Parte I - Enquadramento teórico
Capítulo 1 - Controlo interno
1.7 O controlo Interno e a Corrupção
Morais e Martins (2013), referem-se ao controlo como sendo qualquer ação
empreendida pela gestão, pelo conselho e outras entidades para aperfeiçoar a gestão do
risco e melhorar a possibilidade do alcance dos objetivos e metas da entidade. A gestão
planeia, organiza e dirige o desempenho de ações suficientes para assegurar com
razoabilidade que os objetivos e metas são alcançados.
Qualquer entidade, independentemente da sua dimensão, tem uma organização
própria, dotada dos meios necessários para otimização da gestão. Se nas pequenas
entidades é o proprietário que define as regras e orienta o seu negócio, tal não é possível
quando a entidade cresce e a complexidade se instala, daí a necessidade de implantar um
eficiente e eficaz sistema de controlo interno.
O CI é uma ferramenta que fornece uma visão geral de toda a organização e
orientações que apoiam os diferentes serviços da entidade, permitindo aos gestores
identificar e avaliar as falhas nas atividades de controlo e a tomada de medidas para fazer
face aos desvios encontrados.
Assim, a aplicação de um SCI, numa organização, é um instrumento privilegiado de
apoio à gestão, uma vez que permite aumentar a eficiência, eficácia e transparência das
atividades desenvolvidas, garantindo uma maior fiabilidade da informação financeira,
assim como, o cumprimento dos diplomas legais aplicáveis.
De uma forma resumida, poder-se-á dizer-se que o SCI pretende diminuir as
irregularidades e os erros e inclui todas as políticas e procedimentos adotados pelos órgãos
de gestão, que contribuem para o alcance dos objetivos a assegurar, segundo um conjunto
de parâmetros de exequibilidade, condução ordenada e eficiente das atividades, na
salvaguarda dos seus ativos e na deteção de fraudes ou erros.
Deste modo, a gestão de riscos de corrupção surge associada à implementação de
mecanismos de controlo adequados e, que tenham como intuito prevenir, detetar ou
corrigir algumas falhas que possam ocorrer de forma deliberada ou não. O Plano de Gestão
de Riscos de Corrupção e Infrações Conexas (PGRCIC), tem como base um conjunto de
procedimentos que ajudam a garantir que as diretivas da gestão são executadas.
A corrupção é um fenómeno transversal a todas as sociedades humanas que, ao longo
da história, tem emergido com mais ou menos evidência, com maior ou menor impacto, no
comportamento ético das pessoas ou na ação das organizações públicas e privadas.
Com o desenvolvimento da economia que, por sua vez, desembocou numa situação
generalizada a que se convencionou chamar “sociedade de consumo”, as questões da
corrupção agudizaram-se e assumiram mesmo roupagens e formas sofisticadas que vão
desde o tráfico de influências a todos os níveis, até ao gesto mais comezinho de troca de
favores e reconhecimento de “luvas”.
Felizmente que a evolução das sociedades para os regimes democráticos,
particularmente a partir dos meados do século XX, tem trazido para a discussão pública
aquela verdadeira “entorse” que prejudica e desvirtua a confiança nas instituições e nos
Atualmente, se por um lado, a corrupção é um dos assuntos mais mediáticos, que
mobiliza as atenções dos políticos e dos governos, na tentativa de moralizar e de suster um
dos problemas mais complicados e difíceis que abalam as estruturas socioeconómicas,
culturais e políticas, colocando em perigo as bases ideológicas e os princípios ético-morais
das forças cívicas e das próprias personalidades que as lideram. Num momento em que as
relações entre os cidadãos e as classes políticas se veem afetadas por uma grande crise de
confiança, o desvelamento de poderes ocultos pode assim, contribuir para afetar o ethos da
política, bem como a credibilidade das suas instituições, principalmente no que se
relaciona com os casos de denúncias de corrupção. Por outro lado, a corrupção tem
assumido um interesse e destaque particulares na agenda política nas últimas décadas, em
parte decorrente da forte mediatização de algumas denúncias de grandes transgressões
relacionadas com o poder político, como é o caso da prisão de José Sócrates, antigo
Primeiro-ministro do nosso país.
