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O conceito de atividade como força que impulsiona

No documento CLAUDETE FRANCISCO DE SOUSA (páginas 64-70)

CAPÍTULO 2 – BASES CONCEITUAIS QUE ORIENTARAM A PESQUISA

2.4. A ergologia

2.4.3. O conceito de atividade como força que impulsiona

A noção de atividade é compreendida na ergologia como algo essencialmente motriz na história. Para explicar a sua trajetória e alimentar a perspectiva ergológica, Schwartz (2007) direciona seu olhar para a filosofia e propõe um esquema que compreende duas origens que não são interdependentes e que convergem para a unidade problemática do ser humano.

65 Figura 2: As duas origens do conceito de atividade (SCHWARTZ, 2007, p.123)

É com esse olhar no passado que Schwartz (2007) busca esclarecer os problemas com a utilização do conceito de atividade e, ainda, contribuir para sua compreensão.

Pensado como uma articulação ou síntese que trabalha com uma dupla herança, um dos caminhos da noção de atividade se desenvolve a partir da inquietude filosófica sobre a possibilidade de o ser humano acessar o universal, remetendo a questões sobre ‘como conhecer a verdade?’. Assim, Schwartz (2007; 2008) se debruça sobre a linhagem da Tätigkeit, convocando grandes filósofos para sua reflexão.

Platão e Descartes figuram nos dois eixos e na linhagem voltada para o conhecimento da verdade, ainda que, por meio de estratégias conceituais diferentes, os referidos filósofos deixaram como legado a compreensão de uma divisão no interior do ser humano. Ou seja, espírito e alma de um lado; e sensibilidade, corpo, paixões e sentimentos (que podem ser obstáculo ao nobre trabalho de conhecer) do outro.

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Com Descartes, segundo Schwartz (2007), situa-se possivelmente a primeira aparição de algo que remete à atividade, pois, como postulou o filósofo, a fim de garantir o conhecimento verdadeiro se processaria uma sinergia de partes ‘heterogêneas’

de nós mesmos (do entendimento, da imaginação, dos sentidos e da memória). Esta compreensão incorreria no processo obscuro e enigmático da atividade.

Emmanuel Kant, no final do século XVIII, deu à ideia de atividade um estatuto determinante, por meio da palavra Tätigkeit, que, traduzida, denota um poder de costura, de mediação, altamente enigmático das faculdades humanas da sensibilidade e do entendimento. Atividade é, para Kant, “uma obscura sinergia de heterogêneos em nós” (SCHWARTZ, 2007, p. 126). Ou ainda, conforme apontou Schwartz (2008, p. 44),

A Tätigkeit é uma experiência humana de vaivém obscuro entre diversas faculdades intelectuais do homem, essencialmente entre seu entendimento e sua sensibilidade “Arte escondida”, cujo emprego é para Kant indispensável para que exista para nós uma experiência, mas de que não poderá jamais desvendar os segredos.

Seguindo nesse mesmo eixo de pensadores, Fichte, Hegel e Marx são responsáveis por um curto, mas intenso desenvolvimento do conceito de atividade.

Após o ano de 1845, o conceito parece ter entrado em declínio pela ampliação que lhe foi dada e que resultou no abandono de evidenciar a sinergia enigmática das faculdades heterogêneas. Foi então, com a psicologia soviética, que o termo Tätigkeit foi reelaborado por Vygotsky e Leontiev33, que se apropriam dos estudos de Marx e retomam o referido conceito desde a sua utilização no Capital. De acordo com Schwartz (2012a, p. 116), estudos da psicologia soviética34 tiveram a noção de atividade como objeto e contribuíram para uma efervescência do conceito que estava “adormecido há algumas décadas em uma espécie de vazio filosófico”. É o período em que a noção de atividade se renova e, ao ser convocada pela ergonomia da atividade (anos 1970), se transforma em conceito matriz e passa a instrumentalizar e redesenhar fronteiras, objetivos e metodologias de diversos campos (SCHWARTZ, 2005; 2007)35.

Este eixo é caracterizado como o eixo do impossível, porque a total antecipação ou padronização dos processos de trabalho, como o próprio nome denota, é impossível.

