• Nenhum resultado encontrado

A ontologia da subjetividade quebrada

No documento URI: (páginas 116-120)

3.3. Filosofia e saúde

3.3.2. Filosofia da Loucura

3.3.2.4. A ontologia da subjetividade quebrada

O gesto final de totalização, digamo ‑lo, é o escape à contradição345

que caracteriza a loucura onde uma última pulsão ou qualidade re‑ sistiu à racionalização e impediu a totalização antropológica, isto é, a formação da consciência. Essa particularidade subjetiva é o que resta do mar dos sentimentos primordiais que, no último instante, se conservou opondo ‑se à integração na hierarquia ontológica im‑ pedindo que o espírito pudesse fazer de toda a substância, sujeito; desse modo manteve viva na intimidade da razão, no seio psíquico, no cerne da subjetividade, dolorosamente, a contradição original. Isto é a loucura (Verrücktheit).

Dito de outra forma, concentrando a nossa atenção na derradei‑ ra determinação corporal, a particularidade que força o estado de

343 Ibidem: “(…) Entwicklung der Seele notwendig (…)”. É um momento que decorre

do movimento da auto ‑produção do espírito como impasse, mas normalmente é ultra‑ passável. Pode suceder a qualquer um e, no caso em que não é superado (überwinden), surge doença. Dizer que “é necessário” significa que se trata de um momento inerente do processo quotidiano da racionalidade humana.

344 Ibidem, § 408 ‑Z: “(…) Zustand äußerster Zerrissenheit hindurchgehen (…)”. 345 Bourgeois, B., Hegel, les actes de l’esprit, 2001, p. 8.

contradição íntimo, podemos dizer, é o ilhéu último da individuali‑ dade subjetiva e, insistindo na existência percetiva, usurpa o poder psíquico e a autonomia sobre o todo alma. Toma, por vezes, a razão e a subjetividade. Diz ‑se: “agiu por instinto”. É o último fôlego da resistência pulsional. Pode acontecer com qualquer um e em qualquer hora. O sujeito experimenta desorientação devido à luta inconsciente do espírito pela posse do lar dos afetos, o corpo, que receia perder para sempre, numa sensação de perda percebida inconscientemente.

Ao nível espiritual, onde o racional se manifesta e a existência se efetiva, se o espírito ficou impedido de espiritualizar a própria natureza, portanto, de se possuir totalmente, a sua essência está reprimida. Não consegue conceber. A capacidade racional ‑dialética perdeu liberdade, anquilosada no conflito; assim, ontologicamente, o conceito do espírito está impedido de trabalhar e o progresso mental fica obstruído, o espírito não consegue refletir sobre si mesmo, de objetivar a sua sub‑ jetividade346 (o passo final da formação da consciência). Por isso, sofre.

Aqueles sentimentos que iniciaram a edificação da subjetividade passaram a constituir a memória salvadora de si mesmo do espírito347, a

base psíquica que acolhe o espírito quando este necessita de reconhe‑ cimento: constituem memória dialética racional ‑carnal que resgata a identidade do espírito impedindo que o restante universal indetermi‑ nado se apodere da função da consciência agente e da primazia ontológica em efetivação; deste modo impede que a matéria finita e sem capacidade objetiva se apresente como a “verdade do espírito”348.

Hegel definiu a excelência do espírito na sua infinita capacidade auto ‑concetiva justamente neste trecho da sua biografia, o primeiro

346 Ibidem, p. 7. A objetivação é, no fundo, o regresso a si da subjetividade; é o

refletir acerca de si mesma: “La subjectivité ou liberté qui s’objective dans le droit est la subjectivité ou la liberté advenue à elle ‑même (…)”.

347 Ibidem, p. 9.

348 Hegel, Enzyklopädie, 2012, § 406 ‑Z: “(…) das Seelenhafte (…) der Geist in wahr‑

de todos: “só o homem se consegue apreender a si mesmo na com‑ pleta abstração do Eu, e é por isso que ele tem o privilégio, por assim dizer, da Loucura”349.

A força da necessidade do espírito e a liberdade possibilitam que o espírito consiga tomar distância de si mesmo, olhando para si mesmo como se fosse outro; e isto é o início da reflexão e da subjetividade, que mostra que o espírito tem liberdade, não apenas para se con‑ ceber, como também para se afastar de si suportando a dor infinita desse afastamento.

