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Este era o cenário político e jurídico em que se encontrava o jurista britânico John Locke. No período histórico de Locke, notam-se duas noções estruturantes dos conceitos de soberania e nacionalidade, de forma respectiva: (1ª) a noção de preservação dos sujeitos, que também está inscrita como proteção ou segurança, relacionada à soberania; e (2ª) a noção de identidade pessoal, ou identidade nacional, que veio a estruturar o conceito de self como o átomo de uma nação. Portanto, a sua tese política no “Segundo Tratado sobre o Governo Civil”, obra que impressiona do ponto de vista da atualidade, está prenhe destas noções. Locke prioriza a idéia de que os indivíduos devam ser preservados. O poder executivo poderia usar o que o teórico definiu serem as “prerrogativas245” inerentes ao exercício da função discricionária à aplicação das leis. Estas prerrogativas teriam por objetivo absolver ou recompensar o sujeito que teve uma punição ou sanção jurídica muito rígida. A concepção de Locke é voltada à “preservação de todos, na medida do possível, ainda que se poupem os culpados quando se pode provar que os inocentes não foram prejudicados246”.

243

Idem, 2000, p. 50.

244 Idem, 2000, p. 52.

245 LOCKE, John. Segundo Tratado sobre o Governo Civil e outros escritos: ensaio sobre a origem, os

limites e os fins verdadeiros do governo civil; tradução de Magda Lopes e Marisa Lobo da Costa. 4ª ed. Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco; Petrópolis: Vozes, 2006, pp. 181-186.

Observa-se o desenvolvimento do self, em Locke, no que Charles Taylor definiu como sendo o sentido jurídico de se evitar o sofrimento humano. Em vista desta proteção dos indivíduos, Locke também traça considerações ao legislativo. Ao descrever a hierarquia dos poderes da comunidade civil, o filósofo alude ao poder supremo do legislativo, mas através do povo, que lhe garante o exercício. Assim, considera-se que este poder supremo seja do povo, que pode substituir o legislador para ser preservado. A preservação dos sujeitos está registrada no discurso de Locke como uma marca liberal inalienável, como vemos no trecho seguinte:

Nenhum homem, nenhuma sociedade humana, tem o poder de abandonar sua preservação, e consequentemente os meios de garanti-la, à vontade absoluta de um terceiro e a sua dominação arbitrária; e sempre que algum indivíduo pretender reduzi-los a uma condição de escravidão, devem ter o direito de preservar este bem inalienável e de se livrarem daquele que invade esta lei fundamental, sagrada e inalterável de autopreservação (...)247.

Em Locke, inicia-se a compreensão de que tal auto-preservação consiste na defesa da identidade. Esta “identidade mesma” foi conceituada a partir das diferenças que poderiam ser aplicadas diante da lei. Quando Locke explana sobre a relevância das prerrogativas do poder executivo em contrariar a lei, quando for o caso de se preservar o indivíduo, argumenta que “um homem pode tombar sob o golpe da lei, que não faz distinção das pessoas248”. O discurso é dirigido à noção de diferença, dentro do paradigma jurídico da igualdade formal. Desta maneira, relacionam-se três sentidos jurídicos no conceito de self: a identidade, que tem expressão jurídica na nacionalidade e cidadania; o direito à igualdade; e o direito à diferença.

No entanto, no período histórico de Locke, havia o código de conduta baseado nas préférences, que significavam justamente a possibilidade de distinguir as pessoas conforme o grau hierárquico de nobreza ocupado na sociedade. Este caráter das sociedades aristocráticas definia o sujeito de direitos previamente, desde a origem do nascimento. Esta noção é distinta da concepção moderna sobre as desigualdades entre os sujeitos. A interpretação jurídica nas sociedades modernas trata a discriminação positiva, isto é, a distinção dos sujeitos, de maneira a não haver a discricionariedade sobre os direitos. Neste aspecto, o estudo de Celso Antônio Bandeira de Mello é esclarecedor:

Não se podem interpretar como desigualdades legalmente certas situações, quando a

lei não haja “assumido” o fator tido como desequiparador. Isto é, circunstâncias

247 Idem, 2006, p. 173. 248 Idem, 2006, p. 181.

ocasionais que proponham fortuitas, acidentais, cerebrinas ou sutis distinções entre

categorias de pessoas não são de considerar249.

