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4. O Projecto Educativo de Escola

4.3. O conceito de Projecto Educativo de Escola

A definição de PEE torna-se numa tarefa difícil face à polissemia possível de abordagem do conceito. Conhecido o seu enquadramento legal importa agora explorar as suas potencialidades e fragilidades.

A elaboração de um projecto decorre de duas acções distintas, muitas das vezes difíceis de conciliar: a lógica do desejo e a lógica de acção (Barroso, J., 1992). A primeira corresponde a uma necessidade de mudança, de resolver uma situação não desejada, corresponde muitas vezes a um processo de origem intuitiva (individual ou de grupo) que toma formas pouco estruturadas mas que, apesar de tudo, cria dinâmicas de acção que, por si só, imprimem motivação ao projecto. A segunda representa uma necessidade de maior planificação, de uma definição clara, precisa e concisa da metodologia a utilizar, dos objectivos a atingir e da estratégia a seguir.

Nesta linha de pensamento, e reflectindo ainda nesta “conflitualidade” entre o simbólico e o operatório Barroso, J. (Canário, R., 1992:29) defende que,

“(…) as potencialidades do projecto residem precisamente na sua capacidade de combinar a atracção pelo futuro e a acção do presente. A primeira gerando a mobilização e a dinâmica criadora necessária a inventar e a «lutar» coordenadamente pelos futuros possíveis; a segunda obrigando a desenvolver uma metodologia que permita fazer o diagnóstico do presente, identificar os constrangimentos e recursos internos e externos, definir objectivos e estratégias.”

A complementaridade na elaboração deste documento prende-se com dois momentos determinantes: o conceber (processo) e o produzir (produto), ou seja entre o simbólico e o operatório, que leva a determinar que o PEE deva apresentar um duplo registo. Numa primeira fase, corresponde a um tempo de diagnóstico e reflexão em que é necessário determinar um conjunto de valores e políticas que sejam mobilizadoras dessa comunidade educativa. Este é um processo lento, participado, de ajuste e convergência de ideias individuais e de grupo, onde se vai construindo uma plataforma de entendimento e consolidando o sentimento de pertença.

Numa fase posterior, o documento produzido deve comportar-se como um instrumento orientador no que diz respeito às metodologias gestionárias a seguir e a sua forma operacional, deve contemplar e desdobrar-se em planificações a longo, médio e curto prazo nos diferentes domínios (pedagógico, cultural e de gestão) ou seja, este documento deve poder responder a qualquer questão quanto ao rumo a tomar, objectivos definidos, valores perfilhados ou opções estratégicas tomadas.

No entanto, apesar das potencialidades que este documento aparenta, apresentar o processo e o produto resultantes podem ser extraordinariamente diferentes de escola para escola. Barroso, J. (Canário, R., 1992:31) defende que é através do PEE que se determina a verdadeira autonomia da escola,

“(…) o projecto de escola é sempre um processo sui generis cuja geometria e alcance decorrem da especificidade que nele participam e do seu sistema de relações. A cada escola a sua ambição, o seu projecto! É essa ambição que vai definir o modo de relacionamento da escola com a administração e com a sociedade, e a sua margem de manobra na realização dos fins que lhe estão atribuídos.”

É portanto, o projecto que vai determinar o processo de ajustamento da escola às directrizes nacionais, bem como o potencial de iniciativa e inovação ou de influência da acção colectiva da comunidade da escola.

Nesse sentido, e como já foi dito, para que se desenvolva o sentimento de pertença, é necessário que seja criada a possibilidade de participação dos diferentes actores sociais. Estes não se confinam ao espaço da escola. O desenvolvimento de uma instituição escolar está directamente relacionado com o seu contexto local logo, o envolvimento de pais, instituições, empresas e poder local é, de todo, conveniente. Como salienta Canário, B.(Canário, R., 1992:115):

“(…) as metas a atingir têm de ser desejadas por todos, ou por grande parte, e o processo tem de permitir a participação de todos, ainda que a níveis diferentes. Se a condução de um projecto colectivo requer o domínio de uma metodologia própria, também é certo que ela não pode ser vista como a programação de uma séria de operações previamente delineadas da primeira à última. Ela é em primeiro lugar, uma tarefa de gestão de recursos humanos.”

A procura de sinergias entre todos os possíveis parceiros, cria uma teia complexa que pode potenciar a capacidade da escola de dar resposta aos propósitos determinados como objectivos, enriquecer a elaboração do seu protocolo de intenções, diversificar as soluções e mesmo inovar.

A elaboração do Projecto Educativo de Escola tem, a priori, um processo de reflexão, de convergência de ideias comuns entre os vários actores e um acordo no rumo a tomar. É portanto, um documento onde são explicadas as especificidade, definições e identidade da organização, os objectivos e valores comuns, as finalidades e os meios que se pretende por em prática, pelos diversos actores e de forma participada, para atingir os fins que se perseguem. Como reforça Barbier (Canário, R. 1992:130):

“ O enunciado de um projecto é o resultado de processos anteriores muito complexos, envolvendo os actores implicados no projecto e o seu meio.”

Se por um lado, o PEE passa a ser um instrumento possibilitador de renovação, por outro, a sua rentabilização depende da capacidade de mobilização dos vários actores e gestão dos recursos e do tempo.

Devendo ser o resultado de consensos, este projecto é necessariamente o resultado de escolhas entre valores, finalidades, objectivos e estratégias de operacionalização. Estas diferentes opções tornam cada projecto único, contendo o seu próprio sistema de referências, contextualizado no seu meio e baseado na interacção existente entre os seus actores.

Como se pode inferir, este documento pode assumir uma enorme relevância e envolve alguma complexidade. Por outro lado, as expectativas e dinâmicas de motivação que concilia têm de ser alimentadas; como tal, a este processo, deve estar associada a preocupação constante de avaliação da eficácia e qualidade da concretização do projecto.

No âmbito do nosso estudo consideraremos importante reter do PEE que se trata, no plano ideológico, de um projecto construído a partir da análise do seu contexto e que deve traduzir as aspirações da sua comunidade educativa através de uma definição de

objectivos e estratégias. No plano operacional deve definir formas de actuação e metas exequíveis que resultem na harmonização das acções internas, promovendo a participação dos diferentes actores com resultados na qualidade do seu serviço educativo.