CAPÍTULO 2 – O ENTRELAÇAMENTO DOS MODOS DE SER-EM COMO ABERTURA
2.2 A abertura do compreender (Verstehen)
2.2.2 O conceito hermenêutico de sentido (Sinn) como um padrão de inteligibilidade
É sabido que a noção de sentido em sua vinculação ao problema da questão do ser e através dos desdobramentos que são realizados via análise existencial assume uma importância capital no interior da ontologia fundamental. A relevância que o conceito de sentido adquire no marco das discussões heideggerianas, contudo, somente foi possível a partir de um confronto crítico com as tradições aristotélica, transcendental e hermenêutica e, além disso, em virtude da confluência que ontologia, hermenêutica e fenomenologia representam na obra do autor em questão. Como decorrência das análises que Heidegger realiza a partir desse pano de fundo, temos, então, no período de investigações que remete a
Ser e tempo, um conceito ampliado e diferenciado de sentido se comparado, por exemplo, às
259 HEIDEGGER, M. Ser y tiempo. 2 ed. Madrid: Editorial Trotta, 2009c, § 32, p. 171; SZ, § 32, p. 152.
260 Cf. OKRENT, M. Heidegger’s pragmatism: understanding, being and the critique of metaphysics. Ithaca: Cornell University Press, 1988, p. 59.
tematizações oriundas da filosofia da lógica da tradição neokantiana e transcendental261, ou
mesmo se confrontado às discussões contemporâneas da filosofia analítica em que se ressalta o teor estritamente lógico-linguístico do sentido.
Os esforços de Heidegger estiveram, em grande parte, canalizados em direção à superação de uma ideia de sentido que adquiriu seus principais contornos enquanto objeto da lógica, concebida como uma disciplina científica que se ocupa com a tematização das formas lógicas do sentido pertencentes ao domínio da validade. Segundo essa perspectiva, proveniente da tradição da chamada lógica da validade, iniciada por Lotze e desdobrada, posteriormente, através das teorias de Cohen, Windelband, Natorp, Rickert e Lask, cuja origem remonta ao desenvolvimento da lógica transcendental, o sentido é designado como conteúdo válido de juízos, com capacidade de ser portador da verdade ou da falsidade262.
Contudo, para Heidegger, o sentido não está somente restrito à ideia de conteúdo judicativo ao qual pode ser atribuído o caráter de verdade ou falsidade e também não pode ser caracterizado em seu próprio modo de ser tão somente pela categoria da validade.
O autor, então, vai buscar a origem do sentido não na lógica ou mesmo em objetivações empíricas, mas na instância antepredicativa da existência fática263, do ser-no-
mundo como uma espécie de substrato que sustenta não só a compreensão pré-científica dos objetos, como também todo conhecimento científico. A partir disso, o sentido não vai ser “concebido logicamente como domínio de objetos, mas como horizonte de inteligibilidade em que qualquer objeto pode ser encontrado como ele é”264, que abarca qualquer significado que
a lógica possa vir a desenvolver ao tratar com objetos265.
261 No que tange à discussão sobre a noção de sentido, há várias discordâncias da parte de Heidegger em relação às discussões oriundas da tradição neokantiana e transcendental, no entanto o confronto com os principais teóricos de tal tradição foi decisiva para a maturação e elaboração do problema do sentido tal como é posto na ontologia fundamental. Embora a questão do sentido seja apresentada de um modo mais ampliado e com diferenças pontuais, é inegável que os principais contornos dessa problemática são resultantes da influência, sobretudo, que Lotze, Lask, Rickert e Husserl representam no pensamento de Heidegger. Cf. Crowell (2001), Dahlstrom (2001), Kisiel (1995), Vigo (2007).
262 Cf. REIS, R. R. dos. Observações sobre a relação entre lógica e ontologia na fenomenologia hermenêutica de Martin Heidegger. In: OLIVEIRA, N; SOUZA, D. G. (Orgs). Hermenêutica e filosofia primeira: Festschrift para Ernildo Stein. Ijuí: Unijuí, 2006, p. 477. Cf. também: Crowell (2001), Dahlstrom (2001), Kisiel (1995), Vigo (2007).
