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O direito à educação e o sistema de cotas: perspectivas do direito comparado

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Academic year: 2017

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(1)

INTRODUÇÃO

As desigualdades sociais geradas pelos sistemas de vida em sociedade,

têm merecido a atenção de sociólogos, juristas, governantes e todos que, de um

modo geral, têm interesse na solução ou, ao menos, na minimização desse grave

desequilíbrio de oportunidades em que de fato se constitui a vida em sociedades

ditas livres e de direitos, mas que, via de regra, não conseguem propiciar ao ser

dela integrante, quer o direito à liberdade quer o direito à igualdade.

O Estado moderno, como garantidor de direitos, tem passado por

transformações de toda ordem, com reflexos significativos na vida de seus

administrados, em movimentos que alternam períodos de conquistas no campo

dos direitos humanos, com retrocessos e perdas indesejáveis.

Os direitos humanos, e dentre eles o direito à educação, conquanto que

hoje estejam fundamentados e, em muitos Estados, como o brasileiro, em nível

constitucional, continuam carentes de efetividade, pois a maioria desses Estados,

infelizmente, não consegue garanti-los, implementá-los. Assim, esse bem da vida,

tão essencial a ela, continua sendo, em muitas sociedades, das quais a nossa é

um dos muitos exemplos, apenas uma carta de intenções, uma garantia formal,

ou, no dizer de alguns constitucionalistas, uma norma programática a depender de

ampliação dos poderes do Estado.

Norberto Bobbio1

, refletindo essa grave dicotomia entre os direitos humanos

declarados, fundamentados, positivados e os verdadeiramente garantidos pelo

Estado, pontualmente indaga:

(2)

“Será que já nos perguntamos alguma vez que gênero de normas são essas que não ordenam, proíbem ou permitem hic et nunc, mas ordenam, proíbem e permitem num futuro indefinido e sem prazo de carência claramente delimitado? E, sobretudo, já nos perguntamos alguma vez que gênero de direito são esses que tais normas definem? Um direito cujo reconhecimento e cuja efetiva proteção são adiados sine die, além de confiados à vontade de sujeitos cuja obrigação de executar o ‘programa’ é apenas uma obrigação moral ou, no máximo, política, pode ainda ser chamado corretamente de ‘direito’?”.

É inegável a crise social pela qual passa o Estado brasileiro e parece se

agravar com o moderno fenômeno da globalização. O resultado relevante desse

fato é a injustiça social, com reflexos negativos em toda a sociedade que amarga,

via de regra, elevados níveis de insatisfação social e de insegurança.

Em diversos países, inclusive no nosso, seus governantes e outros

dirigentes têm apresentado, por meios de políticas públicas, medidas destinadas a

corrigir esses desequilíbrios, invariavelmente gerados por ações governamentais

anteriores, apoiadas no sistema político dominante que é, por si só seletivo e

prioriza, via de regra, o capital a que poucos têm acesso em relação ao trabalho

da grande massa.

A educação, ou a sua falta, inegavelmente constitui-se em fator

determinante para a integração social, a conquista da cidadania, da democracia e

de acesso ao próprio desenvolvimento. Em outros termos, a educação ou sua

falta, pode significar uma conquista ou uma exclusão do direito ao

desenvolvimento, assim entendido como uma síntese dos direitos e garantias

fundamentais ou, no dizer da Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento, um

direito humano inalienável em virtude do qual toda pessoa humana e todos os povos estão habilitados a participar do desenvolvimento econômico, social, cultural e político, a ele contribuir e dele desfrutar, no qual todos os direitos humanos e liberdades fundamentais possam ser plenamente realizados2.

2

(3)

A necessidade da adoção pelo Estado de políticas públicas voltadas para

gerar iguais oportunidades de acesso ao desenvolvimento foi explicitada no artigo

8º da já mencionada Declaração Sobre o Direito ao Desenvolvimento, cujos

termos são nesse sentido explícitos:

Os Estados deveriam tomar, a nível nacional, todas as medidas necessárias para a realização do direito ao desenvolvimento e deverão assegurar, inter alia, igualdade de oportunidade para todos em seu acesso aos recursos básicos, educação, serviços de saúde, alimentação, habitação, emprego e distribuição eqüitativa da renda. Medidas efetivas devem ser tomadas para assegurar que as mulheres tenham papel ativo no processo de desenvolvimento. Reformas econômicas e sociais apropriadas devem ser efetuadas com vistas à erradicação de todas as injustiças sociais.3

Contrariamente aos anseios de igualdade contidos nessa declaração, as

políticas públicas, via de regra, são as grandes geradoras de desigualdades.

O sistema de cotas, inserido em medidas que ficaram conhecidas como

ações afirmativas, foi adotado, inicialmente nos Estados Unidos e posteriormente

em outros Estados como o Canadá, e neste Estado com bastante sucesso, com o

objetivo de corrigir essas desigualdades.

