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CAPÍTULO II – FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.3 O conceito de representação em Hall (2007)

As representações acerca da língua recebem diferentes designações nas teorias sobre as quais esse estudo está embasado: cultura linguística (SCHIFFMAN, 1996), crenças e ideologia consensual (SPOLSKY, 2004); ideologia (SHOHAMY, 2006); representações (RIBEIRO DA SILVA, 2011). Optei pelo termo “representações” e busquei subsídios teóricos nos Estudos Culturais42 para aprofundar-me na compreensão desse importante conceito.

Hall (2007), um dos fundadores dos Estudos Culturais, discute amplamente o conceito das representações e sua relação com outros conceitos, tais como identidade e cultura.

O autor define representação de maneira sucinta como “a produção de significado por meio da língua(gem)” (HALL, 2007, p. 16)43. Dessa forma, a

representação é uma prática central na produção da cultura que, por sua vez, pode ser compreendida como “significados compartilhados”.

A cultura, num sentido vasto, remete aos modos de vida e de pensamento de um povo. A noção de cultura permite analisar os comportamentos humanos sem recorrer a causas meramente biológicas, uma vez que, como propõe Cuche (1999, p. 11), “nada é puramente natural no homem”, ou seja, a própria natureza no homem é interpretada pela cultura. Dessa forma, até mesmo as necessidades fisiológicas, como fome, desejo

42 Os Estudos Culturais (Cultural Studies) surgem na Inglaterra após a Segunda Guerra como

um paradigma teórico com o objetivo de conceituar a cultura num sentido lato, antropológico, alternar entre uma reflexão focalizada na ligação cultura-nação para uma abordagem da cultura dos grupos sociais. [...] ligada a uma dimensão política, a questão era compreender de que forma a cultura de um grupo, e principalmente a das classes populares, funciona como contestação da ordem social ou, inversamente, como modo de adesão às relações de poder. [...] embora influenciado pelo marxismo em sua gênese, teve que se reformular a partir de novas ideologias e teorias. Os estudos mais recentes tiram o foco da “classe social” como fator explicativo e passam a evidenciar a capacidade crítica dos consumidores e a reavaliar o papel da idade, do gênero e das identidades étnicas. (Fonte: MATTELART, A.; NEVEU, E. Introdução aos Cultural Studies. Porto: Porto Editora, 2003.)

sexual etc., são informadas pela cultura, “as sociedades não dão exatamente as mesmas respostas a estas necessidades” (CUCHE, op. cit.).

Woodward define cultura com base no conceito de “padrões classificatórios” elaborado por Durkheim44. Nas palavras da autora:

Cada cultura tem suas próprias e distintas formas de classificar o mundo. É pela construção de sistemas classificatórios que a cultura nos propicia os meios pelos quais podemos dar sentido ao mundo social e construir significados. Há entre os membros de uma sociedade um certo grau de consenso sobre como classificar as coisas a fim de manter alguma ordem social. Esses sistemas partilhados de significação são, na verdade, o que se entende por “cultura”. (WOODWARD, 2000, p. 41, ênfase acrescentada)

Por meio das representações, atribuímos sentido ao mundo e esses significados partilhados formam a cultura. Chartier (com base em Durkheim e Mauss) utiliza o termo “representações coletivas”, que segundo ele são “as matrizes de práticas construtoras do próprio mundo social” (CHARTIER, 1991, p. 183). Para esse autor, há uma ligação intrínseca entre representações e maneiras de agir no mundo. De acordo com sua concepção, “mesmo as representações coletivas mais elevadas só têm existência, só são verdadeiramente tais, na medida em que comandam atos”. (CHARTIER, op. cit.)

A teorização de Hall trata da maneira como esses significados que compõem a cultura de um determinado povo ou grupo são produzidos e circulam. Segundo esse autor, isso se dá por meio da língua(gem) que, sendo ela mesma um sistema representacional, é o meio utilizado para produzir e reproduzir os significados que atribuímos às coisas, aos eventos do mundo e a nós mesmos,

44Durkheim estabelece que o significado é produzido por meio de sistemas classificatórios. Ele usa a religião como modelo e argumenta que as relações sociais são produzidas e reproduzidas por meio de rituais e símbolos. Quando a religião estabelece a oposição binária sagrado/profano, ela não o faz com base em características inerentes que as coisas do mundo possam ter, mas se utiliza de representações e sistemas simbólicos para tal. Da mesma forma, os sistemas de classificação dão ordem à vida social e se estabelecem por meio de falas e nos rituais (WOODWARD, 2000).

aos nossos sentimentos e pensamentos. É no compartilhar de significados ou representações que se dá a formação da cultura, o que nos permite compreender a razão de as pessoas de uma mesma comunidade interpretarem o mundo basicamente da mesma forma.

