• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 3 – O ESQUEMA FENOMENOLÓGICO HERMENÊUTICO DE

3.1 O conhecimento teórico como modo derivado do ser-em

Através do paradigma do ser-no-mundo prático, Heidegger instaura um cenário para pensar as condições de possibilidade do conhecimento, da diversidade de teorias científicas a partir de uma dimensão antepredicativa. Ou seja, através de uma dimensão ou camada caracterizada pelos pressupostos, pelos actus exerciti, tal como designaram os escolásticos, que estão na origem do pensar teórico e do discurso significativo, mas que permanecem encobertos a toda reflexão. Temos, assim, com essa nova abordagem, a emergência de um conhecimento não de ordem inferencial, mas um saber prático operativo, um conhecimento

transcendental que se traduz como conhecimento existencial318, que, aliado à ideia de

compreensão de ser, está à base de todo saber teórico. Esse aspecto consolida-se particularmente com a afirmação de que o conhecimento teórico “é uma modalidade de ser do Dasein enquanto ser-no-mundo, isto é, que tem seu fundamento ôntico nessa constituição”319.

Heidegger ressalta, portanto, justamente o fato de que todo o conhecimento de ordem inferencial deriva desse conhecimento existencial prático do ser-no-mundo que está sempre em operação por meio da dinâmica da compreensão, que não se resolve por princípios de evidência da lógica ou por algum método rigoroso. A compreensão:

constitui aquela condição humana sem a qual não teríamos a compreensão no sentido metódico, sistemático, gnosiológico, epistemológico, etc. [...] Quer dizer, não haveria conhecimento científico de qualquer tipo se nós já não estivéssemos sempre compreendendo o mundo no qual estamos e compreendendo-nos neste mundo, enquanto nele situados. Nesse sentido, a compreensão seria uma espécie de espaço que se articula a partir de uma série de atividades pré-conscientes, pré-

qualificados por sua intrínseca significatividade. Cf. HEIDEGGER, M. Zur Bestimmung der Philosophie. Frankfurt am Main: Vittorio Klostermann, 1987 (Gesamtausgabe 56/57).

318 Diferentemente das tematizações tradicionais, esse saber prático é considerado segundo sua estrita vinculação à estrutura existencial do ser humano.

críticas, que somadas formam uma rede na qual o conhecimento pode cair, na qual o conhecimento, que vem por intermédio dos objetos, pode cair320.

Assim, ao falar do conhecimento, via fenomenologia hermenêutica, não estamos mais estritamente presos a um sistema inferencial fechado e rigoroso, regrado segundo os moldes da díade sujeito-objeto, da sensibilidade e inteligibilidade, esquemas esses depositários da problemática transcendental tradicional. Não estamos, do mesmo modo, limitados aos pressupostos do conhecimento físico-matemático como modo de apreensão de entes em seu caráter de pura constância, de subsistência. Através das discussões heideggerianas, lidamos com um horizonte de pressuposições, com um fundo de inteligibilidade que não se esgota e que está sempre latente à base de todo pensar reflexivo. Heidegger identifica justamente este fundo, esta camada antepredicativa de inteligibilidade ligada ao mundo da vida, ao ser-no-mundo, aos processos de estruturação do sentido, como uma base de fundamentação para o conhecimento.

Com isso, aponta-se para algo que nenhuma epistemologia dá conta ou procura resolver, que é justamente a estrutura prévia do compreender da qual o ser humano mesmo quando conhece teoricamente, quando faz ciências, não consegue se libertar. Através dessa estrutura prévia é possibilitada a antecipação do sentido que emerge da estrita interconexão da matriz de significatividade do mundo com a existência, a partir da relação entre afecção, compreensão e discurso. É essa liberação prévia de uma base de inteligibilidade ou sentido que nos permite compreender os entes nas ocupações da práxis cotidiana ordinária e que representam também as condições hermenêuticas de possibilidade do conhecimento das investigações teóricas em geral.

Heidegger procura mostrar que esse saber ou conhecimento prático, que antecede ontologicamente o conhecimento teórico, situa-se no nível a priori das condições de possibilidade. Portanto, não é no universo justificacional, no universo das razões que seu projeto está alocado, mas em um plano mais originário do que aquele das práticas epistêmicas, do que o universo que a epistemologia em sentido tradicional se depara. É através do ser-em do ser-no-mundo que se encontram formuladas as condições hermenêuticas de possibilidade de todo conhecimento teórico-científico.

