O debate sobre a construção da identidade docente tem acompanhado o discurso sobre Formação Continuada. Afinal, a docência universitária é uma profissão ou um trabalho? Zalbaza (2004) diz que a docência tem três dimensões: profissional, pessoal e administrativa. A nossa identidade docente é mais depositada na nossa especialidade, na nossa disciplina do que no exercício do magistério. Quando consideramos a docência como profissão nos referimos à sua prática e ao domínio científico. A visão não-profissional considera uma arte
que se aprende com a prática e, para este mister, não é preciso ser preparado. Essa visão não encontra mais respaldo atualmente. Zalbaza continua:
Somos profissionais não apenas porque sabemos o que fazer (o que nos diferencia dos incompetentes) ou porque recebemos um salário (o que nos diferencia dos amadores ou voluntários), mas porque:
- o trabalho por nós desenvolvido exige que sejam postos em prática vários conhecimentos e várias competências que necessitam de uma preparação específica; - esta é uma atividade de grande relevância social;
- a docência mantém determinadas competências e uma estrutura comuns aos seus aspectos formadores, apesar de ser desempenhada em diferentes contextos em relação a diferentes indivíduos e de envolver diferentes conteúdos e diferentes propósitos formativos. (p. 112).
E para ele somos profissionais por desenvolvermos um trabalho no qual pomos em prática diversidades de conhecimentos e competência e exercemos uma atividade de relevância social e não só porque sabemos fazer e, por isso, recebemos um salário.
A dimensão pessoal diz respeito à satisfação pessoal, profissional e a carreira docente.
No cenário do campo ficou bem evidenciado que o trabalho do professor e da professora é compatível com as aspirações pessoais dos docentes e fonte de prazer e crescimento pessoal e, muitos também, relatam a satisfação de estar relacionando-se com os alunos, porque aprendem com alunos pela realização profissional e política.
QUADRO 8: ASPIRAÇÕES PESSOAIS, FATOR DE CRESCIMENTO PESSOAL E FONTE DE PRAZER
ATORES ASPIRAÇÕES PESSOAIS/FATOR DE CRESCIMENTO E FONTE DE PRAZER
Vassoural O trabalho de professor é compatível com minhas aspirações pessoais pela realização profissional através da convivência com os alunos e é fonte de prazer interior que me proporciona e a alegria que me contamina é fator de crescimento pessoal
Santa Clara É uma fonte de prazer por saber que estou contribuindo para a formação de profissionais e é fator de crescimento pessoal por me atualizar cada vez mais 3 de maio Fator de desenvolvimento pessoal e profissional através da convivência com os
alunos e do trabalho de pesquisa
O cenário universitário possibilita um contato mais íntimo entre as pessoas (docentes e discentes) favorecendo o amadurecimento e crescimento pessoal
Divinópolis Fator de crescimento por estar aprimorando meus conhecimentos científicos. Salgado É fator de desenvolvimento profissional e de prazer porque sempre acredito que
a educação é a principal responsável por uma humanidade melhor. QUADRO 9: ESTÍMULO/APRENDER COM OS ALUNOS/
AÇÃO POLÍTICA/REALIZAÇÃO PROFISSIONAL
ATORES ESTÍMULO /APRENDER COM OS ALUNOS/AÇÃO POLÍTICA/REALIZAÇÃO PROFISSIONAL
Mato Grosso Sempre tive estímulo pela atividade docente desde quando do ingresso na Faculdade já Ensinava no 2 º grau e dentro da Faculdade exercendo as monitorias e preparando-me para lecionar no futuro.
Maria Auxiliadora
Tentando ensinar muitas vezes aprendo mais do que ensinamos e na busca de melhorar profissionalmente acabamos amadurecendo um pouco.
Portugal Realização profissional quando consigo fazer com que meus alunos aprendam.
Álvaro Lins Crescimento intelectual, espiritual e político. (universitário) É sempre bom ensinar a quem não sabe.
Aracati Porque sempre gostei do magistério e por estar contribuindo para essa juventude maravilhosa que me dá tanta força e energia.
Vitalino Passar para os alunos a minha experiência.
Conde Por adquirir conhecimentos científicos e retransmiti-los.
