1. Á LCOOL E S AÚDE
1.2. O consumo de álcool como um problema de saúde
O consumo de bebidas alcoólicas por adolescentes é um problema de saúde pública (Coffman, Patrick, Palen, Rhoades& Ventura,2007; Johnston, O’Malley, Bachman&Schulenberg, 2005; Liang& Huang, 2008). Esta constatação tem por base, tanto as consequências em termos da saúde como os problemas sociais associados ao consumo (Balsa, Vital, Urbano&Pascueiro, 2011). O impacto na saúde pública traduz-se na mortalidade direta e também por lesões físicas permanentes causadas por acidentes (Melo, 2011).
O Relatório Mundial sobre Álcool e Saúde, Global Status ReportonAlcoholandHealth, 2011 (WHO, 2011), colocao álcool na oitava posição entre os fatores de risco global de morte e como terceiro fator de risco global de doença e incapacidade. Explicita, ainda, que o uso nocivo do álcool é um dos principais riscos para a saúde no mundo, sendo a carga de doença atribuível ao álcool responsável por mais de 60 tipos de doenças e lesões, e 2,5 milhões de mortes por ano, atribuindo-se ao álcool 4% de todas as mortes no mundo. Este relatório reforça que o impacto do consumo de álcool atinge profundamente a sociedade,prejudicaa saúde física e psicológica da pessoa com reflexo no bem-estar e na saúde das pessoas que a rodeiam. Os resultados em saúde dependem de um conjunto de fatores, muitos dos quais relacionados com níveis e padrões de consumo de álcool, mas também profundamente interligados com a cultura de consumo, a qualidade das bebidas alcoólicas, os media e a legislação ou a falta dela.
Segundo o Plano Nacional de Saúde 2011-2016 (Direção-Geral da Saúde [DGS], 2012), a intervenção sobre os determinantes de saúde, de entre os quais se enumeram a obesidade, o consumo de tabaco e de álcool, é fundamental para a obtenção de ganhos em saúde, redução de custos e consequente melhor qualidade de vida.
De um modo geral, são consideradas bebidas alcoólicas as que contêm álcool, designando-se por etanol ou álcool etílico, caracterizadas como drogas lícitas psicotrópicas, dado que causam alterações no comportamento e efeitos depressores no sistema nervoso central (Balsa etal., 2011). Estes autores referem que as bebidas alcoólicas fermentadas são obtidas por fermentação alcoólica dos sumos açucarados pela ação de leveduras (vinho, cerveja) e as bebidas destiladas resultam da destilação do álcool (aguardentes, licores), contendo uma graduação alcoólica mais elevada. A percentagem volumétrica define a graduação alcoólica de uma bebida e as bebidas fermentadas podem apresentar uma graduação alcoólica cujos valores máximos são de 13% a 14%, e as destiladas podem variar entre os 15% e os 75% (Mello, Barrias & Breda, 2001). Num olhar retrospetivo, o processo de destilação foi introduzido na europa pelos Árabes, o que tornou possível a produção de bebidas de elevado teor alcoólico, até então o consumo de bebidas fermentadas,obtidas de sumo de fruta, grãos ou mel fermentados, o que posteriormente originou o processo de fabrico de cerveja (IDT,2010). As estatísticas mais completas e disponíveis sobre a produção e consumo de bebidas espirituosas destiladas, vinho e cerveja, são publicadas pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação, e têm por base as informações disponibilizadas pelos países membros, produzindo estatísticas que permitem comparar as situações a nível nacional e regional (Smart, Adlaf&Knoke, 1991).
O álcool é consumido sob a forma de bebidas alcoólicas e caracterizado como substância psicoativa ou droga lícita e, apesar de ser indiretamente responsável por problemas familiares e sociais, o seu consumo é bem tolerado pela sociedade. A ingestão de álcool é um ato de socialização, condicionado pela observação e imitação comportamental que se vai interiorizando através das tradições, costumes, rituais e estilos de vida de uma sociedade (Boné & Bonito, 2011; Breda, 1996; Gundy, 2002). Afirmam também que o desenvolvimento individual e social é comprometido pelo consumo excessivo de bebidas alcoólicas. Na opinião de Negreiros (1999), o consumo do álcool e de outras substâncias psicoativas constitui um problema social preocupante e impele a vários desafios. Já em 1985, a OMS publicou uma síntese das tendências verificadas na produção global de álcool nos países membros das
Nações Unidas, com a descrição dos modelos de perfis, dos padrões de consumo e dos problemas relacionados com o consumo de álcool nos países da europa, perfis utilizados para a monitorização da estratégia do Plano de Ação Europeu do Álcool.
Segundo World Drink Trends, em relação às políticas de consumo de álcool na europa, podem considerar-se três grupos de países: i) os do norte da europa, nos quais se incluem Suécia, Noruega e Finlândia, com consumos de bebidas destiladas, ao fim de semana e fora das refeições; ii) os da europa central, como por exemplo, Alemanha, Holanda, Bélgica, Dinamarca, Áustria, Luxemburgo e Reino Unido, com prevalência de consumo excessivo de bebidas fermentadas, em particular a cerveja; iii) os do sul da europa,Portugal, Espanha, Grécia, França e Itália, com predomínio dos consumos de bebidas fermentadas, preferencialmente vinho (Room, Jernigan&Carlini‐Marlatt, 2002).
O consumo de álcool tem-se perpetuado na agenda da OMS e, nesse sentido, salienta-se o esforço para apoiar os Estados Membros na recolha de informações, que fundamentem a implementação de uma estratégia global para reduzir o uso nocivo do álcool, as suas consequências sociais e de saúde. Com base nesta recolha de dados, a OMS, em 2011, desenvolveu um relatório mundial sobre álcool e saúde, Global Status ReportonAlcoholandHealth, no qual apresenta uma perspetiva global, regional e nacional
sobre o consumo de álcool, os padrões de consumo, as consequências para a saúde e as respostas políticas dos Estados Membros. Neste relatório, são apresentados os resultados de 72 países membros, onde se salienta que mais de dois biliões de pessoas no mundo consomem bebidas alcoólicas, sendo a substância psicoativa mais consumida, e indicando que o consumo é mais elevado entre a população com idade superior a 15 anos nos países em que o desenvolvimento económico é superior, relacionado com o maior poder de compra. A mortalidade anual, associada ao consumo nocivode álcool,é de 2,5 milhões de pessoas, situando-se a mortalidade entre 15 e 29 anos em 320.000 pessoas.