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1.4. UMA TRANSFORMAÇÃO NA HISTÓRIA?

1.4.1. O conhecimento tecnológico „comum‟ às modalidades

Seguindo a primeira regra de composição, para conformar espaços comuns a todas as modalidades, as diversas instituições do país que oferecessem educação polimodal deveriam apresentar planos curriculares com espaços de cada campo. Porém, foi definido que cada modalidade formativa teria maior afinidade com algum campo.

Com isso, cada estrutura definida deveria privilegiar primeiro todos aqueles espaços pertencentes ao campo considerado como o mais pertinente à modalidade. Logo, deveria completar a estrutura curricular com disciplinas dos demais campos, respeitando entre uma quantidade mínima e máxima a presença de espaços de todos os campos como garantia do formato ‗comum‘.

O Quadro 2 ilustra em cada campo de conhecimento os respectivos espaços curriculares definidos e o número mínimo e máximo de espaços que a estrutura de uma modalidade não afim ao respectivo campo deveria respeitar.

Quadro 2 – Campos e espaços de conhecimento

Campo de conhecimento

Espaços curriculares afins Máx. e

mín. Humanidades e ciências sociais 1) história I 2) geografia I 3) economia I 4) filosofia I 5) psicologia 3-4

Língua estrangeira 1) língua estrangeira I 2) língua estrangeira II 3) língua estrangeira III

3 Língua e literatura 1) língua e literatura I

2) língua e literatura II 3) língua e literatura III

2-3 Educação corporal 1) educação física ou linguagem

corporal I

2) educação física ou linguagem corporal II

3) educação física ou linguagem corporal III

2-3

Ciências naturais 1) física I 2) química I 3) biologia I

Tecnologia 1) processos produtivos 2) tecnologias de gestão 3) tecnologias da informação e da comunicação 1-2 Artes e comunicação 1) linguagem artístico comunicacional 2) comunicação

3) cultura e estética contemporânea

1-2

Matemática 1) matemática I

2) matemática II 2

Formação ética e cidadã

Formação ética e cidadã 1

Fonte: Estrutura Curricular da EP (ARGENTINA, 1995).

A modalidade produção de bens e serviços foi considerada pela estrutura curricular com espaços curriculares de maior afinidade com o campo tecnologia. Por isso, os espaços processos produtivos, tecnologias de gestão e tecnologias da informação e da comunicação seriam obrigatórios na instituição que adotasse essa modalidade formativa.

Se comparados os espaços previstos pela estrutura curricular de 1995 com a precedente, conforme Anexos A e B destaca-se que são também esses espaços a novidade na escola secundária assim como a tecnologia foi na primária. Este é um dado que denota a inovação epistemológica da tecnologia assinalada noutros trabalhos como em Buch (1999) e Niezwida (2007). Mesmo tendo funcionado como substituição de atividades práticas na escola primária e secundária, o campo de conhecimento tecnológico significou novos esquemas de conteúdos, por isso, novos processos formativos dos agentes envolvidos nesses processos de ensino-aprendizagem.

A modalidade economia e gestão das organizações seria a única cuja natureza estaria pautada em dois campos. Uma instituição que estruturasse o seu currículo sobre essa modalidade deveria contar, por um lado, com o campo tecnologia, através do espaço tecnologias da informação e da comunicação e, por outro, com os espaços história I, geografia I, economia I, filosofia I e psicologia do campo humanidades e ciências sociais.

Com isso, as diversas instituições que oferecessem uma ou ambas as modalidades deveriam apresentar esses espaços. Logo, deveriam adicionar, mediante uma escolha relativamente aleatória, espaços dos demais campos até completar entre 18 como número mínimo e 20 como número máximo de espaços para atingir o conceito de ‗campo comum‘.

No entanto, percebe-se nessas regras de composição que as chances para que o campo tecnologia fosse devidamente representado em outras modalidades seriam tímidas. As prescrições indicam que um (como mínimo) ou dois (como máximo) espaços deste campo deveriam ser incluídos em cada modalidade.

Seguindo o Quadro 2, para o campo humanidades e ciências sociais, a estrutura estabelece o seguinte: três como mínima e quatro como máxima a quantidade de espaços; para língua estrangeira, pelo menos três espaços; para educação corporal, dois ou três espaços, igual que para o campo ciências naturais e língua e literatura; um como mínimo ou dois como máximo para o campo artes e comunicação; dois espaços para matemática; e o único espaço de formação ética e cidadã também deverão estar presente em cada modalidade.

A exigência de somente um ou dois espaços de tecnologia em certas modalidades indica, mais uma vez, a presença da ideia de esses conhecimentos serem mais ―estranhos‖ a algumas formações. Uma matriz curricular que organiza e distribui conteúdos na valorização de espaços curriculares do campo de conhecimento considerado ―afim‖ à determinada modalidade, em detrimento de outros considerados mais distantes, indica que, mesmo sobre uma pauta ‗comum‘, o acento em orientações paralelas num nível educacional pré-universitário tende a ser mantido tal como no período anterior à lei de 1993.

