformas aos trabalhadores dos danwei
custam ao Estado centenas de milhões de euros, financiados através da banca pública.
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os interesses dos envolvidos em grande parte das revoltas mais intensas ar- risca-se a conceder aos trabalhadores a perfeita desculpa para a desordem” (Hassard, 2007, p.150). É importante destacar que estamos perante algo semelhante ao verificado durante a década de 1950, quando os trabalha- dores entraram em greve contra a administração dos danwei, uma vez que
sabiam que os gestores “intimidavam os bons mas temiam os maus” (Sheehan, 1998, p.74).
O “pau” foi majoritariamente usado contra os “organizadores” dos protestos. Os trabalhadores insubordinados e os mais reputados “líderes dos grupos” foram detidos (e continuam a ser) e enviados para prisões ou campos de trabalho por longos períodos de tempo, uma forma de aviso aos outros trabalhadores que participem em greves e manifestações, “fazendo deles um exemplo” (Weston, 2004, p. 78). A repressão das autoridades é particularmente dura nas mobilizações verificada em diversas fábricas e regiões e na intervenção sobre os sindicatos independentes.
A propaganda do Estado persiste, solicitando os trabalhadores a aceitar a austeridade para que as reformas possam obter o seu sucesso. No fundo, a ideia de que estes devem se sacrificar em nome do coletivo, do Estado, colocando de lado os seus próprios interesses. No entanto, o regime não deixou de responder às lutas: diminuiu o ritmo da reestruturação, esten- deu os períodos estabelecidos para os despedimentos (de 2000 a 2003) e iniciou os programas de assistência social. Em 2002-2003, o novo governo veio, por fim, colocar a estabilidade social no centro das suas prioridades. A reforma dos sindicatos do Estado e o estabelecimento (formal) de um sistema de negociação coletivo supõem a prevenção da explosão de lutas sociais – um tanto ou quanto semelhante ao “contrato social” da Europa Central. O slogan partidário relativo ao estabelecimento de uma “Socie- dade Harmoniosa” deve ser interpretado como uma ameaça a todos que ousem recorrer a meios desarmoniosos na luta pelos seus interesses. O Es- tado tenta evitar confrontos maiores e derramamento de sangue. Porém, quanto tempo isso irá funcionar? A reestruturação dos danwei economi- camente inviáveis ainda não terminou e continuará, certamente, a fazer deflagrar explosões sociais.
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