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A visão de si, ou de como se percebiam na ocasião do reingresso escolar tem significativa mudança a partir do coletivo, pois os sujeitos se (auto)reconhecem no processo de aprendizagem, desconstruindo as imagens em que foram pensados como subalternos e superando as concepções inferiorizantes a que são submetidos327. O pertencimento ao coletivo da EPA favorece que busquem se

reconhecer como ser social e produtivo, com qualidades, habilidades, e, principalmente, capazes de aprender.

Aprendendo as relações históricas dos processos de inferiorização, eles ressignificam seu papel social e buscam suas identidades de sujeitos sociais. Este é, porém, um processo longo e lento, que constroem através do coletivo, mas que

exige a superação das concepções de opressão que marcaram suas histórias por toda vida. É possível ilustrar esta problemática se imaginarmos um morador de rua328 adentrar um espaço comercial ou um restaurante, fato que atrairá a atenção

imediata de todos os “clientes”, mas obviamente que eles329 sabem desta condição

e, a menos que seja num serviço público de que necessitem muito, mantêm-se em distância.

Ao analisar as mudanças sobre a autopercepção a partir dos relatos de como se percebiam antes de ingressar na EPA, identifico a questão do vínculo como medular para a autoimagem: o sentimento de pertencimento, de compor uma unidade de apoio passa a ser a referência mais significativa em busca de uma reconstrução de si mesmo. A EPA – equipe pedagógica e educandos -, entra no espaço da família, vínculo que muitos deles não têm. Os colegas buscam resgatar aqueles que desistem e incentivam os que estão em processo de recuperação. O pertencimento à escola acaba sendo, muitas vezes, o primeiro vínculo dessas pessoas. A equipe pedagógica não raramente, atuam como mediadores de conflitos, aconselham, orientam cuidados de todo tipo. Então, quando os depoimentos trazem falas como “a minha família é a EPA” retratam o papel determinante deste coletivo na reorganização pessoal e social destes sujeitos.

As percepções sobre o entendimento e a construção social do sujeito proporcionadas a partir da EPA ficam evidentes em testemunhos como “aqui dentro o motor tem força” (ZUMBA), “fora do colégio eu só faço o que não presta” (GAMA), “quero que vejam que estou estudando e que não desisti de mim” (BARTIRA), “estou aprendendo até quando não estou na aula” (FRANCISCO), “aqui a gente é tratado como se fossemos pessoas que não tem diferença nenhuma” (NILO), “[o apoio da gestão e das professoras] faz a gente se sentir importante” (PATROCÍNIO). Neste sentido, Arroyo330 designa:

Se a escola, o conhecimento a que têm direito não tem condições de tornar suas vidas e seus lugares mais humanos, ao menos duas tarefas são possíveis: que os conhecimentos escolares os ajudem a entender-se a ler a sociedade, as relações sociais e políticas e os padrões de trabalho e de lugar que os segregam. Mas também que o tempo curto que conseguirão permanecer na escola, no percurso escolar sejam tempos, espaços, percursos onde experimentem seu direito a ser tratados como humanos. Seu direito a um digno e justo viver.

328 Utilizo aqui “morador de rua” para enfatizar o estigma de exclusão contido no termo. 329“nós e eles” ARROYO, Miguel. Políticas Educacionais e Desigualdades: à procura de novos

significados. Educação e Sociedade, Campinas, v. 31, n. 113, out./dez. 2010.

O sentimento de identificação com o coletivo se dá desde o ingresso dos educandos na EPA, desde o acolhimento331, proporcionando que possam reconstruir

suas identidades. O pertencimento desenvolve o sentimento de solidariedade e colaboração entre os educandos. Há esforço do coletivo em se ajudar nas atividades pedagógicas de sala de aula ou de trabalho no NTE, há o entendimento de que cada um tem suas limitações, tanto quanto identificam suas próprias habilidades e com orgulho declaram: “eu sei fazer”.

Nesta perspectiva, se reconhecem enquanto ser social e produtivo pela experiência do trabalho à medida que se percebem capazes de desenvolver as atividades propostas pelo NTE, vivenciando o processo de socialização pela atribuição de sentidos na ação-reflexão da práxis, relacionando a prática, a consciência e a ação transformadora. É o que Adams identifica como pela mediação pedagógica do trabalho associado na formação, considerando que ethos332

(...) tem relação direta com os processos de formação humana e as relações educativas que se estabelecem especificamente na vida cotidiana e nas relações sociais, de modo especial nas de produção. A experiência de vida é determinante na formação das disposições em relação ao mundo social. Em decorrência, o ethos possibilita uma forma rica de compreensão da formação dos sujeitos envolvidos em práticas de trabalho associado ou outras, tornando-se uma referência que atribui sentido a todas as aprendizagens333.

Assim, enquanto coletivo se apoiam na superação das desigualdades, na reintegração social, na busca do conhecimento aprendendo a aprender e se construindo como sujeitos atuantes e determinantes neste conjunto. A identidade é (re)construída a partir do pertencimento pelo reconhecimento do educando no coletivo. Seja por ser conhecedor de alguma técnica de trabalho, seja por necessitar de alguma ajuda na escrita, por ser mais participativo no grupo ou introvertido e necessitar de atenção. O determinante é que a partir do momento que passa a pertencer, o coletivo o abarca possibilitando a reintegração através da vivência no e pelo grupo.

331 SANTOS, Renato Farias dos. O Acolhimento da População em Situação de Rua: A experiência

do Núcleo de Trabalho Educativo da EPA. 2018 Dissertação (Mestrado em Educação), Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Orientador: Fischer Maria Clara Bueno. Porto Alegre, RS, 2018,

332 Para Adams (2010) Ethos é o lugar privilegiado da práxis por criar e atribuir sentidos às

experiências de vida, através das relações sociais considerando as diferentes formas de viver e compreender o mundo incorporadas no decorrer da história de vida que inferem na formação humana.

Essa reintegração também abarca as questões de saúde mental, já que são tuteladas diretamente pelo SAIA e, através do serviço de acolhimento e acompanhamento, repassadas à equipe pedagógica para que sirvam de base ao planejamento do processo de ensino-aprendizagem assim como facilitar e promover as relações de respeito entre os educandos, considerando suas potencialidades e limitações. Na sala de aula o tema sobre a saúde mental é abordado de modo a desenvolver o respeito, a autoestima, o autocuidado, a fim de combater comportamentos agressivos e reduzir danos emocionais. Ao se perceberem reconhecidos e aceitos no coletivo da EPA, além de acompanhamento do tratamento médico, eles tendem a se relacionar com mais compreensão e menos agressividade.

O coletivo vivenciado pelos educandos da EPA possibilita a reinserção social através das articulações do sujeito com o espaço social da escola, do coletivo da EPA com outros coletivos de trabalho, dos processos participativos e da perspectiva emancipatória do trabalho pela troca de experiências e pelo reconhecimento de saberes de cada um. É uma proposta educativa que se propõe à superação das desigualdades tendo em vista a transformação social.