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ZONA CACAU

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Academic year: 2023

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(1)

ZONA DO CACAU

(2)

Cartograma de

*

Otto R. Be11dix

Exemplar 0916

1957

Obra executada nas oficinas da São Paulo Editora S/ A. - São Paulo, Brasil

(3)

BIBLIOTECA PEDAGÓGICA BRASILEIRA

SÉRm 5.ª

* B..B...A.SJ L 1

A N A

*

VoL. 296

MILTON· SANTOS

(l'mfessor da Faculdade Católica de Filosofia da Bahia e Catedrático de Geografia cio Colégio Municipal de Ilhéus - Sócio efetivo da Associação dos Geógrafos Brasileiros)

*

ZONA DO CACAU

Introdução ao Estudo Geográfico

*

2.ª EDIÇÃO

(revista)

\ '

~

,

COMPANHIA EDITORA NACIONAL SÃO PAULO

(4)

O Povoamento da Bahia, Suas Causas Económicas - Bahia, Imprensa Oficial, 1948.

Estudos Sóbre Geografia :_ Bahia, Tipografia Manu, 1953.

Os Estudos Regionais e o Futuro da Geografia - Bahia, Imprensa Oficial, 1953.

Ubaita/Ja, Estudo de Geografia Urbana - Bahia, Im- prensa Oficial, 1954.

Problemas de Geografia Urbana na Zona Cacaueira Baiana - Bahia, 1956 (mimeografado), 25 págs.

e um mapa.

O Papel Metropolitano da Cidade do Salvador - Bahia, 1956.

Zonas de Influência Comercial do Estado da Bahia - Diretório Regional de Geografia, Publicação n.0 2 (mimeografado), 17 págs. e um mapa, 1956.

*

Direitos desta edição reservados à COMPANHIA EDITORA NACIONAL Rua dos c;;usmõcs, 639 - São Paulo

U N IVERSIO A OE 00 BRASIL

SEÇÃO REGISTftO

(5)

lNDICE

Prefácio . . . . • . . . 7

I - A ZO:"A DO CACAU

Região e Zona

II - 0 CACAU E O QUADRO NATURAL:

9 14

- O cacau e o clima . . . 17 2 - O cacau e ·a Eloresta . .. . .. .. . . 19 3 - A floresta e o solo . . . 25

4 - O cacau e o solo 25

III - A CULTURA DO CACAU:

1 - Os processos culturais . . . 27 2 - Uma grande fazenda de cacau:

A Fazenda li.forro Redondo 30 IV - l'OVOAMENTO E POPULAÇÃO:

l - O povoamento . . . 39 2 - A população . . . 46

V - o "HABITAT" RURAL:

1 :... o -.. hal>itat" rural 2 :.._;Os tipos de casas

49 53

(6)

ças de hierarquia . . . 57

2 - Tentativa de classificação funcio- nal das aglomerações . . . 70

Vil - Os TRANSPORTES: 1 - Os portos . . . 81

2 - As rodovias . . . 84

3 - As ferrovias . . . 86

4 - Os aeroportos . . . 87

VIU - 0 COMÉRCIO DO CACAU: l - O comércio internacional 89 2 - O comércio local . . . 91

IX A INDUSTRIALIZAÇÃO DO CACAU . . . . . . . . . . 97

X - ALIMENTAÇÃO NA ZONA CAcAUEIRA . . . 101

XI Os Tiros HUMANOS: I - O fazendeiro . . . 105

2 - O exportador ................. 107

3 - O banqueiro .............. 108

4 - O trabalhador .................. 109

XII - A I.GUNS DADOS EsTATlsT1cos . . . . • . . . . . . . . . III Bibliografia Sumária . ~. . . . 125

(7)

PREFACIO

C7J

zona cacaueira da Bahia é a mais nova de nossas

f l

zonas de produção, e, entretanto, a mais rica. Cabem- lhe, no conjunto do país,, cêrca de 95% da produção total de cacau, o que nos confere o 2.0 lugar na estatística mun- dial. Tem o cacau, na economia do Estado, um papel de relêvo, já que de sua cultura, direta ou indiretamente, beneficia-se o ºerário com muito mais de metade do seu o-;.çamento, constituindo, por si só, o sustentáculo de sua vida econômica. As crises que o abalam - crises, aliás, muito co_rnuns aos produtos primários - não se limitam à zona produtora, mas se refletem, indelevelmente, em todo p Estado ·da Bahia, cujas finanças também se rego- zijam com os seus períodos de bonança.

A Bahia ainda não soube compreender a riqueza que tem e como poderia multiplicá-la, se convenientemente

\explorada. Responsável, por isso, é, sobretudo; a desas- trosa ignorância em que vivemos a propósito de tudo, ou quase túdo, que nos diz respeito.

