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CAPÍTULO 2 – AS NORMAS DE COMPETÊNCIA

2.2. O CONCEITO DE COMPETÊNCIA

Antes, porém, de que nos possamos dirigir ao exame de cada uma das teses relativas à estrutura lógica das normas de competência, é preciso proceder a

179 Geografía de las normas de competencia, Doxa – Cuadernos de Filosofía del Derecho, nº. 15-16, p. 747.

180 Reglas de competencia y existencia de las normas jurídicas, Doxa – Cuadernos de Filosofía del Derecho, nº. 22, p. 383.

uma melhor identificação do objeto, esclarecendo o que se irá entender neste texto e, sobretudo, neste capítulo, por “competência”.

Isso é necessário em razão de que, tal como as palavras do discurso jurídico examinadas no capítulo anterior, também o vocábulo “competência” padece dos problemas da ambiguidade e da vagueza.

Aliás, mesmo no discurso do cotidiano, extrajurídico, a palavra apresenta mais de um sentido, podendo tanto expressar um juízo de valor sobre o resultado concreto (ou estimado) de uma conduta praticada por alguém – “Fulano é competente no que faz”; “Sicrano agiu de modo competente”; – como aludir a uma qualidade específica que torna alguém idôneo, isto é, capaz, habilitado, credenciado, ungido, legitimado para praticar determinada conduta – “Beltrano é competente para isso” 181.

Impossível não notar que os dois sentidos compartilham elementos comuns, na medida em que ambos ligam um determinado sujeito à sua qualificação para praticar uma determinada conduta. A diferença está em que, no primeiro, a qualidade (proficiência) do sujeito para praticar a conduta só é verificada a partir de uma avaliação empírica dos resultados que o sujeito obteve ou costuma obter ao realizá-la, ao passo que, no segundo, a qualidade (aptidão) do sujeito para praticar a ação lhe é atribuída por uma norma, previamente a qualquer atuação concreta.

É nesse segundo sentido, naturalmente, que o termo “competência” costuma aparecer nos discursos normativos em geral e, por extensão, no discurso jurídico.

“Ter competência”, nessa perspectiva, é ser dotado de uma qualificação – habilitação, capacidade, idoneidade, – atribuída por uma norma, para praticar um ato ao qual se atribui determinado valor no sistema a que pertence essa mesma norma.

Nesse sentido muito amplo, como diz GUIBOURG, “La competencia puede describirse como un tipo especial de relevancia normativa de ciertas conductas dentro de un sistema normativo dado” 182.

E, sob esse conceito mais elástico, podem ser consideradas “normas de competência” não apenas aquelas que regem a “competência” em sentido estrito,

181 Confirma-o TORBEN SPAAK, ao dizer que “Na linguagem do cotidiano, o termo ‘competência’

pode significar ‘proficiência’ ou ‘autorização’”. Tradução livre. No original inglês: “In everyday language the term competence can mean proficiency or authorization” – The Concept of Legal Competence…, op. cit.., p. 1.

182 Pensar en las…, op. cit., p. 129.

mas, também, as que regulam a “capacidade”, a “legitimidade” e mesmo a normalmente vista como a aptidão de um sujeito para cometer um delito, ou como a qualificação para sofrer uma sanção penal; (iii) a capacidade é identificada com a possibilidade de um sujeito praticar atos válidos no plano do exercício da autonomia privada – capacidade para contratar, para casar, para testar etc.; – e, finalmente, o termo (iv) legitimidade é reservado para designar a prerrogativa que alguém tem de formular um pedido – legitimidade processual, por exemplo – ou praticar um ato em representação de outrem – v.g., legitimidade do representante legal ou do mandatário 183-184.

É precisamente nesse sentido mais estrito, de habilitação para expedir normas heterônomas, que se usará do termo “competência” neste capítulo. Não se deve, contudo, perder de vista essa clara relação de proximidade do conceito em questão com as ideias de “capacidade”, “legitimidade” e “imputabilidade”, pois o

“parentesco essencial”, que KELSEN bem enxergou entre tais conceitos, diz sobre eles muito mais do que poderia parecer à primeira vista 185.

183 Restringiu-se, aqui, a noção de “capacidade” ao seu uso mais corrente, próprio do direito privado, muito embora não faltem exemplos de figuras afins, no campo do direito público, que também são referidas sob esse signo. Basta pensar, por exemplo, na ideia de capacidade tributária ativa, vista como a possibilidade de alguém ser sujeito ativo numa relação jurídica tributária, isto é, de ser credor de tributos.

184 TÉRCIO SAMPAIO FERRAZ JUNIOR diz, nessa linha, que “Competência e capacidade são, nesses termos, formas de poder jurídico...”, estando esta ligada ao “... poder de auto-vincular-se...”

e aquela ao “... poder heterônomo cuja função é capacitar o sujeito a dar forma a relações Competence, in Concepts in Law, p. 71. HART, por exemplo, trata tanto as normas atribuidoras de capacidade como as atribuidoras de competência como espécies do gênero das que “conferem poderes jurídicos” – O conceito de direito... , op. cit., p. 36. ROSS, a seu turno, por vezes chega mesmo a usar “competência” como sinônimo de “capacidade” – Direito e Justiça..., op. cit., p. 76.

No mesmo sentido é, também, o pensamento de NINO, segundo quem “Tanto la competencia, como la capacidad, pueden considerarse como autorizaciones para dictar ciertas normas. Se es capaz para modificar la propia situación jurídica; en cambio, se es competente para modificar la de otras personas” – Introducción…, op. cit., p. 222.

Essas primeiras elucidações, porém, ainda não resolvem o problema de identificar a quê nos referimos quando usamos a palavra “competência” neste trabalho.

Isso porque, não bastassem as ambiguidades que enevoam seu significado, a palavra “competência” também é, em certa medida, vaga, pois existe mais de um campo de aplicação possível para ela.

Realmente, é possível falar em competência (i) tanto para criar normas ou eliminá-las – como um legislador que edita ou revoga uma norma, ou como um juiz que cria a norma do caso concreto ou declara a inconstitucionalidade de uma lei, extirpando-a do sistema; – (ii) quanto para executá-las, num sentido mais estrito – como um funcionário público que cumpre uma ordem de seu superior – 186; (iii) quanto, ainda, para participar de sua criação ou aplicação – nos atos complexos, nos atos próprios de órgãos colegiados, ou nos atos de sufrágio.

Por isso, para divisar mais claramente o objeto da presente reflexão, é preciso apontar que, quando se aludir à “competência”, aqui, ter-se-á em vista, mais detidamente, aquela qualidade especial de que é dotado um sujeito normativo para produzir normas válidas no sistema jurídico.

2.3 PROPOSTAS TEÓRICAS SOBRE A FORMA LÓGICA DAS NORMAS DE