4. A FELICIDADE TESTADA: AS PESQUISAS
4.4 O Comunicado IPEA nº 158/2012: O Brasil e a Felicidade 119.
Quando as pessoas se tornam mais ricas em comparação com outras pessoas, tornam-se mais felizes. Mas quando sociedades inteiras se tornam mais ricas, não se tornam mais felizes. Essa é a conclusão que nos traz Richard Layard, ao analisar pesquisas a respeito. Tendo os países industriais do Ocidente como foco, comprova-se que os mais ricos não são mais felizes do que os mais pobres e que nos países com mais de 20 mil dólares per capita a renda adicional não está associada à felicidade extra. Por sua vez, quanto a países como a Índia, o México, as Filipinas, o Brasil e a Coréia do Sul, colhe-se evidências de que “sua felicidade média aumentou” motivado pelo fato de que “a renda extra é realmente valiosa quando tira as pessoas da pura pobreza física”, comprovando-se uma das crenças dos economistas do século XIX: “a felicidade extra proporcionada pela renda extra é maior quando você é pobre e diminui constantemente à medida que você se torna mais rico”232.
Derek Bok afirma que o crescimento econômico aumenta o bem-estar substancialmente apenas em países relativamente pobres, onde a maioria das pessoas tinham muito pouco para atender às suas necessidades básicas233. A conclusão é: o efeito da renda na felicidade é maior nos países mais pobres, onde as pessoas estão mais perto da linha da pobreza. O pobre sente-se mais feliz com sua majoração de renda – ainda que singela -, do que o rico.
Nesse trabalho só nos valemos de uma pesquisa genuinamente brasileira e há razões para isso. Estamos nos referindo à análise do Ipea divulgada em dezembro de 2012 por meio do “Comunicado do Ipea - 2012 - Dezembro - nº 158”, intitulado 2012:
Desenvolvimento Inclusivo Sustentável234.
O primeiro motivo foi a confiabilidade do Instituto. Em seguida, a atualidade do estudo. Outra razão foi a equivalência na utilização das expressões felicidade e bem- estar, assim como defendemos haver no constitucionalismo brasileiro e na Constituição Federal de 1988, que trouxe um subsistema constitucional da felicidade baseado na
232 LAYARD, P. R. G. Felicidade: lições de uma nova ciência. Tradução Maria Clara de Biase W.
Fernandes. Rio de Janeiro: Best Seller, 2008, p. 51.
233 BOK, Derek. The politics of happiness: what government can learn from the new research on well-
being. Princeton: Princeton University Press, 2010, p. 13.
234 O Ipea aplicou em outubro perguntas padronizadas de questionários internacionais em 3.800
domicílios e confirmou o alto grau de felicidade prevalecente no país. Em uma escala de 0 a 10, os brasileiros dão, em média, nota 7,1 para suas vidas. Esse nível colocaria o país em 16º lugar entre 147 países pesquisados no Gallup World Poll, que apontava uma felicidade média de 6,8 no Brasil em 2010.
proteção do bem-estar em vários campos da vida coletiva. Por fim, a bibliografia utilizada no trabalho. Além de se valerem dos ensinamentos de Carol Graham, cujas contribuições para essa tese de doutoramento são inestimáveis, também há fartas referências teóricas da melhor qualidade, a exemplo de Richard Easterlin, Bruno Frey, A. Stutzer, Diener Kahneman, Richard Layard, Joseph Stiglitz e Amartya Sen. A bibliografia guarda toda sintonia com esse trabalho235.
Segundo o Ipea, a pergunta feita aos entrevistados foi quanto ao nível de bem‐estar. O Comunicado esclarece:
a principal ideia é que o conceito de felicidade subjetiva nos possibilitaria captar diretamente o bem‐estar humano, em vez de mensurar renda ou outras coisas que não são exatamente o que as pessoas querem ao fim e ao cabo, mas que são, ao contrário, os meios através dos quais se pode conseguir – ou não – usufruir da felicidade.
O Comunicado mostra que a nota média de felicidade brasileira hoje é 7,1, o que nos colocaria em 16º lugar entre 147 países segundo dados do Gallup World Poll de 2011, demonstrando avanço frente o 22º lugar entre 132 países em 2006. Em 2010, a felicidade média dos brasileiros era de 6,8. Quanto ao impacto da renda na felicidade, a nota média de satisfação com a vida de quem recebe mais de 10 salários mínimos é 8,4, contra 6,5 de quem vive apenas com o mínimo e 3,7 dos sem renda. A região mais feliz do país é o Nordeste, com média de 7,38. Se fosse um país, estaria em 9º lugar no ranking global, entre a Finlândia e a Bélgica. As médias das demais regiões são 7,37 no Centro‐Oeste, 7,2 no Sul, 7,13 no Norte e 6,68 no Sudeste.
Analisando os dados do Gallup World Poll de 2006, quanto ao impacto da renda ao nível mundial sobre a satisfação com a vida, mostra que “Togo ocupa a lanterninha com 3,2 numa escala de 0 a 10 e a Dinamarca, o ápice com 8,02”. O Comunicado Ipea esclarece que “o Brasil está numa posição mais para a nação européia do que para a africana, atingindo naquele ano 6,64, acima da norma internacional de felicidade dado o seu PIB per capita”. Quando se compara pessoas com os mesmos atributos de sexo,
235 EASTERLIN, Richard A. "Does economic growth improve the human lot? some empirical evidence".
University of Pennsylvania, 1974. FREY, B. S.; STUTZER, A. “The economics of happiness”. Princeton and Oxford: Princeton University Press, 2002. GRAHAM, Carol. The Pursuit of Happiness: an Economy of Well‐Being. Brookings Institution Press, 2011. KAHNEMAN, D., DIENER, E.; SCHWARZ, N. (Eds.) “Well‐being: the foundations of hedonic psychology”. New York, Russell Sage Foundation, 1999.
