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4. Hashtags, hipertexto e conjuntos

4.1. O conceito de folksonomia e o funcionamento das tags

Não se pode negar que forças de mercado continuam a manipular a produção, a circulação e a permanência de conteúdos na web. O aumento do poder de participação que a web 2.0 trouxe aos usuários não excluiu totalmente as influências exercidas por grandes corporações sobre o que é produzido e publicado nos ambientes virtuais. Jenkins et al. (2013) apontam para questões como as disputas por direitos autorais nos meios da indústria cultural, por exemplo, que se tornaram comuns conforme muitos usuários independentes passaram a compartilhar vídeos e remixes em plataformas como Vimeo e YouTube. Os autores apontam para o fato de que, se por um lado a web 2.0 propicia condições para o espalhamento e disseminação de conteúdos midiáticos diversos, por outro ainda existem expectativas conflitantes a respeito do que seria uma participação justa e de como os conteúdos devem de fato se espalhar, o que demonstra que essas práticas participatórias ainda são contestáveis (JENKINS et al, 2013).

No entanto, mesmo entre controvérsias acerca do caráter efetivamente democrático da autoria e da participação na web 2.0, não há dúvidas a respeito do volume de informações que circulam no universo virtual. Entre os conteúdos produzidos por usuários comuns e àqueles manipulados por grandes corporações, continua a circular na web uma vastidão de informações. Diariamente, textos, músicas, vídeos, fotografias, gifs etc. servem de suporte para notícias, propagandas, conteúdos de entretenimento e outras tantas informações diversas. Dessas condições, emerge, então, a necessidade de que esse volume de conteúdos seja organizado e, de algum modo, classificado.

Nesse sentido, o arquiteto da informação Thomas Vander Wal cunhou, em 2004, o termo "folksonomy", cuja tradução adotada neste trabalho é folksonomia, também utilizada por autores como Catarino e Baptista (2009) e Rufino (2010). Para Wal (2006), a folksonomia é "o resultado da marcação livre e pessoal de informações e objetos (qualquer coisa com um URL) para a própria recuperação", e essa marcação "é feita em um ambiente social (compartilhado e aberto a outros)". O termo, derivado da aglutinação das palavras "folk" e "taxonomy", reflete esse movimento de designação categórica realizada por grupos. De acordo com Peterson (2006),

a taxonomia surgiu como uma tentativa de organizar informações sobre plantas e animais no mundo físico, e Aristóteles é frequentemente considerado o pai da classificação ou taxonomia. (...) Como nós, em última análise, nomeamos algo, reflete a categoria à qual atribuímos.

A maioria dos estudos sobre folksonomias provém do campo da Biblioteconomia ou da Tecnologia da Informação. São raros os trabalhos que abordam o conceito a partir de uma perspectiva linguística ou que pensem nos processos de tagueamento enfatizando as práticas sociais que os envolvem. Todavia, considerar essas práticas sociais como centrais para a compreensão das folksonomias é fundamental para que se possa entender como essa atividade e seus produtos se constroem, circulam e repercutem.

Rufino (2010) relaciona o tagueamento virtual à tendência humana de estabelecer classificações e argumenta que, diariamente, classificamos objetos e informações em nosso cotidiano. Ao organizar armários de roupas, comidas e livros, por exemplo, criamos categorias pessoais, baseadas em cores, tipos (calças, blusas, casacos; doces, salgados, perecíveis, não perecíveis), gêneros (acadêmicos, ficção), frequência de uso, entre outras. Esses casos tão comuns em nosso cotidiano nos propõem a pensar em outras circunstâncias nas quais nos organizamos a partir de classificações, como quando, ao estudar um texto, grifamos com cores diferentes trechos de aspectos distintos do estudo, a partir de interesses e raciocínios específicos e pessoais e, então, as próprias cores funcionam como etiquetas. Portanto, esse comportamento humano classificatório tão rotineiro não deixaria de ser manifestado nas práticas sociais digitais, uma vez que, nos ambientes hipermídia, reproduzimos muitas das atividades que realizamos nos contextos externos ao universo digital.

