3. O assimilado e a situação colonial da cidade de Tete
3.4. O auto-retrato dos assimilados de Tete
3.4.3. Os colonos portugueses na perspectiva dos assimilados
Uma das conclusões que a secção anterior nos permite chegar é a de que os colonos
portugueses constituíam um parâmetro importante, embora não exclusivo, a partir do qual os
assimilados definiam a sua identidade social. Ficou sublinhada a ideia de que conviver,
trabalhar ou ter condições económicas relativamente próximas às daqueles, constituía um dos
elementos em função dos quais os assimilados se definiam. É importante, para
compreendermos melhor esse fato, investigar a representação que os assimilados tinham dos
colonos portugueses. Fazemos isso procurando saber se os entrevistados chegaram a
desenvolver relações de amizade com colonos portugueses, e se, durante o período colonial
chegaram a conhecer indivíduos pertencentes àquela categoria social que carregassem marcas
socialmente depreciativas, qual seja, a de pobreza ou analfabetismo?
Apesar da proximidade que em alguns casos existia entre assimilados e colonos
portugueses na cidade de Tete, Rui Faria, mostra o distanciamento social que existia entre as
duas categorias sociais:
Nunca cheguei a ter amigos brancos. É que eles eram assim [...], eram mais
senhores. Você que não tinha nada, tinha que ficar no seu canto. Naquela
altura havia muita preservação entre negro e branco. É que nós
pensávamos: “aquele é assim, como lidar com ele”? E os brancos também
pensavam: “aquele é assim, como lidar com ele”? Então acabávamos ficando
cada um no seu lugar (FARIA, 2015).
E acrescenta:
Havia brancos pobres, mas eram encobertos [...] não se notava que eram
pobres. Mesmo analfabetos [...] eles procuravam esconder, não assumiam
que eram analfabetos!.
Partindo de sua experiência e a de seus grupos de convivência, Rui tem uma imagem
do colono português como aquele que era detentor de meios econômicos consideráveis,
pondo-os numa posição de “senhores”. Com efeito, a palavra “senhores”, independentemente
do sentido que possa assumir, está aqui associada a uma posição econômica significativa que
inclusivamente pode remeter a ideia de empregador ou de alguém que ocupa um lugar
hierarquicamente superior no local de trabalho. Ao mesmo tempo, Rui sugere que a sociedade
colonial tetense, a seus olhos, não propiciava uma maior sociabilidade entre as categorias
identitárias, o que levava a que as pessoas tendessem a aproximar-se mais ao seu grupo
identitário e evitando o outro. Esse senso do “nós” estava mais presente nos colonos
portugueses na medida em que os membros desta categoria não podiam passar uma imagem
de pobre ou analfabeto diante dos restantes integrantes da sociedade. Afinal de contas, como
considerava Dom Sebastiao de Resende (1994), os colonos portugueses
54representavam a
“civilização” e, como tal, deveriam ser “exemplos vivos" dessa condição de “civilizados”.
Para reforçar a imagem que Rui tem sobre o fechamento social dos colonos
portugueses, vale a pena complementá-la com a de Gabriel Chiphiri, que igualmente não
chegou a ter amigos daquela categoria social:
É difícil dizer se cheguei a conhecer uma pessoa branca que fosse pobre.
Eles poderiam ter vindo [de Portugal] como pobres, mas encobriam-se
muito. Se fosse pobre o outro branco lhe dava tudo até ele se levantar [...]. O
único branco que nós víamos como pobre era um que trabalhava na
veterinária. Ele era homossexual. Talvez essa é que era a pobreza dele. É
que naquela altura principalmente a igreja condenava a homossexualidade e
talvez ele saiu de Portugal para aqui fugindo da situação de descriminação.
Só que ele não era bem acolhido pelos brancos, então metia-se com homens
negros. Então era por isso que nós achávamos que ele fosse pobre pois era
ele que procurava pelos negros, coisa que os outros brancos não faziam! O
que havia demais eram portugueses analfabetos. Eles eram capatazes, tinham
uma vida razoável, mas não sabiam ler e muito menos escrever (CHIPHIRI,
2014).