Salienta-se que, o escândalo ao nível político obedece à estrutura temporal e
sequencial marcada pelos ritmos particulares dos meios de comunicação, não obstante a
existência de outras instituições que desempenham por vezes, um importante papel na
configuração de um escândalo como é o caso das instituições políticas e jurídicas. (Cunha
e Serrano, 2014) O escândalo da Face Oculta ocorrido em Portugal foi um dos principais
escândalos que abalou o governo de então.
De acordo com a acusação do Ministério Público português, as alegações jurídicas
centravam-se na existência de uma associação criminosa que obtinha benefícios em
concursos públicos de adjudicação de obras por meio de uma rede de influências que
envolvia altos cargos do Executivo. Assim, a justiça deu como provada a existência de uma
associação criminosa que era liderada por Manuel Godinho, sucateiro de Ovar, o qual
obteve favorecimentos para a sua empresa O2, em concursos públicos de levantamento e
limpeza de resíduos industriais. Como resultado, 34 pessoas e duas empresas, incluindo
Armando Vara, ex-ministro, foram ouvidos em Tribunal e mais tarde condenados todos os
arguidos por crimes de corrupção, tráfico de influências e associação criminosa.
Trata-se, na verdade, de um fenómeno preocupante que assola as sociedades
modernas e que deve ser combatido com todas as forças e por todos os meios.
As legislações dos Governos para atacar este “mal dos nossos tempos” têm sido uma
preocupação prioritária, o que, a todos os títulos, se deve louvar. A corrupção é um
problema universal que atinge todos os países de forma indiscriminada, assim como é, sem
dúvida, um obstáculo ao normal funcionamento das organizações, prejudicando a relação
entre os cidadãos e a Administração.
Ao nível municipal e de entre os vários casos que têm vindo a público, de corrupção
em várias das suas áreas de atuação, como o urbanismo e a contratação público, destaca-se
pela sua recente vinda a público, o caso do Município de Paredes em que uma investigação
o Organismo Europeu da Luta Antifraude (OLAT) descobriu índicos de fraude com fundos
da União Europeia (EU) atribuídos àquela entidade para a construção de escolas6.
Para Schilling (1997, p. 2), a “corrupção” é um conjunto variável de práticas que
implica em trocas, entre quem detém o poder decisório e quem detém poder económico,
visando a obtenção de vantagens – ilícitas, ilegais ou ilegítimas – para os indivíduos ou
grupos envolvidos. Já Bobbio et al., (1991, p. 292), expressam que a corrupção é uma
forma particular de exercer influência: influência ilícita, ilegal e ilegítima (…). É uma
alternativa da coerção, posta em prática quando as duas partes são bastante poderosas para
tornar a coerção muito custosa, ou são incapazes de a usar. Para o Escritório das Nações
Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), o conceito de corrupção é amplo, incluindo as
práticas de suborno e de propina, a fraude, a apropriação indébita ou qualquer outro desvio
de recursos por parte de um funcionário público, entre diversas outras práticas.
A Transparência Internacional (TI) é uma organização não-governamental (ONG),
que tem como principal objetivo a luta contra a corrupção, sendo conhecida pela produção
anual de um relatório no qual são medidos os índices de perceção de corrupção dos países
do mundo7.