263 Cf. CROWELL, S. G. Husserl, Heidegger and the space of meaning: Paths toward transcendental phenomenology. Evanston, Illinois: Northwesthern University Press, 2001, p. 206.
264 CROWELL, S. G. Husserl, Heidegger and the space of meaning: Paths toward transcendental phenomenology. Evanston, Illinois: Northwesthern University Press, 2001, p. 90.
265 Com base na reflexão que Heidegger realiza acerca dos conceitos fundamentais da lógica enquanto disciplina que trata das leis que dispõem sobre o sentido válido e também atentando para o significado que a noção de sentido assume em suas primeiras obras (em seus primeiros escritos, Heidegger ainda concebe o sentido como objeto da lógica), prévias ao período de 1920, é possível asseverar que o filósofo realiza um movimento que vai desde a identificação lógico-transcendental da noção de sentido até a formulação de um conceito ontológico-
Através da estruturação das condições de possibilidade da projeção da compreensão de ser, mais especificamente da conexão entre estrutura como hermenêutica (Als Struktur) e estrutura prévia compreensiva (Vorstruktur) vem à tona o sentido (Sinn) em seu caráter fenomenológico-hermenêutico. Os três momentos da estrutura de antecipação compreensiva, através dos quais a interpretação se desenvolve, compõem um horizonte ou um repositório geral de inteligibilidade que se refere ao conceito de sentido. Conforme Heidegger mesmo afirma: “Sentido é o horizonte do projeto estruturado [pela aquisição prévia], pela maneira prévia de ver e pela maneira de [conceber] prévia, horizonte desde o qual algo se torna compreensível como algo”266.
A partir dessa revisão realizada por Heidegger, o sentido recebe, então, uma definição mais fundamental na medida em que, a partir da análise da significatividade como estrutura formal da mundaneidade do mundo e, sobretudo, das condições de possibilidade da projeção compreensiva e da interpretação explicitativa das possibilidades pré-compreendidas, ele transparece como um horizonte de inteligibilidade a partir do qual os entes podem ser encontrados e descobertos enquanto entes determinados. A partir de um complexo de investigações que procuram determinar as condições da projeção compreensiva e da explicitação interpretativa do compreender267, o conceito de sentido significa “aquilo em que
se move a compreensibilidade de algo. Sentido é o que pode ser articulado na abertura que compreende. O conceito de sentido abarca a estrutura formal do que pertence necessariamente ao que pode ser articulado pela interpretação que compreende”268.
Compreender, então, algo como algo é aceder ao sentido de ser deste algo. Porém, o que exatamente isto quer dizer? Conforme procuramos deixar claro, nas seções anteriores, a compreensão é caracterizada por seu potencial de abertura. O estado de aberto conjuntamente à constituição do ser-no-mundo caracterizam o Dasein como um ente descobridor. Portanto, uma vez que ocorre a projeção de possibilidades pela compreensão e que a intepretação se apropria do compreendido explicitando tais possibilidades, ao mesmo tempo, algo é descoberto como algo desde um todo significativo correspondente ao mundo. Ou seja, aquilo que é aberto pela compreensão e projetado como possibilidade nunca permanece sem estruturação, mas ganha sempre uma caracterização através de um significado mostrando-se, transcendental no período de Ser e tempo. Cf. CROWELL, S. G. Husserl, Heidegger and the space of meaning: Paths toward transcendental phenomenology. Evanston, Illinois: Northwesthern University Press, 2001, p. 111. 266 HEIDEGGER, M. Ser y tiempo. 2 ed. Madrid: Editorial Trotta, 2009c, § 32, p. 170; SZ, § 32, p. 150.
267 Cf. REIS, R. R. dos. A formulação hermenêutica do problema ontológico segundo Martin Heidegger.
Humanidades em Revista, Ijuí, v. 4, n. 5, pp. 59-78, jul-dez. 2007.