Assim como Rui, Gabriel tem uma concepção dos colonos portugueses como estando
enquadrados em uma rede de interajuda. Isto possibilitava que as demais categorias sociais
não tivessem uma imagem “negativa” destes, como sendo pobres ou analfabetos. Além disso,
Gabriel traz à tona um aspecto interessante: nem todos os colonos portugueses cabiam nessa
teia de interajuda. Estes, independentemente da imagem negativa que pudessem proporcionar
à categoria dos colonos portugueses diante das outras que habitavam o espaço colonial, não
gozavam da aceitabilidade do grupo. No caso do indivíduo português que Gabriel considerou
ser pobre, isto é, que não era aceito pelos outros, era um homossexual. É esta sua condição
sexual que lhe tornava pobre. Efetivamente, embora este indivíduo trabalhasse em uma clínica
veterinária – o que não lhe tornava literalmente pobre – passou a adquirir esse estatuto aos
olhos de Gabriel, e nos de seus contemporâneos, porque não gozava de aceitabilidade nas
redes de sociabilidade dos colonos portugueses, o que lhe fez interagir mais com os negros. É
interessante perceber que aqui, a pobreza não é entendida em termos de carências materiais.
Ela é entendida como carências que faziam com que o indivíduo não fosse aceito pelos seus
pares.
Paulo Botelho, ao contrário de Rui e de Gabriel, considera que teve amigos
portugueses:
Sim, cheguei a ter amigos de raça diferente da minha. Tive amigos
portugueses. Uns eram polícias, outros caixeiros, balconistas e tal.
Normalmente nos encontrávamos no meio de semana depois da hora de
trabalho e, nos finais de semana trocávamos alguns copos.
Encontrávamo-nos lá no Cigano. Eu só chegava e sentava. Era um sitio que os brancos e a
elite iam. Tinha também a Marisqueira. Eu também frequentava esses
lugares.
55Às vezes ia sozinho, outras com os meus amigos portugueses e
outras com amigos negros. Mas aí era um sitio proibido para os negros
(BOTELHO, 2015).
Embora termine suas palavras dizendo que o Cigano e a Marisqueira eram locais
proibidos para os negros, na prática, Paulo está enfatizando que nem todos os negros da
cidade frequentavam esses espaços. Ele era um dos poucos que o fazia. E, certamente, para
além de ser assimilado, uma das coisas que lhe dava conforto de frequentar esses espaços era
o fato de ter tido alguns amigos portugueses que também aí frequentavam. Estes, como
podemos notar, desempenhavam atividades laborais como as de guardas policiais, caixeiros
ou mesmo balconistas. Ou seja, desempenhavam funções que em termos de prestígio social
não estavam longe da de Paulo que, à época, era recepcionista em um hotel da cidade. Apesar
do fato de ter estabelecido relações de amizade com alguns colonos portugueses, Paulo
concorda com Rui que os portugueses usavam estratégias de fechamento social, baseada na
criação de redes de interajuda, ante as demais categorias identitárias:
É difícil dizer se cheguei a conhecer algum branco pobre porque só o
africano é que faz isso, que gosta de ver o outro pobre para se rir dele. Mas,
entre europeus não há isso. Mesmo ao nível salarial era diferente. Havia
brancos que nem sabiam escrever [...] jardineiro, saia de Portugal vinha para
aqui sem sequer saber ler ou escrever, que assinava usando impressão
digital, mas tinha melhores condições que um preto com formação
(BOTELHO, 2015).
Matias Figueiredo, que fora funcionário bancário, jogador de futebol e músico, durante
a sua experiência no período colonial, teve bastante proximidade com os colonos portugueses.
Segundo ele, o fato de ser um excelente futebolista e músico contribuiu para isso.
Inclusivamente, por algum momento de sua vida chegou a morar na casa de seu treinador. É
em face dessa sua circulação pelos setores dos colonos portugueses que fez com que Matias
passasse por situações de descriminação racial, quando se considerava ter os mesmos direitos
que aqueles:
Tive amigos de raças diferentes da minha. Tive muitos amigos brancos!
Mas, havia alguns que eu não gostava porque eram racistas [...] com esses eu
andava na pancadaria! Já bati um mulato e um branco por causa disso [...].
Eu nunca deixei a minha maneira de encarar um homem como pessoa igual,
fosse de que cor fosse, só que não admitia brincadeiras de mau gosto! [...]
Sim, conheci indivíduos brancos que considerava serem pobres. Havia um
que era conhecido como João-coxo e havia outros que já não me recordo
muito bem, mas eram poucos! Havia também portugueses com muita baixa
escolarização, que tinham dificuldades ou mesmo não sabiam falar bem,
nem escrever (FIGUEIREDO, 2015).
