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A viagem do conhecimento continua. Os partícipes cada vez mais motivados pelas discussões, pelos encontros levados a efeito, respondem com boa vontade. Se dispõem a falar, a discorrer sobre como a “bagagem” que eles trazem, têm, constroem e reconstroem é compartilhada, é trocada e como se influenciam reciprocamente.

A Formação Continuada conduzida, planejada e gestada com a participação coletiva de professores e professoras poderá favorecer que os atores compartilhem seus saberes, suas experiências, suas práticas e essa interação permita uma mediação e um reconstrução do fazer pedagógico.

A troca de experiências entre os pares foi ressaltada por todos os atores como importante na formação pedagógica, na conscientização e na profissionalização dos docentes. Esses saberes compartilhados irão permitir uma reflexão coletiva.

A troca de experiência (compartilhamento de saberes) entre pares e com os discentes foram também citados pelos sujeitos. Matriz: “Pela exigência de atualização constante e pela troca de experiências e aprendizado no convívio com os discentes.” No que parece concordar Aracati:

A troca de informações com os colegas professores e alunos sempre contribuem, e muito, para um crescimento pessoal, tanto no campo científico como no de conhecimentos gerais.

Com respeito aos saberes pedagógicos constata-se que a grande maioria aprendeu com a própria experiência (saberes experienciais). Esses saberes da experiência forma inspirados em ex-mestres. A contribuição dos pares (compartilhamento de saberes) na formação foi significativa.

- A grande maioria dos professores é autodidata. As reuniões pedagógicas e troca de informações com colegas e alguma leitura pertinente ajuda muito. (Aracati).

- De exemplos de outros professores e de aproveitamento de vários encontros pedagógicos. (José Conde).

- Exemplos de condutas pedagógicas com resultados positivos adotados por colegas são sempre bem-vindos e implementados para melhorar a relação ensino- aprendizagem. (Mato Grosso).

- Dos cursos de especialização, dos erros e acertos, de informações de colegas (...) (Maria Auxiliadora).

- Sim, aprendo com outras experiências exitosas ou fracassadas. (João Mota). - Sim, através da discussão de técnicas que estão sendo aplicadas. (3 de Maio).

Foi questionado aos professores(as) em que situação trabalhavam em conjunto com seus pares. Aqueles(as) docentes que pertencem à mesma disciplina disseram que trabalhavam em conjunto no planejamento do conteúdo, nas avaliações e durante as aulas práticas, o que, na realidade, são até cinco professores(as) trabalhando ao mesmo tempo.

- No planejamento da disciplina e no seu transcurso e na busca de recursos de ensino- aprendizagem que mantenha nossos alunos sempre motivados. Por exemplo positivo, citamos a realização de workshop na disciplina. (Mato Grosso).

- Com os colegas de disciplina, falamos a mesma linguagem e lutamos para dar o máximo para que o aluno consiga o mínimo necessário à sua formação profissional. Quando se trata de multidisciplinaridade a coisa complica. (Aracati).

- Em especial na nossa disciplina trabalhamos em grupo, todos os professores, desde a preparação da ementa até a linguagem final em sala buscando facilitar o processo de aprendizagem através de uma apresentação mais clara e coerente do conteúdo da disciplina. (Matriz).

O compartilhamento dos saberes, a troca de experiências é uma constante entre os docentes. Este compartilhamento, segundo Bolzan( 2002), à luz de Vygotsky, diz que:

O conhecimento, por sua vez, é gerado e co-construído coletivamente, e produzido na interatividade entre duas ou mais pessoas que dele participam, constituindo-se o núcleo da atividade. Assim, as tarefas conjuntas provocam uma necessidade de confrontar pontos de vista divergentes, acerca de uma mesma atividade, o que possibilita a descentralização cognitiva e se traduz no conflito sócio-cognitivo que mobiliza estruturas intelectuais existentes e obriga os sujeitos a reestruturá-las, dando lugar ao processo de construção de conhecimento. Todos estes aspectos são relevantes, quando pensamos no processo de construção de conhecimento escolar e, consequentemente, na construção do conhecimento pedagógico compartilhado (p.53).