A respeito da zona do cacau a verdade é que poucos trabalhos têm sido publicados, abordando aspectos par- ticulares ou problemas técnicos, sem falar na literatura que à realidade de uma sociedade em estruturação oferece à imaginação dos romancistas. Faltam à. zona cacaueira baiana e~tudos de conjunto, qtfe a vejam e apresentem como um todo, mostrando como os elementos nela pre- sentes agem entre si, como a terra e o homem puderam harmonizar-se na formação de uma personalidade regio- nal bem âiferenciada.

(8)

A nossa tentativa não é, nem poderia ser definiti1Ja.

Organismo ainda em formação, em fase de acelerado cres- cimento, seria uma temeridade querer fixar a sua imagem.

Há, porém, alguns aspectos realmente característicos da terra e da gente, cujo traço de união, inegàvelmente, é o gênero de vida. O cacau é, como produção agrícola, o responsável por inúmeros dos traços da fisionomia do seu "habitat", tanto no aspecto econômico, como no social, e, até mesmo, no psico-social. As páginas que se seguem procuram demonstrar essa evidência. Dar-nos-emos por satisfeitos se fôr êste o ponto de partida para estudos mais completos e mais fecundos .

• * •

A expressão "revista e melhorada" que 7a se tornou chavão nas reedições podia figurar no frontispício desta, sem qualquer falsidade. O Autor procurou ·expungir da edição original os erros e equí1Jocos que observou depois ou lhe foram apontados. E acrescentou, também, alguns dos resultados de pesquisas e trabalhos seus mais recentes, estimulados pela Fundação para o Desenvolvi- mento da Ciência na Bahia, como é o caso dos capítulos intitulados "Problemas de Geografia Urbana", "O Comér- cio do Cacau", e "A Industrialização do Cacau". Outros capítulos sofreram, outrossim, modificações substanciais.

A obra, porém, prossegue com o aspecto e a intenção originais - retratar em miniatura, mas com honestidade, uma das mais interessantes e características regiões do Brasil.

M. S.

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1 - A ZONA DO CACAU

A

PORÇÃO oo TERRITÓRIO baiano que mais se presta à produção do cacou quase confunde os seus limites com a parte sul do mesmo Estado. Estende-se desde as proximidades do Recôncavo até o extremo sul da Bahia.

E' representada, no dizer de Josué de Castro, "por uma estreita faixa de terras de solo de decomposição de flo- resta tropical, compreendida entre os terrenos baixos de sedimentação do litoral e a montanha que, nesta região, se aproxima muito da costa".

S. Fróes de Abreu dá como limites à "monocultura cacaueira" a chamada zona de baixada da floresta sul, sendo a floresta alta, montanhosa, utilizada para outros fins" (Revista Brasileira de Geografia, Ano 1,

n.

0 1 ).

E' bom notar que, nos terrenos sedimentares próxi- mos ao litoral, o cacau de modo algum pode medrar, sendo êste o domínio do coqueiro e da piaçava, do mesmo modo que as regiões mais altas do sudoeste são pouco próprias à produção do cacau, conforme a observação de Bondar, que nos mostra como em Santa Inês e Areia,

"o cacaueiro produz poucas e pequenas frutas, com as amêndoas imperfeitamente desenvolvidas e chatas". E' que o cacau, ao contrário do café, não gosta do planalto.

O sudoeste é, na Bahia, a região que mais produz o café.

O estudo dos fenômenos naturais, nela ocorrentes, é de grande importância na caracterização da zona ca- caueira.

(10)

E' o cacau uma planta de ecologia muito exigente, somente produzindo econômicamente dentro de certas condições de solo, topografia e clima, sendo, sabidamente, mais importante esta última. Daí os limites de sva zona produtora serem dados em consonância com a incidên- cia daqueles fatôres naturais por êle requeridos, para que possa viver e florescer com vantagem. Essas condi- ções são presentes nas terras do sul da Bahia, não havendo outra explicação para sua formidável adaptação. Nem tôdas as terras possíveis de cultura já estão aproveitadas.

Assim não fôsse e o problema seria muito simples: have- ria uma perfeita superposição do mapa da produção ao mapa das condições naturais.

O mapa das áreas produtoras também não satisfaz.

Fora daquelas em que a produção é continuada, restam algumas ilhas de produção, ao sul e ao norte, o que complica o problema. Como, então, para fins de estudo ou com objetivos práticos, estabelecer limites à zona cacaueira da Bahia?

A classificação oferecida pelo I. B. G. E., quando de- fine a zona cacaueira, vai ser obedecida por nós, no

€xame da maioria dos problemas. Mas, comparando-a com a estatística da produção, é irrecusável a existência de certas disparidades.

