Parte I - Enquadramento teórico
Capítulo 2 - A gestão de riscos
2.1 O conceito de risco e de gestão de risco
Risco, em administração, designa a combinação entre a probabilidade de ocorrência
de um determinado evento (aleatório, futuro e independente da vontade humana) e os
impactos (positivos ou negativos) resultantes, caso ele ocorra.9
Para Oliveira (2015), o conceito de “risco” tem-se tornado cada vez mais presente na
vida das organizações. Desde sempre que os gestores e os decisores têm presente na sua
consciência que gerir a vida da sua organização ou do seu sistema implica também a gestão
do risco.
Nos dias de hoje, o risco é universalmente entendido como um conceito que
incorpora uma parte negativa que pode impedir as organizações de atingirem os seus
objetivos, mas também uma parte positiva que é a oportunidade de estas obterem ganhos.
Morais e Martins (2013), defendem que, é da responsabilidade do Órgão de Gestão a
gestão do risco, incluindo a conceção e manutenção do processo de gestão de risco.
Os primeiros anos do novo milénio apresentam-nos um mundo mais complexo e
imprevisível. A sociedade em geral está cada vez menos tolerante ao risco, a comunicação
social e os analistas estão mais atentos e a legislação e os regulamentos, exigem cada vez
mais execução de procedimentos específicos que demonstrem “as boas práticas” das
organizações.
Desde o início dos anos 1970, o conceito de gestão de risco financeiro evoluiu de
forma considerável, tornou-se uma importante ferramenta de proteção concorrente que
complementa várias outras atividades de gestão de risco. Após a Segunda Guerra Mundial,
grandes empresas com ativos físicos elevados, iniciaram o desenvolvimento de seguros
contra os riscos.
Segundo Stikin e Pablo (1992), o risco representa uma importante característica com
três dimensões, o resultado interno, a expetativa de resultado e o resultado operacional.
Segundo os autores, pode ser fundamental a criação de um modelo integrado que
determine que o comportamento em relação ao risco resulte de uma série de elementos cuja
influência seja mediada pela perceção de risco.
Sílvia Rodrigues (2013), na sua tese refere que a abordagem à gestão de risco se
pode agregar em 3 épocas:
- Entre 1960 e 1970: era utilizada uma abordagem passiva para a gestão de riscos,
que eram analisados não ao nível da organização em si, mas associados a determinado
processo ou atividade. Contudo políticas governamentais mais rígidas, clientes mais
exigentes e preocupações crescentes por parte do público, tornaram inadequadas estas
abordagens ad hoc e passivas.
- Entre 1970 e 1980: as organizações adotaram vários conceitos oriundos da gestão
da qualidade com vista à redução das variações nos processos produtivos através de uma
abordagem pró-ativa para a gestão de perdas e falhas.
- A partir de meados dos anos 90: as organizações passaram a focalizar-se nos riscos
internos e externos que podem ameaçar a sua estratégia, passando a empregar standards de
gestão de risco e ferramentas como guias para gerirem sistematicamente os riscos.
Nos últimos anos a gestão de risco tem tido um papel de destaque devido à
mediatização de escândalos financeiros, desastres ambientais e catástrofes em
consequência de fenómenos naturais, cujas causas foram atribuídas a falhas na gestão de
risco. Falhas estas que podem originar elevados custos financeiros, ambientais e até
individuais.
A escala de riscos constitui uma característica distinta e que limita a escolha das
técnicas e metodologias de identificação, análise e avaliação de riscos empresariais.
Segundo a KPMG Advisory – Consultores de Gestão, SA, a evolução ao nível
regulamentar e legislativo do setor empresarial, bem como a evolução da concorrência,
conduzem a uma necessidade cada vez maior de uma gestão de riscos eficiente. Aspetos
como a quebra da governação a uma escala global, o crescimento insustentável da
população mundial, as disparidades económicas e sociais em zonas geográficas diferentes
que, suportam a estrutura económica e social atual, e são riscos que devem assumir uma
importância crescente nas empresas.