Madri é bem clara quando diz: “Porque enquanto docente existe a troca de experiências entre professores/alunos/corpo administrativo. Interação entre vários universos, cada um com sua história” Salgado argumenta: “a mútua relação entre docentes e discentes provém a energia para o meu desempenho pessoal.”

Quando questionados se seus pares têm alguma contribuição na formação pedagógica, todos (as) docentes disseram que sim e a troca de experiências foi apontada como importante na formação pedagógica. Mas é na ajuda instrumental na confecção de plano de aulas que parece ser a maior referência dos sujeitos. O planejamento das aulas, a correção das provas, foram citados como os momentos em que os pares trabalhavam em conjunto, principalmente dos professores de uma mesma disciplina. No entanto, quando se trata de professores de disciplinas diferentes não há trabalho em conjunto (João Conde). “Raramente, em encontros na sala de professores trocamos experiências.” (Garanhuns). João Mota complementa: “busco um olhar externo ao campo. Procuro outros professores para contribuir com a disciplina”. Maria Auxiliadora diz trabalhar em conjunto para solucionar dúvidas.

Destacaram, também, o papel do par mais experiente na sua formação e na sua atuação enquanto professor. Esta troca não se dá só no espaço formal, mas, também, fora dele.

- Eu aprendo com os pares mais experientes, sempre têm algo novo, alguma novidade, alguma metodologia. Estou sempre aberto a este aprendizado, talvez fosse a principal maneira: aprender com os mais velhos, com os pioneiros, Muitas vezes ocorre fora da sala de aula, até na mesa de bar a gente aprende muito, quando os pares deixam sua empáfia e se abrem para comentários. (João Mota).

- Aprendo mais fora da FOC, em conversas informais, aprendo na parte didática e na parte específica. (Divinópolis).

- Sempre procuro os pares que tenham mais experiência, procuro ver como eles dão aulas, que tipo de técnicas eles usam. Converso muito em como dar aulas. (Garanhuns).

- A gente tem que aprender com os mais velhos. Quando tenho dúvidas vou a quem é mais experiente. (José Condé).

- Eu acredito que aprendo com meus pares mais experientes. Aprendo não só na docência mas também no relacionamento. Aprendo também como não ser, os exemplos negativos servem como modelo para não ser seguido. (Vassoural).

- Aprendo muito com meus pares. Até no ambiente extra-faculdade, nas conversas informais a gente aprende muito. (Madri).

- O convívio pessoal é fantástico, aprende o lado profissional, aprende o lado humano. (Monte Cassino).

Parece clara, pelos depoimentos, a importância do compartilhamento dos saberes. Na situação informal este aprendizado é ressaltado, possivelmente porque na situação individualizada a troca de informações é mais aberta e se respeitam mais as Zonas de Desenvolvimento Proximal de cada um. Não é um pacote que se ministra uniformemente para todos os docentes.

Compartilhar saberes a partir de perspectivas mútuas se reflete na possibilidade de ativação das ZDPs (BOLZAN, 2002). Quando as reuniões pedagógicas permitem discussões entre os pares se cria uma rede de interações que vai permitir que as Zonas de Desenvolvimento Proximal sejam ativadas. É importante ressaltar que esse compartilhamento seja capaz de fazer com que haja uma tomada de consciência e os novos conhecimentos sejam apropriados pelo professor, à medida que uma rede de interações é tecida e se reflita sobre as atividades didático-pedagógicas.

Behrens (2003), preocupada com a importância do compartilhamento dos saberes, diz:

As práticas na formação do professor devem criar espaços pra contemplar uma dimensão coletiva, em que os professores possam discutir, refletir e produzir os seus saberes e os seus valores. A proposição de formação continuada num processo participativo leva o professor a sair do seu isolamento em sala de aula, e esse desafio o impulsiona a discutir com seus pares sobre sua ação docente. (p. 64).