268 HEIDEGGER, M. Ser y tiempo. 2 ed. Madrid: Editorial Trotta, 2009c, § 32, p. 170; SZ, § 32, p.
assim, como algo com uma identidade específica. O horizonte estrutural a partir do qual se realiza a compreensão e qualquer ente pode vir a ser explicitado interpretativamente como algo individualizado, isto é, o horizonte a partir do qual é possível ver algo em uma determinação específica, diz respeito ao sentido.
Mas, se por um lado, o sentido nutre a compreensão, por outro lado, ele somente vem à tona mediante a ocorrência da projeção compreensiva estruturando, assim, a abertura, através da qual é possível a descoberta dos entes desde o horizonte significativo do mundo e, consequentemente, o encontro com os mesmos como algo qualificado por uma significação em particular. Contudo, devemos compreender que o sentido não está nas coisas como se fosse uma propriedade categorial, mas deve ser considerado, conforme procuramos deixar claro, segundo sua pertinência à estrutura ontológico-existencial do Dasein. Por si só, os entes não caracterizados pelo mesmo padrão ontológico do Dasein, sejam eles subsistentes ou disponíveis, não têm sentido, mas obtém sentido justamente do horizonte significativo do mundo com base no qual são projetados. Quanto a isso:
Quando dizemos que um ente “tem sentido”, isto significa que se tornou acessível
em seu ser, ser que projetado sobre o [horizonte] de projeção é o que [...] “tem” “propriamente” “sentido”. O ente não “tem” sentido senão porque estando aberto de antemão como ser, torna-se compreensível no projeto de ser, isto é, desde seu [horizonte] de projeção. O projeto primário da compreensão do ser “dá” sentido. A pergunta pelo sentido do ser de um ente tem como tema o [horizonte] de projeção da compreensão de ser que está à base de todo ser de ente269.
Com base nessas considerações, é possível verificar certo entrelaçamento do conceito de sentido com o conceito de ser. Porém, o que se evidencia dessa relação é a anterioridade da compreensão de ser. É necessário que já tenha ocorrido uma compreensão prévia de ser para que, então, seja possível a projeção de ser enquanto sentido. “Algo do gênero do ser se dá a nós na compreensão de ser, no compreender ser que reside à base de todo comportamento em relação ao ente”270. Portanto, toda experiência com entes, seja ela o trato cotidiano ocupado
com utensílios disponíveis guiado pela circunspecção ou nos processos de conhecimento de entes subsistentes realizados pelas ciências positivas, “funda-se em projetos mais ou menos transparentes do ser do respectivo ente. Porém, estes projetos implicam um [horizonte] de projeção do que em certo modo se nutre da compreensão”271. Desse modo, quando se fala em
ser dos entes, este é sempre relativo ao ser projetado pela compreensão. Somente há ser e
269 HEIDEGGER, M. Ser y tiempo. 2 ed. Madrid: Editorial Trotta, 2009c, § 65, p. 340; SZ, § 65, p. 324.
270 HEIDEGGER, M. Os problemas fundamentais da fenomenologia. Petrópolis: Vozes, 2012a, § 4, p. 29; GA 24, § 4, p. 21.
sentido através da compreensão de ser. A compreensão é o horizonte de manifestação do ser, é o horizonte do sentido.
Assim, todo e qualquer comportamento com entes como entes determinados por uma qualificação específica pressupõe a compreensão de ser que projeta o sentido. Somente tem sentido, portanto, o que o Dasein compreende: os entes e o ser. Esta compreensão prévia, conforme afirmado, não é elaborada de modo temático ou conceitual. Aceder, então, ao sentido de ser via projeção compreensiva é “retirar tal compreensão de ser de sua condição pré-temática e pré-conceitual, é propor, de forma sistemática e metodologicamente regrada, a investigação sobre as condições que determinam a ocorrência da projeção de ser pela compreensão de ser”272. A presente investigação buscou até aqui apresentar justamente as
condições que conduziram à elaboração reflexiva da compreensão pré-ontológica em ontológica, passando pelas estruturas condicionantes da projeção de ser e da elaboração interpretativa das possibilidades compreensivas, para, assim, visualizar de modo mais claro, o horizonte de estruturação do sentido.