KAHNEMAN, D., KRUEGER, A. B. “Developments in the measurement of subjective well‐being”. Journal of Economic Perspective 20(1) Winter, 2006. LAYARD, R. Happiness: lessons from a new science, Nueva York, Penguin Press. 2005. STIGLITZ, J.; SEN, A e FITOUSI, Report by the Commission on the Measurement of Economic Performance and Social Progress, 2009. September, 2009.
idade, estado civil, escolaridade e renda familiar, a felicidade cresce com a renda. Para o Ipea, “a renda familiar é um determinante da felicidade brasileira” 236.
As pesquisas sobre a felicidade no nordeste mostra uma evolução boa e importante, mas ela não pode ser superestimada e parece que há, sim, um exagero de aspirações na análise do IPEA.
É evidente a ampliação do poder aquisitivo das pessoas da região nordeste, mas esse conjunto de bens materiais não é suficiente para manter ascendente o nível de felicidade. O ser humano se adapta e as pretensões se ampliam. O equívoco da análise é remeter ao poder aquisitivo as únicas razões da felicidade e, consequentemente, as razões pelas quais se deve buscar a felicidade. Mesmo preenchidas materialmente as pessoas necessitam, para alcançarem seu pleno desenvolvimento, de outros elementos constitutivos da vida como nos disse Stuart Mill ao falar sobre a liberdade. Outro elemento é a democracia. Viver coletivamente num ambiente no qual se sabe que a sua opinião é considerada e vale tanto quanto a opinião de qualquer semelhante é outro fato que incrementa a felicidade.
Assim, parece superficial a constatação que o incremento no poder aquisitivo dos nordestinos ampliou a sensação de felicidade das pessoas dessa região do Brasil e que, assim, tudo vai bem. Essa ampliação das condições econômicas deve vir aliada à maior participação nas decisões públicas e maior liberdade, além do combate a inúmeras outras anomalias sociais. Caso não, estamos vendo um mero balão de ensaio. Podemos ilustrar com o que ocorreu com o mundo depois da Segunda Guerra.
Richard Layard nos diz que apesar de desde a Segunda Guerra Mundial a maior renda nacional ter propiciado certo aumento na felicidade, essa felicidade extra foi anulada pelo maior sofrimento causado por relacionamentos sociais menos harmoniosos. As “tendências à depressão, ao alcoolismo e ao crime são indicações de que a infelicidade aumentou rapidamente no período pós-guerra” - afirma. Mesmo com os investimentos para a reconstrução dos países derrotados, tivemos depressão,
236 Comunicado do Ipea - 2012 - Dezembro - nº 158. “2012: Desenvolvimento Inclusivo Sustentável”. Os
Comunicados do Ipea têm por objetivo antecipar estudos e pesquisas mais amplas conduzidas pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, com uma comunicação sintética e objetiva e sem a pretensão de encerrar o debate sobre os temas que aborda, mas motivá-lo. Em geral, são sucedidos por notas técnicas, textos para discussão, livros e demais publicações. Os Comunicados são elaborados pela assessoria técnica da Presidência do Instituto e por técnicos de planejamento e pesquisa de todas as diretorias do Ipea. Desde 2007, mais de cem técnicos participaram da produção e divulgação de tais documentos, sob os mais variados temas. A partir do número 40, eles deixam de ser Comunicados da Presidência e passam a se chamar Comunicados do Ipea. A nova denominação sintetiza todo o processo produtivo desses estudos e sua institucionalização em todas as diretorias e áreas técnicas do Ipea.
alcoolismo e crime. Os países reconstruídos não podiam opinar nas decisões a serem tomadas quanto aos seus próprios destinos. Eles estavam sendo beneficiados, mas não eram ouvidos. Richard Layard dá outro exemplo. Ele lembra que os escravos americanos queriam sua liberdade não porque lhes daria rendas mais altas, mas devido à humilhação de serem escravizados237. As escolhas dos seres humanos são a nossa melhor informação acerca do que torna as pessoas felizes. Como ninguém jamais escolhe voluntariamente a escravidão, devemos concluir que os escravos nunca são felizes. O princípio da utilidade de Bentham quer dizer que “os interesses dos muito impotentes devem ter precedência sobre os interesses dos poucos poderosos”. Também que “se um determinado benefício não puder ser provido a todos, então ele deve ser provido a tantas pessoas quantas seja possível”238.
Nem mesmo pelo prisma exclusivamente econômico os resultados do IPEA acerca da felicidade do nordeste brasileiro deve se manter. É que, apesar de a aquisição de bens ampliar a sensação de bem-estar, mais adiante a sociedade irá querer mais, como a elevação do próprio status. Rafael DiTella e Robert MacCulloch mostram que a sensação de bem-estar gerada com um aumento salarial dura 1 ano, enquanto que a gerada pela elevação de status permanece por 5 anos239.
Portanto, para que passemos a falar de crescimento e estabilização da felicidade na região nordeste do Brasil, o Governo deve se esforçar para, além da ampliação dos intitulamentos econômicos das pessoas, também incremente o poder de decisão, amplie o gozo das liberdades, reduza as desigualdades e assegure que a rede de segurança social funcionará plenamente. Atendidas essas condições, todos os caracteres da teoria da felicidade estariam contemplados.