CAPÍTULO 5 – OS DEBATES REALIZADOS POR MEIO DOS ENCONTROS
5.3. Eixo de análise III: Os constrangimentos no trabalho da equipe
5.3.2. As dificuldades na definição de prioridades
Tema presente em todos os Encontros, a dificuldade da equipe na definição e hierarquização de suas prioridades foi relacionada pelas técnicas com o excesso de demandas endereçadas à seção com caráter de urgência.
Mas o início dessa discussão foi caracterizado por um fervoroso debate no primeiro Encontro provocado por Isabel, ao refletir sobre os impedimentos da equipe para escrever a política da seção.
Isabel: A equipe tem falado muito do trabalho, mas não escreve, não guarda isso no tempo e no espaço. (...) Eu acho que a gente tem falado, mas falado sobre o que a gente faz, às vezes sobre a gente mesmo, a gente conversa, mas o que sinto falta e acho que seu trabalho vai contribuir bastante, muito mesmo, é isso [pausa na fala] é a gente ver isso escrito.
[...]
Isabel: Eu acho que ela [Claudete] vai dar um passo importante, que a gente coletivamente não consegue, não é que não consegue, a gente faz, mas é uma coisa que sempre está inacabada. (...) Não que você vá dar a resposta final sobre tudo (...), mas eu acho que você vai conseguir tirar uma fotografia mais nítida e mostrar pra gente, para si, enfim para a comunidade acadêmica. A gente fica ensaiando fazer isso, mas fica sempre preterido. (...) Está sempre no gerúndio, não é? Fazendo, construindo!
Sofia: Mas assim, Isabel, eu acho que a pergunta que fica é: por que a gente não consegue escrever? [pergunta respondida logo em seguida por Inês]
Inês: Porque [somos] atropelados por um monte de demanda que não é nossa e nem é necessidade nossa!
Isabel: Não sei. Acho isso uma desculpa.
Inês: Isabel! [tom de indignação]
128 Operador compreendido como aquele que opera e realiza uma tarefa, contempla qualquer área do espectro laboral, do aprendiz ao engenheiro, do agricultor ao cosmonauta, até o programador informático (TEIGER, 2005).
197 Isabel: Isso existe. Eu acho que isso existe. Não estou dizendo que não existe.
Inês: Isabel? Como assim é desculpa? [Em tom de espanto, ao mesmo tempo em que Isabel ainda falava]
Isabel: Mas o porquê? Não acho que é isso não!
Sofia: Mas você acha que a culpa é nossa?
Isabel: Porque não é prioridade nossa. Não é prioridade!
Sofia: Tá, mas você acha que a culpa é nossa?
Isabel: Não! A prioridade nossa é atender!
Filipa: Eu acho que a gente tem uma demanda absurda de trabalho. Gente, eu fui beber água hoje duas horas da tarde. Eu cheguei, consegui ir ao banheiro pegar água quase duas horas. Eu almocei em dez minutos para vir para cá.
Inês: O SEI não é demanda minha.
Isabel: Eu sei... Só estou dizendo: não é prioridade (...) a gente não reserva horário, dia e hora, nem que seja assim mensalmente.
Sofia: Tá... Mas, pensando no que está acontecendo agora ultimamente, (...) toda quarta-feira reunião do SEI, tivemos que parar para fazer o planejamento nessa lógica, isso não tem nada a ver. É uma conjunção de fatores e a gente não dá conta de tudo porque o tempo é escasso, quer dizer, o tempo é fixo, mas, frente às demandas, é muita demanda para pouca [pausa na fala] o tempo que a gente tem para organizar as coisas é menor, a gente tem realmente que priorizar as atividades, os atendimentos. Então, assim, tudo mais que é muito importante a gente não consegue botar ali dentro.
