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5.2 INÍCIO DO SEGUNDO MANDATO: A TENSÃO CONTINUA

6.1.3 O Confrontamento da Esquerda Sob os Olhos da Direita

O confrontamento das duas concepções de organização de luta acirrou-se ainda mais no segundo semestre de 1979. Aparentemente, o grupo de monitores que questionava de forma mais incisiva a direção da UPES era bastante reduzido, contudo contava com apoio de lideranças capixabas e de veículos de comunicação como o Jornal Opinião. Esse embate ideológico foi acompanhado de perto pelos agentes do DOPS. O lançamento oficial do grupo oposicionista à direção da UPES, a CAPO, foi realizado através do informativo22 Pó de Giz.

No documento é relatado que a direção da União dos Professores era porta-voz do Governo. Destaca ainda que os monitores se rebelaram para lutar pelos seus direitos. Questiona a forma conciliatória com que a direção negocia com o Poder Executivo, deixando claro que se articula com setores oposicionistas a essa política, frisando ainda que usa o jornal A Posição para divulgar o que foi decidido no Encontro

22 Informativo Pó de Giz. P.105. Arquivo Público do Estado do Espírito Santo. Fundo/Coleção: DOPS/ES.

Dossiê 13/ Manifestações dos Professores Estaduais e Municipais do Espírito Santo, ocorridas nos anos de 1979/1980.

Nacional dos Professores e não encaminhado pela direção da UPES.

No informe23intitulado “Corrupção”, o grupo tece pesadas críticas ao governador Eurico Rezende, acusando-o de vários gastos que acabavam por contribuir para esmagar o magistério. Em outro documento24 a comissão denuncia que o acordo de aumento salarial proposto pelo Poder Executivo tinha como único objetivo desmobilizar categoria, e o pior, contando com anuência da UPES. Segundo os integrantes da CAPO, o Governo só atendeu algumas reivindicações de parte do magistério através de pressão, destacando, que os direitos dos monitores, por exemplo, foram conseguidos através da Justiça do Trabalho, e não através mobilização dos docentes.

Aprofundando suas críticas através do documento25 “Precisamos de uma Assembléia Geral”, os monitores destacam que os interesses da categoria não são os mesmos da direção da entidade. Os membros da CAPO lembram ainda que, quando relataram as condições do magistério capixaba no encontro de professores realizado no mês de julho em São Paulo, a presidente da UPES, Myrthes Bevilacqua, prometeu que convocaria uma assembleia geral tão logo chegasse à Vitória, contudo, como não houve a convocação, os monitores demonstraram seu posicionamento no jornal A Posição, de setembro de 1979.

Na matéria, a comissão mostra o seu descontentamento com o Governo do Estado para a sociedade capixaba, e, principalmente, com os rumos tomados pelo movimento de professores, deixando claro que a greve era um dos poucos instrumentos de pressão que a categoria possuía, contudo utilizada somente pelos monitores. Se a situação dos contratados era ruim, os efetivos, cansados de esperar solução dentro do Estado e não mobilizados para a greve, mais uma vez apelaram para o Governo Federal.

No dia primeiro de outubro, em uma audiência pública, foi entregue ao Ministro da Educação, Eduardo Portella, o documento elaborado de tempo em tempo pela UPES e encaminhado às autoridades: o Memorial26. Dentre as reivindicações havia o reajuste real de acordo com a inflação, pois a gratificação de 40% concedida pelo Governo do Estado podia ser retirada a qualquer momento. Também solicitaram a paridade da remuneração com outros cargos no mesmo nível de formação, questionando a

23 Informe Corrupção. P.106. Arquivo Público do Estado do Espírito Santo. Fundo/Coleção: DOPS/ES.

Dossiê 13/ Manifestações dos Professores Estaduais e Municipais do Espírito Santo, ocorridas nos anos de 1979/1980.

24 As manobras do governo e a nossa reorganização. P.107. Arquivo Público do Estado do Espírito

Santo. Fundo/Coleção: DOPS/ES. Dossiê 13/ Manifestações dos Professores Estaduais e Municipais do Espírito Santo, ocorridas nos anos de 1979/1980.

25 Precisamos de uma assembleia geral. P.108. Arquivo Público do Estado do Espírito Santo.

Fundo/Coleção: DOPS/ES. Dossiê 13/ Manifestações dos Professores Estaduais e Municipais do Espírito Santo, ocorridas nos anos de 1979/1980.

26 Memorial. 01/10/1979 P.132-137. Arquivo Público do Estado do Espírito Santo. Fundo/Coleção:

DOPS/ES. Dossiê 13/ Manifestações dos Professores Estaduais e Municipais do Espírito Santo, ocorridas nos anos de 1979/1980.

ausência de reajuste aos aposentados e a demissão de professores celetistas e a sua readmissão sem nenhum vínculo.