A loucura é, assim, da vida do espírito e dá uma qualidade ímpar ao homem: experimentando o sofrimento máximo, o espírito ainda assim é livre para se realizar seja em que condição for; na abstração ou na existência formal que caracterizam os estados sofridos, ou na oposição (quase) irreconciliável própria do facciosismo subjetivo. Tal fenómeno ontológico, o da efetivação de si, acontece na comunhão dialética com a alteridade, o outro dessa possível relação abstrata.

Façamos um sublinhado: sendo a conceção dialética e a consequente ascenção ontológica eventos do domínio do espírito, este nunca efetiva uma existência verdadeira fora da corporalidade, cuja resultante seria uma consciência vazia. A aparente desunião entre corpo e espírito que por vezes sobressai é uma exigência didática que alguns momentos da exposição literária exigem.

A beleza que envolve a efetivação da consciência, a realização da verdade da vida psíquica, o entrelaçamento dialético do espírito “com” o seu corpo, exibe neste evento único da filosofia de Hegel, na eclosão da humanidade, a resolução metafisico ‑ontológica: o puro ser, o logos universal e eterno da razão humana ganha existência, justa‑ mente encontrando ‑se consigo mesmo compreendendo a alteridade.

349 Ibidem, § 408 ‑Z: “Nur der Mensch gelangt dazu, sich in jener vollkommenen

Abstraktion des Ich zu erfasse sozusagen das Vorrecht der Narrheit und des Wahnsinns”. Não alterei o sentido, mas substituí as palavras “Narrheit” e “Wahnsinns” pelo genérico “loucura” para dar um significado geral à ideia que pretendo expressar.

O estado de angústia pessoal, agora subjetividade, instala ‑se, de uma forma geral, quando a conceção psíquica emperra no processo normal evolutivo que quer conciliar os opostos antropológicos, na união da identidade e da diferença350 (loucura constituinte), portanto, quan‑

do quer consubstanciar subjetividade. A outra forma de desordem mental acontece, não no caminho natural antropológico, mas por alteração desse percurso, constitui ‑se (constituída); há destruição de uma unidade noética já formada351: o indivíduo não suporta a pressão

dialética da contínua atualização de si mesmo352, regride para estádios

inferiores de desenvolvimento e encasula na interioridade, numa conformação afetiva isenta de crise ou tensão onde o sujeito se sente protegido como “resposta à experiência de dor e alienação do encontro com o mundo”353. Essa unidade noética é o que “a psicologia moderna

chama personalidade”354.

Pinel, que com Hegel defendeu esta tese, disse que o louco “longe de se reduzir ao estatuto de objeto ‑insensato sobre o qual podemos agir desde o exterior, tornou ‑se subjetividade rompida, com a qual é possível um comércio terapêutico”355. São testemunhos de investiga‑

dores que ajudam a sustentar a noção de que a oposição interna entre o despertar da subjetividade no sentimento de si e a superabundância sensorial da corporalidade são o que constitui a região ontológica onde fermenta a divisão primordial que caracteriza a loucura; esta

350 Ibidem, p. 54.

351 Malabou, C., L’avenir de Hegel: plasticité, temporalité, dialectique, Librairie Philo‑

sophique J. Vrin, Paris, 1996, p. 53.

352 Bourgeois, B., Hegel, les actes de l’esprit, 2001, p. 9. A ideia de pressão existen‑

cial sobre o espírito humano provém do esforço do eterno retorno à base ontológica salvadora de si mesmo.

353 Berthold ‑Bond, D., Hegel’s theory of Madness, S.U.N.I. Press, Nova Iorque, 1995,

p. 40.

354 Fialko, N., “Hegel’s view on mental derangement”, in Journal of abnormal and

social psychology, Manhattan state hospital, Nova Iorque, 1930, p. 262.

355 Swain, La question dela naissance de la psychiatrie au début du xixème siècle, 1975,

não é um conflito entre sentimentos, mas sim oposição dialética entre a totalidade sistematizada, o sistema racional que, mediando as próprias determinações, ganhou objetividade, e alguma das suas particularidades, sensação, inclinação ou desejo que persiste na forma da imediatidade instintiva e subjetiva, e não se deixa abraçar ou compreen‑ der pelo entendimento racional sob a forma de signo ou representação.

No documento URI: (páginas 116-120)