O discurso sobre a dificuldade da equipe em definir prioridades deu visibilidade a diversos fatores que influenciam e incidem sobre o trabalho e que seriam, de acordo com Teiger (1992), os fatores determinantes e as consequências da atividade de trabalho. É evidente que há um nível significativo de sofrimento entre as técnicas e, por isso, importa chamar a atenção para os custos de ordem subjetiva e de saúde que decorrem da vivência das trabalhadoras em situação de trabalho. Poucos relatos se deram nos Encontros a esse respeito, mas é importante refletir que ‘o uso de si’ também é sofrimento em certas circunstâncias (CUNHA, 2019). Isso porque os trabalhadores vivem inúmeras dramáticas e são a todo o momento convocados a realizarem arbitragens. Isso se dá, pois
A gestão como verdadeiro problema humano, advém por toda parte onde há variabilidade, história, onde é necessário dar conta de algo sem poder recorrer a procedimentos esteriotipados. Toda gestão supõe escolhas, arbitragens, uma hierarquização de atos e de objetivos, portanto, de valores em nome dos quais essas decisões se elaboram. O trabalho nunca é totalmente expectativa do mesmo e repetição – mesmo que o seja em parte. As transformações do trabalho vão modificar, dilatar a dimensão gestionária; não vão inventá-la (SCHWARTZ, 2004b, p. 23-24).
A noção de arbitragem compreende a ideia de que o ser humano em atividade não é livre de qualquer constrangimento, tampouco é determinado como um robô. Por isso, ele
198
efetua incessantemente arbitragens que lhe permitem ao mesmo tempo obedecer a um procedimento e transgredi-lo, tendendo a fazer à sua maneira, no aqui e agora. As arbitragens supõem critérios mais ou menos conscientes, individuais e formalizados. É uma noção que não deve ser confundida com o termo arbitrário, que não tem em conta nenhuma regra. As arbitragens na atividade dão um papel às emoções, mas se referem, sobretudo, a debates de valores. Assim, é preciso colocar em dia os debates que são importantes na construção de nossa existência coletiva (DURRIVE; SCHWARTZ, 2008;
SCHWARTZ; DUC; DURRIVE, 2010c).
Os debates suscitados nos Encontros retrataram que a atividade tem sempre uma dimensão problemática importante. Neste eixo, as dramáticas do ‘uso de si por si’ e do
‘uso de si pelos outros’ vividas pelas trabalhadoras foram apontadas envolvendo histórias onde se desenvolvem de maneira permanente confrontações com diversos tipos de problemas. No entanto, isso é exatamente o que exprime o termo debate de normas (SCHWARTZ, 2008), ideia que orienta o presente estudo.
Ademais, falar de constrangimentos incorre em considerar os conflitos, os debates e o sofrimento vivido pelas trabalhadoras. E, em relação a este último, ainda que nos Encontros não se tenha dado destaque a essa questão, ela é importante, pois as dificuldades apontadas pelas técnicas na condução do trabalho não foram poucas. E mesmo que não haja, nesta tese, a pretensão de aprofundar a discussão sobre os reflexos na saúde física e mental das trabalhadoras oriundos dos constrangimentos elencados, há que ter em conta os aspectos que foram levantados, porque, eles podem contribuir para estudos futuros no que tange à questão.
Salientamos que, no momento presente, inúmeros autores se debruçam sobre o sofrimento no trabalho e fornecem pistas para se pensar nos custos que têm sido impostos às trabalhadoras desta equipe. Marc Loriol, sociólogo francês, por exemplo, se propõe ao estudo da fadiga e, ao abordar suas relações com o trabalho, faz uma interseção entre os campos da Sociologia do Trabalho e da Saúde do Trabalhador. O autor identifica, historicamente, uma distinção entre ‘boa’ e ‘má’ fadiga e estuda a construção social e a difusão da noção de ‘má fadiga’ compreendida como subjetiva e produzida pelo esforço intelectual e/ou pela vida urbana. Este conceito está em oposição à ‘boa’ fadiga – que advém de atividades livremente escolhidas, em harmonia com a natureza e a natureza humana –; a fadiga ‘ruim’ não desaparece com o repouso, é crônica e resulta de atividades ou modos de vida contrários à ‘natureza humana’. Para este autor, a importância da questão da fadiga, sobretudo aquela que resulta do trabalho, deve-se ao fato de que ela:
199 (...) testemunha uma dimensão importante da vida social das sociedades industriais e pós-industriais, já que exprime, de alguma forma, os fundamentos corporais e psíquicos da ação humana e mais particularmente os limites das capacidades e da motivação do homem enquanto produtor (LORIOL, 2000, p. 3, tradução livre).
Temos visto, nesse sentido, a significativa influência das características atuais do trabalho sobre a saúde mental daqueles que trabalham e que pode decorrer de inúmeros fatores e situações, entre os quais:
(...) a formas de organização do trabalho e políticas de gerenciamento que desconsideram os limites físicos e psíquicos do trabalhador, impondo-lhe frequentemente a anulação de sua subjetividade para que a produção não seja prejudicada e as metas estabelecidas sejam cumpridas (SELIGMANN-SILVA et al., 2010, p. 187).
