6. PERFIL DOS IDOSOS PARTICIPANTES DA PESQUISA
7.1 CATEGORIA 1 O CONSUMO NO COTIDIANO: cenário para pensar sobre
7.1.1 O Consumo no Cotidiano: comportamentos consumidores
importantes, a partir dos quais era possível vincular conceitos e trocas abordados nos grupos focais. A abordagem do tema nos encontros trouxe relatos interessantes sobre comportamento consumidor, sentimentos envolvidos, visões sobre o consumo na sociedade e a percepção sobre a influência no orçamento pessoal e familiar. Para análise dos conteúdos presentes nos relatos partiu-se do princípio de que “o homem é um ser de relações, mas estas não se dão apenas com os outros, mas no mundo e com o mundo” (FREIRE, 2011, p.37). Conforme o autor, a primeira característica dessa relação é a de reflexão do homem em relação à realidade, fazendo-a objeto de seu conhecimento” (FREIRE, 2011). Nesse cenário, em que o consumo transita como possibilidade de satisfazer necessidades e despertar desejos, busca-se compreender aspectos da relação dos idosos participantes da pesquisa com o mundo do consumo. Intencionou-se que os idosos se percebessem nessa relação e pensassem sobre ela, em como isso gerava impactos nas suas vidas econômica, pessoal e familiar. A partir dessa reflexão, procurou-se construir um diálogo sobre possibilidades de educação para as finanças com o uso das tecnologias digitais.
O recorte das falas buscou mostrar aspectos do tema, considerados mais relevantes, referentes à categoria final e que se destacaram em cada grupo. Ao longo do texto serão desenvolvidas as unidades de significado que originaram a categoria temática “O consumo no cotidiano: cenário para pensar sobre comportamentos consumidores, sentimentos despertados e percepções sobre a sociedade do consumo”.
O objetivo é tornar mais elucidativos os assuntos que se destacaram nos grupos para, ao final do texto da categoria, apresentar uma síntese do que foi identificado como mais relevante e que contribuiu para responder aos objetivos propostos. Segue a apresentação e análise dos dados. Esse formato será utilizado para as demais categorias.
7.1.1 O Consumo no Cotidiano: comportamentos consumidores
Os fragmentos das falas mostram o diálogo entre os idosos. Por meio deles, os sujeitos expõem suas vivências de consumo e trocam suas experiências sobre gostos e desejos, a partir de um convite para pensar sobre quais itens supérfluos costumavam comprar.
1 UGQ: Às vezes se deixa o necessário pelo supérfluo… ((risos))
2 CGQ: Que que tu consideras supérfluo? Eu adoro sapato, então, vejo um sapato e vejo que eu posso levar, às vezes nem posso e compro.
3 UGQ: Eu tenho uns … cinco pares de bota...E eu tenho dois pés! Já viu? ((risos)) 4 CGQ: Mas eu não posso, tudo eu estou precisando, sabe ...
5 CGQ: Sapato é dois… três, assim ((risos)) eu tenho uma coletânea. Outro dia eu mandei para minha irmã, que é da fronteira, eu mandei uns cinco pares de calçado que eu não tinha usado, aí eu experimentei de novo e digo, isso aqui não vai ficar mais bem para mim ( ). O meu sobrinho veio e eu agarrei e mandei. Quer dizer, aqueles cinco pares, zero ((palavra enfatizada)), eu não usei uma só vez, né… e aí já sobrou um espaço, já no domingo, já botei três lá de novo ((frase enfatizada)).
6 CQG: E tu não gosta de sapato ZGC? Não compra também?
7 ZQC: Meu problema é tecnologia… Eu vejo sei lá… uma lanterninha nova, sei lá, um celular com alguma coisa que os outros não tem. Se eu sou consumista, é isso aí.
Fragmentos dos relatos do encontro 1 grupo de quarta-feira
O questionamento sobre o que seria considerado supérfluo, pela idosa do grupo de quarta-feira, desencadeia o debate com colegas do seu grupo sobre o hábito comprar, seus gostos e preferências. Nos trechos é perceptível o impulso em algumas ações cotidianas, como a compra de sapatos (2, 3, 5) e a atração pelas novas funcionalidades dos produtos tecnológicos como celulares (7). O relato da idosa CGQ sobre a sua sensação de estar sempre precisando (4) vem ao encontro de uma sociedade do consumo que consegue tornar permanente a insatisfação (BAUMAN, 2007). A dinâmica do consumo, ao longo do tempo, foi modificando referenciais de conforto, prazer, satisfação de desejos e a busca por uma vida mais confortável. Novas orientações influenciam comportamentos, relações sociais e certos valores culturais. Nesse contexto, “viver melhor, usufruir dos prazeres da vida, não se privar daquilo que se quer, desfrutar o ‘supérfluo’ tornam-se cada vez mais comportamentos legítimos, com fins em si mesmos” (LIPOVETSKY, 2006, p. 34).
