ABERTURA DO MAR VERMELHO E AS ESTRATÉGIAS DE MARKETING
4.3 A fidelização do público e o consumo
4.3.1 O consumo de produtos de entretenimento e culturais
Na primeira categoria, sobre consumo de produtos de entretenimento e culturais, primeiramente, abordamos o consumo, pelo público, do filme Os Dez Mandamentos. Em nossa amostra, percebemos que 56,25% do público entrevistado assistiram ao filme, e assumem que a telenovela incentivou tal consumo. Entretanto, este produto causou frustação ao público, pois, como já mencionado anteriormente, havia a entrega de uma promessa: “cenas inéditas e um final exclusivo para o cinema”, mas conforme Karoma (24 anos, NSE B, espírita) não teve nenhuma cena nova, e declara: “Então, fiquei bem decepcionada”.
Desse modo, a expectativa gerada no público foi errônea em relação ao produto de entretenimento. De modo geral, a percepção do público sobre o filme é de que foram recortes da telenovela, ou seja, um resumo de duas horas. Nesse sentido, de acordo com o comentário de Ana (34 anos, NSE C, evangélica), o filme nos cinemas:
“Seria muito mais interessante por contar a história toda. Na [tele]novela você fica curioso para assistir todos os capítulos até o final. Já no filme, como seria tudo de uma vez, pensei que seria mais interessante [...], porém, me decepcionei com o filme.”
Esse depoimento evidencia que a telenovela cativou mais o público do que este produto derivado dela. Tanto que Eliseba (32 anos, NSE C, evangélica) declarou: “Imaginei que seria muito emocionante ver os efeitos especiais pelo cinema, mas prefiro a [tele]novela. [...] O filme ficou bom, mas queria a [tele]novela inteira no cinema”. Com isso, notamos que o público possui uma fidelização maior com a telenovela do que com o filme Os Dez Mandamentos.
Por outro lado, uma minoria do público entrevistado teve uma perspectiva positiva do filme, alegando que foi um resumo bem elaborado da telenovela. Um dos casos em particular é Zelofeade (50 anos, NSE B, evangélico), que declara ter gostado do filme, e situa que
há uma semelhança na construção de cenas deste produto midiático com o filme antigo de Os Dez Mandamentos (1956) – do diretor Cecil B. DeMille –, e ainda, declara que: “não esperava que uma [tele]
novela com menos recurso financeiro se transformaria em um filme, mas gostei bastante do resultado”. Esse relato sublinha dois pontos:
1) revela que para um determinado perfil do público este produto teve, sim, uma recepção mais favorável; e 2) este entrevistado em particular expressa envolvimento com o universo da telenovela.
Em relação ao público que assistiu ao filme nos cinemas, destacamos dois casos em específico, de entrevistados que ganharam ingressos:
Zelofeade (50 anos, NSE B, evangélico) ganhou o ingresso pela Igreja Universal; já no caso de Karoma (24 anos, NSE B, espírita), sua mãe havia ganhado um par de ingressos em um sorteio do trabalho dela, em que comentou: “então eu vou porque gosto”. Além disso, apesar da hipótese da Folha de S. Paulo (2016) sobre o esvaziamento nas sessões, de acordo com o público entrevistado, nas salas de cinema havia uma quantidade razoável de pessoas, e ainda, “na época, muitas igrejas foram com caravana87 assistir ao filme nos cinemas” – declara Eliseba (32 anos, NSE C, evangélica).
Ainda, dentro de nossa amostra, há dois casos que assistiram ao filme pela TV. Segundo Ana (34 anos, NSE C, evangélica), após aproximadamente um mês da saída do filme dos cinemas a RecordTV o exibiu. Após um período, o filme foi exibido novamente em uma programação especial de final de ano da RecordTV – a qual Jaque (15 anos, NSE B, evangélica) confirma ter assistido.
Visto que mencionamos até agora as motivações e as percepções do público que consumiu o filme, vale apresentarmos aqui também as causas pelas quais 43,75% da amostra não assistiu a ele, compreendendo três motivos principais: 1) a falta de interesse; 2) por se tratar de um resumo da telenovela; e 3) para evitar spoilers da segunda temporada de Os Dez Mandamentos. Esse último motivo é um caso em particular de Nadabe (14 anos, NSE C, evangélico), que explicou que:
“Eu sabia que sairia a segunda temporada da [tele]
novela, achei que o filme poderia contar alguma coisa sobre a [tele]novela. Preferi evitar spoilers, porque se assistisse ao filme poderia saber o que aconteceria na segunda temporada e não iria ter graça continuar as-sistindo a [tele]novela, por isso não assisti ao filme.”
87 Neste contexto, refere-se a grupos de fiéis ou religiosos.
A partir desse contexto, podemos confirmar ainda mais a fidelidade desse público com a telenovela em si, pois, na situação descrita acima, o entrevistado deixou de assistir ao filme para evitar spoilers da segunda temporada da telenovela, a qual sairia aproximadamente três meses após o filme. Com isso, finalizamos nossa abordagem sobre o consumo deste produto de entretenimento.
Neste momento, abordamos o âmbito do consumo de demais produtos culturais, mais especificamente o musical Os Dez Mandamentos. Apenas para trazer à memória, identificamos que o público não costuma assistir musicais, tanto que ninguém do público assistiu ao musical Os Dez Mandamentos. Dentre os motivos pelos quais não o assistiram, destacamos cincos pontos: 1) trabalhar de noite;
2) falta de interesse; 3) sem condição financeira; 4) falta de informação sobre o local de apresentação; e 5) não soube do musical.
A partir de tais pontos, ainda, vale destacarmos o argumento de Karoma (24 anos, NSE B, espírita), que não foi ao musical atribuindo a seguinte justificativa: “Imaginei que seria a mesma repetição do filme. Não fiquei muito motivada depois da decepção com o filme”.
Assim, a frustação ocasionada pelo produto cinematográfico contribuiu para o desinteresse de consumir esse produto cultural. Além disso, dois entrevistados em particular ainda declararam que não gostam de musicais como um todo.
Apesar de o musical em questão ter sido divulgado pela TV e nas mídias sociais, ainda assim notamos entre o público uma falta de informação sobre esse produto, ou simplesmente a falta de interesse ou a falta de tempo para obter mais informações sobre o musical. Em nossa amostra, apenas Jaque (15 anos, NSE B, evangélica) demonstrou interesse em assistir ao musical, porém, não o assistiu alegando a falta de dinheiro e de informações sobre o local de apresentação. Por meio disso, consideramos que o público entrevistado não teve atração para o consumo desse produto cultural e, dessa forma, não houve fidelização do público pelo musical Os Dez Mandamentos. Assim, finalizamos aqui a nossa abordagem sobre o consumo de produtos de entretenimento e culturais, e partimos para o consumo de produtos materiais.