São configurações em que, de acordo com Seligmann-Silva (2011), o trabalho tanto poderá fortalecer a saúde mental quanto vulnerabilizá-la e gerar distúrbios que se expressarão coletivamente e no plano individual. Temos em conta a dimensão micro e macro dos determinantes que incidem sobre a equipe da SAT. Falamos de um coletivo que tem como foco intervir na universidade, a fim de contribuir para a transformação dos espaços de trabalho. Porém, é preciso considerar como esse cuidado tem se dado na própria equipe. É importante que a equipe tenha liberdade junto a seus pares e chefias para compartilhar suas queixas, angústias, frustrações e dificuldades em relação à organização do trabalho. Isso porque essas críticas nascem da experiência do trabalho e se aprimoram nas discussões coletivas. Mediante esta via, inclusive, os conflitos podem ser abertamente trabalhados no intuito de alcançar uma transformação genuína da realidade (DEJOURS, 2012b).
Observamos que, em um contexto de adversidades e frente às dificuldades da organização do trabalho, o trabalhador contribuirá em segredo com ajustes e estratégias para a resolução dos problemas; porém, essa conduta tem como resultado a emergência de contradições entre as pessoas (DEJOURS, 2011a). Como essas contradições não são imputadas à organização, elas irrompem em conflitos interpessoais onde o próprio trabalhador se responsabiliza ou é responsabilizado pelas imperfeições do trabalho, conforme apareceu na indagação de Sofia a Isabel no primeiro Encontro, quando dialogavam sobre a dificuldade da equipe em definir as suas prioridades e Sofia pergunta a colega: “Mas você acha que a culpa é nossa?”.
200
As trabalhadoras reconheceram que não conseguem fazer frente às exigências do real, conforme a reflexão de Filipa.
Filipa: Foi um momento reflexivo mesmo e outro dia eu estava me deparando com a pergunta: por que a gente não dá conta? (...) é uma enxurrada de demanda que chega, e, às vezes, sinto que temos que dar respostas mais imediatas para situações pontuais do que para as intervenções do coletivo que demandam mais preparação, organização e planejamento. (...) quem define a nossa prioridade? A gente tem autonomia absoluta para definir a nossa prioridade? Ou a gente tem que responder a demanda que chega? (...) (3° Encontro)
O tema da organização do trabalho permitiu que o grupo reconhecesse a impossibilidade de antecipar e controlar completamente uma situação. Todavia, foram ponderados os prejuízos de uma incorporação naturalizada e irrefletida dos imprevistos na condução dos processos de trabalho. Desse modo, as questões micropolíticas tiveram destaque por interferirem diretamente na rotina da seção:
Inês: (...) se fôssemos fazer o exercício de pensar e quantificar para ter mais ou menos uma ideia do que vem de demanda externa, eu duvido que a gente encontre demandas externas do Governo Federal (...). (5° Encontro)
Isabel: É mais provável vir [demandas] da [nossa área]. (5° Encontro)
Inês: Isso é que não entra na minha cabeça, entendeu? (...) Não tem por que nos atropelar. Uma coisa é o Ministério, como já aconteceu, vivemos isso: “vai parar de abrir concurso” e chamamos todo mundo (...). Isso eu entendo que é uma demanda do Governo Federal, até porque tem uma lista de pessoas com suas vidas (...). Só que as nossas demandas acabam sendo muito próximas e teria como nos organizar melhor, só que, por alguma razão, isso não acontece (...).
(5° Encontro)
A reflexão das trabalhadoras aponta que as dificuldades vivenciadas pela equipe estão relacionadas ao modo de funcionamento da universidade. Porém, atentamos que, por sua vez, este modo de funcionamento está atrelado à conjuntura econômica, política e social do país. São os determinantes em nível global que incidem sobre o modo de funcionamento da universidade, não sendo possível desvincular completamente uma coisa da outra. O debate sobre as convocações é um exemplo muito claro a esse respeito.
Acontece que, mediante o debate de normas que caracteriza a atividade, outras maneiras de ver as coisas, outras perspectivas para viver e agir em conjunto são pensadas, dado que o ser humano nunca será passivo frente às mudanças que se apresentam, porque a atividade se caracteriza como reserva de alternativas (SCHWARTZ; DURRIVE, 2015).