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O cinema e as “sociabilidades segregadas”

3. O assimilado e a situação colonial da cidade de Tete

3.6. As sociabilidades coloniais: vizinhança, esportes, cinema e associações

3.6.3. O cinema e as “sociabilidades segregadas”

Se o futebol possibilitava alguma sociabilidade entre colonos portugueses, assimilados

e indígenas, em função do domínio das técnicas e tácticas desse jogo por estes últimos, o

mesmo não se via, na mesma proporção, em outras esferas da vida social. A frequência ao

cinema revela esse fato.

Existiam na cidade de Tete três salas de cinema, nomeadamente, o Cine São Tiago, o

Estúdio 333 e mais tarde o Cine Esplanada Kudeca. Nos arredores da cidade, concretamente

na vila de Moatize existia a sala de cinema do Clube Ferroviário. A nossa tarefa aqui consistiu

em perceber como é que a condição de assimilado facilitava ou dificultava o acesso pelos

indivíduos a esses espaços e, consequentemente, compreender os laços de sociabilidades que

estabeleciam entre si e com os indivíduos de outras categorias sociais (colonos portugueses e

indígenas) com quem interagiam ou não nesses espaços.

Rui Faria, apesar de originário de uma família assimilada, chegou a ser impedido a

entrar em salas de cinema de Tete, por volta da década de 1950. Na ocasião, nem a sua

condição de detentor da nacionalidade portuguesa lhe ajudou:

Eu gostava de cinema, mas não frequentava salas de cinema. Eu era

impedido porque era assimilado. Nós tentávamos ir, eu e amigos que

também eram filhos de assimilados, todos éramos bem conhecidos, mas não

nos deixavam entrar [...] mesmo que disséssemos que éramos filhos de

assimilados não tinha importância. Mas essa proibição aconteceu mais antes

dos anos 60. Depois dos anos 60 já permitiam filhos de assimilados entrarem

no cinema! (FARIA, 2015).

Uma situação diferente nos é revelada por Paulo Botelho, que considera que chegou a

frequentar as três salas de cinema sem impedimento de ordem alguma:

Frequentei as três salas de cinema que existiam aqui em Tete, São Tiago,

333 e Kudeca. Qualquer pessoa que tivesse ingresso poderia entrar no

cinema. Mas da casa ao cinema tinhas que levar contigo o bilhete de

identidade senão não poderias circular na cidade (BOTELHO, 2014).

Uma posição semelhante a de Paulo, é defendida por Matias Figueiredo:

Cheguei a frequentar o Cine 333 e o Kudeca [...]. Não havia diferença entre

clientes negros e brancos, era tudo a mesma coisa (FIGUEIREDO, 2015).

Igual percepção tem Gabriel Chiphiri que considera que não havia restrições no acesso

às salas de cinema:

Mas nesses sítios não havia restrições, bastava a pessoa ter o Bilhete de

Identidade e dinheiro não havia problema. O que interessava eram as

receitas. Mas por exemplo lá dentro do cinema havia descriminação.

Aqueles lugares de frente sentavam mais os brancos e assimilados, nós

sentávamos nos bancos de trás (CHIPHIRI, 2015).

Relatando uma realidade da vila de Moatize, José Chale considera que, apesar de no

período ser criança, frequentava salas de cinema. Fazia isso no Clube Ferroviário:

Frequentava constantemente as salas de cinema durante o período colonial.

Era no Clube Ferroviário. Lá qualquer pessoa tinha acesso. Aí era assim,

tinha primeira plateia e segunda plateia. A primeira plateia estava mais em

cima, aí as cadeiras eram confortáveis, eram sofás. Lá em baixo as bancadas

eram de madeira. Era mais para os indígenas. Eu sentava ai! Lá em baixo

animava, nós gritávamos quando víssemos um Trinyty

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em ação [...] mas o

barulho que nós fazíamos os portugueses que sentavam na primeira plateia

também ouviam. Por isso, quando eram filmes de ação eles preferiam não ir!

(CHALE, 2014).