Alguns municípios de colheita considerável, como Jequié e Boa Nova, não são citados na classificação ofi- cial. Compreende-se: devem ter sido as condições natu- rais, reinantes na maior parte daqueles municípios, que aconselharam a exclusãq. E, pelo contrário, há alguns municípios, oficialmente considerados como da zona ca- caueira, mas que produzem muito pouco. O de Cairu, por exemplo, estando neste último caso, nem sequer com·

parece nas estatísticas do produto. Dêle não sai um bago de cacau. Seu caso deve, também, ter uma explicação:

as condições naturais são semelhantes às dos outros, con- siderados da zona cacaueira.

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ZONA DO CACAU

11

Um e outro fato nos autorizam a propor uma revisão, com base na realidade econômica atual e nas perspec- tivas de um futuro próximo. Assim, os municípios da zona do Extremo Sul bem poderiam ser enquadrados como participes da zona cacaueira, considerada em sentido !11ais lato. Essa zona vive, há tempos, da atividade madeireira, do criatório e de outras secundárias, mas sempre produziu algum cacau. A cacauicultura está, agora, ali, em franco progresso. O município de Alcobaça passou, em dois anos, de 23 para 47 mil arrôbas. E os outros municípios apresentam avanço também considerável. Só o de Cara- velas nada produz. Mas, considerando que o seu pôrto serve ao escoamento elo produto, tôda a zona elo Extremo Sul pode considerar-se cacaueira também.

No sudeste do Estado, exceção de J equié e Boa Nova, os outros municípios colhem porções maiores ou menores, mas sempre insignificantes. Não há como querer enqua- drá-los na zona cacaueira. E, não por coincidência, aquêles dois são limítrofes da zona oficialmente chamada cacaueira: as condições naturais desta última prolongam- se até boa parte do seu território.

Assim podemos considerar como ela zona cacaueira os municípios de Alcobaça, Belmonte, Boa Nova, Cana- vieíras, Caravelas, Coaraci, Ibicaraí, Ilhéus, lpiaü, Ita- buna, Itacaré, Itajuípe, Ituberá, Jequié, Maraü, Nilo Peçanha, Mucuri, Pôrto Seguro, Prado, Santa Cruz Ca- brália, Ubaitaba, Ubatã, Una e Uruçuca. Da classificação oficial retiramos o município ele Cairu, que nada pro- duz e os de Valença e Taperoá, de produção menor que 25 mil arrôbas. Dêsse jeito, não há qualquer ruptura de área territorial a estudar - ela forma um todo e perfeita figura geométrica.

Mas, não é a totalidade do território dêsses muni- cípios que produz cacau. A faixa produtora não coin- cide, realmente, com os limites administrativos. E', toda-

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via, mais prudente tomá-los em globo, a fim de nos beneficiarmos dos dados estatísticos que, a cada instante, seremos obrigados a usar, sabendo, entretanto, que êsse é um artifício que, se não violenta ou deforma a realidade, pelo menos a amplia um pouco, em favor de facilidades didáticas. Por outro lado ainda não se conhecem, com exatidão, os limites distritais. E' interessante observar que se retirássemos da lista dos municípios acima enu- merados, o de Jequié que pertence à região do Sudoeste, os demais municípios são, exatamente, os que formam as zonas cacaueira e extremo sul, cujo conjunto é vul- garmente conhecido como o "Sul'', daí poder-se confundi- las com a região econômica de produção do cacau. Am- bas, aliás, têm quase as mesmas características, diferindo na intensidade de produção. É, também, digno de nota que dos outros municípios produtores de cacau, que não logram entrar na nossa lista, oito pertencem à região sudoeste, que parece não apresentar uma produção maior, inclusive, porque ali vão se tornando mais sensíveis as elevações do terreno, alcançando uma altitude incom- patível mesmo com a produção do cacau.

Por outro lado, os municípios por nós enquadra- dos na zona cacaucira, também se entregam a outro gênero de exploração agrícola, principalmente à criação do gado. E' que, nêles, às faixas de agricultura, sucedem outras de terreno propício à pecuária e para tal apro- veitadas, podendo-se, mesmo, dizer que não há um só município da zona cacaueira, onde também não haja criatório.

Somos, por isso mesmo, obrigados a adotar um cri- tério prático e a conjugar os fatôres de ordem meramente geográfica ou econômica que elegeram o sul da Bahia como o principal domínio da produção do cacau, com os limites dos municípios que, ao nosso ver, podem, nela, ser considerados.

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ZONA DO CACAU 13

De outra sorte, teríamos que apresentar uma zona cacaueira constituída de pedaços de diversos municípios, talvez até sem formar um todo, uma unidade, dentro do Estado, e impossibilitando, assim, alcançássemos os obje- tivos perseguidos em um estudo geogr:í.fico.

Segundo, porém, a classificação oficial, são, atual- mente, 20 os municípios que formam a zon;i cacaueira baiana: Belmonte, Cairu, Camamu, Canavieiras, Coaraci, Ibicaraí, Ilhéus, Ipiaú, Itabuna, Itacaré, Itajuípe, Ituberá, Maraú, Nilo Peçanha, Taperoá, Ubatã, Una, Uruçuca e Valença. Os municípios de Coaraci, Itajuípe e Uruçuca foram recentemente desmembrados do de Ilhéus; o de Ibicaraí, do de Itabuna e o de Ubatã, do de Ipiaú. Porisso muitos dos dados estatísticos ainda não fazem referência aos mesmos.

