Para que se possa estabelecer uma relação entre técnica e tecnologia, produção e produto e também sistemas construtivos, apresentam-se as definições, extraídas de alguns autores e que procuram, cada uma delas, esclarecer ou dar ênfase a determinados aspectos. A técnica surgiu quando o homem produziu o fogo e fabricou suas primeiras armas e ferramentas. Sendo aperfeiçoadas e transmitidas de geração em geração como conhecimento prático e de capacidade de indivíduos ou grupos sociais. Assim, manusear uma colher de pedreiro ou assentar um tijolo é a utilização de uma técnica que envolve conhecimento básico, mas não uma tecnologia (ABIKO, 2003). Katinsky (1989) define a técnica “como conjunto de procedimentos para produzir bens, alterando a natureza”, e tende sempre à estabilidade de procedimentos. Segundo Abiko (2003), a “técnica é um saber fazer que caracteriza a presença de uma cultura humana”. Quando os gregos e romanos uniram o conhecimento científico à atividade prática da construção de objetos, a tecnologia ‘nasceu’. Tendo como caráter fundamental a transformação permanente, “a tecnologia é o estudo sistemático da técnica e a aplicação técnica das descobertas científicas” (KATINSKY, 1989). Abiko (2003) argumenta que a tecnologia é “solução de problemas técnicos por meio de teorias, métodos e processos científicos”, ou seja, é um estudo científico dos materiais e dos processos utilizados pela técnica. Configurando-se, então, como o resultado do somatório de técnica e ciência, através da incorporação do domínio das técnicas ao conhecimento científico.
Segundo Viana (1989), a tecnologia não é nada mais que um conjunto de conhecimentos aplicados à produção de bens, incluindo as técnicas que permitem a organização e a eficiência do processo produtivo. Rosso (1980) chama de tecnologia aos meios que permitem transformar insumos em produtos, ou seja, a matéria-prima (técnicos, instalações e equipamentos) de que resultam as edificações. E lembra do papel social do arquiteto, onde através do domínio da tecnologia alcança a eficiência máxima do processo de construção e a satisfação da necessidade humana de abrigo.
Análise de desempenho térmico, acústico e lumínico em HIS: Estudos de caso em Marau-RS. POSARQ / UFSC / Arq. Mariane Spannenberg/2006 32
Ainda Krüguer (KRÜGER, 2000b) afirma que quando utilizada, a tecnologia deve atender critérios de segurança, eficiência e eficácia6. Também sempre que possível
deverá buscar a “redução da complexidade, sendo que este fato não deve ser confundido com redução de qualidade ou de transformação em tecnologia pouco eficaz”. Para Mascaró (1991) “a tecnologia é o conhecimento dos princípios da ciência aplicados à construção, o que permite realizar a equação necessidades-disponibilidades, com criatividade, dando às populações o melhor possível, com os menores custos operacionais”. O autor apresenta uma maneira alternativa e de enfoque parcial, para a escolha de técnicas de produção e tecnologias a serem usadas em países de capital escasso, avaliando se são produtivas, não perigosas e principalmente se acrescentam menores custos no emprego.
Para Picarelli (1986), a construção de habitações é essencialmente uma opção tecnológica, mas esta opção não se restringe ao caráter técnico-profissional. Nela implicam opções políticas, sociais, culturais e econômicas. Segundo a autora o problema crucial a enfrentar é a seleção tecnológica, principalmente num país de grandes dimensões como o nosso, onde geralmente os mesmos sistemas construtivos são adotados em regiões com características sociais, econômicas, políticas e ambientais bem diferentes, podendo resultar ou não em tecnologias adequadas ao contexto em questão.
Ao conjunto de elementos de construção que mantém determinadas relações entre si, Picarelli (1986) denomina sistema construtivo (SC). Sendo assim, um conjunto de partes que se completam e interagem, da produção à montagem, utilizando materiais, mão-de-obra e equipamentos, diferentes qualitativa e quantitativamente, conforme o SC. (PICARELLI, 1986). Sintetiza:
O sistema habitação é composto de elementos que mantêm entre si determinadas relações para atingir e dar como resultado um produto, que responda às necessidades de uma determinada população e que possua características próprias, sociais, culturais e políticas. Deverá ainda responder as exigências relacionadas a produção.
Um sistema construtivo seria composto de vários subsistemas e estes formados por materiais componentes e elementos. “Os materiais sofrem transformações para construírem os componentes que, a partir de uma regra de combinação dão origem aos
elementos. Estes adicionados a outros elementos constituem o subsistema que somados
entre si configuram o sistema construtivo” (PICARELLI, 1986).
Para a implantação de novos sistemas construtivos são necessárias maior habilitação profissional e aprimoramento técnico do que nos tradicionais. Assim, os grupos interessados em evitar ou atrasar as mudanças tecnológicas, por medo de prejudicarem seus interesses econômicos, justificam este posicionamento com a função social da construção como empregadora de mão-de-obra não qualificada, dificultando o processo de mudança (MASCARÓ, 1989b). Para o autor, a tecnologia adotada em cada
6“Se por um lado eficácia é a ‘capacidade de fazer’, de cumprir um objetivo, por outro lado a eficiência é a
Análise de desempenho térmico, acústico e lumínico em HIS: Estudos de caso em Marau-RS. POSARQ / UFSC / Arq. Mariane Spannenberg/2006 33 situação é determinada por interesses de classe e valores sociais e econômicos dos que fazem a opção e lembra dos problemas de natureza política nas mudanças tecnológicas. Podemos acrescentar que geralmente são adotados sistemas construtivos tradicionais, desconsiderando outras possibilidades construtivas que possam estar presentes na região de implantação.
Dentre os aspectos e conceitos referentes à técnica e à tecnologia apresentados aqui, serão adotados para constituir este trabalho os mesmos enunciados por Abiko (2003), pois estes diferenciam de maneira satisfatória estes termos. Também é adotado o conceito apresentado por Picarelli (1986) para sistema construtivo, pois este direciona a um entendimento claro de como o desempenho de sistemas construtivos pode ser melhor estudado, avaliado e empregado com eficiência.
Dentro do conceito geral de técnica e tecnologia, há autores que defendem uma tecnologia que venha a satisfazer os anseios dos indivíduos de uma maneira simples, sem grandes processos ou instrumentos sofisticados. A esta tecnologia alguns autores dão o nome de apropriada ou adequada, porque lidam diretamente com a cultura local.