A TI define corrupção como "o abuso do poder confiado para o ganho privado". A
corrupção pode ser classificada em função da quantidade de dinheiro perdido e do setor
onde ocorre. Grande corrupção consiste em atos cometidos por agentes de alto nível de
governo que distorcem as políticas ou o funcionamento central do Estado, permitindo que
os líderes beneficiem à custa do bem público. Pequena corrupção, refere-se ao abuso
6 Jornal de Notícias de 29 de janeiro de 2017
7 https://www.transparency.org
quotidiano de poder confiado por funcionários públicos de nível baixo e médio nas suas
relações com os cidadãos, que muitas vezes estão a tentar aceder a bens ou serviços
básicos. A corrupção política é uma manipulação de políticas, instituições e regras de
procedimento na alocação de recursos e financiamento por decisores políticos, que abusam
de sua posição para sustentar seu poder, status e riqueza. 8
Apesar deste tema estar na agenda do dia há algum tempo, ainda muito poucos
denunciam a corrupção, exemplo disto é o facto de no Dia Internacional contra a
Corrupção apenas existirem sete denuncias apresentadas à Transparência e Integridade,
uma associação cívica que integra a ONG anticorrupção TI.
Desde o ano de 1989, que a Organização de Cooperação e de Desenvolvimento
Económico OCDE tem desempenhado um importante papel na luta contra o suborno e a
corrupção. Esta luta ganhou maior força a partir de 1999, com a entrada em vigor da
Convenção sobre o Combate à Corrupção. Esta Convenção integra diversos países de
acordo com os seus próprios procedimentos e, que tenha a capacidade de assumir as
obrigações vigentes na Convenção.
De salientar que, a Convenção representou o resultado de um ambicioso
compromisso sobre o suborno em transações comerciais internacionais de diversos
instrumentos, as Recomendações de 1994, 1996 e 1997. O principal objetivo destes
instrumentos é o suborno nas transações comerciais internacionais, e exige que sejam
aplicadas as sanções adequadas e os meios mais fiáveis para detetá-las. Incluem
igualmente, as regras não criminais para a sua prevenção, transparência global e a
cooperação entre os vários países.
O combate à corrupção é considerado instrumental para o objetivo mais amplo de
conseguir uma cooperação cada vez mais eficaz, justa e eficiente. No caso em que haja
transparência, responsabilidade e probidade inadequadas, no uso de recursos públicos, o
Estado gera credibilidade e autoridade. A corrupção sistémica põe em causa a credibilidade
nas instituições democráticas e na governança.
Existe, por isso, uma correlação significativa entre a corrupção e a ausência de
respeito pelos Direitos Humanos e, entre a corrupção e as práticas democráticas.
O efeito negativo que a corrupção tem no desenvolvimento económico, a emergência
de um ambiente para o setor privado e o seu papel no aprofundamento da pobreza no
mundo em desenvolvimento, são situações que exigem resposta da comunidade
internacional.
Ao nível das previsões legais encontra-se o princípio de que não devem existir
quaisquer vantagens indevidas ou a mera promessa desta para o assumir de um
comportamento determinado, seja ilícito ou licito, através de uma ação ou omissão.
As seguintes situações, segundo a Direção-Geral da Política da Justiça, configuram
como uma situação de corrupção:
De igual modo, existem outros crimes que são prejudiciais ao bom funcionamento
das instituições e dos mercados, tais como o suborno, peculato, abuso de poder, concussão,
tráfico de influências, participação económica em negócio e o abuso de poder. Comum a
todos estes crimes é a obtenção de uma vantagem (ou compensação) não devida.
O funcionário ou agente do Estado que em algum momento solicite ou aceite, por si ou por
interposta pessoa, uma vantagem patrimonial ou mesmo promessa da mesma, para si ou
para terceiro, para a prática de qualquer ato ou omissão contrários aos deveres do cargo,
pratica um crime de corrupção passiva para ato ilícito.
Qualquer pessoa que, por si ou por interposta pessoa, der ou prometer a funcionário, ou a
terceiro, com o conhecimento daquele, vantagem patrimonial ou não patrimonial, que a este
não seja devida, quer seja para a prática de um ato licito ou ilícito, pratica o crime de
corrupção ativa.