33 Sugerimos, para um aprofundamento do conceito de atividade a partir da psicologia russa, os estudos de SANTOS (2004) e Rezende (2014).

34 Schwartz também inclui o pragmatismo americano (SCHWARTZ, 2012a)

35 A noção de atividade é reapropriada também nessa época pela escola de sistemas ou teorias de atividade (SCHWARTZ, 2007).

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Assim, a atividade humana, como um processo obscuro, se desenvolve entre o que é antecipado, planejado e o que é realmente feito. Ela é uma convidada que jamais poderá ser dispensada (SCHWARTZ, 2007). O determinismo e a aceitação da atividade como um protocolo experimental são recusados, pois a vida é caracterizada pela variabilidade.

Com esta concepção, a tentativa de antecipar a atividade sempre encontrará limites, inclusive no ato do trabalho, contexto caracterizado por inúmeras variabilidades e infidelidades em que é impossível e invivível para o homem ser estritamente um executante de normas (CUNHA, 2011; SCHWARTZ, 2012b).

O segundo eixo contempla o fazer industrioso (o enigma do agir técnico) e possui questões, como: como é possível na dinâmica do ato industrioso fazer cooperar a vida? Fazer viver junto o biológico e o cultural? O corpo e o espírito? O geral e o local?

As normas heterodeterminadas e aquelas que são dadas por meio das renormatizações?

Ou, ainda, como admitir que o homem, por meio de sua habilidade técnica, consegue unir misteriosamente dimensões tão diferentes, como o conhecimento incorporado e o conhecimento metodológico? Não esquecendo que, por trás desses debates, existem relações entre o fazer e os valores.

Schwartz (2007; 2008) encaminha sua reflexão com Platão, que lança mão do conceito de Techné e aplica-o aos artesãos, remetendo a uma espécie de arte do kairos, a um conhecimento obscuro. O interesse pelo saber-fazer dos artesãos36 atravessa todos os diálogos platônicos e, “num certo sentido, faz do ‘agir em competência’ [tradução possível para a palavra Technè], uma interrogação, um enigma, um possível modelo de saber para Platão” (SCHWARTZ, 2008, p. 28)

A sabedoria dos artesãos também interessou a Descartes e foi notória a sua preocupação com o fazer industrioso. Segundo Schwartz (2008), Canguilhem observou no artigo Descartes et la Technique, escrito no ano de 1937, que a reflexão sobre a significação da técnica poderia ser concebida como tema central no sistema cartesiano.

Assim, no que concerne ao enigmático da atividade, seria significativa a reflexão de Descartes feita em uma carta no ano de 1629, dirigida a Ferrier, seu cortador de lentes, quando reconhece que “acontecem mil encontros no decorrer do trabalho que não se podem prever no papel” (DESCARTES apud SCHWARTZ, 2008, p.27). Saber tratar desses encontros seria um pouco o gênio próprio do artesão.

36 Saber-fazer artesão sem saber teórico.

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Leibniz, décadas depois, dá continuidade à curiosidade cartesiana e incorpora em sua reflexão sobre o ‘fazer industrioso’ a dimensão de encontro, afirmando que é preferível o operário homem lábil, “capaz de achar expediente em todo tipo de encontros que um meio cientista cheio de uma ciência imaginária” (LEIBNIZ apud SCHWARTZ, 2008, p. 29).

O período de aprendizagem do bom senso filosófico junto aos homens de profissão é encerrado com Diderot por meio da Enciclopédia. Trata-se de meados do século XVIII e as primeiras manufaturas anunciam a revolução industrial. O assalariado operário emerge na Grã-Bretanha antes de alcançar o continente europeu. Diderot (apud SCHWARTZ, 2008) fala da necessária humildade do filósofo em relação ao gênio artesanal e situa o fazer industrioso como enigmático. Este filósofo se vangloriou de ter visitado os melhores artesãos de Paris para saber como se comportavam para produzir seus objetos – a prática da arte –, atribuindo-lhe uma consideração mais importante, inclusive, que a própria reflexão sobre tal prática (SCHWARTZ, 2010).