Acontece que, na epistemologia do direito, Locke não distinguia “identidade” e “igualdade”. Neste sentido epistemológico, Ricoeur considera que o vocábulo self foi “uma invenção de Locke sob o controle do conceito de identidade250, onde a identidade está oposta à diversidade. Para Locke, esta diversidade tem o sentido de diferença251. Dá-se início, então, à noção de individualidade na forma da filosofia política iluminista. Mas esta forma ainda estava revestida dos caracteres da sociedade aristocrática, o que a tornaria ilegítima numa democracia moderna. Foi necessária uma mudança histórica da noção de individualidade para que se estruturasse a compreensão acerca do self. Ocorre que a própria noção de pluralismo hoje conhecida nas sociedades liberais democráticas deve sua referência moral a este sentido lockeano de diversidade. Esta estrutura conceitual inadequada opõe o pluralismo à identidade.

O conceito de self advém do “Ensaio sobre o Entendimento Humano252”, estudo mais filosófico do que jurídico, cuja preocupação de Locke foi superar o cogito cartesiano. Há duas marcas cruciais neste “Ensaio” de Locke: a contestação à epistemologia tradicional de Descartes; e a inovação do conceito de self, que evoluiu até estruturar o conceito de sujeito de direitos. Para contrariar o método cartesiano, a epistemologia de Locke renunciou à existência de princípios inatos na mente. Desde o início do “Ensaio”, o jurista argumenta que, se a razão descobre estes princípios, não significa que eles sejam inatos. De acordo com Locke:

Sería tanto como pensar que el uso de la razón es tan necesario para que nuestros ojos descubran los objetos visibles, como que sea preciso el uso de la razón, o su ejercicio, para que nuestro entendimiento vea aquello que está originalmente grabado en él, y que no puede estar en el entendimiento antes de que él lo perciba253.

Trata-se de uma provocação ao mentalismo de Descartes, segundo o qual a razão seria inata à mente do sujeito. Entretanto, o movimento de mudança percebido a partir das concepções de Locke não significou uma ruptura com a epistemologia tradicional. Este traço caracteriza os grandes teóricos que, ao mirarem o olhar sobre um determinado alvo, expõem o fluxo de compreensões do período em que viveram e demonstram que o “erro” em atingir a pretensão indica, de forma implícita, outra mudança. Neste caso de Locke, demonstra-se que a

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MELLO, Celso Antônio Bandeira de. O Conteúdo Jurídico do Princípio da Igualdade. 3ª ed. São Paulo: Malheiros, 2007, p. 45.

250 RICOEUR; Idem, 2006, p. 133. 251 RICOEUR; Idem, 2006, p. 133. 252

LOCKE, John. Ensayo sobre El Entendimiento Humano; tradução de Edmundo O‟Gorman. Colômbia: Fondo de Cultura Económica, 2000, pp. 310-333.

mudança não atingiu a forma subjetivista da epistemologia, mas refletiu na noção de sujeito. Na epistemologia de Descartes, a razão estaria arraigada na mente do sujeito. Para Locke, este sujeito empírico da ciência possui uma consciência. Foi Locke quem declarou a capacidade de reflexão. Portanto, a mudança lockeana mostra uma nova noção sobre o sujeito que reflete, de modo a trazer uma compreensão renovada acerca da individualidade.

Diante disto, o avanço de Locke não pôde significar um rompimento total com a filosofia do sujeito. Como na citação que diz, “para que nuestros ojos descubran los objetos visibles254”, permanece a noção de que a existência dos objetos dependeria do sujeito. Este sujeito empírico de Locke “funda” a realidade dos objetos. As reminiscências epistemológicas do cartesianismo afetarão o conceito de self e a noção de individualidade. Foi devido a este dado que Richard Rorty atribuiu à Locke, e não ao “Discurso” de Descartes, a estruturação da epistemologia tradicional, dando conta de que, não obstante Descartes tenha sido o autor das noções de representações internas sobre a realidade, foi Locke quem descreveu o mecanismo mental e o fundamento do conhecimento humano. De acordo com Rorty:

Enquanto Aristóteles não tinha de se preocupar com um Olho da Mente, acreditando que o conhecimento era a identidade da mente com o objeto conhecido, Locke não dispunha dessa alternativa. Uma vez que, para ele, as impressões eram

representações, necessitava de uma faculdade que estivesse consciente dessas

representações, uma faculdade que julgasse as representações e não se limitasse a tê-

las – que julgasse se elas existiam (...) a confusa idéia da filosofia moral enquanto

ciência do homem empírica só se tornou possível devido a este estádio de transição255.

