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O Conceito de Gênero e a Opressão do Patriarcado

TABELA 3 FAMÍLIAS QUE DOMINAM A COMUNICAÇÃO NO BRASIL

2. HEGEMONIA, GÊNERO, FEMINISMO E TRANSFORMAÇÕES CULTURAIS

2.5. O Conceito de Gênero e a Opressão do Patriarcado

A apropriação do conceito de gênero pelo movimento feminista foi uma tentativa de compreender as transformações socioculturais nas relações entre homens e mulheres. Apesar do reconhecimento, no mundo acadêmico, da “suposta” oposição entre o masculino e o feminino e da temática feminina ou das mulheres, principalmente nas análises da teoria social entre os séculos XVIII e começo do século XX, o conceito de gênero como categoria analítica só se firmou no fim do século XX. Um dos mais significativos impulsos para que o termo se popularizasse no Brasil se deu entre os fins dos anos 80 e início dos anos 90, com a publicação do artigo Gênero, uma Categoria Útil de Análise Histórica, de Joan Scott (1995).

O texto causou furor por convocar as feministas a abraçar o “desafio teórico” de instituir o gênero como categoria de análise. A publicação indicou, ainda, que o conceito estava intimamente relacionado com construções culturais e históricas. Essa noção era radicalmente contra a explicação meramente biológica a respeito da diferenciação entre os sexos e foi amplamente incorporada nos estudos feministas. “Trata-se de uma forma de referir as origens exclusivamente sociais das identidades

subjetivas de homens e mulheres. Gênero é, segundo esta definição, uma categoria social imposta sobre um corpo sexuado” (SCOTT, 1995:75).

A autora entende que a teoria foi proposta por aquelas que sustentavam que a pesquisa sobre as mulheres transformaria fundamentalmente os paradigmas disciplinares:

O termo gênero faz parte da tentativa empreendida pelas feministas contemporâneas para reivindicar um certo terreno de definição, para sublinhar a incapacidade das teorias existentes para explicar as persistentes desigualdades entre as mulheres e os homens (SCOTT, 1995:85).

Teles (2002) resgata o fato de que outras ciências também abraçaram o conceito de gênero como uma forma de explicar as desigualdades entre homens e mulheres:

A sociologia, a antropologia e outras ciências humanas lançaram mão da categoria gênero para demonstrar e sistematizar as desigualdades socioculturais existentes entre mulheres e homens, que repercutem na esfera da vida pública e privada de ambos os sexos, impondo a eles papéis sociais diferenciados que foram construídos historicamente e criaram pólos de dominação e submissão. Impõe-se o poder masculino em detrimento dos direitos das mulheres, subordinando-as às necessidades pessoais e políticas dos homens, tornando-as dependentes (TELES, 2002:16).

Para Fraser (2002), o feminismo passou a concentrar suas análises na noção do gênero como uma identidade ou “construção social”, estabelecendo pontes com o pensamento de Scott:

Gênero não é somente uma “diferença” construída simultaneamente pelos diferenciais econômicos e pelos padrões institucionalizados de valores culturais, mas também pela má distribuição e reconhecimento equivocado, que são fundamentais para o sexismo. As implicações para as políticas feministas são claras. Para combater a subordinação das mulheres é necessário estabelecer uma abordagem que combine uma política de redistribuição e uma política de reconhecimento (apud BRUSCCHINI e UNBENHAUN, 2002:66).

E com o de Bourdieu, quando reflete sobre a legitimação do poder masculino com base nas diferenças biológicas:

A diferença biológica entre os sexos, isto é, entre o corpo masculino e o corpo feminino, e, especificamente, a diferença anatômica entre os

órgãos sexuais, pode assim ser vista como justificativa natural da diferença socialmente construída entre gêneros e, principalmente, da divisão social do trabalho [...]. Dado o fato de que é esta diferença socialmente construída que se torna o fundamento e a caução aparentemente natural da visão social que a alicerça, caímos em uma relação circular que encerra o pensamento na evidência de relações de dominação inscritas ao mesmo tempo na objetividade, sob forma de divisões objetivas, e na subjetividade, sob forma de esquemas cognitivos que, organizados segundo essas divisões, organizam a percepção das divisões objetivas (BOURDIEU, 2002:20).

E também com Teles:

O gênero, no entanto, aborda diferenças socioculturais existentes entre os sexos masculino e feminino, que se traduzem em desigualdades econômicas e políticas, colocando as mulheres em posição inferior à dos homens nas diferentes áreas da vida humana (TELES, 2002:17).