Consideradas as nossas modificações seria indispen- sável reconhecer dentro da Zona Cacaueira a existência de pelo menos duas sub-zonas, uma que estaria constituída pela zona cacaueira propriamente dita (de acôrdo com os critérios oficiais) acrescentado o município ele

J

equié e\ retirados aquêles anteriormente citados; e outra, for- mada pela zona do Extremo Sul.

Na primeira dessas sub-zonas, que corresponde "gros- so modo" à zona cacaueira da classificação oficial, não _será, também, difícil distinguir um nódulo central e uma área periférica. Aqui, a cultura cacaueira já começa a se misturar, seja dentro do território municipal, seja dentro das propriedades rurais, com outras atividades

agrícolas. ',, ~-

A área central está formada pela maior parte dos municípios, de Ubatã, Ipiaú, Ubaitaba, Itabuna, Ilhéus, Uruçuca e Itajuípe, e parte considerável dos ele Cana- vieiras, Belmonte, Coaraci, Ibicaraí, Una e Itacaré.

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Os municípios de Jequié, Ituberá, Nilo PeÇanha, Camamu e Maraú têm uma grande porção cuja ativi- dade predominante é a cultura cacaueira. Mas é inegável que constituem uma área periférica, em relação àquela

outra. ·

Em suma, o quadro em que concebemos a zona cacaueira, para fins oficiais, vai muito além da realidade. Outra solução, entretanto, não seria possível. Temos de considerar os municípios como um todo. Isso não impede que a essas conveniências de ordem prática, responda a geografia com a evidência dos fatos.

REGIÃO E ZONA

Pode-se, também, falar da existência, na Bahia, de uma verdadeira região cacaueira, isto é, uma área maior de que faz parte a zona cacaueira, e que a ela está íntima e funcionalmente ligada. E' um fenômeno muito comum aos países novos e que aqui se desenvolve sob as nossas vistas: a formação de uma região.

Há poucos lustros atrás, no Sul da Bahia, havia ape- nas a zona cacaueira. Inicialmente, quando a cultura ainda não amadurecera e as pequenas propriedades que a iniciavam eram policultoras, havia uma certa diferen- ciação, mas dentro de cada uma delas. Depois, quando a zona se tornou monocultora, os alimentos passaram a ser produzidos fora e comprados a pêso de ouro. Abria- se, assim, um vasto mercado - vasto e compensador - tanto mais importante quanto mais se elevava o nível das populações locais. Isso, ao lado da abertura, em grande número, aliás, de estradas, demandando os extremos da zona e pondo-a em contacto com áreas de vocação diferen- te, animou, nas terras vizinhas, o seu aproveitamento, seja para a criação, seja para a policultura.

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ZONA DO CACAU

15

Nasce, assim, abrangendo a zona cacaueira e às suas custas, isto é, às custas das suas necessidades e dos seus capitais, uma verdadeira região, a região cacaueira, cujos limites não são muito definidos, nem definitivos, mas cuja realidade se constata não apenas pelas linhas ele transporte que se estabelecem, cada vez mais densas e profundas, mas pelas trocas comerciais e de tôda natu- reza, cada dia mais intensas.

A região cacaueira, segundo também nota, em recente trabalho, Carlos de Castro Botelho, ·está formada por três faixas paralelas, três verdadeiras zonas, cujas atividades econômicas se associam, muito estreitamente, às condições locais de solo e clima.

A faixa litorânea é o domínio da atividade extrativa vegetal ( côco, piaçava, dendê). Segue-se-lhe a faixa cacaueira, de largura variável, mais dilatada em Ilhéus e ltabuna, (que é a área onde ela mais se aproxima do litoral) e estrangulada em Ipiaú. Por último vem a faixa policultora e de criação. Entre a zona propriamente cacauicultora e a zona propriamente de pecuária está, bem nítida, uma área de transição, onde, nas proprieda- des agrícolas se justapõem ambos os gêneros de vida_

Do ponto de vista da geografia urbana essa zona de passagem sofre, de um lado, as influências recíprocas de Jequié e do conjunto Ilhéus-Itabuna e, de outro lado, as dêsse conjunto e as da cidade de Conquista. A cota dos 300 metros é uma espécie de limite natural entre a zona cacaueira e a de pecuária.