Esta análise de Rorty mereceu a atenção de Habermas e Taylor. Num ensaio sobre a virada lingüístico-pragmática, Habermas cita o “importante livro de Rorty256”. Atribuindo o mesmo peso, Taylor afirma que este trabalho de Rorty “ajudou tanto a cristalizar como a acelerar uma tendência de repúdio a todo o empreendimento epistemológico257”, uma vez que o “livro de Rorty parece oferecer uma resposta clara e plausível258” para o problema da antiga

epistemologia, que ainda toma conta das ciências sociais. O motivo que aproxima Habermas e Taylor à obra de Rorty mostra como tais teóricos se unem na crítica epistemológica ao projeto “fundacional”. A evolução do conceito de self decorre desta virada lingüístico-pragmática que Rorty radicaliza com o neo-pragmatismo. No “Ensaio” de Locke, o conceito de self surgiu de

254 Idem, 2000, p. 25. 255

RORTY, Richard. A Filosofia e o Espelho da Natureza; tradução de Jorge Pires. Lisboa: Dom Quixote, 1988, pp. 118-119.

256 HABERMAS, Jürgen. A Virada Pragmática de Richard Rorty (Contextualismo, razão e naturalização) /

Filosofia, racionalidade, democracia: os debates Rorty & Habermas; tradução e org. José Crisóstomo de Souza. São Paulo: Editora UNESP, 2005, p. 170.

257 Idem, 2000, p. 14. 258 Idem, 2000, p. 14.

forma praticamente acidental ao seu objetivo principal. Verificamos que este objetivo era a invalidação do cogito cartesiano. Logo, houve uma continuidade nos projetos de superação da epistemologia tradicional, desde a própria estruturação das ciências humanas e sociais.

O primeiro dado que recebemos da antiga epistemologia é a preocupação com a teoria do conhecimento. O segundo ponto desta tradição epistemológica faz o conhecimento ser formado pela representação dos objetos. O terceiro ponto nodal é a categoria da evidência do sujeito perante a realidade, o que garantiria a certeza quanto à verdade dos juízos. Neste último quesito, Locke altera a concepção de Descartes para aprofundar o segundo paradigma, quanto ao aspecto representacional. A mudança de uma concepção para a outra pode ser demonstrada ao modo de Ricoeur, conforme o termo empregado pelos diferentes teóricos. “Para o próprio Descartes, o cogito não é um self, tampouco uma consciência259”. Enquanto

em Descartes há a evidência do sujeito, Locke estrutura o conceito de self e de consciência para formar a noção de identidade. Nesta concepção, nada está inato na mente, tudo está por ser descoberto pelo sujeito. No movimento destas noções, onde antes havia a evidência do sujeito cartesiano que funda a realidade, passou a existir a consciência do sujeito lockeano que representa esta mesma realidade.

No capítulo do “Ensaio” dedicado à identidade e à diversidade, Locke trata do que denomina de principium individuationis260, onde é formulado um paralelo entre o indivíduo e um átomo. Neste princípio, a interação social entre dois indivíduos não altera a substância dos mesmos, nem em termos qualitativos, visto que “si dos o más átomos se unen en una misma masa, cada uno de esos átomos será el mismo261”, nem quantitativos, pois “la variación de grandes porciones de materia no altera la identidad262”. Nesta estrutura conceitual atomizada do self, a abordagem sobre o sujeito é meramente epistemológica, na forma tradicional, que é baseada na busca de uma teoria do conhecimento (não na busca de um sentido prático), bem como numa narrativa fixa marcada pela obscuridade dos atores sociais.

