Capítulo 2 – Emma Wedgwood Invisibilidade e auto‑sacrifício
7. O conceito de anjo do lar Musas mitificadas
O espírito reverencial de Coventry Patmore para com a mulher que inspirou o poema, a quem tanto devera (Emily Augusta Andrews), parece ter contagiado de igual forma Stuart Mill e Charles Darwin, nas alusões que fazem às respectivas mulheres nas autobiografias, como se lê mais adiante neste capítulo.
Poeta e crítico de sucesso no seu tempo, Patmore desenvolveu em The Angel in the
House um longo poema narrativo e lírico, com quatro partes: The Betrothed and The Espousals (1854), que enaltecia a primeira mulher, Faithful For Ever (1860); e The Victories of Love (1862). Os poemas viriam a ser publicados em conjunto em 1863, e passaram a ser
tidos como símbolos do ideal vitoriano feminino, não consensual, como se viu, já que ia contra as posições feministas da época.
De alguma forma, o texto de Patmore encontrou eco na sociedade, a ponto de tornar‑se imensamente popular. O poema enaltecia as qualidades da mulher (embora a de Patmore, podia ser qualquer outra), como solidária, encantadora, altruísta e dominando as difíceis artes da gestão doméstica. Deixava o melhor para os outros na partilha quotidiana e, salientando, acima de tudo, a sua pureza. Este conceito remete o leitor, eventualmente, para questões étnicas, éticas e de conduta moral.
Como se pode ler no Prólogo do poema, o sujeito poético invoca alguém como You
gentle self, my Wife, para mais adiante enumerar as suas qualidades: «And severing thus the
truth from trope/ In you the Commentators see/ Some Faith, some charity, some Hope/ Some, wiser, think you all the three». (Patmore 1866: 5).
Estas qualidades não surgem suspensas ou desenquadradas, mas «in yonder English home» (Patmore 1866: 5), ou seja, num espaço considerado de referência para as famílias inglesas e onde a figura central – neste caso, a masculina – replica a atitude senhorial da figura poderosa perante as suas vastas posses, geralmente em valor imobiliário. Este exercício poético, longo e complexo, carregado de referências bíblicas, vinha ao encontro de uma larga faixa da população, naturalmente conservadora e que esgrimia os seus argumentos em confronto com os das feministas. O referido sector da opinião pública incomodava os mais conservadores e avessos à mudança, interpelando a sociedade sobre que destino esperava as mulheres excedentárias (surplus women), de que já falei anteriormente. Mais tarde, em 1931, Virginia Woolf viria a defender que esta representação da mulher era algo a banir, como se pode ler: «Killing the Angel in the House was part of the occupation of a woman writer»,41
de tal forma discordava do perfil feminino traçado por Patmore no seu poema.
O poema dedicado a Emily, musa de Patmore e de outros poetas, tem sido recorrentemente analisado, na tentativa de encontrar um significado que vá além da relação do poeta com a primeira mulher. Alguns autores comentam o ideal feminino assente no tipo clássico e bíblico, apresentado neste texto, considerando que Patmore representa uma mulher distante e perfeita, que acaba por ser destruído no casamento.
41 Adoptando uma linguagem metafórica, Virginia Woolf sublinha o objectivo das autoras que, nos seus textos,
faziam uma representação da mulher contemporânea e das suas experiências muito diferente daquela realizada no poema de Patmore. A tradição já vem de trás, com Aphra Ben e encontra‑se em toda a literatura de cordel de autoria feminina, ecoando não apenas experiências pessoais, mas igualmente o quotidiano dos tribunais, de que os jornais faziam eco. (Woolf 1931. «Professions for women». URL: http://ebooks.adelaide.edu.au/w/ woolf/virginia/w91d/chapter27.html. Consultado em 4.8.2010).
