O comércio do cacau é exercido, na Bahia, por quatro categorias de organizações: as casas exportadoras, as indústrias de transformação primária, as cooperativas
e um organismo governamental, o Instituto do Cacau da Bahia.
Os menores produtores, os "burareiros", vendem, às vêzes, a sua colheita (e não raro por antecipação) a gran-des fazendeiros, seus vizinhos. Dispondo êstes de maiores disponibilidades financeiras e de crédito nos bancos não lhes é difícil fazer, assim, êsse lucrativo negócio. Hoje, essa prática vai rareando, cada vez mais. A zona de produção está cortada por numerosas estradas de roda-gem, facilitando a localização, nos lugares mais longín -quos, de agências e representantes daquelas ·firmas expor-tadoras. Outrora, porém, a ausência de comunicações e a ignodncia do plantador gue, inclusive, desconhecia os preços correntes, colocavam os pequenos agricultores à mercê de indivíduos espertos, cacauicultorcs ou não.
t.stes adquiriam a preços vis, e por antecipação, a colheita dos "burareiros" das zonas pioneiras e vinham vendê·la, com grandes lucros, às casas exportadoras da capital e de Ilhéus. í.sse personagem tomou o nome de "parti-dista" - o que vende uma partida - uma espécie de agiota rural. Alguns dêsses partidistas, tomando gôsto por usufruírem dos resultados do trabalho dos outros, manobravam por tal maneira que acabavam achando jeito ele tomar para si propriedades alheias. O "caxixe", vigo·
rante na zona cacaueira baiana em princípios do século, tomava várias formas,· tinha diversas modalidades, mas consistia, essencialment_e, em apossar-se alguém das terras de outrem, mediante artifícios. Como, as mais das vêzes, o desbravador da mata não possuía qualquer título ele domínio, a tarefa se tornava muito fácil, com a cumpli-cidade de notários e até de magistrados, quando não pela violência e pelo assassinato dos que ousassem resistir.
O "caxixe" é o sucedâneo baiano do "grilo" paulista.
Hoje, felizmente, desapareceu.
t.sse é o aspecto patológico da questão do comércio do cacau. Vejamos, agora, seu mecanismo atual. Hoje,
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conforme dissemos atrás, as casas exportadoras mantêm, em lugares escolhidos na zona de produção, os seus pon-tos de comércio, onde os lavradores, no comêço da safra, podem postular empréstimos para financiamento das práticas culturais e após a colheita, entregam o produto.
Certa cooperativa usa de processo diverso. Os associa-dos devem entregar o produto em sua sede, no pôrto de Ilhéus, recebendo aí a indenização devida ao custo do transporte. Essa cooperativa não possui agências locais e o sistema parece estar dando resultados, tanto que as congêneres já pensam em adotá-lo.
A atividade dessas agências e representações locais cria duas correntes de deslocamento do produto. A maior parte vai para Ilhéus: é a que se destina à exportação em bagas. Outra parcela, conquanto muito menor, pro-cura a cidade do Salvador, capital do Estado da Bahia, onde vai ser semi-industrializada. Depois é enviada para o exterior, por êsse mesmo pôrto. Apesar de envolver uma pequena parte da produção (cêrca de 15 a 20 p.
cento) esta óltima corrente é bastante forte, pois de Ilhéus, que é o principal pôrto exportador de cacau das Amé-ricas, costuma seguir para Salvador, em barcos e peque-nos navios que fazem cabotagem, razoável quantidade de cacau em bagas, com a destinação industrial. Em 1953, 8.214 toneladas deixaram o pôrto de Ilhéus com destino ao de Salvador.
A maior parcela do comércio está em mãos das fir-mas exportadoras. Vem, em seguida, a indústria e depois
as cooperativas. O Instituto do Cacau está, pràticamente
fora do mercado. Houve tempo em que êste absorvia grande parte da. produção baiana. Durante o regime da portaria 60, todos os agricultores ficaram obrigados a entregar sua safra àquela autarquia. Depois, vitoriosa a pressão das casas exportadoras, ~quela portaria foi revo-gada: o Instituto do Cacau, por sua vez, misturando suas funções específicas com a política partidária, foi-se
desor-ganizando e desprestigiando, encheu-se de dívidas e termi-nou por perder quase tôda a sua clientela. Somente hoje vai se recuperando lentamente, rnas há 4 anos não com-pra, nern exporta.
As firmas exportadoras, constituídas algumas por capitais estrangeiros, têrn sede ern Salvador, onde estão os grandes bancos, corn os quais são estreitamente ligadas.
Operam, indistintamente, corn lavradores de tôdas as condições. As indústrias tarnbérn são sediadas ern Sal-vador, ern sua quase totalidade. As cooperativas, cujas sedes estão ern Ilhéus e Salvador, somente negociam com os seus associados. Todo lavrador pode ser sócio dessas organizações cooperativistas. O Instituto do Cacau, está, paradoxalmente, localizado na capital do Estado, longe da zona de proáução. Foi criado quando o grosso da produção era exportado pela capital, rnas quer continuar debaixo da boa sombra dos bancos e das autoridades governamentais.
Não é pacífica a convivência das entidades que domi-nam o comércio de exportação do cacau baiano. Con-forme acontece em outras áreas, aqui tarnbérn se veri-fica urna luta sern quartel entre casas exportadoras e firmas industriais. Na Bahia, a si tu ação ganha rnais um têrrno, desconhecido na Africa: são as cooperativas.
Os exportadores acusam os industriais de dirninuirem as possibilidades de aquisição de divisas fortes no estran-geiro, -pois o volume a exportar diminui consideràvel-rnente corn a industrialização. tsse aparente zêlo patrió-tico encobre o desgôsto pela concorrência representada pelas fábricas. Estas, por sua vez, podem atribuir preços rnais altos aos produtores, pois gozando de certas isen-ções fiscais, têrn urna maior margem de lucro, que o exportador não pode oferecer. Por outro lado, com o ingresso do cacau na lista dos prod1:1tos gravosos, os produ-tos semi-industrializados obtiveram urna categoria de bo-nificações rnais elevada, o que é do interêsse do país.
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Prova do estado de espírito dos exportadores contra os industriais é o recente pedido feito ao govêrno e ao Banco do Brasil, para que iguale na categoria de expor-tação o cacau em bagas e o cacau industrializado. Dessa forma, pretendem as casas exportadoras criar dificuldades à ação competitiva das indústrias chocolateiras.
O crescente progresso das cooperativas de exporta-ção também assusta as casas exportadoras, que vêm nesse sistema um perigoso rival. Gozando de favores fiscais e operando sem objetivo de lucro, as cooperativas podem, no fim de cada ano, distribuir aos seus associados resul-tados notàvelmente superiores aos que lhes seriam pagos pelas casas exportadoras. Daí o sucesso dessas organ iza-ções e a sua relativamente rápida ascensão. A coluna mestra do seu êxito são as isenções de impostos. Isso explica por que as casas exportadoras, com o seu grande poder financeiro, investiram contra as cooperativas (l95G) apoiando uma sugestão governamental, já concretizada, visando a retirar certas daquelas vantagens fiscais.