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4.1 RESSIGNIFICANDO O LUGAR E A FALA PELA ALTERIDADE

4.1.8 Reunião do NTE: participar requer planejamento

A reunião tinha como pauta a aprovação da marca para os produtos do NTE. Fora desenvolvida por profissionais colaboradores da EPA, da área de marketing e propaganda, com base em briefing307 desenvolvido junto ao NTE em algumas reuniões. A reunião inicia com a apresentação do briefing: o que foi definido como

307 Briefing é um termo de Comunicação e Marketing que define o processo de coleta de dados e

informações que antecedem e direcionam o desenvolvimento de um projeto de imagem ou uma ação de RP ou propaganda.

critérios importantes pelo NTE sobre o que seria esta representação, o que deveria conter, possibilidades de cores e alguns símbolos associados com o trabalho desenvolvido. Assim, a equipe que desenvolveu a marca apresentou os critérios estabelecidos e os caminhos que levaram às alternativas de marcas que foram expostas. Em um telão apresentam a marca e duas alternativas de logomarca. Ao meu lado um educando interrompe a apresentação:

“Eu teria feito melhor! Não está bom! Eu poderia ter feito!” (JOÃO). Uma das coordenadoras do Núcleo explica:

“Nós já passamos dessa fase, João! Decidimos nas reuniões anteriores e agora estamos na fase de aprovação. Este trabalho foi feito por profissionais que procuraram a escola para desenvolver a marca. Fizeram em parceria, como colaboração.” (PROF NTE)308.

Sentado exatamente ao meu lado ele retruca para mim:

“Por que não nos chamam para fazer isso? Tem muita gente que entende de arte aqui, que pode fazer um desenho para representar nossa marca... Será que acham que a gente não é capaz?” (JOÃO).

“Mas você veio nas outras reuniões? Não sabia que estavam desenvolvendo a marca?” (PROF MARCIA).

“Não! Eu sabia da escolha do nome, disso eu sabia. A gente escolheu! Não que outros, de fora iam fazer nossa marca... Deviam ter consultado a gente!” (JOÃO).

A conversa ‘ao pé do ouvido’ é percebida pelos participantes da reunião. A colaboradora que está apresentando seu trabalho justifica:

“A gente trouxe hoje um trabalho que foi desenvolvido por um profissional de design, que tem experiência em marcas e que desenvolveu a logomarca após alguns estudos sobre o que esta imagem precisa representar no mercado. Isso é o resultado de um processo de investigação desse mercado, da proposta do trabalho de vocês. É mais que um desenho. É uma logomarca que representa quem vocês são e o que fazem.” (COLABORADORA MARKETING).

“Mais um motivo pra que fosse feito pela gente!” (JOÃO).

“João, isso tinha que ter sido discutido antes, não agora!” (PROF NTE).

Figura 12 – Reunião NTE Elaborado/Fonte: a autora

Não acompanhei as reuniões anteriores que definiram como seria o desenvolvimento da marca, mas tenho certeza que envolveram um difícil processo de organização de horários entre os professores, colaboradores e educandos, de definição de critérios importantes para o desenvolvimento da marca, e levantou uma infinidade de possibilidades entre nomes, símbolos, cores, proporções e tudo mais que exige esse trabalho. Mas ao meu lado estava um educando que não entendia o porquê de estar de fora do processo.

Enquanto pesquisadora que tem dentre seus objetivos de pesquisa o entendimento da participação dos educandos nos processos de trabalho, indaguei a possibilidade de que os educandos pudessem trazer suas colaborações ou criações. Sugeri que poderíamos desenvolver um concurso em que estariam expostos os critérios necessários à criação da marca. Assim, educandos do núcleo poderiam trazer suas criações. O grupo poderia votar na marca que melhor representa o NTE e a partir dessa escolha a empresa colaboradora adequa dentro dos padrões necessários para o mercado.

“Não acho justo com as pessoas que estavam presentes desde quando começamos as reuniões para definir a marca. O que estão apresentando hoje aqui não foi feito do dia pra noite. Não dá pra gente reiniciar todo o

processo porque agora tem ideias novas de quem não estava presente nas reuniões anteriores.” (PROF NTE).

“A questão é que eu sei que faria melhor que isso. E tem muita gente aqui na EPA que conhece arte, conhece a arte de rua. Essa marca não nos representa só isso.” (JOÃO).

“Talvez não estivesse claro a pauta, talvez envolver os educandos no desenvolvimento da marca necessitasse de mais tempo e mais clareza do que estava sendo decidido. Mas foi só uma ideia.” (PROF MARCIA). O debate continuou, alguns outros educandos trouxeram novas ideias de participação e de alterações àquela proposta. A colaboradora explica sobre o processo de criação e o envolvimento de outros profissionais, justificando que dentro da proposta oferecida à EPA cumpriram suas responsabilidades. Enfatizou ainda que, caso o Núcleo achasse melhor poderia rever o que poderia ser feito dentro de uma nova proposta. Com isso uma das coordenadoras do NTE se pronuncia incomodada o rumo do debate e explica que há muita dificuldade na tomada de decisão do núcleo justamente por sempre haver questionamentos sobre o que foi decidido em reuniões anteriores. Deste modo, enfatizou que sempre que se precisa retomar um ponto que já fora decidido antes, o núcleo não avança nas decisões, o que atrasa todo o processo e desestimula quem participa efetivamente.

Apesar do meu interesse no desfecho pela questão participativa que se criou, pessoalmente me senti inconveniente por inferir com a fala do educando e, em momento oportuno, me desculpei com a coordenadora do Núcleo, que, sem a menor dúvida, tinha suas preocupações e responsabilidades e, naquele momento, estava fazendo o que acreditava ser o mais importante para o NTE.

A EPA tem uma dinâmica muito própria de funcionamento. Há um movimento permanente de ingresso de novos educandos, de troca de professores, de manifestação de novas ideias. Essa dinâmica pode ser entendida tanto como um entrave ou como uma potencialidade. Nesta reunião pude constatar como o processo participativo necessita de planejamento e clareza das etapas, das formas de participação para que ocorra de modo a realmente incluir. É preciso evidenciar o nível de decisão e o necessário de engajamento de modo que seja explícito e tão dinâmico quanto a própria escola para que cumpram os objetivos do núcleo de servir como estímulo de auto-organização, desenvolvendo no educando o senso de responsabilidade, cooperação e autoria.