A vocação da mulher para a união e a orientação da sua iniciativa para agradar ao homem, esgotando‑se nessa função, é representada na passagem seguinte, considerada uma das mais esclarecedoras de ideologia de Patmore, no âmbito do mesmo texto:
Man must be pleased; but him to please Is woman’s pleasure; down the gulf
Of his condoled necessities She casts her best, she flings herself. How often flings for nought, and yokes
Her heart to an icicle or whim, Whose each impatient word provokes
Another, not from her, but him; While she, too gentle even to force
His penitence by kind replies, Waits by, expecting his remorse, With pardon in her pitying eyes; And if he once, by shame oppress’d,
A comfortable word confers, She leans and weeps against his breast,
And seems to think the sin was hers; Or any eye to see her charms, At any time, she’s still his wife,
Dearly devoted to his arms; She loves with love that cannot tire; And when, ah woe, she loves alone, Through passionate duty love springs higher,
As grass grows taller round a stone. (Patmore 1866: 48‑49).42
42 Patmore, Coventry. The Angel in the House. Project Gutenberg. URL: http://www.gutenberg.org/ebooks/4099.
O recurso a termos como gentle, kind, pardon, comfortable e a expressão dearly
devoted, nomeadamente, contribuem para reforçar a abnegação, que tem no marido o centro
e justificação da sua existência.
Nesta prioridade de abnegação e dedicação das mulheres, o autor do poema encontraria eco na sociedade. Porém, o conhecimento das condições de vida na época leva‑nos rapida‑ mente à conclusão de que esta visão harmoniosa corresponde a uma representação fictícia, pois o quotidiano doméstico exige à mulher casada muito mais do que a presença etérea que associamos ao conceito de «anjo do lar».43 E esta postura não terá sido conseguida sem algum
conflito interior. Por outro lado, não contempla a energia exigida à mulher na sucessão de maternidades e na gestão diária de uma casa, independentemente dos recursos económicos disponíveis pela família. Por fim, ignora totalmente as suas expectativas no casamento, representando‑a sem vontade própria e sempre dependente da protecção masculina.
Nos três casos em apreço, sobressaem a energia exigida para gerir problemas de saúde grave (no de Harriet Taylor e Stuart Mill, tuberculose e no de Charles Darwin um complexo quadro clínico não descritível por uma só designação; seja como for, em todos eles, falta de qualidade de vida decorrente dessa saúde débil). No que diz respeito a Darwin, em
Autobiography, editada por Nora Barlow, alude‑se a náuseas, tonturas, insónias e debilidade
e a um estado de invalidez que assolou o cientista ao longo de quatro décadas, sem nunca os médicos terem chegado a um consenso nem a um diagnóstico definitivo quanto à origem destes sintomas e consequente desconforto. Segundo a editora desta obra, recentes hipóteses têm sido apresentadas, tendentes a considerar que, na origem do sofrimento de Darwin, estavam uma neurose e uma psicose. (Barlow 1958: 241). De resto, o estado de saúde do cientista tem dado azo às mais diversas especulações, a partir da análise dos sintomas, algo que só interessa para esta tese no sentido em que o tornou alvo das atenções e cuidados de Emma Wedgwood, o que contribuiu para o seu bem‑estar e longevidade, apesar da falta de qualidade de vida a que já aludi.
43 Para a compreensão da relação entre os textos de que dispomos – de diversa índole, da escrita às imagens
– e da forma como a subjectividade dos autores dessas representações tem implicações nos textos, leia‑se Stuart Hall, que explora a procura de sentido através da palavra, da imagem e da partilha de convenções e códigos comuns, ao considerar as práticas culturais como a construção de sentidos partilhados por uma comunidade, num determinado momento histórico e num determinado espaço. (Hall 1997/2001: 1).
Essa energia, no caso de Emma Wedgwood, foi‑lhe exigida com as dez maternidades, gestão de uma família numerosa e um trauma causado pela morte de três filhos44 que não
chegaram à vida adulta. Para não falar na ausência de medicação para enfrentar constante sofrimento, como as dores de cabeça recorrentes, algo para o que não existiam, na altura, as soluções triviais de hoje.