Nós damos sentido às coisas pela forma como as representamos – as palavras que usamos sobre elas, as histórias que contamos, as imagens que produzimos, as emoções que associamos a elas, as formas como as classificamos e as conceituamos, os valores que lhe atribuímos. A cultura, podemos dizer, está envolvida em todas essas práticas que não são simplesmente programadas geneticamente dentro de nós – como o movimento de reflexo da perna quando se golpeia o joelho – mas que carregam significado e valor para nós, que tem que ser interpretadas significativamente pelos outros, ou que dependem do significado para sua operação efetiva. A cultura, nesse sentido, permeia toda a sociedade. É o que distingue o elemento humano na vida social do que é motivado meramente de forma biológica. (HALL, 2007, p. 03)45

Segundo Hall (op. cit.), as coisas e os eventos do mundo não carregam os sentidos em si mesmos, mas eles são atribuídos pelos participantes de uma cultura. Dessa forma, o autor explica que existem dois processos ou sistemas de representação: os mapas conceituais e a língua.

O primeiro sistema nos permite correlacionar as coisas, as pessoas e os eventos com um conjunto de conceitos ou representações mentais que todos carregamos. Esses conceitos não estão isolados à maneira de uma lista, mas encontram-se organizados, arrumados e classificados e interagem entre si por meio de relações complexas. Assim, para que duas ou mais pessoas consigam

45 No original: “[W]e give things meaning by how we represent them- the words we use about

them, the stories we tell about them, the images of them we produce, the emotions we associate with them, the ways we classify and conceptualize them, the values we place on them. Culture, we may say, is involved in all those practices which are not simply genetically programmed into us- like the jerk of the knee when tapped- but which carry meaning and value for us, which need to be meaningfully interpreted by others, or which depend on meaning for their effective operation. Culture, in this sense, permeates all of society. It is what distinguishes the human element in social life from what is simply biologically driven”.

se comunicar, elas precisam “pertencer a uma mesma cultura”, isso quer dizer que precisam compartilhar basicamente os mesmos mapas conceituais e, desse modo, atribuir sentido ao mundo de forma similar. É por isso que, segundo Hall (op. cit., p. 18), a cultura também pode ser definida em termos de “significados compartilhados ou mapas conceituais compartilhados”.

A língua(gem) é o segundo sistema de representação que utilizamos para construir o significado. O autor explica que é necessário “traduzir nosso mapa conceitual compartilhado em uma linguagem comum de modo que possamos correlacionar nossos conceitos e ideias com certas palavras escritas, sons ou imagens”. Ele destaca que usa o termo língua(gem) num sentido abrangente que envolve qualquer palavra, imagem, objeto ou som que funcione como um signo (no sentido saussureano) e esteja organizado junto a outros signos em um sistema e seja capaz de carregar e expressar significado. A relação entre as “coisas” do mundo, os conceitos e os signos encontra-se no cerne da produção de significados na língua(gem). A representação é o processo que conecta os três elementos.

Duas perspectivas teóricas são apontadas pelo autor para expandir o conceito de representação. A primeira é semiótica porque concentra-se na questão do uso do signo para produzir significado e toma como base as ideias de Saussure e de Barthes. A segunda é a discursiva, que procura estabelecer, a partir das ideias de Foucault, como o conhecimento é produzido por meio do discurso e das formações discursivas

Na primeira perspectiva, baseada nas ideias de Saussure, Hall (2007) retoma o conceito da natureza arbitrária do signo linguístico para explicar que fixamos os significados por meio de um acordo social não escrito, estabelecido entre membros de uma mesma cultura, falantes da mesma língua. Para Saussure (apud HALL, 2007), a língua é um sistema de signos que, por sua vez, é composto do significante e do significado, ambos essenciais na produção do sentido. A relação entre os componentes do signo é fixada por códigos linguísticos e culturais. É nessa relação que a representação se sustenta.

É importante destacar que, embora Saussure afirme que a relação entre o significante e o significado é estabelecida por códigos culturais, ele não a considera permanente nem imutável. Isso quer dizer que as palavras podem mudar de significado, uma vez que os conceitos aos quais elas se referem mudam historicamente e afetam o mapa conceitual da cultura, o que nos leva a afirmar que diferentes culturas em diferentes momentos classificam o mundo de forma distinta. Se tomarmos como exemplo a palavra “casamento”, teria ela o mesmo sentido na cultura brasileira e na cultura de países islâmicos? As implicações do argumento saussureano estendem-se tanto a uma teoria da representação quanto à compreensão da cultura como Hall explicita no seguinte trecho:

Se a relação entre o significante e o significado é o resultado de um sistema de convenções sociais específico de uma sociedade em determinados momentos históricos – então todos os significados são produzidos na história e na cultura. Eles nunca podem ser fixados mas estão sujeitos à mudança, tanto de um contexto cultural para outro quanto de um período para outro. (HALL, 2007, p. 32)46

