2.2 O ANTICOMUNISMO: PRINCIPAL FATOR PARA A QUEDA DE JANGO
2.3.1 O Primeiro e o Segundo Ciclo de Repressão: Do Golpe Militar ao
De acordo com ALVES (1985, p. 320), a primeira onda de repressão aconteceu em 1964, logo após o Golpe Militar, e resultou na eliminação de pessoas que tinham relação com Governos anteriores, com movimentos sociais, bem como dos líderes e militantes camponeses e da classe operária e de integrantes da Igreja Católica. Também foram afastados militares e quem trabalhava no poder público, mas não comungava com as diretrizes do novo comando. No lugar de quem era afastado foram colocadas pessoas que davam sustentação ao novo regime e não lhe faziam oposição.
Para a legalização dos expurgos, foram editados os Atos Institucionais, ação geralmente realizada pelos presidentes da República. Frisa-se “geralmente”, pois, no dia 9 de abril de 1964, ou seja, seis dias antes do Marechal Humberto Castello Branco assumir a presidência da república, o Comando Supremo da Revolução, órgão transitório encar- regado de escolher o presidente, editou o Ato Institucional (AI) que, posteriormente, ficaria conhecido como AI-1. Segundo ALVES (1985, p. 72), a cronologia, nesse caso, é muito importante: as primeiras cassações de mandatos, suspensão de direitos políticos e transferências de militares para a reserva aconteceram nos dias 10, 11 e 14 de abril, ou seja, antes da posse de Castelo, que ocorreu no dia 15.A “caça” aos sindicalistas e aos dirigentes estudantis também aconteceu de forma intensa.
MULLER (2014, p. 32) destaca que a perseguição aos líderes estudantis significou um revés na organização das lutas, sendo que a União Nacional dos Estudantes (UNE) foi colocada na ilegalidade logo após a instalação do Regime Militar. Em relação aos sindicalistas, FIGUEIREDO e CARVALHO (2006, p. 164) aponta que no período entre 1964 e 1970 foram realizadas 536 intervenções, sendo 483 em sindicatos, 49 em federações e quatro em confederações. De acordo com o autor, quase todos os afastamentos se deram em 1964 e 1965. ROSSI e GERAB (2009, p. 46) destacam que no lugar dos sindicalistas afastados foram colocados interventores. Para concorrer à eleição de qualquer sindicato o candidato deveria ter autorização do Ministério do Trabalho e seguir a política proposta pelos militares para os trabalhadores, mesmo que isso significasse perca de direitos e arrocho salarial.O expurgo nas Forças Armadas foi particularmente duro, dadas às divisões existentes antes de 1964.
Segundo FIGUEIREDO e CARVALHO (2006, p. 164), a maior parte dos militares, se não todos que se opunham ao golpe, foi excluída das fileiras. Foram expulsos, ao todo, 1.313 militares, entre os quais 43 generais, 240 coronéis, tenentes-coronéis e majores, 292 capitães e tenentes, 708 suboficiais e sargentos, 30 soldados e marinheiros. Nas polícias militar e civil, foram 206 os punidos. O processo de limpeza permitiu às Forças Armadas eliminar parte da oposição interna e agir com maior desembaraço no poder. E os civis que trabalhavam no Poder Público e não comungavam com os ideais do novo Governo também foram afastados. ALVES (1985, p. 63) aponta que no período de 1964 a 1967 ocorreu o afastamento de 1530 pessoas de suas funções, a grande maioria, ou seja, 1408 pessoas foram retiradas logo após o golpe. A autora destaca que o expurgo na burocracia civil representou uma forma de eliminar quem era contrário ao regime ao mesmo tempo em que abria espaço para a colocação de pessoas ligadas aos militares, visando principalmente a mudança na linha econômica.Outro instrumento que foi bastante utilizado neste período foram os Inquéritos Policial-Militares (IPMs). A autora aponta que os IPMs eram utilizados na investigação de funcionários civis e militares para identificar quem estava comprometido com atividades subversivas. Como na época o resultado do inquérito tinha que passar pela Justiça, em grande parte dos casos as decisões foram contrárias ao que apontava o inquérito. Essa ‘desautorização da Justiça’ ao trabalho realizado gerou uma grande tensão, pois os coronéis desig- nados para comandar os IPMs, passaram a protestar contra a autonomia do Poder Judiciário. É importante destacar que a simples acusação num inquérito bastava para desencadear uma série de perseguições que poderiam incluir prisão e tortura. Em relação aos números de pessoas que foram presas em todo o país nos primeiros meses, a autora aponta que dificilmente haverá levantamento de números precisos, principalmente porque fazia parte da estratégia de intimidação as detenções temporá- rias, em muitos casos acompanhadas de espaçamentos ou tratamentos violentos por algumas horas em locais de detenção que em muitos casos eram improvisados. No estado do Rio de Janeiro, o Estádio do Maracanã e as embarcações da Marinha foram transformados em gigantescas prisões, sendo que os presos também eram mantidos em quartéis militares e nos quartéis-generais da Polícia Militar. Como che- gavam aos jornalistas relatos de tortura ocorridos nestes locais, houve a investigação por parte de alguns órgãos da imprensa. De acordo com a pesquisadora, o Jornal Correio da Manhã liderou uma campanha denunciando a tortura em vários estados. O jornalista Márcio Moreira Alves conseguiu entrar numa prisão na cidade de Recife e, a partir da coleta de depoimentos e presenciando as torturas infligidas aos presos, fez um relato minucioso dessa prática. Esse relato, que veio a se juntar a um trabalho feito por outros jornalistas e advogados, mostrou que a prática desse crime contra a humanidade acontecia em vários estados do Brasil. Pressionado pelas denúncias, o presidente Castelo Branco determinou que o chefe da Casa Militar, Ernesto Geisel,
fizesse uma investigação, que acabou arquivada por falta de provas, mas que serviu para diminuir a tortura e se configurou no primeiro exemplo de mobilização da oposição contra o regime militar. Contudo essa ação da oposição não fez os militares desistirem de buscar o controle total da sociedade, inclusive com a mudança de rumo de alguns órgãos como o Serviço Nacional de Informações (SNI).