Fica igualmente claro que Matias identificava colonos portugueses que eram pobres ou
que não sabiam ler, nem escrever. É a mesma percepção que Alberto Fernandes tem. Este teve
durante a infância amigos portugueses e, dado o fato de ter estudado na escola oficial, foi
ensinado por professores igualmente portugueses. Apesar de na época ele ainda ser criança,
recorda ter conhecido um português pobre e analfabeto:
Há sim, existia um, o Sequeira. O considerava pobre porque aquele velho foi
oriundo dos prazeiros
56, vivia ai no Matundo. Prontos, a história assim ditou
que ele fosse pobre. Lembro-me muito bem que ele andava aqui pela cidade
com cesto a vender cabeças [de cabrito]
57[...] Esse mesmo Sequeira, para
além de pobre, era analfabeto! (FERNANDES, 2014).
Esta seção, de uma forma geral, sugere-nos identificar três aspectos sobre a imagem
que os assimilados construíam dos colonos portugueses. O primeiro é o de que, de uma forma
direta ou indireta, este grupo é encarado como sendo o que ocupava as posições socialmente
valoradas na sociedade colonial tetense. Que eles haviam criado redes de solidariedade e
interajuda que dificilmente apareciam aos olhos dos entrevistados como estando a carregar
marcas “depreciativas” como as de pobreza ou analfabetismo. Contudo, a análise mostrou
igualmente que quanto menos o assimilado estivesse ligado a redes de amizades com colonos
portugueses, menos ele tenderia a identificar portugueses com condições de vida precárias ou
socialmente desvalorizadas. Ou seja, o assimilado que tinha um contato mais distante, por via
de amizade, com os portugueses tenderia a encará-los como estando social e economicamente
“bem” posicionados na sociedade colonial, ou como diz Rui Faria, como “senhores”. Os
outros, porém, embora reconheçam a existência de uma afinidade entre ser colono português e
disfrutar das melhores vantagens oferecidas pela sociedade colonial, têm a sensibilidade de
identificar alguns colonos portugueses que fugiam a essa regra; àqueles que as teias de
solidariedade da categoria social não conseguiam segurar.
56 Conforme indicamos no início deste capítulo, os prazeiros eram descendentes de portugueses que antes da implantação do estado novo, eram arrendatários de terras ao longo do vale do Zambeze.
57 Na região de Tete a carne de gado caprino e seus derivados representam, ainda nos dias que correm, uma importante fonte de proteína animal.
Revelam-se aqui os limites da atribuição estatal do colono português, que procurava
opor este ao indígena. Como demostramos ao longo dos capítulos anteriores, este último era
encarado como um indivíduo desprovido de indicadores de “civilidade”, tais como, a
alfabetização ou capacidade de prover economicamente a si e sua família. Com efeito, o
discurso que esteve por detrás da construção dessa categoria, alimentado pelas elites
coloniais, não passava de um mito. As interações concretas dos indivíduos no cotidiano
colonial tetense, revelam que, ao contrário de tal mito, existiam segmentos de colonos
portugueses que também eram analfabetos, mal dominavam a língua portuguesa, assim como
carregavam outras marcas socioeconômicas que o Estado classificava de “não-civilizadas”. A
este respeito, o trabalho de Cláudia Castelo (2012)mostra exatamente esse lado dos colonos
portugueses, especialmente daqueles que residiam em regiões rurais, rotulados na sociedade
colonial por “brancos do mato”. Para a autora estes estavam na contramão do discurso oficial:
Apresentados no discurso oficial como agentes da civilização portuguesa em
África e como exemplo para as populações indígenas, [esses] colonos viviam
num espaço no qual constituíam a classe mais pobre, não só entre os
civilizados, mas também em comparação com alguns assimilados e até
indígenas que não queriam solicitar a cidadania. Na prática [esses colonos]
eram motivo de vergonha ou objeto da caridade da restante comunidade
portuguesa e não podiam servir de exemplo para os africanos da região
(CASTELO, 2012, p. 50).
Este fato sugere que, mais do que a atribuição dessa condição (civilizada) dos colonos
portugueses feita pelo Estado e elites coloniais, as experiências singulares e coletivas dos
indivíduos que residiam na sociedade colonial davam-lhe significados peculiares.
Dependendo da experiência de contato com os colonos portugueses, quer fosse no mercado de
trabalho, na escola, nas relações de amizade ou noutros espaços, os assimilados construíam
imagens específicas daquela categoria, procurando dela se diferenciar no processo relacional
de construção de sua identidade social.
No documento
Os Assimilados de Moçambique: Da situação colonial à experiência socialista
(páginas 122-127)