De resto, a capacidade de auto‑sacrifício de Emma Wedgwood já se tinha revelado anteriormente ao casamento, nos cuidados prestados à mãe, Elizabeth, após a ocorrência de aquilo a que na altura se chamou uma sezão e que poderá ser considerado um acidente vascular cerebral ou um ataque epiléptico. Aliás, a atenção ao estado de saúde da mãe é recorrente nas suas notas. Com efeito, a 20 de Maio de 1833, ano anterior ao casamento, Emma regista no diário: «Mamma ill»,45 a que se segue outra alusão («m. ill»),46 a 21 de
Outubro do mesmo ano, para citar apenas dois exemplos.
A par da família, exigiu‑se, ainda, uma gestão delicada da vida pública, dadas as controvérsias em que Darwin se viu envolvido com o impacte da publicação das suas obras. Essa situação é salientada por D’Cruze, quando alude à religião como âncora espiritual para os confrontos do dia‑a‑dia, sublinhando a importância da domesticidade no papel de equilíbrio entre as esferas pública e privada:
Inspired and buttressed by evangelical or «serious» religion, the middle‑class family home had become the affective and moral site of refuge from the harsh, industrializing world. (D’Cruze 1��5�1��8: 53).(D’Cruze 1��5�1��8: 53).
A relação entre o percurso de Emma Darwin e o conceito de auto‑sacrifício, no sentido em que abdica de se tornar no centro da sua vida, em prol da família, vem de trás. D. C. Peattie, por exemplo, em Green Laurels – The Lives and Achievements of the Great Naturalists, refere:
44 Anne Elizabeth (1841‑1851), cuja morte abalou profundamente o casal; porém, antes já tinham visto
desaparecer Mary Eleanor (1842), aos dois meses e Charles Waring (1856‑1858), que padecia do que, mais tarde, foi diagnosticado como síndrome de Down.
45 Wedgwood 1833. Emma’s diaries. URL: http:��darwin‑online.org.uk�content�frameset?itemID=CUL‑
‑DAR242%5B.2%5D&viewtype=image&pageseq=1. Consultado em 5.8.2010).
«One might suspect that she was a natural husband‑manager, if we did not know how she outdid her sex in her self‑sacrifice for her mate». (Peattie 2007: 304‑305). Este autor salienta o precário estado de saúde do cientista e a forma como Emma Wedgwood lhe proporcionou a dedicação exclusiva ao seu trabalho, assumindo as tarefas da gestão familiar:
Emma Darwin faught unremittingly the battle for her husband’s bodily life, lifting from his shoulders every least care, staving off the host of friends and enemies and curiosity seekers that plagued him, guarding his sleep, his working hours, his every step, taking in the tedia of the home the place of the master as well as mistress. She gave up completely the social life that she loved, for the utmost retirement in deep country. Beyond all question, she preserved the length of his life, and hourly made possible every stroke of work that came from his brain and pen. (Peattie 2007: 305).Peattie 2007: 305).47
Esta avaliação do contributo de Emma Wedgwood para o bem‑estar do marido não podia ser confirmada com mais adequação do que com umas breves linhas do próprio Darwin, em Autobiography: «My chief enjoyment and sole employment throughout life has been scientific work». (Darwin 1887/1958: 116). Caso para nos interrogarmos sobre o que teria sido de Charles Darwin se não tivesse tido Emma Wedgwood por perto. Porém, é de justiça acrescentar que a plena e exclusiva dedicação do cientista ao seu trabalho foi proporcionada também pelas famílias (os pais de ambos) que, à data do casamento, estabeleceram um fundo financeiro, cuja gestão lhes permitiria viver sem que qualquer pressão fosse exercida sobre Darwin para que obtivesse resultados imediatos do seu trabalho,
47 A citação, que reforça a ideia que defendo nesta tese, não pode ser incluída sem um comentário: embora a
publicação seja recente, Peattie é desmentido no que respeita à aludida reclusão do casal Darwin, em particular de Emma Wedgwood. Lendo o diário de Emma, que cobre várias décadas, desde a adolescência até ao ano anterior à sua morte, testemunha‑se a intensa vida social de que usufruiu. São anotadas visitas constantes, principalmente de familiares próximos e amigos, saídas regulares para breves visitas noutras localidades e mesmo ao estrangeiro e, frequentemente, a Londres. Emma nunca deixou de se deslocar à capital, enquanto a saúde lhe permitiu, para bailes, festas, almoços, jantares, chás e outros eventos sociais, além de visitas a exposições, espectáculos musicais e teatro. A noção que se tem é de que o texto é anterior à publicação – de resto muito esclarecedora, dos diários de Emma Wedgwood – o que não se confirma pela data da publicação da obra de Peattie, nem pela sua alusão à correspondência da família, publicada por Henrietta Litchfield.