No espaço da escola, a troca de experiências entre os educadores pode ser um dos momentos mais importantes na formação do professor. Não podemos desconsiderar que a teoria nos fornece “régua e o compasso”, permitindo-nos desvelar a realidade na sua dinâmica própria. (p. 121).

Efetivamente, esta troca de experiências é extremamente rica, e Álvaro Lins assim se expressa:

A gente aprende com os mais e com os menos experientes. A gente aprende com todo mundo. Cada vez que um par relata a vivência que ele teve, temos que aproveitar, devemos aprender com a informação. Esta troca de experiências é extremamente rica.

O compartilhamento de saberes vai permitir que o processo cognitivo se desenvolva primeiro no nível social – entre pessoas – interpsicológico e depois no nível individual (intrapsicológico). Esse é um longo processo que será, junto das amplas discussões e troca de saberes e quando sair do nível inter para o intrapsicológico, o salto qualitativo que poderá permitir, com a tomada de consciência do que é significativo, a transferência para a situação de sala de aula. (VYGOSTKY, 2003, p. 75).

As Instituições de Educação Superior precisam contemplar em seu cotidiano um espaço institucionalizado para que haja a discussão, a troca de experiências pelos docentes. Ao conversar, ao analisar as suas experiências e ouvir as experiências dos demais pares, conflitos e contradições surgirão e vai permitir uma tomada de consciência e um crescimento de cada um dos docentes envolvidos no processo de compartilhamento.

E Ribeiro (2004) continua:

Assim, é necessário construirmos, nas escolas, espaço adequado à efetiva troca de experiências entre os pares. Dessa forma,a escola amplia-se e fortalece-se, porque passa a ser um lugar onde também se constrói conhecimento pedagógico, deixando de ser um lugar em que os educadores apenas devem aplicar o que é produzido nas pesquisas (...) (p. 122).

A passagem nesta estação está chegando ao fim. A discussão foi profícua. Todos e todas externaram suas opiniões. Alguém se lembrou que era importante fazer um resumo, uma memória, um apanhado de tudo que foi discutido. Nesta estação eles foram concordes que: 1. A troca de experiências entre os docentes permite o compartilhamento dos diversos saberes da docência;

2. A reunião de professores é um lócus onde este compartilhamento ocorre. Os docentes relatam que institucionalmente só se reúnem duas vezes por ano, no início de cada semestre, em um curto espaço de tempo, que mal dá para acertos de planejamento da disciplina;

3. Existe – e é valorizada – a troca de experiências em espaços não institucionais: restaurantes, bares, corredores, campus etc.;

4. Todos afirmam que procuram ou procuraram pares mais experientes para troca de saberes; 5. Não existe um espaço institucionalizado onde se fomente e se estimule a troca de experiências;

6. As trocas de experiências vêm ocorrendo mais entre os docentes de uma mesma disciplina e, antes de ser um espaço para discussão e debate/reflexão, é na realidade um momento de planejamento da disciplina e distribuição dos assuntos do semestre, correção de provas numa visão instrumental do processo de ensino/aprendizagem;

7. O compartilhamento de saberes pode permitir que o processo interpessoal seja transformado num processo intrapessoal, na visão de Vygostky (2003). Esta internalização das atividades sociais pode representar o salto de qualidade para aplicação dos novos conceitos pedagógicos adquiridos na troca de experiências.

Este compartilhamento de saberes trará o enriquecimento à produção de conhecimentos tanto na área pedagógica como no saber específico, disciplinar. E na próxima parada os atores teriam a oportunidade de discutir sobre como refletem e qual a importância desta reflexão no fazer de cada um e de cada uma. O trabalho coletivo é importante – indispensável – na reflexividade docente, assunto anunciado para a próxima estação.

5.4 A formação continuada e sua contribuição para a reflexividade