5. As relações sociais envolvidas nas organizações
5.3 Os saberes e sua transmissão
5.3.2 O conhecimento como atributo do artesanato
Sob o enfoque dos trabalhos manuais a essência do aprendizado e a difusão do conhecimento é basicamente a mesma. Esse processo de transmissão do saber por meio da relação familiar foi um fator decisivo na continuidade dessa atividade. Muitas senhoras que hoje trabalham com essa arte relatam ter aprendido em casa, no convívio com mães e avós, como é o caso da Artesã 02:.”Eu aprendi também com a mãe. [...] Minha mãe fazia e eu não dava bola, aí depois um dia eu vi ela fazer e não...mas eu vou tentar fazer. Aí eu vi ela fazer, porque eu sou assim, eu vejo a pessoa”. (ARTESÃ 02).
Tal situação refere-se especialmente ao caso das artesãs mais antigas. Muitas destas pessoas viveram desde tenra idade em contato com a lã, ajudando em tarefas relacionadas ao artesanato em lã. Mães e avós costumavam produzir seus trabalhos rodeadas por filhas e netas que, no aconchego do lar, adquiriam pouco a pouco essas e outras habilidades.
Segundo Sabourin (2011, p. 39), a transmissão dos saberes entre adultos são exemplos que podem compor relações de reciprocidade, pois, devido à uma relação de compartilhamento, permitem a “força do fazer e de abertura ao outro, de ampliação de sua rede social”. Conforme o autor, pesquisas conduzidas no Brasil identificaram que relações simétricas56 de reciprocidade suscitam reconhecimento, identificação e
amizade.
56 As relações de reciprocidade simétrica compreendem igualdade na relação, enquanto assimétricas são relações que contém desigualdade como, por exemplo, a relação entre patrão e empregado.
Outro fenômeno que cobra importância no que diz respeito à construção histórica desse conhecimento local foram os cursos ofertados durante a infância e juventude dessas mulheres. Muito do conhecimento que existe hoje foi passado pela família, mas também existem artesãs antigas que aprenderam por meio de cursos. A Artesã 01 narra em sua fala que aprendeu o ofício por meio de um curso que realizou, repassando o conhecimento para suas filhas. Segundo suas próprias palavras:
Eu comecei, eu morava na campanha, comecei no tempo que era Emater. Não... Ascar, agora é a Emater, é a mesma, não é? Lá no Alvin Garcia, no colégio Alvin Garcia. Elas foram dar um curso lá, a irmã P. e a Z., que já faleceu e a turma da Emater, era ASCAR naquele tempo, mas é igual. E aí aprendi a fazer o fio e aí segui sempre fazendo fio, fiei muita lã! E até hoje nós trabalhamos, eu e as minhas filhas, pelo curso da Emater. E elas também foram aprendendo, o que eu fazia elas foram aprendendo, as duas, não é? (ARTESÃ 01)
Então, por um lado, aprendiam em casa mediante um ensino informal repassado por parentes e, de outro, de um modo mais formal, por intermédio de cursos e nas próprias escolas, como afirmou uma das entrevistadas: “[...] isso tudo eu aprendi no tempo que eu estudava, que eu fui estudante de colégio de freira. Então a gente aprendeu, eu aprendi muita coisa. Então tinha vontade. Era de campanha e não tinha como investir, não é? ” (ARTESÃ 08). Outro relato demonstra a importância desses cursos que introduziram o ofício do trabalho manual desde muito cedo na vida de uma delas para inclusive tornar-se um meio de renda:
Bom, eu faço...eu comecei a vender artesanato em lã crua, tinha 12 anos...12 anos...e daí pra cá eu sempre trabalhei com a lã. [...] Com uma senhora que tinha muito velo que ela já é morta, Dona M. Ela nos deu aula, então era um grupo. Ela era muito exigente, nós tínhamos entre 20 só saiu 6, conseguiram passar com ela só 6, porque ela era muito...e aí a gente fez o curso com ela, desde os 12 anos que eu tenho as fotos, os trabalhos tudo e desde isso eu nunca mais parei né. (ARTESÃ 04)
Independente das particularidades de cada artesã, um dos aspectos que é mais ressaltado é a quantidade de trabalho envolvida. Por um lado, fazer o fio de lã requer habilidade manual para construir uma linha com boa finura e resistência e antes disso, um grande esforço físico despendido nas etapas anteriores. Por outro lado, os artesanatos necessitam de paciência, pois envolvem muitas horas de trabalho, especialmente atenção, para não cometer erros que comprometam as peças. Além disso
o aprendizado não se restringe à fabricação de artigos, mas a uma série de outros elementos correlacionadas com esse mundo do artesanato, da lã, da ovinocultura de forma geral, conforme consta na fala de uma artesã da geração mais nova que largou sua profissão para se dedicar ao artesanato:
Eu não era artesã, eu era advogada. Aí tudo, tudo eu aprendi com as mulheres daqui. Eu não sabia fiar, eu não sabia lavar, não sabia qualificar uma lã, né? Que que era bom, que que era ruim, né? Uma lã boa, uma lã ruim. Uma ovelha de carne não dá lã, sabe? Aí tem aquela ovelha que dá lã e carne, aí tem aquela ovelha que só dá lã, não dá carne. Então isso aí tudinho elas foram me passando e eu fui aprendendo. (ARTESÃ 10)
Assim, há muito mais elementos envolvidos do que simplesmente a sabedoria necessária para produzir peças. Atualmente as técnicas são ensinadas por intermédio de cursos realizados na Associação dos Artesãos de forma independente ou em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR) que ajuda no fornecimento de material. Também de maneira informal algumas pessoas procuram outros artesãos que se dispõem a ensinar de forma particular. Esse movimento vai no sentido de uma preocupação local com o desparecimento dessa manifestação da cultura local. Conforme fica evidente nas palavras de uma servidora da Emater de Jaguarão que trabalha diretamente com essas senhoras artesãs:
Hoje é uma técnica que está ficando muito nas mãos, na sabedoria de pessoas de mais idade né? De artesãs mais antigas, porque ela não é uma técnica muito fácil assim. Ela demanda de tempo pra tá tecendo e fazendo todo o processo. Tem algumas pessoas que conseguiram, mais jovens, que aprenderam e tão utilizando a técnica, mas não é uma quantidade de pessoas muito grande assim. A gente até se preocupa que se perca, né? Essa cultura e esse conhecimento. (EXTENSIONISTA DA EMATER)
Esse conhecimento local passa por um processo de institucionalização do saber. Existem cursos ministrados por meio da Associação dos Artesãos em parceria com o SENAR que disponibilizam essas informações para outros interessados. Esse processo de passagem de um ensino informal para o ensino formal é importante no sentido de manutenção do conhecimento dos artesãos, bem como de sua expansão. Não pelo menor alcance que a transmissão informal possua, pois já demonstrou sua força após perpetuar por tanto tempo, mas sim, pelo fato de ampliar as chances de assegurar sua continuidade.
O saber-fazer descrito detém grande relevância pelos diversos motivos já descritos, como fonte de trabalho e renda, como meio de inserção social e como forma de criação de laços. A sobrevivência desses conhecimentos passa pela transmissão aos mais jovens e pelo reconhecimento desses ofícios com vistas a motivar o interesse em seu aprendizado. Na próxima seção, o desenvolvimento é analisado sob aspectos que correlacionam esses saberes à geração de renda e ao trabalho por eles gerado.