Ainda no fim do século XVIII, Kant aborda na Terceira Crítica a noção de talento e, com uma reflexão sobre o fazer artístico (o gênio), temos novamente o ‘livre jogo das faculdades’. A atividade é compreendida como “síntese ou sinergia de atividades” (SCHWARTZ, 2007, p. 128).

Seguindo toda essa elaboração filosófica que implica uma concepção de relações entre vida, agir técnico e atividade conceitual, Schwartz (2007) continua seu esquema sobre a história do conceito de atividade e aponta a relevância dos estudos desenvolvidos pela filosofia bergsoniana, pelo médico alemão K. Goldstein e pelo antropólogo A. Leroi-Gourhan.

Todavia, é com Georges Canguilhem, leitor dos referidos filósofos, que Schwartz finaliza seu esquema. Canguilhem, como vimos, se debruçou sobre o que é a vida e considerou a saúde como um debate sempre renovado entre as normas anônimas originadas do ambiente e as normas que cada ser vivo produz e tenta promover.

Concebida como a disposição em produzir a norma na confrontação ao ambiente natural e social, a atividade para Canguilhem pode ser vista como uma expressão da vida humana. Atividade enraizada no esforço espontâneo do vivente para dominar o meio e organizá-lo segundo seus valores (CANGUILHEM, 2001).

Este é o eixo do invivível, do insuportável, no qual é retratado que o controle total do fazer industrioso é impossível. Por esse motivo, não é possível ao homem estar estritamente submetido ao meio e às normas. A ergologia se apropria destas premissas e

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as concebe como um postulado fundamental: é impossível e invivível que a atividade humana se reproduza de modo idêntico. Por ser impossível e invivível uma repetição estrita, que se estenda ao agir humano, existe uma dimensão da ordem do que não pode ser planejado, prenormalizado e preestabilizado (SCHWARTZ; DURRIVE, 2010;

2015).

Tendo por bases estes fundamentos, Schwartz (2005; 2007) caracteriza a atividade humana da seguinte maneira:

1) Como uma noção que transgride, que não é localizável, mas que tenta recosturar, reagregar a unidade do ser humano penetrando em todas as suas dimensões. Ela perpassa o consciente e o inconsciente, o verbal e o não verbal, o biológico e o cultural, o mecânico e os valores, e não é propriedade ou objeto específico de uma única disciplina cientifica, pois uma apropriação exclusiva seria, em alguma medida, mutilação. Por isso, a atividade interpela todas as disciplinas, mas não pertence a nenhuma delas.

2) Como um poder de mediação entre cada nível da experiência humana. Evitar o invivível, o insuportável, para o homem significa uma tentativa reconduzida, dia após dia, de assegurar a saúde para além do sentido médico stricto sensu. O homem tenta de forma constante criar um espaço social, um espaço industrioso, por meio de suas próprias normas de vida. Assim, a vida em nós, incluindo a vida no trabalho, será sempre uma luta para manter e promover seus próprios valores no mundo social e histórico. Por meio desse esforço permanente e dos valores, a atividade, incluindo a atividade de trabalho, se desenvolve. Dialéticas são instauradas entre todos os campos, mediações entre o individual e o coletivo, entre os níveis macroscópicos e microscópicos da vida social. Os valores humanos não ficam e não podem ser confinados em um único posto de trabalho ou em um único lugar. Um valor será sempre um operador de mediação.

3) Os debates de normas não deixam de ocupar, de compreender a atividade humana: debates entre normas antecedentes, enraizadas nos meios de vida, e as tendências à renormatização ressingularizadas pelos seres humanos. Os valores concernentes à vida social interferem nesses debates. Por essas razões, a atividade humana é atravessada por contradições potenciais, revelando-se como uma matriz autêntica da história humana.

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A atividade humana é atravessada por contradições e perpassa, como vimos, várias dimensões, incluindo a dimensão dos valores. A vida, até mesmo a que se desenvolve no trabalho, é sempre uma luta para garantir seus próprios valores. Nesse processo, inúmeras mediações ocorrem por meio de debates que são inerentes à atividade humana. A entidade enigmática encarregada de operá-los, conforme será visto a seguir, é chamada de ‘corpo-si’.

No documento CLAUDETE FRANCISCO DE SOUSA (páginas 64-70)