2.1 TEORIAS RACIAIS NO BRASIL
2.1.1 O conceito de raça
Para situarmos melhor a noção de raça e racismo, dialogamos teoricamente com os estudiosos Kabengele Munanga (2004, 2008), Guimarães (2009) e Schwarcz (1993) apropriando-nos desses conceitos para uma maior compreensão das influências posteriores dessas abordagens na educação.
Comecemos pela definição de raça, apresentada por Munanga (2004, p. 17):
Etimologicamente, o conceito de raça veio do italiano razza, que, por sua vez, veio do latim ratio, que significa sorte, categoria, espécie. Na história das ciências naturais, o conceito de raça foi primeiramente usado na zoologia e na botânica para classificar as espécies animais e vegetais. Foi nesse sentido que o naturalista sueco Carl Von Linné, conhecido em português como Lineu (1707-1778), o usou para classificar as plantas em 24 raças ou classes, classificação hoje inteiramente abandonada. (grifos do autor).
Explicitada a definição do termo raça, salientamos que neste trabalho optamos por assumir tal categoria de análise com o objetivo de trazer à baila uma questão emergencial, discutir “raça” com o sentido social, político e de identidade. É sabido através dos estudos avançados, principalmente no campo da genética e da biologia, que as raças humanas não
existem cientificamente (GUIMARÃES, 2008). Na história das teorias raciais esse conceito foi utilizado para demonstrar a superioridade de uma raça sobre outra.
Como bem destaca Schwarcz (2007, p. 12) o conceito raça sempre foi assunto importante em nosso meio, seja por motivo de exaltação, seja por sinal de descrédito. Essa questão esteve vinculada à ideia de identidade nacional, pois a partir do século XIX o país era definido em sua particularidade como constituído pelo branco e indígena na imagem que se tinha no Segundo Reinado. Do século XIX para o XX tem-se uma concepção de branqueamento do país e nos anos 1930 uma nação mestiça, resultado do cruzamento das raças.
Assim como os autores, compreendemos que o termo tem uma conotação política e ideológica e não mais biológica. Política porque acreditamos na sua estreita ligação com a noção de identidade, necessitando ser lembrada como tal a fim de se reafirmar a história de sua origem; ideológica porque no âmbito da militância adquire uma importância singular para os movimentos negros na atualidade. Outrossim, alguns estudiosos das relações raciais preferem não utilizar o termo raça e sim etnia28, considerando que por não haver raças humanas seu uso é desnecessário.
Os antirracistas, em contrapartida, usam o termo na intenção de reforçar e confirmar a identidade negra lembrando sempre a forma como as teorias racistas se permitiram interpretar o termo raça e dessa maneira manipulá-lo a favor de seus interesses. Não se trata aqui de reforçar, à medida que se utiliza de forma recorrente o termo, o racismo na sociedade. Apenas reflete-se sobre o poder conceitual e ideológico por detrás da palavra raça.
Nesse sentido, convém retomar as explicações de Munanga (2004) a respeito do conceito. Na Idade Média, o termo significava descendência, linhagem, pessoas que têm um ancestral comum. Nos séculos XVI-XVII o conceito passa a ter o sentido entre classes sociais da França. A nobreza se utilizava deste para se diferenciar dos gauleses, identificados como plebe. Essa diferenciação possibilitou que o termo fosse utilizado como legitimador de uma suposta superioridade, atribuindo poder às relações entre nobreza e plebe.
28 No campo intelectual, muitos profissionais preferem usar o termo etnia para se referir aos negros e negras, entre outros grupos sociais, discordando do uso do termo raça. Ao usarem o termo etnia, estes intelectuais o fazem por acharem que, se falarmos raça ficamos presos ao determinismo biológico, à ideia de que a humanidade se divide em raças superiores e inferiores, a qual já foi abolida pela biologia e pela genética (GOMES, 2005, p. 49-50). Lideranças do movimento negro preferem utilizar o conceito de etnia, mas não desprezam o uso do termo raça no sentido sociológico. Embora haja discordâncias, o termo está carregado de significado político para a população negra.
No século XVIII, a igreja é questionada pelos filósofos das luzes, que não mais concordam com seu domínio teológico e começam a contestar o monopólio do conhecimento que a instituição até então tinha nas mãos. Por não aceitarem uma explicação linear e cíclica da humanidade, reacendem o debate e recolocam a questão de quem eram os outros recém- descobertos. O grande equívoco relacionado à maneira como esse termo foi compreendido está justamente na utilização inapropriada de seu significado, o que acabou causando a disseminação de uma hierarquização de raças e com isso a consolidação do racimo (MUNANGA, 2004).
Com o advento dessa hierarquização, materializada pelas contribuições dos filósofos iluministas, temos no século XVIII a cor da pele como “critério fundamental e divisor de águas entre as chamadas raças” (p. 19). Assim sendo, a espécie humana passa a ser dividida por raças: branca, negra e amarela. Concordamos com Munanga quando se refere a essa divisão como uma herança que até hoje está presente em nosso “imaginário coletivo”, imortalizando as desigualdades e as discriminações em relação aos negros.