com a publicação de livros. Ou, em alternativa, para que não tivesse de dedicar‑se a outra ocupação que não a investigação e a escrita, dada a obrigação de manter a família.
A relação de Emma Wedgwood com a obra de Darwin é ainda explorada por Peattie, que escolhe uma passagem, para sublinhar a delicada posição em que a divulgação da obra de Darwin, referindo‑se a The Descent of Man, colocou Emma, por causa das suas convicções religiosas, um tema que abordarei mais à frente em pormenor:
“I think it will be very interesting, but that I shall dislike it very much as again putting God further off.” But in afters years, a widow, she noted some oxslips in the wood, that differed remarkably among themselves; she wrote then: «How [Charles] would have been pleased to see so much variation going on!» (Peattie 2007: 323).
A expressão citada por Peattie está contida numa carta de Emma a Henrietta, no início do ano de 1870, quando a filha do casal se encontrava em Cannes e Darwin lhe enviou as provas da obra The Descent of Man. Este comentário revela que Emma Wedgwood já tinha lido o texto e que, embora reconhecesse o seu valor científico, continuava a sentir incómodo com a postura de Darwin perante a Criação, principalmente a sua argumentação a respeito da diversidade patenteada por uma mesma espécie. A prova de que Emma não só era sensível aos argumentos de Darwin, como estava preparada para observar a Natureza em seu redor, é visível pelo comentário acima citado por Peattie.
O papel de Emma Wedgwood na família e, em particular, no apoio quotidiano ao marido, foi reconhecido, como se depreende de uma das muitas recensões críticas à obra
Life and Letters, editada por Francis Darwin, a primeira com cariz autobiográfico a ser
publicada. O texto salienta a união perfeita entre os dois, relevando a adequação ao casamento com um cientista do perfil de Emma:
We must remember that, not only was Darwin a man of science, but that he was also an invalid; and he must be congratulated on finding a partner who shielded him so completely from all annoyance, whose chief care was to ajust his life so
as to free him from all outer cares, and whose unwearried efforts allowed him to bear up against weariness and suffering, and to accomplish the work of his life. ��n�nimo 1������n�nimo 1���� 336‑353).
Mas mais do que o apoio emocional, a influência de Emma Wedgwood é sintetizada, de forma pragmática, num artigo do jornal The Spectator�
How, then, did she influence his work? Charles described Emma as his `wise adviser and cheerful comforter’. She made his work easier in the sense that she provided a more comfortable environment than he might otherwise have enjoyed, and his marriage had some effect on his thought processes. The death of their ten‑year‑old daughter, Annie, confirmed his loss of faith, but he accepted that his wife remained a believer, and his unwillingness to distress her tempered his agnosticism. �Lisle 2001).
A dedicação de Emma à família, tal como é encarada hoje, já era salientada na altura, pelo menos aquando da edição de Life and Letters. Era vista pelos mais pr�ximos, em particular os filhos, como alguém de grande dedicação à família e a Charles Darwin, encarando essa tarefa como um projecto de vida. As exigências quotidianas impostas a Emma Wedgwood não eram, como se poderá calcular, de somenos. A doença de Darwin, a sucessão de maternidades, a gestão de uma casa familiar com envergadura, com um séquito de empregados4� ao serviço e a manutenção de contactos sociais na família agregada e fora dela
exigiam‑lhe energia física e anímica e uma capacidade multifacetada. Não é de surpreender que lhe tenham conferido uma autoridade, poder e respeitabilidade que lhe eram consensualmente reconhecidos. O papel da mãe de família converte‑se, assim, num pivot dos restantes elementos, criando‑se uma relação de dependência, que passa pelo domínio de determinados espaços dentro da residência familiar, como os destinados às crianças, a
4� Seriam seis a oito os empregados dos Darwin, entre os quais o sempre citado mordomo Parslow, verdadeira
personagem de romance, que esteve ao serviço da família durante 36 anos, desde o casamento, até que se reformou.