(16)

Municípios produtores de cacau (1955)

MUN!CÍPJO

Alcobaça ....... . Belmonte ........ . Boa Nova ... . Camamu .... . Cana vieiras ...... . Coaraci .......... . lbicaraf. ......... . Jbicuí. .......... . Iguaf. ....... . Ilhéus ........ . lpiaú .......... . I tabu na ....... _ Itacaré ... . ltiijuípe ....... . ltuberá ........ . Jaguaquara ...... . Jequié ......... . Jiquiriçá ......... . Lage .......... . Maraú ........... . Mucuri. ......... . Mutuípe ... . Nilo Peçanha .... . Poções ........ . Pôrto Seguro .... . Potíraguá ... . Prado.. . .. Santa Cruz Cabrália Santa Inês ... . S. Francisco do

Conde ... . Taperoá .... . Uhaíra ... . Ubaitaba ........ . Ubatã ..... . Una ......... . Uruçuca ... . Valença .......... .

PRODÃO TOTAi, PROD. POR PÉ

(sacos de OOkg) (kg) 11.666

121.8.57 80.000 290.000 188.000 39.991 128.000 12.640 166 373.383 60.000 280.000 .52.500 185.l 00 68.328 2.240 65.000 980 1.250 26.000 34.000 3.500 22.408 4.000 25.000 2.500 33.:168 5.000 180

6.200 l.333 83.330 20.000 64.120 lll.075 6.670

1,999 0,503 1,000 1,977 0,376 0,726 0,590 l,200 1,245 0,699

·o 685

0:617 0,984 0,624 0,7:1:{

1,20;~

1,000 1,470 1,304 1,794 1,980 0,750 0,800 1,200 0,600 0,500 1, 177 1,071 1,200

1,240 1,999 0,454 0,600

o

\)61

o'.800 1,250

PROOUÇÃO POR HECTARE

(sacos de 60kg) 20

5 10 20 2 7 6 8 8 7 12 6 6 6 13 3 18 9 13 11 20 7 8 8 6 12 11 8

12 20 4 11 10 8

- - ·--- -- - -- -- -- - - ----

- -

- --

23

----

TOTAL ..••... 2.409.735 (

.. .

) ( ... ) FoNTF.: "Departamento Estadual ele Estatístic.a" (Bahia).

( ... ) As médias foram omitidas em vista de não corresponderem à realidade, pois não é compar1hcl a produção dos diversos municlpios.

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II - O CACAU E O QUADRO NATURAL

l) O CACAU E O CLIMA

N

Ão SERÁ, apenas, urna simples imagem poética o dizer-se que o cacaueiro depende mais do céu do que da terra. E' que, de fato, se as condições de solo influem na sua produção, determinando maior ou menor rendimento, são as condições de clima as preponderantes, pois, fora de certos limites, observados cm tôdas as regiões cacuicultoras do mundo, a sua produção torna-se cconô- micamente impossível.

O cacau é fruto que possui uma ecologia vegetal das ivais exigentes, daí explica-se a sua preferência e adap- tação nas terras do sul da Bahia, onde as suas necessidades são tôdas supridas. Gostando de umidade, tanto do ar, quanto do solo, ambos os requisitos são aí satisfeitos, pela abundância das chuvas, presentes durante todo o ano e alcançando aproximadamente dois metros anuais, com cêrca de duzentos e dois dias chuvosos.

As chuvas não são uniformemente distribuídas du- rante o ano. As precipitações são mais notáveis entre novembro e abril. E' nessa quadra que se registram as chuvas de trovoada, acusando forte volume pluviométrico.

Entretanto o maior número de dias de chuva nota-se é no inverno e no outono. Das 400 horas chuvosas do

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ano, diz Manuel Messias Barreto em artigo sôbre o assun- to, 143 são no verão e primavera e 257 no inverno e outono. E' que aquelas precipitações embora sendo mais curtas são, por outro lado, mais fortes. As horas chu·

vosas do verão distribuem-se cm 100 dias, e as do inverno em 11 O, mas a precipitação média do verão é de 1 150 milímetros, enquanto a do inverno somente vai a 850 milímetros. Isso é o que faz ter-se a impressão de gue o inverno é mais chuvoso. De fato, nessa quadra choverá maior número de vêzes. No verão, todavia, é quando a coluna pluviométrica alcança altura maior.

Apreciando temperaturas dlidas, entre 25º e 27°, que é o seu ótimo, mas reproduzindo bem, mesmo entre 23º e 28º e, por outro lado, não suportando temperaturas inferiores a 15°, o que vemos na zona cacaueira baiana é que a média das mínimas geralmente não desce de 16°

no mês mais frio, que é julho, sendo a média do verão superior a 25° e a média anual beirando os 24°. A média das máximas, observação no período 1935-1946, que tomamos como ponto de referência, é de 35,5°. Nesse mesmo períodq a máxima absoluta foi de 37,8° em janei- ro, comparável aos 34,5° de fevereiro, máxima das máxi- mas alcançada em Fernando Pó, outra zona de produção do cacau.