Inicialmente concebido, em 1964, como órgão de informações capaz de subsidiar a Presidência da República com dados indispensáveis às tomadas de decisões, posterior- mente foi sendo remodelado, moldado e endurecido na chefia do general Médici. Esse órgão foi um dos instrumentos mais utilizados quando Médici assumiu a presidência do país, no início da década de 1970, período mais repressor em toda a História do Brasil. Sendo assim, esse amplo sistema de espionagem, ao qual o primeiro chefe do SNI, general Golbery do Couto e Silva se referiu como o “monstro”, contribuiu, com sua participação e assistência, para a organização e ação do maior aparato repressivo presenciado no país. Contudo, antes desse período de repressão extrema, os oposito- res ao Regime conseguiram se rearticular a partir de 1965, buscando alternativas para questionar, por exemplo, a alteração das regras eleitorais.
Com a promulgação do AI-2 a estratégia da oposição dividiu-se entre os grupos que pregavam a preparação para a luta armada, em resposta a violência praticada pelo Poder Estatal, e outro buscando se valer ao máximo das instituições legais existentes. De acordo com PRIORE e VENÂNCIO (2001, p. 368), vista a partir de hoje a luta armada parece ser algo ingênuo ou incompreensível, contudo, para a época, marcada por forte sentimento nacional, em um mundo onde as revoluções que pareciam impossíveis estavam ocorrendo, é perfeitamente explicável, principalmente porque o ano de 1966 reservou várias surpresas desagradáveis para a oposição.
De acordo com ALVES (1985, p. 320), neste ano e em 1967, a repressão agiu para “complementar” os expurgos não realizados logo após o golpe, principalmente devido à ação independente do Poder Judiciário. Mesmo que o número de prisões tenha sido menor que em 1964, a eleição do general Costa e Silva para a presidência, a cassação de parlamentares e o cancelamento do registro de candidaturas, fez parte dos filiados ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB) questionarem se valia a pena sua existência, pois significaria validar um sistema em que as regras eram mudadas de acordo com o interesse dos detentores do poder. De acordo com PRIORE e VENÂNCIO (2001, p. 361), esse quadro deixava claro que o Governo usaria de qualquer artifício para controlar a oposição, tendendo a ser cada vez mais ditatorial, fortalecendo a DSN e ampliando as redes de espionagem e repressão, que seriam usadas intensamente a partir do AI-5.
ALVES (1985, p.111) aponta que a Constituição de 1967 incorporou os controles mais importantes feitos pelos dois atos institucionais e atos complementares. Como esses
atos perderam o seu caráter de excepcionalidade, acabaram ganhando força de poder constitucional. Para a autora, essa mudança levou a institucionalização da DSND, estruturando o Estado para a destruição do inimigo interno. A oposição, indo numa linha contrária a proposta pelos militares, tentava garantir o mínimo de liberdade, sob a forma da Carta de Direitos. O fruto desse embate entre essas duas concepções acabou fomentando a crise institucional que levou ao AI-5.
A autora destaca que a crise institucional aconteceu porque os dispositivos democráti- cos da Constituição davam à oposição margem de manobra, que invocava a defesa da democracia para exigir maior participação popular. Essa abertura permitiu ainda a reorganização do movimento estudantil, que culminou com os grandes protestos de 1968 e uma atuação dos sindicatos na luta contra o declínio dos salários e das condições de vida causadas pelas medidas econômicas do governo, que levou às greves de Osasco e Contagem. Em contrapartida, os setores preocupados com a manutenção da segurança interna consideravam que tais protestos eram uma clara evidência da infiltração comunista, e assim exigiam que medidas que garantissem a segurança nacional fossem aplicadas, o que ocorreu com a promulgação do AI-5, em dezembro de 1968.
De acordo com FREIXO e FREITAS (2008, p. 09), a promulgação desse ato, que aconteceu no dia de 13 de dezembro, levou o Jornal do Brasil, de 14 de dezembro daquele ano, a estampar no alto da sua primeira página uma lúgubre previsão do tempo: “Tempo negro, temperatura sufocante, o ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos”. Na mesma edição, o jornal anunciava em uma das suas manchetes que o dia anterior havia sido o “dia dos cegos”. Analisando o período de 1969 a 1973, fica claro que o jornal acertou na previsão do tempo.