• Nenhum resultado encontrado

O conteúdo do Princípio da Igualdade material

A BUSCA DA IGUALDADE VIA AÇÃO AFIRMATIVA

4.3 O conteúdo do Princípio da Igualdade material

Passadas décadas, a realização da igualdade jurídica como idealizada no modelo liberal do século XVIII não passou de mera ficção, pois as desigualdades

196

FILHO, Manoel Gonçalves Ferreira. A Democracia no limiar do século xxi. São Paulo: Saraiva, 2001, P. 108.

197 Idem.

substanciais, se não se acentuaram também não recrudesceram. Desse fato resulta que o direito constitucional que consagrava tal ideário “acanhava-se em sua concepção meramente formal do princípio denominado da isonomia, despojado de instrumentos de promoção da igualdade jurídica como vinha até

então sendo cunhado”198.

Desse modo a concepção de igualdade formal com fundamento no princípio geral da igualdade perante a lei mostrou-se ineficaz para tornar acessível aos indivíduos socialmente desfavorecidos as mesmas oportunidades de que gozavam aqueles socialmente privilegiados, passando assim a ser questionada como ideal de igualdade.

Abordando o tema ensina Dray, citado por Gomes199:

“paulatinamente, porém a concepção de uma igualdade puramente formal, assente no princípio geral da igualdade perante a lei, começou a ser questionada, quando se constatou que a igualdade de direito não era, por si só, suficiente para tornar acessíveis a quem era socialmente desfavorecido as oportunidades de que gozavam os indivíduos socialmente privilegiados. Importaria, pois, colocar os primeiros ao mesmo nível de partida. Em vez de igualdade de oportunidades, importava falar em igualdade de condições”.

A nova idéia de igualdade deve comportar um sentido substancial e considerar em sua operacionalização não apenas os aspectos econômicos, mas

outros inerentes à convivência humana como é o caso da discriminação200.

Para essa mudança de concepção da noção de igualdade, no dizer de

Rocha201

,

”concluiu-se, então, que proibir a discriminação não era bastante para se ter a efetividade do princípio da igualdade jurídica. O que naquele modelo se tinha e se tem é tão-somente o princípio da vedação da desigualdade, ou da invalidade do comportamento motivado por preconceito manifesto ou comprovado (ou comprovável), o que não pode ser considerado o mesmo que garantir a igualdade jurídica”.

198

ROCHA, C. L. A. Última obra citada, p. 86. 199

GOMES, J. B. B. Obra citada, p. 3. 200

GOMES, J. B. B. Obra citada, p. 3-4. 201

É dessa evolução que começa a ser construído o conceito de igualdade material ou substancial, distante do formalismo e da abstração do século XVIII para considerar as desigualdades concretas existentes na sociedade, onde as situações distintas devem ser distintamente tratadas, “evitando-se assim o aprofundamento e a perpetuação de desigualdades engendradas pela própria sociedade202”.

Como resultado dessa nova idéia de igualdade material começam a surgir, nos ordenamentos jurídicos dos diversos Estados e mesmo no campo dos Direitos Humanos Internacionais, políticas sociais de apoio a determinados grupos socialmente fragilizados. Em outros termos, “da concepção liberal de igualdade que capta o ser humano em sua conformação abstrata, genérica, o Direito passa a percebê-lo e a tratá-lo em sua especificidade, como ser dotado de características singulares”203.

A própria organização do Estado, com grupos em lutas sociais por conquista de melhores condições de bem-estar, vai orientar o fortalecimento dos direitos sociais, dando nova conotação ao sentido de igualdade. A análise

sociológica que resulta dessa mudança de concepção é salientada por Santos204,

para quem as

“lutas sociais protagonizadas por grupos sociais até então em tradição histórica de acção colectiva de confrontação, os negros, os estudantes, amplos setores da pequena burquesia em luta por novos direitos sociais no domínio da segurança social, habitação, educação, transporte, meio ambiente e qualidade de vida, etc., movimentos sociais que em conjugação (por vezes difícil) com o movimento operário procuram aprofundar o conteúdo democrático dos regimes saídos do pós- guerra. Foi nesse contexto que as desigualdades sociais foram sendo recodificadas no imaginário social e político e passaram a constituir uma ameaça à legitimidade dos regimes políticos assentes na igualdade de direitos. A igualdade do cidadão perante a lei passou a ser confrontada com a desigualdade da lei perante os cidadãos, uma confrontação que em breve se transformou num vasto

202

GOMES, J. B. B. Obra citada, p. 4. 203

GOMES, J. B. B. Obra citada, p. 4-5. 204

SANTOS, Boaventura de Sousa. Pela Mão de Alice: o social e o político na pós- modernidade. São Paulo: Cortez Editora,1999, p. 164-165.

campo de análise sociológica e de inovação social centrado na questão do acesso diferencial ao direito e à justiça por parte das diferentes classes e extratos sociais. (...) As lutas sociais a que fiz referência aceleraram a transformação do Estado liberal no Estado-Providência, um Estado activamente envolvido na gestão dos conflitos e concertações entre classes e grupos sociais, e apostado na minimização possível das desigualdades sociais no âmbito do modo de produção capitalista dominante nas relações econômicas. A consolidação do Estado- Providência significou a expansão dos direitos sociais e, através deles, a integração das classes trabalhadoras nos circuitos do consumo anteriormente fora do seu alcance”.

As regras contidas no art. 7º, incisos XXX e XXXI da Constituição Federal que proíbem distinções fundadas em determinados fatores como diferenças de salários, de exercício de funções e de critérios de admissão por motivo de sexo, idade, cor ou estado civil e qualquer discriminação no tocante a salário e critério

de admissão do trabalhador portador de deficiência, constituem, segundo Silva205,

regras de igualdade material.

Igual classificação, na lição desse autor, mereceriam: a) a previsão, ainda que programática constante do art. 3º, inciso III da Carta magna no sentido de que a República Federalista do Brasil tem como um de seus objetivos fundamentais reduzir as desigualdades regionais; b) a consistente repulsa a qualquer forma de discriminação de que trata o art. 3º, inciso IV; c) a universalidade da seguridade social, a garantia ao direito à saúde, à educação baseada em princípios democráticos e de igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; e d) a importância reservada à justiça social como objetivo das ordens econômica e social na forma disposta nos artigos 170, 193, 196 e 205 da mesma Constituição .

205