As críticas e contestações aos valores sociais e éticos da sociedade, sentidas cada vez mais nos anos 60, resultaram no surgimento de inúmeras terminologias no âmbito da tecnologia, adjetivando-a como intermediária, alternativa, correta, apropriada, adequada entre tantas outras. Todas com pequenas diferenças, mas apresentando a mesma postura em relação às tecnologias modernas com seus prós e contras (ABIKO, 2003).
O termo tecnologia apropriada (TA) foi utilizado primeiramente por Ernest Schumacher, atribuindo-lhe quatro critérios: pequeno, simples, barato e pacífico (SCHUMACHER, 1973 apud ABIKO, 2003). Assim, ela pode ser posicionada “entre a mais primitiva técnica da idade da pedra e a mais sofisticada tecnologia informática”, ou então, sendo mais simples, barata e livre do que a tecnologia dos países desenvolvidos, mas ao mesmo tempo amplamente superior à tecnologia primitiva (KRÜGER, 2000b).
Esta tecnologia relaciona conhecimento ‘técnico’ e conhecimento local, agregando o poder humano sobre técnicas, objetos materiais e conhecimentos à satisfação das necessidades, sobretudo da maioria pobre, onde estes participam e controlam a produção e o uso, frente às condições locais (DUMKE, 2002). Krüger (2003) cita alguns aspectos básicos das tecnologias apropriadas: baixo custo; uso de materiais locais; uso intensivo de mão de obra; ocorrência em pequena escala de produção; a possibilidade de ser entendidas, controladas e conduzidas autonomamente pela comunidade; execução simples; implementação em comunidade; utilização de recursos descentralizados; flexibilidade para adaptações e outros. Em seus trabalhos, Krüger (1998, 2003) afirma
Análise de desempenho térmico, acústico e lumínico em HIS: Estudos de caso em Marau-RS. POSARQ / UFSC / Arq. Mariane Spannenberg/2006 34 que do ponto de vista da aplicação de Tecnologias Apropriadas, cinco aspectos fundamentais devem ser considerados quando da avaliação de Sistemas Construtivos: Adequação da construção ao clima; Adequação ao uso de materiais locais e ao uso de recursos naturais; Medidas para racionalização da construção; Medidas para auto-ajuda; Medidas para redução do custo final da habitação.
A participação da população na definição do projeto e na construção das moradias, além de evitar futuras reformas, conduz a um efeito multiplicador da tecnologia. Essa participação de todos os reais interessados na solução do problema, se interando e decidindo sobre a escolha é que concretizará a tecnologia como adequada (PICARELLI, 1986). As características locais devem ser consideradas integralmente para que haja a adequação tecnológica, ressaltando dois aspectos fundamentais: recursos humanos e recursos naturais. A aplicabilidade das TAs é relacionada à localidades pobres onde há desemprego e escassez de recursos de capital. Possui aplicação “na micro-escala da construção de moradias para a população de baixa renda”, onde pode ser altamente favorável (KRÜGER, 2000c).
Abiko (2003) salienta a idéia errada de que a tecnologia apropriada é mais simples que a tecnologia convencional e que qualquer indivíduo é capaz de utilizá-la. Além disso, aponta a desconfiança em relação ao comportamento dos novos materiais, como os painéis pré-fabricados em contraposição às casas construídas com alvenaria de tijolos maciços, material este convencional e tradicional com desempenho reconhecido ao longo dos anos. Cita como exemplos de materiais de construção promissores estudados não só o solo-cimento, mas também cimento com fibras; blocos de solo estabilizado; pozolanas; cimento produzido em fábricas de pequeno porte, resíduos industriais e agroindustriais. A tabela 2.2 apresenta uma comparação entre as diversas características das tecnologias tradicionais, modernas e adequadas.
Tabela 2.2: Características das técnicas tradicionais e da tecnologia moderna e apropriada. Tradicional Moderno Apropriado / Adequado
Materiais Simples
Matérias primas locais Retirados ou produzidos no local
Utilização de poucos componentes
Sofisticados
Matérias primas de diversos locais
Produzidos fora do canteiro Freqüente a pré-fabricação de componentes
Simples ou sofisticados Matérias primas locais
Produzido de forma racionalizada no canteiro
Pré-fabricados que não necessitam de equipamento pesado
Produção Escala muito pequena Entendida, controlada e mantida pelo usuário Decisões individuais
Grande escala
Estendida e controlada por especialista
Decisões centralizadas
Escala pequena
Entendida, controlada e mantida pelo usuário
Decisões individuais ou coletivas
Mão-de-obra Intensiva
Usuário ou pequenos construtores
Parcialmente substituída por
Empregada e terceirizada Intensiva Usuário ou pequenos construtores
Energia Pouca
Não comercializada e local
Muita
Comercializada Pouca Comercializada e local Equipamentos Ferramentas simples Equipamentos especializados Ferramentas simples
Capital Pouco ou nenhum intensivo pouco
Organização Simples Complexa, só parcialmente
no canteiro canteiro Complexa, na maioria no Transportes Homem e animais Máquinas especializadas Máquinas leves
Análise de desempenho térmico, acústico e lumínico em HIS: Estudos de caso em Marau-RS. POSARQ / UFSC / Arq. Mariane Spannenberg/2006 35 Para Abiko (2003) a tecnologia contém grande carga ideológica, estando ‘presa’ ao modelo de desenvolvimento desejado, e que este está ‘preso’ ao modelo de desenvolvimento político e econômico vigente. Para Moreira (1997) a escolha por uma tecnologia não é um ato neutro, puramente técnico ou racional. A seleção de tecnologias modernas ou adequadas não acontece pela análise de qualidades ou atributos da própria tecnologia, mas depende dos homens e das circunstâncias, bem como da história e das culturas locais.
