3.3. Filosofia e saúde
3.3.1. O conceito de vida
Para Hegel, a vida é a Ideia concebida agora, no imediato307. Pode dizer‑
‑se, é o espírito a manifestar ‑se. Dados já os elementos e a dinâmica metafísica, podemos deduzir que a vida é justamente a manifestação agora do conceito. Assim, a saúde é a adequação do conceito do espírito ao que de si (conceito), se realizou; a doença, por outro lado, é a não adequação ao conceito308, ou seja, que o que se realizou não corresponde
à essência do espírito; por outras palavras, o espírito realizou ‑se em algo desconforme a si mesmo. Nesta expressão metafísica podemos atestar a proporção da verdade309, isto é, a verdade antropológica, ou
ainda, a saúde, que surge assim como a qualidade psíquica da vida da alma, ou seja, o grau de atualização dialética do espírito. Isto, é o núcleo da antropologia filosófica da tensão psíquica que caracteriza a enfermidade originária (a loucura): expressa o grau de adequação da co ‑habitação entre a finitude natural e a infinitude espiritual; a resolução deste conflito, que não é uma cura médica, acontece no nível da dialética compreensiva da nuvem psíquica, na primeira grande atualização do conceito do espírito, na formação da consciência, fi‑ guração mental que resulta da reflexão sobre si mesmo de cada um. Nesse topos, o da adequação/desadequação entre a realidade e o conceito reside (1) a “possibilidade de uma doença do espírito”, que é a tese clássica, ou então a conclusão hegeliana de que (2) não há nenhum desvio patológico, isto é, que o existir do espírito já é onto‑
307 Ferrer, D., “Hegel e as patologias da ideia”, in Revista Filosófica de Coimbra, 27,
F.L.U.C., Coimbra, 2005, p. 145.
308 Ibidem, p. 153. 309 Ibidem, p. 145.
‑geneticamente habitado por uma “enfermidade originária”310: oposição
intra ‑psíquica que pode originar bloqueio do fluxo psíquico dialético‑ ‑concetivo com perda de capacidade para ordenar a estrutura mental. A comunhão psíquica destes opostos metafisico ‑antropológicos é o que constitui a resolução do conflito pessoal.
A oposição interna com contradição é portanto um estádio do de‑ senvolvimento do espírito necessário à conceção do homem. Hegel diz mesmo que a loucura é um privilégio311. Porque diria isto? Justamente
porque a autonomia e a liberdade se provam na superação do conflito máximo, quando o homem se experimenta interiormente bloqueado e puxa pelo mais fundo de si para se reconquistar: pensar.
A persistência neste estádio, por perda de fluidez dialético ‑racional, que é a atividade essencial, leva o espírito ao sofrimento e ao vazio existencial. Isto ocasiona que a nuvem psíquica não se atualiza numa unidade ontologicamente estável. Neste vazio da desestruturação ontológica fecunda o desespero e a angústia pessoal porque o espírito anseia por unidade312.
A necessidade de estudar a loucura exatamente na Antropologia, fica claro: é o período onde acontecem as transições dialéticas origi‑ nárias que suportam as esferas superiores do existir. É por isso que a loucura não só não é unicamente espiritual, do género de um cogito puro afetado com alguma sombra, ou exclusivamente material, como também não é extra ‑humana, está no seio mesmo da consciência.
Hegel desvela e apresenta ‑nos assim numa riqueza filosófica ímpar o racional humano dotado de verdadeira humanidade: contém em si mesmo o consciente e o inconsciente, o ser e o não ‑ser, o apolíneo
310 Ibidem,p. 150: “(…) cada indivíduo na sua ontogénese (…) padece de uma enfer‑
midade originária eventualmente insanável, um pecado original de todo o espírito (…)”.
311 Hegel, G. W. F., Enzyklopädie, 2012, § 408 ‑Z.
312 Berthold ‑Bond, D., Hegel’s theory of Madness, S.U.N.I. Press, Nova Iorque, 1995,
e o dionisíaco, numa relação tensa, nalguns momentos mágica313, mas
também suscetível à loucura, à possibilidade real da não realização de si314, facto pessoal que acontece quando a função subjetiva bloqueia.