De uma forma geral, o desafio das empresas está relacionado com a definição de
parâmetros em que se rege a gestão de risco e efetuar uma implementação efetiva do
processo. É, pois, importante que a empresa possa avaliar os riscos da sua área de
concorrência, em associação com o risco fiscal.
A definição de gestão de risco é um conjunto de meios utilizados na identificação,
avaliação e relato do risco empresarial, que surgiu nos EUA, e foi referido pela primeira
vez no artigo publicado no Harvard Business Review em 1956. Somente no final do século
XX, a gestão de risco é considerada como uma ferramenta fundamental na gestão
empresarial, e faz parte das boas práticas de gestão (Beja, 2004).
O referido autor defende, ainda, que,
“A organização do processo de “risk management” pode revestir formas
diversas consoante a cultura de gestão, a área de atividade e a dimensão de
cada empresa. Desenvolve-se, no entanto, com base na responsabilização dos
gestores dos centros operacionais e respetiva linha hierárquica ascendente,
num fluxo de baixo para cima, com o suporte técnico de departamentos de
apoio e/ou consultoria, como o planeamento e controlo de gestão, a auditoria
interna ou, quando exista essa função, o gestor de riscos. Aos órgãos de gestão
compete decidir e promover a implementação efetiva de todo o processo e a
todos os restantes colaboradores da empresa é requerida uma cooperação
proactiva e sistemática.”
A gestão de riscos deve ser um processo contínuo e em constante desenvolvimento
aplicado à estratégia da organização e à implementação dessa mesma estratégia,
controlando o seu nível de risco. Envolve análise sistemática de todos os riscos inerentes às
atividades passadas, presentes e, em especial, futuras de uma organização. Deve ser
integrada à cultura da organização, com uma política eficaz e um programa conduzido pela
alta administração. Deve traduzir a estratégia em objetivos táticos e operacionais,
atribuindo responsabilidades na gestão dos riscos em todos os níveis da organização, como
parte integrante da descrição de funções.
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Esta prática sustenta a responsabilização, a avaliação do desempenho e respetiva
recompensa, promovendo desta forma a eficiência operacional em todos os níveis.
Os elementos-chave para um programa eficaz de gestão de risco são: políticas,
procedimentos e padrões. Neste sentido, a política descreve os objetivos principais do
programa de gestão de riscos, os procedimentos determinam a forma como a política é
implementada e os padrões fornecem as principais orientações sobre as questões
específicas do programa de gestão de riscos.
Segundo Funston (2003), a gestão de risco representa um importante processo que
modifica a forma como as organizações gerem o risco, ao mesmo tempo que possibilita a
avaliação dos riscos de forma continuada.
Correr riscos faz parte da realidade empresarial, a performance depende, deste modo,
da boa gestão de riscos de forma a minimiza-los ou transforma-los em oportunidades, no
sentido de criar valor para a empresa. A perda de uma oportunidade pode implicar o
surgimento de um risco e indicar uma redução de valor para a empresa.
Mais importante do que conhecer a definição de risco é saber como o gerir, com o
intuito de minimizar perdas futuras, produzindo respostas, ou tirar partido disso, no sentido
de obter vantagens competitivas e, portante, aproveitar oportunidades para conseguir
resultados positivos. Numa publicação feita em 1999, o IFAC definiu risco como um
acontecimento futuro incerto.
No setor público, torna-se cada vez mais essencial – pelo menos nas sociedades
democráticas – a identificação dos riscos e a consequente gestão, tendo em vista um cada
vez melhor comportamento de prestação de serviço público aos cidadãos e um adequado
uso de todos os recursos ao dispor dos agentes ativos do serviço publico, nos seus diversos
setores.
Por sua vez, a gestão de risco deve ser uma das componentes da cultura
organizacional dos Municípios, assim como ser considerada em todos os processos de
gestão e ser uma responsabilidade de todos os trabalhadores, independentemente das suas
funções e nível hierárquico.
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Fevereiro 2017
(páginas 40-44)