A folksonomia reflete essas práticas, pois é uma maneira de organizar e classificar conteúdos pautada na participação e na produção dos próprios usuários. Na síntese de Rufino (2010, p. 9),

com o crescimento cada vez mais acelerado de novas páginas na internet, a folksonomia, ou o uso de tags, traz uma grande contribuição para a categorização tanto de conteúdos disponíveis na internet como dos próprios Websites, consolidando, assim, seu papel como facilitadora da interação entre usuários de todo o mundo, proporcionando uma maior colaboração para a difusão de informação.

Contudo, Merholz (2004) considera o termo folksonomia inadequado justamente por remeter à taxonomia e defende o uso do termo "etnoclassificação". Nesse mesmo sentido, outros autores também propõem diferentes nomenclaturas para intitular o fenômeno. Catarino e Baptista (2009) esquematizam essas variações, apresentando os termos específicos utilizados e suas respectivas definições: para Marlow et al. (2006), tagging systems são os sistemas que possibilitam aos usuários acrescentar palavras-chave nos conteúdos da Web sem controlar o uso de vocabulários; Tennis (2006) recorre ao termo "social tagging" para se referir à prática de etiquetar e categorizar recursos publicamente em um ambiente compartilhado. Spiteri (2006) e Bogers, Thoone e Bosch (2006) entendem como social classification os metadados criados dos usuários da informação e os processos de categorização de uma comunidade de usuários.

Nesse trabalho, persisto na adoção do termo folksonomia por acreditar que, entre todas as opções terminológicas para se tratar de um mesmo fenômeno, a referenciação que o termo folskonomia faz à taxonomia não é um problema, mas, sim, uma importante remissão, pois, embora a taxonomia exista no campo dos estudos das ciências da natureza, existem, nas ciências humanas, muitos procedimentos similares, que, essencialmente, são outras classificações que realizamos em nosso dia a dia. Somar essa referência à ideia de que o processo e seus produtos são construções coletivas, provenientes dos movimentos autorais de uma massa de pessoas, ideia a qual a expressão "folk" carrega, é uma terminologia precisa porque transmite e enfatiza, justamente, a ideia de colaboração entre os usuários, que é um preceito da web 2.0.

Assim, os processos de tagueamento nos ambientes digitais refletem e, ao mesmo tempo, impulsionam a intervenção, produção e autoria de conteúdos na web. As tags funcionam como apoio às pesquisas, muitas vezes se assemelhando a palavras-chave que organizavam as buscas nos princípios da internet; também podem ser utilizadas para organizar coleções a partir do modelo mental idiossincrático dos usuários, mas, em muitos casos, funcionam principalmente como uma possibilidade de interação entre plataforma e usuário, aproximando-o da interface (MORRISON, 2007). Essa aproximação pode ser observada, por exemplo, em sites de compra e venda, onde os usuários podem atribuir notas ou estrelas aos produtos. Essa avaliação de qualidade não deixa de ser um sistema classificatório, que organiza os objetos em

grupos distintos, de acordo suas qualificações. As notas e estrelas servem, é claro, como informação útil a possíveis compradores, mas são, também, uma expressão de uma necessidade de interação entre o usuário e o site, uma manifestação responsiva à interface.

A criação e atribuição de tags na web são operadas por um modelo de indexação livre, isto é, não se limita nem se controla o vocabulário que será utilizado em uma etiqueta. Essa falta de regras preestabelecidas para categorização de conteúdos amplia a liberdade de expressão do usuário e expande possibilidades associativas que tendem a contemplar mais subjetividades e variedades culturais e interpretativas (CATARINO; BAPTISTA, 2009). Esse alto grau de liberdade autoral, entretanto, gera imprecisões: de acordo com Morrison (2007), quando as tags são palavras compostas ou termos muito específicos, a eficácia da ferramenta em buscas é altamente reduzida, do mesmo modo que a atribuição de tags muito genéricas, por exemplo, expressões como "sim", "não" e "talvez", deixam a caracterização do conteúdo muito vasta e ineficaz.