A concreção fática do ser-em, do exercício da familiaridade do Dasein com o mundo, ocorre através da ocupação (Besorgen) com os entes em geral e da preocupação (Fürsorge) consigo e com os outros existentes humanos. Nessa investigação, nos detemos no exame dos

320 STEIN, E. Racionalidade e existência: o ambiente hermenêutico e as ciências humanas. 2. ed. Ijuí: Unijuí, 2008, p. 67.

modos ocupacionais de relação com entes intramundanos. Entre estes modos estão incluídos, de acordo com o entendimento de Heidegger, não somente atividades manuais como o trabalho prático ou a produção de algo, de uma obra em particular, mas igualmente atividades intelectivas como o contemplar, discutir, interrogar, determinar, etc321. A ocupação, portanto,

corresponde a uma das determinações ontológicas do ser-em-um-mundo ou, em outras palavras, à relação originária com o mundo.

Essa constatação representa, da parte de Heidegger, uma forte investida contra toda tradição metafísica do conhecimento para a qual a relação primária com o mundo era entendida como uma relação cognoscitiva. O fator originariamente doador de mundo, no plano das discussões da fenomenologia hermenêutica, não corresponde a um ato de percepção, mas é dado pelo elemento da compreensão. A partir disso, “todas as teorias, todo o conhecimento, todo o tipo de contato com os entes no nível da representação são possibilitados pelo fato de estarmos enraizados neste modo de ser-no-mundo”322, de estarmos

originariamente envolvidos compreensivamente em situações ocupacionais de manuseio com entes, guiados por uma visão ou saber prático, e não primariamente voltados para o mundo através de relações cognitivas.

Para mostrar essa inversão e esclarecer o fenômeno do conhecimento em sentido teórico, Heidegger primeiramente caracteriza a intencionalidade que constitui o modo de ser cognoscente e procura mostrar em que medida esta representa uma transformação e derivação da intencionalidade concernente aos modos originários de ocupação. Inicialmente, entretanto, é necessário dizer que, em Ser e Tempo, o termo conhecimento é empregado como sinônimo de saber teórico. De outro modo, trata-se de um saber teórico de acesso aos entes, ou seja, de acesso e conhecimento do mundo. O modelo exemplar do conhecimento teórico do mundo, analisado crítica e destrutivamente por Heidegger, como sabemos, é aquele formulado, sobretudo, por Descartes e Kant, que se consubstancia na fórmula sujeito-objeto.

Heidegger não invalida essa possibilidade de interpretação que se concretizou através da polaridade sujeito-objeto, mas ressignifica as orientações dada pela matriz tradicional acerca do conhecimento do mundo. Em primeiro lugar, o sujeito de tal relação passa a ser compreendido não mais como o polo superavitário da relação de conhecimento, mas tão somente como um modo de ser do Dasein finito, ou seja, um ser-no-mundo que conhece323.

Por outro lado, Heidegger compreende o objeto como ente intramundano que, no contexto de

321 Cf. HEIDEGGER, M. Ser y tiempo. 2 ed. Madrid: Editorial Trotta, 2009c, §12, p. 78; SZ, § 12, p. 56.

322 STEIN, E. As ilusões da transparência: dificuldades com o conceito de mundo da vida. Ijuí: Unijuí, 2012, p. 67.

determinada investigação teórica, é tomado como tema a partir do modo específico de ser da

Vorhandenheit que o mesmo vem ao encontro nas investigações324.

A partir dessas observações sintéticas, é possível afirmar que a interpretação que Heidegger faz é que o estar voltado intencionalmente, em termos cognoscitivos, do sujeito em direção aos entes que vêm ao encontro nas experiências de conhecimento tem o caráter do mero demorar-se junto a. Nesse sentido, a intencionalidade que demarca o modo de ser cognoscente pode ser qualificada como contemplação entendida segundo a acepção de observação contemplativa teórico-científica dos entes intramundanos. Heidegger elenca a contemplação como um modo ocupacional de ser-em325. Contudo, devemos levar em

consideração que nos modos originários de ocupação, o ente vem ao encontro em seu caráter de disponibilidade. Na contemplação que ocorre no conhecimento teórico, no entanto, os entes são observados segundo o caráter exclusivo da subsistência. Portanto, se a contemplação, enquanto comportamento cognoscitivo, pode ser tomada como um modo de ocupação, isso somente é possível em um sentido derivado, e não originário.