A vida é portanto dinâmica dialética, auto ‑desenvolvimento psíquico e interação fluida (Flüssigkeit) no interior da mistura racional ‑pulsional. Assim, “a saúde não é, para Hegel, com certeza, a simples manuten‑ ção de um organismo em funcionamento”315. É assunto do espírito316
onde o trabalho auto ‑concetivo não faz uma operação intelectual de síntese – de objetividade e subjetividade –, mas elevação teleológica a uma conceção superior, sublinhemos, não apenas quando o estudamos, na teoria, mas na região do real; no dia ‑a ‑dia.
Observemos que, longe de ser uma conexão da mecânica fisioló‑ gica das partes, aquilo que presenciamos, o homem, é um indivíduo vivo animado interiormente pelo (1)fluxo lógico ‑dialético do pensar (a capacidade racional compreensiva) e pela (2)corrente dinâmica inter‑ ‑orgânica que organiza a sua sistematicidade biológica317.
A palavra alemã para espírito, Geist, expressa justamente a dimen‑ são universal da humanidade tingida de dignidade pessoal; muito além do que está inscrito nos sistemas biológicos subjugados às leis
313 Hegel, G. W. F., Enzyklopädie, 2012, § 405 ‑Z. O uso do vocábulo “mágico” refere ‑se
ao facto de haver, no humano, fenómenos incrivelmente difíceis de compreender. Desse modo, percebendo a existência de fenómenos com caráter maravilhoso e assumindo que estamos perante um filósofo do topo, longe de ser uma explicação leviana, parece ‑me absolutamente apropriada: “Die vermittlungsloseste Magic ist nun näher diejenige, welche der individuelle eist über seine eigene Leiblichkeit ausübt (…)”.
314 Malabou, C., L’avenir de Hegel: plasticité, temporalité, dialectique, Librairie Philo‑
sophique J. Vrin, Paris, 1996, p. 55.
315 Ferrer, D., “Hegel e as patologias da ideia”, 2005, p. 137: “A saúde não é, para
Hegel, com certeza, a simples manutenção de um organismo em funcionamento. (…) A saúde remete para a forma da apropriação pelo conceito da sua realidade e exis‑ tência, ou do seu corpo pela consciência e, nessa medida, trata ‑se de um problema principalmente antropológico”.
316 Ibidem, p. 137. Ver também Burbidge, J., The Logic of Hegel’s Logic, 2006, p. 131. 317 Ferrer, D., “Hegel e as patologias da ideia”, in Revista Filosófica de Coimbra, 27,
da causa ‑efeito das coisas finitas318. Em termos psíquicos a vida mental
reestrutura ‑se sempre que o homem experimenta o totalmente outro, tendo que, nesse gesto, ser obrigado a recriar ‑se preenchendo ‑se com ele; torna ‑se mais consciente de si precisamente agora, imbuído de mundo. Este vir a ser para si, resultante da reflexão no nível filosó‑ fico especulativo é ganho vital auto ‑consciente, facto que faz deste gesto introspetivo do próprio sujeito pensante relativamente a si e aos outros, substância antropológica vital e determinante da saúde.
Sublinho que, este movimento de contínua conceção de si, de projeção e auto ‑retorno psíquico em ‑si e para ‑si, da experiência da alteridade, por parte do trabalho do conceito, criador de memória, quer individual, quer histórica, não resulta de alguma força externa ou reação fisico ‑química no interior do círculo neurofisiológico su‑ postamente fechado. A unidade psicossomática homem resultou do trabalho dialético ‑compreensivo de transformação, não restrita a um ciclo material encerrado, mas aberto à infinitude essencial e produti‑ va do espírito. Esta mónada aberta caracteriza ‑se pela reciprocidade antropológica; assim, tendo ‑se apenas a si mesmo como referência embrionária, regressa continuamente a si própria cada vez mais livre e confiante.
318 Hegel, G. W. F., Enzyklopädie, 2012, § 379 ‑Z: “(…) Erhabenheit des Geistes über
ein Außernander und über dessen äußerliche Zusammenhäge zum Vorschein kommt”. Ver também Burbidge, J., The Logic of Hegel’s Logic, 2006, p. 83; ainda no texto de Bour‑ geois, B., Hegel, les actes de l’esprit, 2001, p. 8. Outra referência é Winfield, R, “Hegel’s solution to the mind ‑body problem, in Houlgate, S. e Baur, M., A companion to Hegel, 2011, pp. 234 ‑236. Finalmente, uma nota mais, em De Vries, W., Hegel’s theory of mental