Ainda conforme os dados do Quadro 2, a educação polimodal, embora constituída por campos comuns e por espaços obrigatórios, privilegia espaços pertencentes ao campo humanidades e ciências sociais, independentemente de qual seja a modalidade, pois é a única que pode atingir presença curricular com quatro espaços no plano de formação comum.

Seguindo o critério quantitativo do documento oficial para a organização da estrutura curricular, o menor número (dezoito) e o maior (vinte) referentes à quantidade de espaços curriculares possíveis de um currículo segundo as prescrições para cada modalidade permite avançar na identificação do valor atribuído a cada campo em cada modalidade.

Detalha-se, no Quadro 3, o valor que atinge o campo tecnologia (a partir da quantidade de espaços de tecnologia sob o total de espaços possíveis) e o campo humanidades e ciências sociais (espaços de humanidades e ciências sociais sob o total de espaços possíveis). Também as condições mais e menos favoráveis previstas para a estrutura curricular de cada uma das modalidades da educação polimodal (EP).

Quadro 3 - Valor atribuído ao espaço do campo tecnologia e do campo Humanidades e Ciências Sociais na educação polimodal (EP).

Modalidade EP

Campo

Valor tecnologia Valor humanidades Cs S. Favorável Desfavorável Favorável Desfavorável Produção de bens e serviços 14,3% 13% 19% 13% Comunicação, arte e desenho. 9,5% 4,3% 19% 13% Ciências naturais 9,5% 4,3% 19% 13% Economia e gestão das organizações 9,1% 4,2% 18,2 12,5% Humanidades e ciências sociais 8,7% 4% 21,7% 20%

Fonte: Estrutura Curricular EP (ARGENTINA, 1995).

Destaca-se que é o campo humanidades e ciências sociais o privilegiado em todas as modalidades pela possibilidade de apresentar- se com um número maior de espaços possíveis do que o campo afim à modalidade. Um currículo orientado à produção de bens e serviços precisaria adotar entre 15 ou 17 espaços, além dos três obrigatórios entre os 23 espaços dos 8 campos restantes. Embora fossem as instituições orientadas a essa modalidade as mais favoráveis para abordar o campo tecnológico, o espaço destinado ao estudo deste poderia ter um valor igual ou inferior ao destinado às humanidades e ciências sociais.

Conforme os dados do Quadro 3, mesmo a modalidade que dedicaria maior espaço (que pode ser expresso em maior tempo) para compreender o tecnológico valoriza mais o conteúdo humanístico (19%) que o próprio tecnológico, o qual atinge um valor de 14,3%. No melhor dos casos em que se consideram as condições mais favoráveis para tratar a tecnologia na sua modalidade específica comparada com as condições menos favoráveis para tratar o específico do campo das humanidades, a tecnologia apenas supera 1,3% do valor atribuído às humanidades.

Dessa forma, o primeiro critério segundo o qual o plano educacional desse nível deveria conter além das disciplinas afins à modalidade ―espaços comuns a todas as modalidades como garantia de experiências formativas em todos os campos‖ (ARGENTINA, 1995, p.

3), significa tímidas condições de superar a tendência que caracterizou desde a sua origem a estruturação do currículo na educação secundária argentina.

Mesmo sendo incluída a tecnologia no plano de formação comum, identifica-se uma valorização de conhecimentos tradicionalmente compreendidos como humanísticos em detrimento do campo tecnológico.

Parece que, como o nome de humanidades foi atribuído a certas disciplinas (políticas e literárias), um plano curricular que reduza a presença destas implica necessariamente em ceder o seu espaço a outras mais restritas, mantendo níveis de estranheza entre ambas as áreas. Tomemos como exemplo os saberes tecnológicos e também os científicos. Pensar na presença desses saberes significaria, nessa lógica hierárquica, o detrimento das primeiras, acatando para uma desumanização, mesmo que qualquer redução signifique limitar a possibilidade da escola para favorecer a compreensão de boa parte da cultura humana, das capacidades e dos limites do homem na sua interação com a tecnologia.

Com isso, não é estranho que várias tentativas de incrementar a presença desses saberes têm sofrido resistências devido à manutenção da distância no que é compreendido como educação humanista e ET. O pouco valor dos saberes tecnológicos atrelados a uma suposta separação e estranheza com respeito aos humanísticos pareceria intrínseco (ou regular) na sua instituição na escolaridade comum. Nessas pautas, também a ET escolar é vista como limitada e estreita.

Esses e outros aspectos da concretização da reforma permitem entender que a inclusão da tecnologia, mesmo prevendo presença em todos os níveis, não significou uma fusão com os outros campos do conhecimento. Embora a tecnologia pudesse estar representada nos planos curriculares, nem todas as especificidades do campo, sob o nome de espaços curriculares, foram previstas como comuns a todas as modalidades. A estrutura favoreceu replicar as limitações em tratar conhecimentos de características práticas numa disciplina sob um título diferente relacionado à tecnologia.