A possibilidade do conhecimento teórico como determinação do ente em seu caráter de subsistência, que procura através da observação contemplativa esmiuçar tão somente propriedades isoladas do mesmo, decorre justamente de uma modificação da compreensão que norteia a ocupação do ser-em originário. É necessária uma espécie de abstenção de qualquer manuseio ocupacional como condição para que, de fato, ocorra a estrita concentração contemplativa que assume a forma de um demorar-se junto ao ente em seu puro caráter de subsistência, em seu puro eidos desligado de toda e qualquer relação com a significatividade do mundo326. Nessa abstenção do manusear, é possível aferir o desvio ou

descolamento de uma situação em que a disponibilidade do ente intramundano é mantida e pode ser concebida em seu caráter relacional-significativo com o mundo, para uma situação em que são visualizados e tematizados tão somente pontos de vista isolados acerca do ente. Na demora junto ao ente, despida de todo manuseio e utilização, o mesmo é apreendido como um ente simplesmente subsistente327. Assim, o ente que, em dado momento, figurava como

disponível, dotado de uma qualificação significativa mais ampla, passa a ser visto como desprovido do caráter relacional referencial que constitui sua identidade ontológica328.

324 Cf. HEIDEGGER, M. Ser y tiempo. 2 ed. Madrid: Editorial Trotta, 2009c, § 69b, p. 376ss; SZ, § 69b, p. 362ss.

325 Cf. HEIDEGGER, M. Ser y tiempo. 2 ed. Madrid: Editorial Trotta, 2009c, §12, p. 78; SZ, § 12, p. 56. 326 HEIDEGGER, M. Ser y tiempo. 2 ed. Madrid: Editorial Trotta, 2009c, §13, p. 83; SZ, § 13, p. 61. 327 HEIDEGGER, M. Ser y tiempo. 2 ed. Madrid: Editorial Trotta, 2009c, §13, p. 83; SZ, § 13, p. 62.

328 Esse caráter relacional referencial do ente disponível é assaz relevante, pois é um dos aspectos chave que Heidegger lança mão como crítica às metafísicas da presença subsistente.

A partir dessa modificação do ser-em originário, que se dá como modificação da compreensão de ser, abre-se caminho, então, para o processo de enunciação que, como veremos, também é considerado em sua derivação relativa ao ser-no-mundo através de modificações redutivas da intepretação originária: o como apofântico do enunciado é articulado através do como hermenêutico da estrutura da compreensão. Assim, ao conhecer, o

Dasein atinge uma nova possibilidade de ser, ou em outras palavras, ao direcionar-se para o

mundo previamente desvelado, opera com uma compreensão de ser modificada que projeta o ente como um objeto subsistente. Essa nova possibilidade, como diz Heidegger:

pode se desenvolver de forma autônoma, converter-se em tarefa e assumir, enquanto ciência, a direção do ser-no-mundo. Todavia, o conhecimento não cria pela primeira vez um “commercium” do sujeito com um mundo, nem este commercium surge,

tampouco, por uma atuação do mundo sobre um sujeito. O conhecimento é um modo do existir [do Dasein] que se funda no ser-no-mundo329.

O comportamento cognoscente, portanto, tem sua gênese no ser-no-mundo, ele se “funda antecipadamente em um já-estar-em-[junto-ao]-mundo que constitui essencialmente o Dasein”330. Contudo, a ideia de derivação do modo de ser do conhecimento relativamente ao

ser-no-mundo ocupacional não diz respeito a uma modificação apenas do olhar que encontra entes desprovidos de disponibilidade. O desdobramento de outros fatores, que estão implicados na caracterização de tal derivação e da modificação do ser-no-mundo originário em ser-no-mundo que conhece será apresentado nas seções subsequentes acerca da derivação enunciativa e da origem do comportamento teórico.

3.2 O enraizamento do enunciado no âmbito aberto da experiência antepredicativa: a