A segunda perspectiva usada por Hall (2007) para expandir o conceito de representação é a perspectiva discursiva, baseada no trabalho de Foucault. Enquanto para Saussure a língua é o sistema de representação que usamos para dar sentido às coisas do mundo, para Foucault recorremos aos discursos para produzir conhecimento sobre o mundo. O trabalho de Foucault se move do como se dá a representação, que é o foco da abordagem semiótica, para o que ela produz, suas consequências. Assim, temos em Foucault a representação sendo produzida nos discursos que, por sua vez, produzem o conhecimento sobre o mundo (HALL, 2007).

46No original: “[I]f the relationship between signified and its signifier is the result of a system of social conventions specific to each society and to specific historical moments – then all meanings are produced within history and culture. They can never be finally fixed but are always subject to change, both from one cultural context and from one period to another”.

Foucault47 (1980, apud HALL 2007, p. 44) concebe o discurso como

um grupo de afirmações que fornece uma linguagem para falar sobre algo, um determinado tópico em um dado momento histórico. Quando o autor afirma que “nada existe fora do discurso” e que “o discurso produz objetos de conhecimento”, ele não está negando a materialidade das “coisas” do mundo; elas de fato existem, mas só fazem sentido e se tornam objetos do conhecimento por meio do discurso. Essa ideia, segundo Hall (op. cit.), está no cerne da teoria construcionista do significado e da representação. Assim, tópicos como “loucura” ou “sexualidade”, por exemplo, só têm significado quando inseridos no discurso a seu respeito. Da mesma maneira, o conhecimento e as práticas acerca desses tópicos são cultural e historicamente determinados. Eles não existem e não poderiam existir fora das formas como estão representados no discurso, produzidos no conhecimento e regulados pelas práticas discursivas e técnicas disciplinares de uma dada sociedade em um momento determinado.

A noção de discurso em Foucault48 vai além do componente

propriamente linguístico, uma vez que ele teorizou sobre a relação entre três elementos: o discurso, o conhecimento e o poder. Seu interesse em olhar para as relações de poder no interior da sociedade deve-se ao fato de o conhecimento estar sempre imerso nas relações de poder, uma vez que ele é aplicado com a finalidade de regular/controlar as práticas sociais.

O conhecimento, segundo Foucault (apud HALL, op. cit.), não apenas assume o caráter de “verdade”, mas tem mecanismos para “tornar-se

47Refiro-me ao trabalho de Foucault valendo-me da teorização de Hall (2007), uma vez que, dados os objetivos deste estudo, interessa-me aprofundar-me apenas no conceito de representação. Dessa forma, a menção a Foucault, cujo trabalho é abrangente e extenso, aparece nessa seção devido à sua intersecção com a teoria desenvolvida por Hall (op. cit.). 48 Para um aprofundamento sobre as ideias de Foucault, existe uma extensa bibliografia traduzida em português. Vide, por exemplo: FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: história da violência nas prisões. Tradução de Raquel Ramalhete. Petrópolis: Vozes, 1977; FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. Tradução de Laura Fraga de Almeida Sampaio. São Paulo: Loyola, 1996.; FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. Tradução de António Ramos Rosa. Lisboa: Portugália Editora, 1967.

verdadeiro”. Uma vez que o conhecimento é aplicado no mundo real, utilizado para regular e guiar a conduta de outros com base em técnicas disciplinares e de coerção, ele se estabelece através do poder e reforça a formação discursiva que o sustenta como um regime de verdade. Cabe à sociedade convencionar seus discursos de verdade em dado momento histórico e os estabelecer por meio de mecanismos de poder.

É importante destacar que, para Foucault, o poder não está restrito ao Estado, ao soberano, ou à classe social A ou B, embora ele reconheça suas posições de dominação. Para ele, as relações de poder, na verdade, permeiam todos os níveis das relações sociais, passando pela família, pela escola, pelo trabalho, enfim, por todas as esferas em que existem circuitos localizados de poder e os indivíduos se valem de técnicas disciplinares, mecanismos e efeitos para fazer o poder circular.

O objetivo deste capítulo foi estabelecer uma base teórica para essa pesquisa por meio de uma revisão crítica da literatura concernente às áreas de Política Linguística, Política Linguística Educacional (ensino de inglês na escola pública), Avaliação e Representações. No capítulo subsequente, trato dos pressupostos teórico-metodológicos da pesquisa qualitativa, paradigma no qual este estudo está inserido, além de descrever o contexto, os participantes da pesquisa e as técnicas utilizadas na obtenção dos dados empíricos.

CAPÍTULO III

M

ETODOLOGIA DE PESQUISA