Quanto à umidade relativa, considerada como indis- pensável ao perfeito crescimento dos frutos, observamos que em todos os meses,' exceto em anos de exceção, há dias em que a umidade chega aos 1003, isto é, ao estado de absoluta saturação, consignando maior média mensal em junho, com 883 e a menor com um pouco menos, isto é 85%, em janeiro, no período acima considerado.

São todos êsses fatôres, associados à direção e natureza dos ventos, que fizeram da zona sul da Bahia a eleita pelo cacaueiro. Os ventos secos, como se sabe, fazem diminuir a produção. Não é de admirar-se que seja essa a cultura mestra, quase única, da região. Foram as suas

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ZONA DO CACAU

19

condições naturais, melhor diremos que as suas condições atmosféricas, que agiram nesse sentido. A natureza for- neceu o quadro. E o homem fêz o resto.

Tudo isso explica a ansiedade com que o homem da zona do cacau espera que do céu caiam as primeiras chuvas de verão. Delas é que dependerá a sua boa ou má fortuna. A safra fica na dependência das precipi- tações. E' de ver a alegria que de uma hora para outra resplandece na fisionomia de todos quantos têm sua vida ligada ao cacau, quando, após uma fase de estia- gem, o céu começa a carregar-se de riuvens côr de chum- bo; que logo se desfazem em grossas bátegas de chuva dadivosa. E' a própria fortuna a escorrer do céu em forma líquida. Mas, se não chove, como aconteceu há poucos anos, quando o flagelo da sêca estendeu seus ten- táculos à própria zona do cacau, é tristeza e desolação que se vêem por todos os lados. São roças que se quei- mam, plantações que se perdem, negócios que se atrazam, o comércio que se paralisa, a estagnação, enfim, de tôdas as atividades. E' por isso que se diz que o cacau depende mais do céu do que da terra. Mais do céu que da terra dependem também todos quantos vivem do cacau, mesmo que não o plantem, nem o colham.

2) O CACAU E A FLORESTA

São íntimas as relações do cacaueiro com a floresta.

Se a preserva, com a prática do cabrocamento, que é o plantio sem destruição do manto florístico, são as árvores de maior porre que protegem o crescimento do cacaueiro e, afinal, vão ajudar-lhe a própria frutificação. A plan- tação de cacau fica sendo simplesmente um verdadeiro sub-bosque, ensombrado pela floresta persistente. Se se destrói a floresta, queimando-a ou, simplesmente, derru- bando-a, para, em seu lugar, adubado já com as cinzas

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QUADRO DOS FATORES MÉDIOS NORMAi

TEMPERATURA UMIDADE

~~ MÉDIAS DAS ABSOLUTAS

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MESES "='~

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dezembro ........... 98G,1 25,1 35,5 20,2 35,6 15,4 85,2 100 40 janeiro .. ... 98(!,2 25,4 32,2. 20,6 37,8 17,0 85,0 100 40 fevereiro ............ 985,9 25,3 31,7 20,5 37,2 16,0 85,5 100 42

- - - -

- -

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VERÃO ...... .. • . .. . . 986,1 25,3 31,8 20,4 37,8 15,4 85,2 100 40

- - - -- -

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março .. : ......... 985,9 25,3 31,9 20,7 36,4 17,0 86,3 100 46 abril. ..... ... 987,2 24,4 30,5 20,5 3G,8 16,7 87,9 100

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maio.; ............. ~88,9 23,0 28,9 18,9 35,2 14,2 87,7 100 ÜUTONO . . . ;.; .. . . .. . 987,3 24,2 30,4 20,0 3G,8 14,2 87,3 100

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junho ........... 990,9 21,8 27,7 17,6 34,0 12,3 88,0 100 43 julho .......... 992,G 20,9 26,7 16,9 33,0 11,8 87,4 100 40 agôsto ... : ... 991,9 21,1 27,4 16,5 32,4 12,6 86,3 100 35 i

- -- - - -

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INVERSO . . .... . .. . • • 991,8 21,3 27,3 17,0- 34,0 11,8 87,2 100 setembro ........... 990,6 22,0 28,2 17,2 :14,2 12,0 86,6 100 outubro ............ 988,•1 23,6. 29,8 18,8 35,8 13,8 85,8 100 6 novembro ....... _ .... 986,1 24,5 30,5 10,7 36,I 15,6 85,8 100 7

PRIMAVERA .•... . . 988,4 23,4 29,5 18,G 3G,1 12,0 86,6 '100 41 ' 1

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351

MÉDIA ANU-'L .. : .... 988,4 23,5 29,8 19,0 37,8 11,8 86,6 100

1

FONTE: Instituto do Cacau da Dahla - Divisão Técnico Agrícola

(21)

ZONA DO CACAU

21

REFERENTES AO PERfODO DE 1935/46

1 CHUVA VENTOS NÚMERO DE_DIAS DE

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1.950,6 210 1.557,5 6,0 E 1,1 22 19" 109 114 14