Outros elementos foram se juntando ao da cor a fim de classificar as raças com base em critérios morfológicos. No século XIX, a antropologia criminal, como dissemos anteriormente, cumpre o papel de analisar tais critérios considerando o tamanho do crânio, formato de nariz, lábios, queixo, objetivando estabelecer uma classificação, bem como o aperfeiçoamento da raça. Mesmo com as observações entre os crânios dos brancos “nórdicos” e os negros e amarelos, a descoberta de Franz Boas nos Estados Unidos, observando os crânios dos filhos dos imigrados brancos, em 1912, apontava para o desenvolvimento do crânio braquicéfalo, ou seja, tinha uma tendência em alongar-se (MUNANGA, 2004).
No século XX, as descobertas da genética humana possibilitaram compreender, através da análise química do sangue, o uso de critérios para se determinar a divisão da humanidade em raças estanques. Percebeu-se que algumas doenças hereditárias incidiam mais em algumas raças do que em outras e as comparações entre esses critérios nem sempre estavam corretas.
O cruzamento de todos os critérios possíveis (o critério da cor da pele, os critérios morfológicos e químicos) deu origem a dezenas de raças, sub-raças e sub-sub-raças. As pesquisas comparativas levaram também à conclusão de que os patrimônios genéticos de dois indivíduos pertencentes a uma mesma raça podem ser mais distantes que os pertencentes a raças diferentes; um marcador genético característico de uma raça pode, embora com menos incidência, ser encontrado em outra raça (MUNANGA, 2004, p. 20).
Com essas constatações, os estudiosos concluíram que raça não é uma realidade biológica e sim um conceito e, portanto, não deve ser considerado cientificamente, pois trata- se de um termo inoperante para explicar a diversidade humana. Resumindo: as raças não existem nas esferas biológica e científica (MUNANGA, 2004).
Devido à hierarquização e à atribuição de valor às raças, já percebido nos estudos dos naturalistas dos séculos XVIII e XIX, à raça branca são conferidos os melhores atributos como, por exemplo: inteligência, beleza, honestidade, criatividade. À raça negra estão relacionados os atributos de menos inteligência, menos beleza, sujeita à dominação e, consequentemente à escravidão.
Concordamos com a posição de Guimarães quando salienta a importância da utilização do conceito de raça em sentido sociológico e político, pois demarca no campo das ideias a historicidade do termo que esteve associado à dominação e subordinação.
Minha opinião, todavia, é que se torna muito difícil imaginar um modo de lutar contra uma imputação ou discriminação sem lhe dar realidade social. Se não for à ‘raça’, a que atribuir as discriminações que somente se tornam inteligíveis pela ideia de ‘raça’? Atribuindo-as uma realidade subjacente que não é articulada verbalmente, ou a formas mais gerais e abstratas de justificar estruturas de dominação? (GUIMARÃES, 2009, p. 27).
Posto isto, acreditamos ser imprescindível que se retome a discussão sobre raça de modo a problematizá-la e compreendê-la como elemento importante nas relações raciais no Brasil. Essa tarefa parece-nos transpor de um campo essencialmente ideológico para um político, pois as reflexões a respeito das relações raciais perpassam por um resgate histórico da trajetória dos negros.
Retomando as considerações de Munanga (2004), a raciologia, teoria pseudocientífica acerca da classificação da humanidade por raças, reforçou a hierarquização e ganhou muito espaço no início do século XX. Para o autor, “[...] a raciologia tinha um conteúdo mais doutrinário do que científico, pois seu discurso serviu mais para justificar e legitimar os sistemas de dominação racial do que como explicação da variabilidade humana” (MUNANGAS, 2004, p. 22).
O conceito de raça como entendemos hoje nada tem de biológico. Está impregnado de ideologia que legitima a dominação e a discriminação. O discurso da existência das raças, que no passado serviu para hierarquizar e separar os povos, classificando-os em superiores e inferiores não mais se sustenta. No imaginário coletivo ele continua vivo, responsável pela
propagação do racismo na sociedade. É o que Munanga (2004) chama de “raças fictícias” ou “raças sociais”, presentes no imaginário e representações coletivos.
Conforme Cunha Jr. (2013, p. 47)
A raça é enfocada como uma criação do imaginário científico dos séculos 18 e 19, como um produto de teorias científicas que assessoram os processos de dominação eurocêntricos, produzindo uma desqualificação natural desse para o mundo da racionalidade e da produção de racionalidade científica.
O termo raça, quando é utilizado pelo movimento negro, refere-se ao pertencimento dos grupos populacionais assim identificados na sociedade. Aqui não se pensa em diferenças biológicas, com escalas hierárquicas, como fez a ideologia do racismo. A ciência, especificamente a genética, já provou que não existem diferenças biológicas significativas entre os grupos humanos.
Explicitado o conceito de raça, discorreremos a seguir sobre a ideologia do branqueamento, materializada pelo conceito de mestiçagem e seus efeitos. Pretende-se debater a respeito das teorias raciais no Brasil a partir desses elementos discursivos.