No dia seguinte ao envio do memorial ao Ministro da Educação, o Deputado Federal pelo MDB, Max Freitas Mauro, fez um discurso27 na Câmara dos Deputados relatando a audiência, ocasião em que destacou que o convite para participar da conversa partiu da presidente da UPES. Em sua fala, o Deputado questionou o Governador afirmando que a situação da educação capixaba era bastante precária, principalmente para os professores monitores. Aproveitando o ensejo, o Deputado convidou o Ministro para visitar o Estado, ressaltando que o Governo Federal deveria garantir o imediato cumprimento da Lei nº 5692 /71, que fixa as Diretrizes e Bases do Ensino Primário e do Segundo Grau. Esse discurso e a movimentação tanto dos professores efetivos quanto dos contratados, revela que o governo Eurico Rezende era bastante parecido com o seu antecessor, Élcio Álvares.

No caso dos monitores, como ambos não tiveram condição ou não priorizaram o pagamento em dia, a situação chegou ao Governo Federal. Outro episódio que revela a semelhança de dois adversários políticos filiados ao mesmo partido é sobre o cumprimento da legislação. O ex-governador Élcio Álvares, no caso da colocação em prática do Estatuto do Magistério, que constava na 5692/71, ironizou que as leis são muito bonitas na folha de papel, mas na prática se tornam inviáveis. Em relação ao atual Governador, um episódio demonstrou que, para não colocar a legislação em prática, o mandatário acreditava na lentidão da Justiça, como frisou o assessor jurídico da UPES, Joaquim Silva em sua entrevista.

Silva, tentando obter uma solução para a greve dos médicos, situação em que o Governo do Estado insistia em não cumprir a lei, combinou com repórter do jornal A Tribuna, onde trabalhara, para fazer uma pergunta ao governador Eurico Rezende sobre o descumprimento da lei. A surpreendente resposta revelava como os poderes constituídos faziam uma série de conchavos entre si : “Eu acredito na morosidade da Justiça”. Contudo essa morosidade não era aceita pelos professores contratados. Como forma de tensionamento e tentativa de ter o salário em dia, um dos poucos direitos garantidos, monitores de várias escolas da Grande Vitória entraram em greve, conforme reportagem28 do jornal A Gazeta, de 09 de outubro, afirmando que só voltariam às atividades quando o Estado pagasse pelo menos o mês de agosto. A matéria, mostrando a movimentação dos professores contratados, foi encaminhada ao

27 Discurso do deputado Max Mauro( MDB/ES). 02/10/1979 P.121-125. Arquivo Público do Estado do

Espírito Santo. Fundo/Coleção: DOPS/ES. Dossiê 13/ Manifestações dos Professores Estaduais e Municipais do Espírito Santo, ocorridas nos anos de 1979/1980.

28 A Gazeta. 09/10/1979 P.111. Arquivo Público do Estado do Espírito Santo. Fundo/Coleção:

DOPS/ES. Dossiê 13/ Manifestações dos Professores Estaduais e Municipais do Espírito Santo, ocorridas nos anos de 1979/1980.

Delegado do DOPS através de ofício29, sendo que este solicitou ao chefe da Seção de Operações Especiais um levantamento com informações sobre a greve. A resposta para a solicitação foi dada no dia 24 de outubro30, informando que o movimento foi organizado por membros da classe visando melhoria salarial e regularização da situação funcional, contudo já tinha terminado. Os monitores capixabas, cansados das promessas sem cumprimento no Estado, resolveram apelar ao Ministro da Educação, Eduardo Portella, e ao presidente da República, João Batista de Oliveira Figueiredo, através do documento31 Manifesto ao Presidente.

No documento, fica bem claro que o atraso salarial dos professores contratados já vem a longo tempo, e que o atual Governo prometeu uma solução, contudo continuou tratando o magistério da mesma forma desrespeitosa com que o fizeram os outros governantes. O manifesto também deixa claro que a comunidade capixaba perdia mais uma vez, e poderia ser penalizada devido à paralisação dos professores. Quem também solicitou ajuda ao Governo Federal para resolver a situação dos monitores foi a UPES.

A entidade enviou uma carta32 ao presidente da República João Batista de Oliveira Figueiredo questionando a política adotada pelo Governo Estadual, que alegava não ter dinheiro para pagar o magistério em atraso, mas gastava com propaganda em diversos meios de comunicação. A entidade pede ainda que seja feita uma emenda à Constituição, para que os monitores, muitos deles com mais de 20 anos nesta situação, possam ter os mesmos direitos dos efetivos. Devido a toda essa situação os professores capixabas tinham pouco a comemorar na sua data.