Estação Central de Experimentação do Cacau - Scrv_iço Meteorológico

(22)

ALTURA DAS CHUVAS NA REGIÃO CACAUEIR

JANEIRO

1

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1 MAUÇO 1 .ABRIL 1

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Fazenda S. Salvador 146,0 15 51,0 6 98,0 10 104,0 10 84,0 10 99,0 10 Fazenda Sta. Isa.bel 146,5 22 28,8 4 119,0 10 105,8 11 105,9 15 90,2 li Fazenda. São João 164,3 20 117,5 15 143,4 15 217,4 18 194,\ 17 88,9 8 Fazenda Mucambo 168,6 19 73.2 10 12:i.2 17 86,0 12 121,2 13 67,() 9 Eat. Cent. Experi-

mental. ..... .... 136,0 26 64,3 15 14(),5 20 1\J0,2 18 92,7 15 125,5 141 Sub-Est. Alma.do. .. 187.0 22 6!),0 12 267,0 21 1()2,0 1(j 131,5 13 122,5 91

Fazenda São José 180,0 21 85,0 14 248.5 21 125,5 14 130,0 17 86,0 li Fazenda Amaralina 193,0 19 - - - - - - - - 114,0 16 Ibicaraí ......... 177,2 20 51,9 12 185,5 18 113,9 17 90,6 17 63,7 12 Coaraci ........... 135,7 16 76,5 12 174,2 19 126,1 11 82,6 16 46,4 8 Buerarema ........ 136,l 22 102,2 13 232,9 22 109,7 17 90,2 15 76,0 li Fazenda Bel e eh o ... Í95,0 15 142,0 12 65,0 10 103,0 13 73,0 15 122,0 16 Fazenda Rio do

Braço ........... 179,0 8 120,0 7 138,0 4 192,0 8 113,0 7 130,0 18 Rio Branco .... 340,0 27 173,fi 14 453,0 20 205,1 20 136,0 22 75,5 li Fazenda Niteroi.. 143,0 14 54,0 7 274,0 23 159,0 17 161,0 17 113,0 10 Ituberá ....... 221,8 23 129,0 21 105,4 18 180,7 17 178,5 15 152,9 17 Gan<lu ............ 85,() 21 70,5 13 ú4,D 17 107,8 15 110,2 14 114,0 16

- - - - -

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- - - -

MÉDIA REGIONAL 172,6 19 88,0 12 176,5 17 144,9 15 119,7 15 99,2 12

FONTE: Instituto do Cacau da Bahia - Divli

(23)

ZONA DO CACAU

23

DA BAHIA, NO DECURSO DO ANO DE 1946

1 JULHO 1 AOÔSTO 1 SETEMBRO 1 OUTUBRO 1 NOVEMBRO 1 DJ<iEMBRO TOTAL

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123,0 12 117,0 14 71,0 7 34,0 4 33,0 3 42,8 4 1.002,8 105 93,5 10 126,8 15 141,0 6 20,0 4 67,6 2 43,4 5 1.109,4 115 155,2 12 107,7 18 151,6 13 50,2 8 26,2 4 72,5 o 1.498,0 157 124,7 11 89,5 15 101,8 9 62,7 13 61,7 7 85,4 12 1.165,6 147 122,7 18 113,3 21 151,7 15 54,4 14 09,7 12 130,9 20 1.427,9 208

148,0 13 137,0 21 113,5 13 62,5 16 48,0 11 132,5 o 1.610,5 176 71,0 14 87,0 l!l 77,0 13 70,0 9 147,0 8 82,0 14 1.389,0 17S 8G,O li 79,0 19 68,5 14 68,0 12 105,0 12 63,0 14 -

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87,3 13 86,5 15 71,4 14 53,2 10 87,2 8 65,2 13 1.133,6 169

53,6 8 80,5 18 66,l 8 45,8 8 49,0 6 46,4 12 982,9 142

79,9 16 61,7 19 68,·1 1.5 64,3 11 117,3 12 78,6 16 1.217 ,3 18!) 66,0 13 77,0 11 73,0 11 33,0 (l 38,0 o 36,0 7 1.023,0 138 67,0 7 77,0 11 70,0 8 41,0 6 65,0 6 97,0 8 1.289,0 98

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103.7 15 101,0 19 76,0 18 00,8 12 02,2 9 81,6 19 1.929,8 206 126,0 li 114,0 20 85,0 7 73,0 10 64,0 7 73,0 8 1.439,0 151 233,1 22 180,4 21 177,5 18 61,7 10 37,1 3 103,7 16 1.761,8 201 87,4 19 105,7 21 107,4 19 54,7 10 44,1 5 82,5 l i 1.024,8 181

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107,5 13 102,4 17 98;3 12 5.5,8 10 69,5 7 77,6 12 1.311,9 161

Técnica Agrícola - Serviço Meteorológico

(24)

dos troncos rolados, fazer o plantio das árvores dos frutos de ouro, certo é que, depois da primeira fase de evolu- ção, cm que os cacauicultores se valem de bananeiras e outras plantas dêsse porte para o sombreamento, surge a necessidade d~ reimplantação de uma ordem de árvores de dimensões mais altas, como que a restauração da flo- resta, indispensável para criação do ambiente sombrio de que o cacaueiro necessita. Gostando de calor, mas não de muita insolação, o cacau e a floresta são insepa- ráveis.