A figura seguinte demonstra as diversas formas de corrupção:
Figura 2 - Formas de corrupção
Fonte: Gabinete para as Relações Internacionais Europeias e de Cooperação do Ministério
da Justiça (GRIEC)
A corrupção é um problema público e os sistemas corruptos são difíceis de alterar. É
provavelmente por isso que, as grandes campanhas públicas anticorrupção parecem surtir
efeitos limitados ou mesmo negativos, porque estabelecem o "conhecimento comum" que
as práticas corruptas são muito frequentes.
O Banco Mundial apresenta, através da sua monografia sobre anticorrupção, cinco
principais blocos de uma estratégica anticorrupção, que são:
- Aumentar a responsabilização dos líderes políticos através de uma maior
transparência por meio do escrutínio público, adoção de códigos de ética para funcionários
públicos, mecanismos legais e outros que promovam e garantam um livre acesso do
público à informação oficial. Assim, os políticos devem estar sujeitos a sanções eficazes,
incluindo a livre concorrência política.
- O fortalecimento das restrições institucionais, ao mesmo tempo que se cria um grau
de separação de poderes públicos e se estabelece “as responsabilidades de supervisão
transversais entre as instituições do Estado”. De igual modo, devem ser criadas
organizações de auditoria independentes, com transparência na tomada de decisões
administrativas. As decisões dos governos devem ser previsíveis.
Corrupção
tráfico de
influências
abuso de
poder
peculato
participação
económica
em negócio
suborno
concussão
E, devem ser criadas instituições de acusação independentes em associação com a
criação de diversos marcos legais para todas as instituições governamentais.
- Reforçar a participação da sociedade civil através da sensibilização do público para
a corrupção, formular e promover planos de ação para combater a corrupção e acompanhar
as ações e decisões dos governos, num esforço para reduzir a corrupção. Ênfase no "papel
da mídia" e criação / proteção de uma imprensa livre.
- Criação de um setor privado competitivo através da "liberalização da política
económica e da introdução de maior concorrência - especialmente em setores
concentrados - reduzindo barreiras à entrada, exigindo reestruturação competitiva e
esclarecendo as estruturas de propriedade". E um quadro mais transparente para a
governança corporativa. "Criando instrumentos de voz para associações empresariais,
sindicatos e partes interessadas. Instituir a "cooperação transnacional".
- Reformar a gestão do sector público "instaurando meritocracia e remuneração
adequada na administração pública, clarificando as estruturas de governação,
aumentando a transparência e a responsabilização na gestão fiscal e produzindo reformas
políticas na prestação de serviços sectoriais" que visam e substituam a atual. "
No sentido de prevenir e combater a corrupção, têm sido adotados diversos
instrumentos jurídicos. A corrupção representa uma séria barreira ao normal
funcionamento das instituições, seja no setor público como privado, assume um carácter
transnacional, e por essa razão é uma grande preocupação dos Estados, mas igualmente das
organizações internacionais. É sem dúvida uma ameaça aos Estado de direito democrático
e prejudica de forma grave, a fluidez das relações entre os cidadãos e a Administração.
Com o intuito de prevenir e combater a corrupção têm sido adotados diversos
instrumentos jurídicos internacionais, aos quais Portugal aderiu, nomeadamente, a
Convenção Relativa à Luta Contra a Corrupção, em situações que impliquem a presença de
funcionários das Comunidades Europeias ou dos Estados-Membros da União Europeia, a
Convenção da OCDE contra a corrupção de agentes públicos estrangeiros nas transações
comerciais internacionais.
No que diz respeito à relação entre o SCI e a prevenção da corrupção, os PGRCIC
assumem um papel fundamental na eficácia deste combate, desde que implementados,
O CI é uma componente muito importante na gestão do risco, pelo que deve estar
sujeito a uma ação periódica de revisão e atualização, para que sejam adicionadas medidas
ajustadas aos novos riscos, especialmente riscos de corrupção e infrações conexas.
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Fevereiro 2017
(páginas 32-40)