A profissionalidade docente na sua dimensão pessoal de satisfação pelo exercício do magistério é praticamente unânime no que concerne às aspirações pessoais, ao gosto e ao prazer de ensinar, ao atualizar-se constantemente, ao prazer de estar com os alunos e se relacionando com eles. Porém, dentro desta dimensão, com respeito à carreira docente, nota-se uma insegurança pela falta de estabilidade, na mudança da carga horária a cada seis meses, principalmente pelos horistas e pelo fato de a Faculdade não ter duas entradas. Mas mesmo com respeito à carreira docente alguns professores ressaltaram o bom retorno financeiro pago pela IES, principalmente aqueles docentes com 20 horas semanais ou mais. A Coordenação informa que o Plano de Cargos e Carreiras está sendo implementado. O Plano de Cargos seria um elemento de estabilização, de estímulo à carreira e à profissionalização docente. Já se encontra em fase final de elaboração e embora decidido pelo comitê gestor foram ouvidos representantes de todos os segmentos.
Quanto à dimensão administrativa – uma das três funções apontadas por Zalbaza (2004) – em alguns casos podem dificultar o exercício do magistério.
A dificuldade que tenho no magistério é o tempo gasto nas atividades burocráticas. (Cohab I).
A profissionalidade dos docentes da FOC parece também estar prejudicada pelo tempo (falta de), pois um contingente razoável de docentes só tem remuneração em sala de aula, não dispondo de espaço para planejamento e estudo. Assim, afirmam os docentes:
- A dificuldade que tenho no magistério é a impossibilidade de dedicação exclusiva (MADRI);
- A dificuldade é a falta de tempo. (JOSÉ CONDÉ, ARACATI, MONTE CASSINO E VASSOURAL).
O que parece evidenciado quanto a esta categoria – PROFISSIONALIDADE E IDENTIDADE DOCENTE – no trabalho de campo e nas observações dos encontros pedagógicos é o seguinte:
• A totalidade dos docentes sente prazer e satisfação no exercício da docência, um dos requisitos para o profissionalismo no magistério. No entanto, nota-se que parte dos docentes tem o magistério como complemento de suas atividades: consultórios, empregos, clínicas etc.;
• A carreira docente ainda instável e sem Plano de Cargo e Funções, traz certa insegurança, o que dificulta a profissionalização;
• As motivações às vezes são externas à atividade didática de sala de aula: relacionamento aluno/professor, atualização científica etc.;
• O fato de a ASCES ter professores horistas – carga horária inferior a 12 horas ou não disponibilização de horas para planejamento/atendimento aos alunos – reflete na aquisição de uma consciência profissional e um maior comprometimento com a Instituição;
• As reuniões e principalmente os encontros pedagógicos são marcados previamente e a freqüência é muito aquém. Acontece para todos os docentes da ASCES em torno de cento e cinqüenta e como os professores são horistas e não são remunerados para esta atividade didática e sem registrar que os horistas tem compromissos quando não estão na ASCES ou de Plantão em Hospitais ou expedientes em Prefeituras ou consultórios particulares. No ultimo curso de Formação Continuada, ocorrido no primeiro semestre de 2006 – curso de dezesseis horas em dois momentos com o professor Jansen – o único docente de odontologia presente ao evento foi o autor desta dissertação. Agora, parece que já começa a mudar a ótica da Coordenação Acadêmica e do Comitê Gestor. No último encontro para tratar das Diretrizes Curriculares foi acenada como remuneração a dispensa de 08 horas do mês de
dezembro (ANEXO H). Talvez, não só por isso, já que currículo mexe com salário, tivemos uma presença maciça dos nossos docentes, mais de 80% do contingente. A profissionalidade exige compromisso, identidade profissional, motivação. No entanto, a remuneração e o reconhecimento do docente por parte dos gestores perpassam todas as ações. Educação não é sacerdócio, não é dom natural. Educação é uma prática social levada a efeito por profissionais conscientes e reflexivos capazes de, com sua prática, desconstruírem, construírem e reconstruírem conhecimentos.
Esses aspectos têm influência na construção dos saberes docentes, uma vez que o espaço da Formação continuada é de construção de identidade pessoal e profissional dos professores. Estamos chegando ao final da primeira estação do nosso comboio, da nossa coletividade, com as características próprias dessa parada, desse estágio. Esta parada, na realidade, não significou e não significa algo estático, dicotomizado, como se a realidade dessa viagem pudesse ser compartimentalizada. Os recortes feitos são puramente didáticos para uma melhor compreensão da concretude da totalidade, onde o todo se volta para a parte e vice-versa, numa relação dialética de construção de uma nova realidade. A “sineta” já tocou, anunciando a proximidade da nova estação. Nesta “parada” vamos encontrar a percepção que os docentes têm dos seus saberes, como eles os constroem, quais os limites e avanços e como adquiriram os saberes pedagógicos necessários aos exercícios da docência.