Não se pode, por outro lado, recusar uma palavra à formidável adaptação do cacaueiro às condições da zona tropical. Todos quantos estudam as condições de flores·

cimento da agricultura em zona de floresta tropical são concordes em que a substituição pura e simples do espêsso manto vegetal por ralas formações de culturas herbáceas, traz em conseqüência a rápida perda dos solos, que se deslocam por erosão, a laterização e afinal, a impossibili- dade de prosseguir na atividade agrícola seja permanen- temente, seja temporàriamente. Teríamos que recorrer a uma agricultura itinerante, nômade, incompatível com a civilização moderna e com a procura de altos rendimen- tos que caracteriza a moderna técnica agrícola.

A solução, digamos verdade que empiricamente en- contrada na Bahia, com o cultivo do cacaueiro, em zona de mata tropical, é solução de sabedoria, porque eviden- temente ecológica, não 'desrespeitando os mandamentos da Natureza, mas a êles se adaptando em busca de maio- res rendimentos. Poder-se-ia garantir que, se em lugar do cacau aí se plantassem certas culturas européias, seria muitas vêzes maior o desgaste .do solo, o seu empobreci- mento e até mesmo a sua incapacidade temporária ou permanente para as tarefas agrícolas. Sabe-se que as culturas alimentares sêcas exigem do solo dez vêzes mais que as culturas arborescentes adaptadas às condições do meio tropical.

(25)

ZONA DO CACAU

25

3) A FLORESTA E O SOLO

A floresta junta-se ao cacaueiro na sua tarefa de restituir ao solo boa parte dos princípios orgânicos que dêle retira para sua alimentação. As fôlhas que inces- santemente vão caindo ao chão, antes de se decomporem para formação de espêssa camada de matéria orgânica, formam um "rnulch", que evita a rápida evaporação das águas de chuva, permitindo que o solo fique permanen- temente ensopado de umidade, o que tanto reclama a árvore <lo cacau. Por isso não se deve limpar o solo dessas fôlhas caídas. Elas representam uma garantia de que as chuvas não canegarão <la terra os princípios orgânicos:

são uma espécie de barreira à ação da erosão. Protegem, juntamente com as raízes das árvores e arbustos, o rico solo móvel, possível, sem essa alternativa, <le ser levado pelos rios e desaparecer nas profundezas <lo mar. Pode dizer-se que o cacaueiro cria o seu solo, ou, pelo menos, que o conserva ou recria.

4) O CACAU E O SOLO

Se se indagar a um lavrador qualquer quais os ter- renos _propícios à plantação do cacau, êle, embora desco- nhecendo os princípios da ciência agronômica e as verda- deiras exigências da planta, não deixará sem resposta o seu interlocutor. Dir-lhe-á que são bons os terrenos cober- tos de mata ou onde sejam numerosas as pedras que aí estarão como que a protegê-los. A sua resposta, de um empirismo evidente, tem, entretanto, muita razão de ser.

A presença da mata é garantia de uma boa camada de terra vegetal, pela devolução de princípios orgânicos atra- vés das fôlhas que caem. As pedras, por outro lado, de certo modo, são um obstáculo à erosão, servindo à fixação do solo. Certas árvores, como o jequitibá, a gameleira e

(26)

o pau d'arco são, também, tidas como indicativas das excelências do solo para a cultura cacaueira.

Sabe-se, porém, quais os gostos do cacau, no que se refere à pedologia. Prefere êle os terrenos onde haja sais de potassa e de fósforo, bem assim precisa de azôto e de cal. Adapta-se melhor no arqueano, nos terrenos de decomposição do cristalino, razão que, segundo explica Walter Alberto Egler, teria sido a responsável pela expan- são maior da cultura, nos municípios de Itabuna e Ilhéus, onde os cacauais chegam bem perto do litoral, em virtude de a faixa arqueana alargar-se mais, no sentido de leste, que nas outras comunas da zona cacaueira.

A ausência de processos químicos de recuperação do solo, que somente conhece a adubação digamos natural, é responsável pelo seu esgotamento e pela queda sensível de produtividade que atualmente se registra nas planta- ções baianas. Segundo Gregório Bondar, a produção de cada tonelada de cacau comercial, em outras palavras cada hectare plantado, representa uma retirada ao solo de 112 quilos de matérias minerais, donde 60 quilos ele potassa, 1 O de ácido fosfórico e 20 de azôto.

Referências

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