Outra autora que deu significativas contribuições para a legitimação do conceito de gênero foi Judith Butler (1986), ao interpretar a famosa frase de Simone de Beauvoir, “não se nasce mulher, mas se torna mulher”. Segundo Butler, Beauvoir desalojou o gênero do sexo e questionou a diferença sexual como natural. Conferindo relevância à produção da autora francesa, Butler evidenciou a não-coincidência de uma identidade natural e de uma identidade de gênero. Ao que parece, ela concorda com a afirmativa de Beauvoir de que os corpos femininos não poderiam ser vistos como o receptáculo de uma identidade limitadora e definitiva, mas como instrumentos para a expressão de liberdade.

A defesa de uma identidade descorporificada do sexo foi primordial para Simone de Beauvoir, que na obra O Segundo Sexo (1980) aprofundou seu trabalho com base nas teorias psicanalíticas de Lacan e do conceito de differance, de Derrida, ambos incorporados pelo feminismo francês nos anos 70. Já no campo político, a demarcação de uma identidade feminina diversa da masculina despontou como uma estratégia de enfrentar o poder patriarcal, que “entende a diferença sexual como uma diferença política, passando a se exprimir ou em liberdade ou em sujeição” (SAFFIOTI, 2004).

A exacerbação das diferenças sexuais, contestada pelas feministas, prega a desnaturalização da hegemonia do macho, branco, europeu e heterossexual dentro de um modelo de sociabilidade hierárquico que legitimava a hegemonia masculina e a subalternidade feminina, negando a existência das mulheres entre os sujeitos coletivos plurais na esfera pública, como diz Ávila:

O debate sobre a pluralidade de sujeitos políticos constituídos pela ação do feminismo e vários outros movimentos contemporâneos revela que a construção da igualdade passa justamente pela desconstrução da ordem social que hierarquiza as diferenças, transformando-as em desigualdades. Daí que considero que a relação igualdade–diferença deve ser entendida não em termos antagônicos, mas como um dilema a ser enfrentado como parte do processo dialético da transformação das relações sociais (ÁVILA, 2002:129).

As discussões acerca da desmistificação da eterna subalternidade feminina não se esgotaram nas teorias da corrente francesa. Elas incendiaram ainda mais a produção acadêmica sobre o assunto, como destaca Connor:

A escrita feminista projeta o feminino como o lugar do outro do patriarcado, identificado como o lado negativo desacreditado e sombrio de toda polaridade, como o corpo diante da mente, natureza diante da cultura e noite diante do dia, a matéria diante da forma e a insanidade diante da razão (CONNOR, 1996:185).

Comentando o trabalho de Kristeva, o autor encontra críticas que buscam destruir a noção de uma identidade feminina intrínseca no âmbito da luta, para tirar as reivindicações das mulheres da marginalidade, com objetivo de minar os alicerces de uma ordem falocêntrica de organização da sociedade. Talvez por isso o feminismo tenha se ocupado com o lugar de fala da mulher, uma vez que o discurso nos espaços políticos sempre foi atributo do “sujeito universal” masculino, que, por meio da linguagem e da inserção no mundo público, se lançou como representante de todas as facções da sociedade.

A teoria feminista, ao repudiar as metanarrativas, reafirmou a autonomia das mulheres como sujeitos políticos e rechaçou as políticas de representação e as formas institucionalizadas de poder que estavam totalmente dominadas pelos homens. Fez isso também incentivando a expressão das mulheres e sua contraposição a qualquer opressão que subjugasse ou minimizasse seu conhecimento.

A trajetória política de um movimento cuja intervenção nos cenários social, político e acadêmico se acentuou a partir dos anos 60 nos mostra que as mulheres trilharam vários caminhos rumo ao rompimento definitivo com as esferas privada e pública. A chamada “virada cultural” feminista da década de 70 apresenta seus frutos. Elas estão nas ruas, nos espaços de produção da cultura e nas arenas institucionalizadas de poder. Se o patriarcado ainda persiste como forma de organização em nossa sociedade, principalmente através dos fundamentalismos, ele parece não ter a mesma força de antes.

As investigações realizadas por pesquisadores dos ramos multidisciplinares que se debruçam sobre as transformações socioculturais na América Latina nos mostram que os sujeitos coletivos, entre eles as mulheres organizadas, têm muito a contribuir para a construção de um mundo baseado numa política de solidariedade e para o reconhecimento da existência de uma sociedade composta não apenas de receptores acríticos dos conteúdos de uma mídia globalizada. Essas investigações também apontam para a pluralidade das lutas sociais em curso e sua significação histórica, tendo a superação do modelo de sociabilidade machista, fundamentalista e capitalista hegemônico como horizonte.