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O concreto e o repertório: eu já vi uma lua prata

6.3 DOS DESDOBRAMENTOS DO POÉTICO NO SER

6.3.2 O concreto e o repertório: eu já vi uma lua prata

Outro ponto observado durante os ateliês foi a presença do elemento concreto para fomentar sua expressão não verbal, identificada como uma subcategoria de análise. Esse concreto vem a ser entendido por aquilo que era simples, ou até parte do repertório prévio das crianças, facilmente identificado por elas. Tais sensações também apareceram na categoria unificada do subcapítulo anterior Da expressividade da criança na recepção ao poético, que nos mostra como essa construção por parte das crianças é presente e real na forma de se expressar verbal ou não verbalmente. Algumas destas evidências são conferidas na sequência.

Durante a construção do desenho no Ateliê 1, no qual foi lido o texto do livro Que bichos engraçados! (GONZALEZ, 2018), as crianças fizeram alguns comentários espontâneos sobre o que estavam desenhando. Maria Clara, Marina, Anita, Patrícia e Alice falaram sobre suas vivências no zoológico e no parque Beto Carrero24 enquanto desenhavam. Neymar cantava uma canção e às vezes trocava conversas com Cristiano. Outras permaneceram concentradas em seus desenhos. Como observamos, algumas crianças pareciam necessitar de interação para a criação pois conversavam, falavam e mostravam espontaneidade nesse instante, outras pareciam organizar seu pensamento por meio do canto enquanto outras silenciam. Ora, elas mostram que diversas linguagens rondam-nas durante a realização da sua expressão criativa e de como o corpo e a aproximação com o outro pode favorecer sua expressividade, o desenvolvimento da sua linguagem. No quadro 15, é possível conferir quatro dos desenhos realizados pelas crianças:

24 Parque temático situado na cidade de Penha no estado de Santa Catarina, no sul do Brasil.

Quadro 15 – Expressão não verbal das crianças acerca da obra Que bichos engraçados!

Fonte: elaborado pela autora com base nos desenhos das crianças da pesquisa (2022).

Alguns dos desenhos seguiram a linha das argumentações baseadas nos animais ou no zoológico e até nas rimas (Marina). Cristiano e Neymar trouxeram elementos inusitados em relação ao texto, um pouco desconectados (um desenhou sobre a cerca construída com o pai e o outro sobre jogar futebol com o pai) como podemos verificar no quadro 15.

Já no ateliê 2, no qual foi lido o texto do livro Gato pra cá, rato pra lá (ORTHOF, 2012), a maioria das crianças desenhou o gato e o rato no telhado, alguns trazendo a noite, evidenciando a lua e o céu estrelado, com exceção de João que fez rostos sorrindo, alegando que o poema tinha lhe deixado feliz. Neymar, que desenhou a lua e uma porção de estrelas, proferiu sobre seu registro: “Que quando falou que tinha uma lua prata eu lembrei que eu já vi uma lua prata.” Em síntese, acerca dos desenhos, entendemos que o elemento concreto é presente, tanto pelo trazido pelo texto lido, como pela experiência da criança, de modo que tais elementos são evidenciados pelas crianças também no grafismo. O quadro 16 mostra quatro desenhos expressados no Ateliê 2:

Desenho de Marina Desenho de Anita

Desenho de Neymar Desenho de Cristiano

Quadro 16 – Expressão não verbal das crianças acerca da obra Gato pra cá, rato pra lá

Desenho de Marina Desenho de Anita

Desenho de João Desenho de Neymar

Fonte: Fonte: elaborado pela autora (2022) com base nos desenhos das crianças da pesquisa.

Outro exemplo do concreto apareceu no Ateliê 4, no qual o texto ouvido foi do livro Curumimzice (HAKIY, 2014). Nesse ateliê, foi possibilitado que as crianças se expressassem em relação ao texto, utilizando argila. Cada um recebeu a mesma quantia de argila. No quadro 17, apresentamos algumas das obras modeladas.

Quadro 17 – Expressão em argila com base na obra Curumimzice Cobra de Anita (xerimbabo) Cobra de Carolina (xerimbabo)

Coruja de Paola (xerimbabo) Marimarizeiro e curumim de João

Coruja e Marimarizeiro de Cristiano Coruja e Marimarizeiro de Marina

Fonte: acervo da pesquisadora (2021).

Conforme o relato do diário de campo (2021), a expressão artística da obra com uso de argila mostrou que as crianças focaram na construção do xerimbabo (bicho de estimação do curumim) e no marimarizeiro (espécie de árvore). O marimarizeiro sempre voltado a uma árvore do imaginário da criança e o xerimbabo ao animal de estimação do curumim que elas pensavam que seria. Nas imagens do quadro 17, é possível perceber que Anita e Carolina, identificaram o xerimbabo como uma cobra, já Paola, Cristiano e Marina, como uma coruja. As árvores foram construídas de forma parecida, sendo que João, fez também o curumim na base da árvore, segundo ele, porque o curumim iria subi-la.

As crianças, ao descobrirem que o xerimbabo seria o bicho de estimação do curumim, se aproximaram da obra por meio de um elemento que é mais do agrado ou do universo delas: os animais. Elas trouxeram esse significado para se expressar sobre isso, sobre algo que faz parte do seu eu criança: em geral crianças gostam de animais. A coruja – mencionada durante o ateliê como uma possibilidade de ser o tal xerimbabo – foi uma das representações mais presentes nas modelagens com argila.

A árvore marimarizeiro, talvez por seu nome diferente, pela sua sonoridade, também mobilizou a atenção e identificação das crianças, sendo o segundo elemento mais presente na expressão pela modelagem. Sendo um objeto conhecido, a árvore pareceu possível de ser modelada pelas crianças. O personagem do curumim foi destaque somente na modelagem de João, não sendo dada tanta importância como os demais elementos. Talvez porque não tenha feito tanto sentido para as crianças da turma.

Com base nos desenhos e também nas modelagens elaboradas na Roda dos ventos, por meio da representação de animais ou plantas presentes na obra, surgiu a hipótese de que as crianças buscaram pelo concreto, aquilo que é mais seguro de produzir diante do texto lido.

Logo também transparece que cada texto levou cada criança a uma sensação, a um lugar que é dela, mesmo que isso possa gerar estranhamento para um adulto (visto alguns aspectos que pareceram desconectados à obra, como no caso de alguns desenhos do Ateliê 1 que não tinham relação direta com a obra ouvida). Mesmo assim, é válido valorizar a tentativa das crianças de expressar aquilo que sentem, sobretudo acerca do poético presente no poema, porque foram sensações genuínas e que fizeram sentido para elas.