Não obstante a concepção atomizada do indivíduo, os conceitos de Locke sobre o self e a consciência caminham para a estruturação conceitual do sujeito de direitos. O conceito de consciência é atinente à reflexão. Este movimento auto-reflexivo da chamada filosofia da consciência estrutura uma nova compreensão sobre o indivíduo, ainda longe da auto-reflexão individual na hermenêutica de Dilthey e da psicanálise. Por meio de Locke, houve a descrição 259 Idem, 2006, p. 133. 260 Idem, 2000, p. 312. 261 Idem, 2000, p. 313. 262 Idem, 2000, p. 313.

mecânica do conhecimento, onde a matéria que forma a substância do ser era considerada uma extensão das idéias deste mesmo ser, num processo de identificação. Neste momento, o conceito de identidade aparece para materializar o funcionamento da mente que se identifica com as idéias do ser. A identidade do ser é a identificação do objeto que está representado na consciência do self. Desta forma, o conceito de self correspondia à formação da identidade, através da representação dos objetos refletidos na consciência. Este conceito atomístico de self era inteiramente epistêmico. Diferentemente de Descartes, o objeto já não está na mente do sujeito, nem com ele se identifica, senão pela consciência que o representa na forma reflexiva. A formação moral do self fundava a racionalidade humana e a identidade pessoal. Esta nota faz parte das seguintes apreciações de Locke sobre os elementos que caracterizam a pessoa:

(...) debemos ahora considerar qué se significa por persona. Y es, me parece, un ser pensante inteligente dotado de razón y de reflexión, y que puede considerarse a sí mismo como el mismo, como una misma cosa pensante en diferentes tiempos y lugares; lo que tan sólo hace en virtud de su tener conciencia, que es algo inseparable del pensamiento y que, me parece, le es essencial, ya que es imposible que alguien perciba sin percibir que percibe263.

O mencionado conceito de identidade pessoal estampa a típica racionalidade da “era das luzes”. O indivíduo agora está esclarecido de si mesmo; da sua identidade enquanto uma pessoa. Uma pessoa que é, nesta concepção de Locke, aquele ser dotado de consciência reflexiva; e, em assim sendo, poder considerar-se a si mesmo como indivíduo. A formação da individualidade humana, a partir deste pensamento iluminista, prescreve também que a pessoa será idêntica a si mesma ainda que esteja em diferentes lugares e tempos. Pode-se dizer que o indivíduo deste individualismo liberal de Locke atravessou os mais remotos lugares e tempos de modo bastante confuso. A emergência das crises do self, devidas ao mal-estar coletivo nas sociedades modernas, significou a transformação desta noção de consciência individual.

O indivíduo moderno já não pode ser definido da mesma maneira nas sociedades liberais. Segundo Charles Taylor, as crises de identidade são uma característica estrutural da individualidade moderna. Estas crises podem ser positivas ou negativas e estão interiorizadas nos indivíduos, quer queiram ou não. Taylor define este aspecto como crises do self e trata a tradução moderna das noções de Locke como uma crise negativa. A crise negativa do self está impregnada na análise do indivíduo atomizado. O atomismo do sentido está estruturado no isolamento individual em face de uma comunidade de linguagem. Taylor denominou tal crise negativa do sujeito de direitos de self pontual264. Esta crítica sobre a pontualidade normativa

263 Idem, 2000, p. 318. 264Idem, 1997, p. 210.

possui cunho epistemológico, político e jurídico. O desprendimento do sujeito diante da moral intersubjetiva da prática cotidiana ostenta o cientificismo atomista, que Taylor explica:

Para Locke, o self apresenta a peculiaridade de se fazer presente essencialmente para si mesmo. Seu ser é inseparável da autoconsciência. Em conseqüência, a identidade pessoal é uma questão de autoconsciência. Mas isso não é de forma alguma aquilo que venho chamando de self, algo que só pode existir num espaço de indagações morais. A autopercepção é a característica definitória crucial da pessoa na opinião de Locke. (...) Isso é o que desejo chamar de self pontual ou „neutro‟ – „pontual‟ porque o self é definido abstraindo-se todas as preocupações constitutivas (...). Sua única propriedade constitutiva é a autoconsciência. Trata-se do self que Hume propôs-se a procurar e, previsivelmente, não conseguiu encontrar265.

A estrutura conceitual do sujeito de direitos partiu desta evolução do self. O cineasta Michelangelo Antonioni, no filme The Passenger, de 1975, apresentou este indivíduo indefinido na figura do repórter “Mr. Locke”, que, numa entrevista que faz com um oriental, ao indagar: “Has that changed your attitude toward certain tribal customs? Don’t they strike you as false now and wrong, perhaps, for the tribe?” Recebeu a resposta: “I don’t think you understand how little you can learn from them. Your question are much more revealing about yourself than my answer would be about me266”. Na narrativa cinematográfica de Antonioni, Mr. Locke assume outra identidade.