Na fala de CGQ (5) é possível perceber que existe a consciência de que a compra não era algo necessário, mas ao mesmo tempo, conflitada com um desejo sempre latente de comprar. Esse conflito se coloca às pessoas como uma incessante busca pela permanente promessa de satisfação que se mantém enquanto o desejo continuar irrealizado (BAUMAN, 2007). Essa situação conflituosa vem ao encontro da “insaciabilidade de necessidades que ao serem satisfeitas geram outras, em um ciclo inesgotável, num continuum, onde o final do ato consumista é o próprio desejo de consumo (RETONDAR, 2008). Esse ciclo está presente na nossa cultura de consumo, o que pode influenciar certos hábitos relatados pelos idosos.
8Pesquisadora: Vou convidá-las a fazer outro exercício, o de pensar os gastos que foram supérfluos realizados no último mês. Depois vamos debater com o grupo.
9IGS: E se for necessidade e impulso. Fui viajar com duas amigas muito impulsivas. Fomos a Brusque. Elas têm famílias grandes. Mas eu tenho sobrinhos, entrei na onda. Fui no impulso e comprei umas três, quatro para cada um ((risos)).
10Pesquisadora: A questão é se o impulso não prejudica o meu dia a dia, podemos nos dar aos supérfluos desde que não nos prejudiquem.
11LGS: comprei por impulso. Comprei bijuteria, mas era R$ 2,90. Cada uma mais bonita que a outra. Eu vou nuns quinze anos com uma delas.
12RGS: Por impulso eu anotei uma blusa que eu comprei, mas eu não precisava ((frase exclamativa)). Fragmentos dos relatos do encontro 1 grupo de sexta-feira
No grupo de sexta-feira, destacam-se nas falas (9, 10, 11, 12) situações em que o impulso foi motivado pela companhia de amigas, por importar-se com familiares, pelo baixo valor dos produtos ou pelo desejo despertado que leva ao ato da compra. No diálogo com as colegas, as idosas colocam as suas experiências de consumo. Nelas é possível perceber o conflito expresso por comportamentos orientados para gastar com o necessário, mas ao mesmo tempo, interpelados em certas situações pelo impulso e pelo desejo de consumir.
Os relatos de ambos os grupos remetem ao que Bauman (2008) chama de instabilidade dos desejos e, em certa medida, a insaciabilidade das necessidades e a tendência ao consumo. Nos relatos percebe-se de um lado a orientação ao consumo prático e aplicado aos interesses individuais e às necessidades. De outro, a sedução pela moda e pelas tendências tecnológicas que se apoiam na novidade, traduzindo comportamentos e preferências, o que confere novas funções subjetivas para o consumo. Lipovetsky (2006) chama atenção para os atos de compra que diferentemente da maneira antiga, traduzem gostos particulares, a identidade cultural e singularidade dos atores. Revela-se quem é através daquilo que é comprado, dos objetos que povoam o universo pessoal e familiar através dos signos combinado ao modo de cada um.
No grupo de terça-feira, a expressão do comportamento consumidor não foi tão explícita nos diálogos. No entanto, os dados do questionário51 apontaram que, a quase totalidade dos
idosos, dos três grupos focais, se perceberam com comportamento consumidor comedido, conforme o gráfico.
Gráfico 6: Percepção sobre o comportamento consumidor
Fonte: A autora (2018)
51Descrição dos comportamentos consumidores do questionário: O comportamento comedido caracteriza-se por ser cauteloso na hora de comprar. Se precisar de algo compra, dentro de suas possibilidades. Caso não tenha necessidade, não se deixa influenciar por emoções e promoções. Já o impulsivo está relacionado ao hábito de comprar mais do que deveria e precisaria, mas não chega a ter problemas para saldar as dívidas.
16 1 Comedido Impusivo 0 5 10 15 20 Comportamento consumidor
Os dados do gráfico mostram que as pessoas se percebem cautelosas nas compras e que procuram fazê-las dentro das suas possibilidades e realidades financeiras. Isso mostra que o consumo se faz presente no cotidiano dos idosos, tem impacto no orçamento, mas para a maioria, os impulsos das compras não chegam a comprometer o orçamento ao ponto de lhes gerar dificuldades financeiras.
As próximas unidades de significado desenvolvem outros enfoques da relação dos idosos com o consumo no cotidiano. Nelas é possível perceber outros fatores que colocam em conflito o comportamento de consumo comedido dos idosos. São situações sedutoras que convidam a comprar o necessário e o supérfluo e sinalizam embates entre a razão e a emoção que influenciam nas decisões de compra.