No dia 15 de outubro – Dia do Professor – aconteceu uma assembleia da rede esta- dual. Para a vigilância desse movimento foi emitida no dia 12 de outubro uma ordem de serviço33 designando três agentes policiais, para que se dirigissem ao local do encontro, depois acompanhassem a caminhada até a Catedral Metropolitana, e poste- riormente apresentassem o relatório final.No relato34 feito pelos agentes, foi destacado

29 Ofício de encaminhamento ao Sr. Delegado do DOPS/ES. 09/10/1979 P.112. Arquivo Público do

Estado do Espírito Santo. Fundo/Coleção: DOPS/ES. Dossiê 13/ Manifestações dos Professores Estaduais e Municipais do Espírito Santo, ocorridas nos anos de 1979/1980.

30 Informações sobre a greve.24/10/1979. P.113. Arquivo Público do Estado do Espírito Santo.

Fundo/Coleção: DOPS/ES. Dossiê 13/ Manifestações dos Professores Estaduais e Municipais do Espírito Santo, ocorridas nos anos de 1979/1980.

31 Manifesto ao Presidente. 13/10/1979.P.144. Arquivo Público do Estado do Espírito Santo.

Fundo/Coleção: DOPS/ES. Dossiê 13/ Manifestações dos Professores Estaduais e Municipais do Espírito Santo, ocorridas nos anos de 1979/1980.

32 Carta ao Presidente da República João Figueiredo. 13/10/1979.P.126-131. Arquivo Público do

Estado do Espírito Santo. Fundo/Coleção: DOPS/ES. Dossiê 13/ Manifestações dos Professores Estaduais e Municipais do Espírito Santo, ocorridas nos anos de 1979/1980.

33 Ordem de serviço. 15/10/1979.P.145. Arquivo Público do Estado do Espírito Santo. Fundo/Coleção:

DOPS/ES. Dossiê 13/ Manifestações dos Professores Estaduais e Municipais do Espírito Santo, ocorridas nos anos de 1979/1980.

que a reunião aconteceu, contudo a passeata que estava programada não foi realizada. Essa desmobilização dos professores efetivos acabava atrapalhando a luta dos monito- res, pois estes não conseguiam ter apoio para pressionar o Governo, mesmo que se movimentassem com as paralisações35 em vários locais do Estado, tanto na Grande Vitória como no interior.

De acordo com a reportagem36 do Jornal A Gazeta, de 18 de outubro, parte dos monitores voltaram às atividades após receber o salário do mês de agosto, enquanto outros continuaram parados, pressionando o Governo para conseguir outros direitos37. Em todas as reportagens fica bastante claro que esses professores contam com o apoio dos pais e alunos para resolver, de uma vez por todas, a questão do atraso dos salários, ressaltando ainda que poderiam paralisar suas atividades no final do mês, caso não recebessem o mês de setembro. Desse modo, a desmobilização dos efetivos, além de atrapalhar a luta dos monitores, custou um preço caro para si mesmo.

Segundo a reportagem38 de A Gazeta do dia seis de novembro, com o tí- tulo “UPES registra falhas em novo Estatuto do Magistério Estadual”, além da correção dos erros no documento, dois pontos deveriam ser tomados como prioridade: equipa- ração salarial dos professores e especialistas com os demais servidores públicos da mesma graduação e pagamento do salário do professor de acordo com o maior título, independente de sua função no magistério. Reforçando a luta pela implantação integral do Estatuto a UPES, segundo o jornal O Diário – edição de oito de novembro – mostrará ao ministro da Educação, Eduardo Portella, as ilegalidades do novo documento. O ano de 1980, em que pese a ausência de uma ação mais incisiva por parte do magistério e a conseqüente vigilância pelo DOPS, notabilizou-se pelos encontros nacionais dos professores, organizados pelos dois grupos que disputavam a hegemonia na luta dos docentes no Brasil.

Dossiê 13/ Manifestações dos Professores Estaduais e Municipais do Espírito Santo, ocorridas nos anos de 1979/1980.

35 A Gazeta.17/10/1979.P.205-206. Arquivo Público do Estado do Espírito Santo. Fundo/Coleção:

DOPS/ES. Dossiê 13/ Manifestações dos Professores Estaduais e Municipais do Espírito Santo, ocorridas nos anos de 1979/1980.

36 A Gazeta.18/10/1979.P.208. Arquivo Público do Estado do Espírito Santo. Fundo/Coleção: DOPS/ES.

Dossiê 13/ Manifestações dos Professores Estaduais e Municipais do Espírito Santo, ocorridas nos anos de 1979/1980.

37 A Gazeta.19 e 20/10/1979.P.209-210. Arquivo Público do Estado do Espírito Santo. Fundo/Coleção:

DOPS/ES. Dossiê 13/ Manifestações dos Professores Estaduais e Municipais do Espírito Santo, ocorridas nos anos de 1979/1980.

38 A Gazeta.06/11/1979.P.212. Arquivo Público do Estado do Espírito Santo. Fundo/Coleção: DOPS/ES.

Dossiê 13/ Manifestações dos Professores Estaduais e Municipais do Espírito Santo, ocorridas nos anos de 1979/1980.