Os relatos acima apresentados elucidam conflitos nas possibilidades de contato entre

os diferentes grupos no espaço da sala de cinema. É possível, pois, evidenciarmos alguns

elementos importantes para a nossa análise. O primeiro deles é trazido por Rui Faria, que

considera que antes dos anos de 1960 não frequentava salas de cinema pois não deixavam que

tanto assimilados quanto os indígenas frequentassem esses espaços. Estes eram espaços

exclusivamente de colonos portugueses, independentemente de os assimilados tivessem ou

não capacidade financeira para a compra de ingresso. Paulo Botelho que é quase da mesma

época que Rui, reconhece que havia abertura para que os assimilados frequentassem as salas

de cinema, desde que estes portassem o Bilhete de Identidade. Matias Figueiredo, Gabriel

Chiphiri e José Chale veem o acesso ao cinema no período colonial como disponível para

todos os moradores da cidade. Contudo, estes últimos apontam para outro ponto importante

de ser analisado. Indicam que a disposição das cadeiras dentro da sala assumia um caráter que

sugeria a existência de segregação social. Existiam lugares que eram reservados para os

colonos portugueses, por um lado, e outros que eram reservados aos assimilados e alguns

indígenas, por outro.

Estas constatações merecem atenção especial para podermos compreender como, de

fato, a sala de cinema constituiu um lugar de sociabilidade entre as categorias sociais que

habitavam o espaço colonial tetense. Para isso, não basta encararmos a sala de cinema de uma

forma isolada do contexto mais amplo da cidade. Efetivamente, como indicamos na secção

que analisou os lugares de moradia dos assimilados, o acesso ao centro da cidade (onde se

localizavam as salas de cinema) assumia um caráter socialmente discriminatório. Mostramos

que dificilmente os indígenas tinham acesso ao centro da cidade, que a sua circulação dentro

dela era monitorada pelas autoridades policiais que exigiam que estes portassem um

documento que autorizasse sua circulação. Desse modo, existiam barreiras administrativas e

sociais que limitavam a frequência dos indígenas às salas de cinema da cidade.

O assimilado, porém, residia na cidade, embora nas bordas do centro. Este portava o

Bilhete de Identidade, que era o documento que lhe conferia legalmente o estatuto jurídico de

cidadão e, como tal, estava livre de circular pela cidade. Como podemos notar, é este bilhete

que lhe diferenciava do indígena, na medida em que permitia-lhe circular livremente pela

cidade, inclusivamente dirigindo-se aos cinemas, sem a necessidade de uma justificação

escrita. Contudo, conforme os trechos acima citados sugerem, as salas de cinema

apresentavam uma estrutura segregada de distribuição de assentos. Uns assentos eram

reservados à categoria dos colonos portugueses e outros aos negros, no caso, aos assimilados.

Isto quer dizer, em nosso entender, que a disposição de assentos nas salas de cinema sugere

que, apesar de frequentarem o mesmo espaço, existia pouco contato entre os portugueses

colonos portugueses e os assimilados.

Assim sendo, o monitoramento da circulação do indígena pela cidade, como ficou

demostrado neste capítulo, possibilitou que a sua presença nas salas de cinema fosse ínfima,

embora tal constatação não seja acompanhada de dados estatísticos que a justifiquem, dada as

nossas limitações metodológicas. Do mesmo modo, embora os assimilados tenham tido mais

possibilidades de circular pela cidade, e consequentemente de poderem ir ao cinema, a

estrutura da distribuição de assentos não permitia que estes ocupassem os mesmos assentos

que os colonos portugueses.

Esta situação, em que os indígenas quase não tinham acesso ao cinema e, os

assimilados, embora o tivessem, não interagiam de forma significativa com os colonos

portugueses, faz-nos concluir que os assimilados passavam a se ver como sendo um grupo

peculiar, no processo de construção de sua identidade. Processo esse que é explicado por

Simmel (2013), quando analisa a construção da identidade dos indivíduos, contrastando-a

com a dos “outros”. No caso em alusão, os assimilados passavam a considerar os colonos

portugueses como diferentes de si, pois estes ocupavam os “melhores” lugares na sala de

cinema. Ao mesmo tempo, viam-se enquanto uma categoria diferente dos indígenas pois estes

quase não tinham acesso aos cinemas. Ou seja, a peculiaridade dos assimilados era

exatamente a tensão constate presente em sua condição identitária: ela lhe permitia ser um

cidadão e ter acesso a serviços e benesses da sociedade colonial – ao contrário dos indígenas –

, mas que essas possibilidades se reduziam quando comparadas às dos colonos portugueses,

os ditos “cidadãos originários”.

Em suma, embora o cinema constituísse um espaço em que tanto colonos portugueses

quanto assimilados frequentassem, gerando aquilo que Moreira (1956; 1961) designou de

espaço de “integração multirracial”, esta pesquisa sugere que o cinema criava, na verdade,

aquilo que aqui chamamos de sociabilidades segregadas entre colonos portugueses e

assimilados.

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