A subjetividade específica dos processos de autoria nas folksonomias faz com que um mesmo objeto possa ser descrito de maneiras muito diferentes. Morrison (2007) traz o exemplo da fotografia de um barco. Um usuário poderia etiquetá-la como "veleiro", outro como "escuna"; outro, ainda, poderia relacioná-la a "Miami" e um quarto, à "tranquilidade". O mesmo fenômeno está sujeito a acontecer com qualquer objeto nos ambientes virtuais. Uma fotografia de um comício político, por exemplo, pode ser etiquetada por diferentes usuários partindo do nome do político, do partido, da cidade onde a foto foi tirada, da pauta discutida na ocasião, dos sentimentos provocados, dos pontos reivindicados ou da menção aos patrocinadores. Da mesma forma, uma fotografia de uma refeição pode ser tagueada citando ingredientes, o nome do chef, do restaurante, da cidade, daqueles que acompanhavam a ocasião, das sensações envolvidas e assim por diante. Nesse mesmo sentido, Neal (2007) cita que, em uma fotografia qualquer, um usuário pode criar tags relacionadas às cores, ao ambiente, às sensações e às pessoas, enquanto um fotógrafo profissional pode etiquetar a mesma fotografia com tags relacionadas aos equipamentos e às técnicas utilizadas.

Esses exemplos demonstram que essa indexação livre das folksonomias expandem possibilidades autorais ao permitirem conexões interpretativas muito amplas e variadas. Para Morrison (2007), as tags são reflexos de julgamentos mais do

que de descrições, por isso, são expressões de opiniões dos usuários e, portanto, manifestações bastante subjetivas. Esse grau de subjetividade é um dos desafios de padronização e precisão das folksonomias, porém, existem, ainda, outras instabilidades do processo, já mapeadas por Catarino e Baptista (2009), tais como:

a) a falta de controle de termos sinônimos e homônimos: um usuário pode pesquisar uma tag e não encontrar um resultado porque o conteúdo a ser recuperado pelo sistema está tagueado por uma etiqueta sinônima ou homônima;

b) variações de escrita: a indexação livre também permite que ocorram muitas variações entre singular e plural de um mesmo termo, além de desvios ortográficos e diferenças idiomáticas;

c) inserção de símbolos: sinais gráficos como sinais de pontuação e caracteres diversos também são envolvidos por alta subjetividade autoral e podem prejudicar a efetiva recuperação;

d) os números: exceto quando marcam datas, tendem a gerar imprecisões nas associações;

e) as siglas: muitas vezes, uma mesma sigla referencia diferentes significados, expandindo os resultados apresentados e os tornando mais imprecisos;

f) formas mnemônicas: normalmente, expressadas em termos compostos por letras e números, como, por exemplo "4you" ou "2to", também geram desencontros e instabilidades nas organizações dos conjuntos.

Esses apontamentos demonstram que a busca e a recuperação de conteúdos nos processos de folksonomia são dependentes de muitas variáveis e podem estar sujeitas a imprecisões e subjetividades. Mas, além disso, outras questões relacionadas ao modo como as folksonomias são construídas pelos usuários também precisam ser consideradas: ambientes virtuais cujas arquiteturas preveem e estimulam interações reativas e mútuas entre os usuários (RECUERO, 2009) são ambientes em que a folksonomia pode protagonizar muitos desses nós. Assim, outras questões acerca da relação entre os usuários e a folksonomia são colocadas.

Se, conforme sustentam böyd e Ellison (2007), os sites de redes sociais têm como elemento fundamental a apresentação pública das conexões, a partir do momento em que se introduz como ferramenta tags clicáveis, ou seja, tags que são hiperlinks, essas tags passam a funcionar, também, não mais apenas como etiquetas classificadoras, mas como visualizades de conexões - entre conteúdos e informações,

dos usuários entre si e dos usuários com as interfaces. Zappavigna (2015) também nos lembra de que, ainda que os usuários não estejam conectados entre seus perfis ou interações nos ambientes virtuais, os espaços nos quais conjuntos de conteúdos tagueados são apresentados são espaços em que outros usuários se tornam potencialmente presentes.

Assim, visto que as folksonomias demandam reflexões complexas além das relativas às questões de busca e de recuperação, nas seções a seguir, discorro sobre outras especificidades relacionadas aos processos de tagueamento virtuais.