cozinha, onde as figuras femininas imperam e o estúdio, reservado à figura paterna, principalmente no caso de se tratar de alguém que trabalha e escreve em casa. De alguma forma, Virginia Woolf confirma esta divisão de espaços, ao reivindicar um espaço de escrita dentro de casa, reservado a si, no caso, uma autora. (Woolf 1929/2008).
Este papel centralizador na família poderá ser mais bem entendido se visualizarmos a residência (hoje casa‑museu do cientista), descrita numa carta de Darwin à irmã, Catherine, datada de Julho de 1842, dois meses depois de o casal ter adquirido a habitação e ali se ter instalado. A alusão permite ter uma ideia do local e do encargo que representaria para Emma Wedgwood a gestão decorrente. Salienta‑se a localização (a um quarto de milha de Downe,49
Kent) e as acessibilidades (por via férrea e com comboios frequentes), a duas horas de London Bridge, segundo o cálculo do cientista; a proximidade de uma aldeia simpática e com habitantes de trato agradável (conhecidos pela sua apetência como executantes musicais), dotada de todo o comércio e serviços essenciais à vida familiar. Tratava‑se de uma habitação de três andares, com espaços sociais (sala de jantar, sala comum e estúdio), no piso térreo e diversos quartos, além de espaço fronteiro, árvores e terreno para cultivar nas traseiras.
Darwin garante ainda que poderiam reunir‑se ali várias famílias (refere‑se, possivelmente, à família agregada, cujos elementos visitavam regularmente os Darwin); o cientista não se esquece de mencionar a canalização de água e a existência de duas casas de banho, espaço na propriedade para alojar animais50 e uma segunda residência no perímetro da propriedade.
Perto do fim da vida, em 1877, o cientista passou a dispor de um segundo estúdio, para o qual transitou todo o recheio do inicial. A propriedade dispunha, no exterior, de uma estufa e de um laboratório, além de um court de ténis com piso duro, de acordo com um dos documentos privados de Darwin.51
49 Uso a grafia tal como figura no documento, embora, noutros textos, a mesma localidade surja grafada
«Down».
50 O proprietário anterior mantivera três vacas, um cavalo e um burro e ainda tinha lucro vendendo algum feno
todos os anos, já que tinha sido ali instalada uma quinta de produção agrícola.
51 Historical and descriptive catalogue of the Darwin Memorial at Down House (35 pp.) (c. 1946?), CUL‑
‑DAR132.1. URL: http://darwin‑online.org.uk/content/frameset?viewtype=text&itemID=CUL‑DAR132.1& pageseq=1. (Consultado em 5.8.2010).
Segundo a carta acima referida, a casa não agradou inicialmente à mulher de Darwin. Porém, a acreditar nas palavras do cientista, Emma já tinha ultrapassado nessa data a impressão inicial e acabou por aceitar e afeiçoar‑se ao edifício recém‑adquirido. Darwin reconhece, na carta à irmã, que Emma ficou desiludida com a casa, assim como com as redondezas, o que atribui ao facto de a luz, no dia em que visitaram a sua futura residência, não ser a mais apropriada e agradável e a temperatura baixa, com vento. A decisão de Darwin acabou por prevalecer sobre a primeira impressão negativa de Emma que, ou deixou a decisão final ao marido, ou foi vencida nesta escolha.
A casa de Down foi comprada pelo casal, como refere Darwin (e não alugada, como era vulgar na época), o que evidencia o poder de compra dos Darwin, que dispunham de uma dotação52 para a sua gestão do quotidiano. De acordo com Freeman, até à morte do pai,
em 1848 (nove anos após o casamento), Darwin fora inteiramente dependente deste, não dispondo de dinheiro próprio, à excepção do montante decorrente do acordo nupcial com