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4.2 RELAÇÕES DE CONSUMO NO ESPAÇO URBANO

4.2.1 O Consumo do Espaço em Limeira entre 1960 e 2000

Com a evolução industrial e a ampliação do contingente populacional, em marcha a partir dos idos de 1960, o consumo do espaço configurou-se sobre a necessidade de consumo ampliado em relação à disponibilidade de espaços para apropriação em Limeira.

A produção imobiliária destinada ao consumidor entre 1961 e 1970 apresentada na TABELA 6, demonstra que os agentes privados buscaram, quase isoladamente, o atendimento à demanda de aquisição de imóveis e, efetivamente pela oferta de áreas na forma de lotes urbanizados.

Com o crescimento da população urbana no período atingindo patamares superiores à casa das 30 mil pessoas, pode ser considerado que a produção superior a 9000 unidades, dentre estas apenas 633 destinadas à habitação imediata na forma de construções atenderam em conjunto com habitações já existentes destinadas à ocupação sob a forma de aluguel, a demanda neste período, considerando uma média de ocupação por edificação residencial de 3 a 4 pessoas.

1961 -1970 AGENTE (S) PROMOTOR (ES) LOTES CASAS APTOS

FEDERAÇÃO

ESTADO COHAB 489

MUNICÍPIO

PRIVADOS DIVERSOS AGENTES 8813 144

OCUPAÇÕES

TOTAL 8813 489 144

TABELA 6. Unidades habitacionais para consumo em Limeira (1961 - 1970)

Fonte: Pesquisa do autor junto à Prefeitura Municipal de Limeira (2004)

A TABELA 7 que apresenta o total de domicílios limeirenses nas décadas de 1970 a 2000 demonstra a oferta de habitações disponíveis naqueles períodos para atendimento à população. No ano de 1970, os 18.254 domicílios abrigavam na área urbana 77.094 pessoas, o que representa uma média por habitação superior a 4 indivíduos.

Com relação à aquisição de espaço, a interferência dos processos de localização na apropriação da terra urbana deixaram suas marcas na divisão espacial da cidade, de modo característico a partir desta década (1960), quando a valorização das áreas centrais ditada pela presença ainda de parte do parque industrial, bem como de atividades comerciais e de serviços, contrastou com a implantação dos conjuntos habitacionais e loteamentos em áreas distantes do centro determinando a diferenciação de localidade entre os habitantes.

Município 1970 1980 1991 2000

Limeira 18.254 33.359 52.678 69.894

TABELA 7. Domicílios em Limeira entre 1970 e 2000

Fonte: IPEAData (IPEA, 2005)

A atenção do consumo espacial estava voltada, por parte das classes mais favorecidas, ao centro e seu perímetro, com a valorização destas áreas em detrimento dos novos espaços habitacionais, localizados nas proximidades das áreas de expansão industrial marcadas pelos eixos das Rodovias Anhanguera e Limeira-Piracicaba, que tiveram sua aquisição franqueada às classes média e baixa, que buscavam garantir a reprodução de sua força de trabalho no espaço da cidade.

Esta ocorrência foi alcançando amplitude entre as décadas de 1970 e meados de 1980, em paralelo à ampliação do potencial da economia do país, à época do “milagre brasileiro”, quando se instalaram na cidade os conjuntos habitacionais promovidos pelos poderes públicos federal, estadual e municipal sob a égide dos financiamentos do BNH, que instalaram famílias nas habitações e funcionaram como elemento de reprodução de parte da força de trabalho das empresas limeirenses.

Ampliaram-se em conjunto com a elevação da população urbana – que passou da casa dos 77 mil para a dos 190 mil habitantes entre 1970 e 1991 – as ofertas de espaços habitacionais urbanizados para consumo nas décadas de 1970 a 1990, conforme demonstra a TABELA 8.

Os investimentos privados e governamentais em áreas para a ocupação determinaram a conjuntura de distribuição do espaço naquele período, modificando a estrutura centro periferia existente e marcada até então.