Picarelli (1986) aponta quatro questões básicas a serem contempladas no processo de decisão tecnológica:
O que produzir é uma questão que envolve a natureza, a qualidade e a
quantidade de produtos requeridos pela sociedade, em geral, e por cada comunidade, em particular. Como produzir implica disponibilidade de formas alternativas de produção, com relação às quais pode estabelecer vantagens e restrições. Com que produzir é uma questão econômica que requer a avaliação dos recursos necessários, sua disponibilidade na comunidade ou a viabilidade de seu fornecimento externo. Para quem produzir e, por sua vez, uma questão diretamente vinculada aos mecanismos de distribuição. A coerência entre a primeira e a ultima destas questões, o que produzir e para quem produzir, vai refletir a eficiência social dos sistemas de suprimento de produtos habitacionais.
Por ser etapa relativamente menos custosa e também a possibilidade de verificação de sua adequação frente à realidade, a etapa de seleção e avaliação da tecnologia tem mais importância que a etapa de geração. Assim, quando aplicada à habitação deve procurar atender a uma série de critérios ligados às condições determinadas pelo local: adaptação geográfica; conforto térmico; emprego de materiais locais; efeitos sobre o ecossistema local, a água e a atmosfera; aproveitamentos de capacidades locais; efeito sobre as culturas locais; participação da comunidade; possibilidade de ampliação e melhoria; custos; viabilidade financeira (MOREIRA, 1997).
Lúcia Mascaró (1989) identifica a necessidade de mudança social e política para se pensar em mudança tecnológica. Onde a crítica e rejeição às alternativas tecnológicas existentes dependentes e secundárias, deva ser substituída pela “elaboração teórica e execução prática de tecnologias adequadas às nossas características regionais”. É preciso conhecer todas as alternativas tecnológicas para se escolher a mais adequada ao caso em questão. A combinação de restrições e disponibilidades e a análise criteriosa das características e técnicas de uso de cada material, resultará na “criação de “ferramentas alternativas”, que refletirão a capacidade, os costumes, a cultura local e, até o tamanho das pessoas [...]”, nascendo assim a chamada Tecnologia Adequada (MASCARÓ, 1991).
Para Mascaró (1991) “[...] a tecnologia adequada é aquela que permite realizar uma obra com qualidade aceitável, ao menor custo possível.” E acrescenta:
[...] não há dúvidas que, para produzir ou escolher uma tecnologia adequada, é necessário ter o domínio da tecnologia convencional, na sua versão mais avançada, se possível, pois será a partir desse conhecimento que a escolha far-se-á criteriosamente. A consciência de que a adequação da tecnologia muda com o espaço-tempo, e o usuário ao qual está destinada, também é de fundamental importância, assim como a consciência da sua validade temporal e de seu caráter emergencial.
Análise de desempenho térmico, acústico e lumínico em HIS: Estudos de caso em Marau-RS. POSARQ / UFSC / Arq. Mariane Spannenberg/2006 36 Apesar de muitos autores se referirem a estas tecnologias anteriormente mencionadas como “apropriadas”, para este trabalho preferiu-se utilizar a expressão “Tecnologias Adequadas” apresentada por Picarelli (1986):
[...] por se entender que num primeiro nível é necessário a adequação como resposta a um projeto habitacional: a apropriação deverá se dar em um segundo nível. Assim um SC deverá ser primeiramente adequado a uma determinada situação para então ser apropriado. Pode-se supor que nem toda a tecnologia apropriada, ou seja, conhecida, possuída, tomada como propriedade, seja adequada a resolver uma situação problema. Porém toda tecnologia adequada deverá ser apropriada.
No ponto de vista desta dissertação, as análises decorrentes dessa pesquisa, buscarão identificar como as tipologias estudadas se relacionam aos vários aspectos das tecnologias adequadas, principalmente no que diz respeito ao conforto ambiental.