1971 -1990 AGENTE(S) PROMOTOR(ES) LOTES CASAS APTOS

FEDERAÇÃO CEF 261 147 320

ESTADO COHAB / INOCOOP / CDHU / SCHP 8950

MUNICÍPIO 325 154 64

PRIVADOS DIVERSOS AGENTES 17292 74 68

OCUPAÇÕES

TOTAL 17878 9.325 452

TABELA 8. Unidades habitacionais para consumo em Limeira (1971 - 1990)

Fonte: Pesquisa do autor junto à Prefeitura Municipal de Limeira (2004)

Novos empreendimentos passaram a atrair-se mutuamente, constituindo áreas residenciais e mistas, algumas marcadas pela presença industrial e com características comerciais próprias, onde atividades antes presentes apenas na área central passaram a figurar.

Há que se destacar, que a descentralização comercial iniciada na década de 1980 colaborou para mitigar os processos de valorização imobiliária no centro, em favor das demais áreas da cidade, ocasionando na década posterior, de 1990 o surgimento de novas regiões com características centrais, contudo localizadas em bairros periféricos ao núcleo primaz da urbanização.

Com a crise econômica e redução do potencial de produção no país, vieram na década de 1990 os decréscimos na oferta de empregos, notadamente industriais, acompanhados da redução de produção imobiliária estatal e da ampliação populacional.

O consumo de espaço em Limeira continuou a figurar como elemento de reprodução da força de trabalho no contexto da cidade apoiado na assimilação de parte da mão-de-obra industrial pelos setores de comércio e serviços, notadamente os terceirizados, elevando as ofertas da promoção imobiliária de caráter privado.

No período de 1990, cabe ser destacar a exclusão de parte dos trabalhadores do mercado de trabalho e as dificuldades desta população empurrada ao subemprego e ao desemprego, em conseguir reproduzir seus ganhos em espaço.

Este fator esteve ligado às questões da crise da economia nacional na década de 1990, em seqüência à queda do potencial industrial brasileiro à partir da segunda metade dos anos 1980, fatores estes atrelados à economia mundial.

As ocorrências em questão incentivaram até certo ponto o aparecimento de ocupações de áreas na cidade por parte de movimentos populares, fato até então inédito na espacialidade limeirense.

A TABELA 9 demonstra a franca continuidade no processo produtivo imobiliário da iniciativa privada, em detrimento da queda da produção estatal de lotes e habitações, possivelmente em analogia ao fraco desempenho econômico do país no período.

O aparecimento das ocupações contrasta com a ampliação das ofertas do mercado imobiliário, demonstrando que a inoperância do poder público e o fraco desempenho na distribuição de rendas e criação de postos de trabalho na cidade incentivaram a ocorrência dos movimentos de ocupação, definindo uma verdadeira luta pelo direito ao consumo e conseqüente apropriação do espaço urbano nos anos 1990.

1991 -2000 AGENTE (S) PROMOTOR (ES) LOTES CASAS APTOS

FEDERAÇÃO

ESTADO CDHU 1200

MUNICÍPIO 164

PRIVADOS DIVERSOS AGENTES 16508 66 1296

OCUPAÇÕES 3000

TOTAL 19672 66 2.496

TABELA 9. Unidades habitacionais para consumo em Limeira (1991 - 2000)

Fonte: Pesquisa do autor junto à Prefeitura Municipal de Limeira (2004)

Considerando o período de estudos como um todo, o consumidor limeirense teve ao seu dispor, enquanto detentor de renda, espaço para apropriação e reprodução de sua labuta mensal. Os produtores imobiliários dispuseram de arsenal de áreas para comercialização e os promotores encontraram demanda na produção para aplicar suas economias.

Também cabe destacar que o poder público, enquanto representado pela classe política soube trabalhar a questão da moradia a seu favor, por vezes trocando espaço habitacional por voto e prestígio. O poder econômico dos empresários industriais, comerciais e de serviços atrelou-se à questão da necessidade de consumo de espaço urbanizado como ferramenta de manipulação de seus interesses financeiros de instalação da mão-de-obra e aplicação dos excedentes advindos do lucro de suas empresas.

No contexto dos consumidores, pessoas advindas da zona rural encontraram oferta de áreas para aplicação de suas economias, algumas advindas da venda de pequenos sítios e chácaras e, os trabalhadores dos ramos industrial, comercial e de serviços acolheram o ideal do consumo imobiliário como apoio às necessidades habitacionais de suas famílias e ainda enquanto ferramenta de poupança aos excedentes do trabalho e renda.