O princípio a embasar a adoção de uma política de ação afirmativa, é a

existência de desigualdades históricas e culturalmente arraigadas na sociedade

que justifiquem a adoção de medidas temporárias e emergenciais mediante as

quais se estabeleçam condições vantajosas para grupos cujos direitos básicos são

sistematicamente violados. É nesse sentido e por essa razão que agora discute-se

entre nós a adoção dessas medidas, aqui como entre aqueles Estados, como

forma de correção de políticas implementadas sem os acertos desejáveis e que,

por isso, geraram legiões de excluídos socialmente.

Rudolf Von Ihering, citado por Medeiros4, já na segunda metade do século

XIX, manifestava preocupação com a proibição dos Estados escravagistas

alfabetizarem seus escravos, afirmando que “Onde a vida depende das trevas,

3 TRINDADE, A. A. C. Obra citada, p. 158. 4

(4)

trazer a luz é um perigo mortal”. O sentido de luz sobre a mente humana como

idéia central do tema educação é hoje, como o foi no passado, uma busca ainda

pouco realizada.

As sociedades, segundo seus graus de desenvolvimento, mais realçam o

valor da educação. Sabe-se que só através dela é possível ver, buscar e controlar

os direitos do homem. Só ela abre horizontes através dos quais é possível ao ser

humano descobrir-se como ente político, biológico, geográfico, histórico, físico e

dotado de razão que lhe sirvam, tais adjetivos, de guia ao seu próprio destino.

Essa perspectiva, entretanto, como posta, é muito ampla para os modestos

estudos aqui pretendidos. Nesse sentido, e como forma de delimitar o campo de

pesquisa, o objetivo do estudo limitar-se-á à análise do direito à educação como

um direito social fundamental e o acesso ao ensino público de terceiro grau

mediante o sistema de cotas, este entendido como uma modalidade de ação

afirmativa.

Ao exercer o direito de acesso a esse ensino, como corrigir as

desigualdades de condições em que se encontram os concorrentes? É

constitucionalmente válido o tratamento diferenciado a alunos brancos e não

brancos? Aos oriundos de escolas públicas ou particulares? Quais os limites

constitucionais que separam tratamento normativo diferenciado e tratamento

discriminatório? Estar-se-ia, com a adoção dessas medidas, violando o princípio

isonômico contido no caput do art. 5º da CF?

Diante dessa problematização, o estudo tem por objetivo demonstrar a

hipótese de que o sistema de acesso ao ensino público de terceiro grau privilegia

o aluno oriundo da escola privada porque o nível de ensino nessa escola é

consideravelmente superior ao ministrado na escola pública e, portanto, a solução

para a correção dessa desigualdade de condições em que se encontram os

candidatos aquele ensino público superior não é a adoção do sistema de cotas,

mas o nivelamento dessas condições de forma a possibilitar iguais oportunidades.

Para consecução deste trabalho, considerando os contornos delineados, foi

empreendida, logo no primeiro Capítulo, breve incursão sobre os movimentos

(5)

evolução dos direitos sociais, focalizando a Europa como centro desses

movimentos e conquistas e apontando os reflexos daí resultantes nas

constituições de diversos países, inclusive nas brasileiras.

Nos tópicos subseqüentes, mais especificamente no segundo Capítulo, são

analisados: o direito fundamental à educação e sua efetividade; o direito de

acesso ao ensino fundamental qualificado constitucionalmente como direito

público subjetivo, focalizando o tratamento constitucional assegurado ao direito à

educação em algumas Constituições de países da Europa, da América do Sul e a

Brasileira de 88. Nesta Constituição é analisada ainda a eficácia das normas

relativas aos direitos sociais, a previsão de custeio, universalidade, avaliação e

qualidade do ensino básico.

No terceiro capítulo, em estudo de direito comparado, é analisada a

experiência norte-americana no combate às diversas modalidades de

discriminação via ação afirmativa ou discriminação positiva, a base

filosófico-constitucional dessa modalidade de promoção da igualdade, seus objetivos,

campo de aplicação e alcance permitidos pela Suprema Corte daquele Estado,

encerrando essa parte com uma análise dos resultados da aplicação desse novo

(ao menos entre nós) instrumento de transformação social.

O último capítulo expõe os recentes movimentos sociais em busca da

igualdade material via ação afirmativa, a recepção pela Constituição de 88 dessas

ações, posicionando o sistema de cotas como uma modalidade desse mecanismo

de política de promoção social.

Para elaboração do trabalho foi utilizada a pesquisa bibliográfica a

compêndios, reportagens e artigos, com ênfase nos últimos, considerando a

disponibilidade de material de pesquisa, a atualidade do tema e o vivo interesse

que desperta, essencialmente em um país como o nosso, em flagrante crise

social.

Quanto ao método de pesquisa, o estudo priorizou o dedutivo, assim

(6)

I

A EVOLUÇÃO DO ESTADO E A CONQUISTA DE DIREITOS

1.1 O direito social no cenário europeu dos séculos XVIII a XX

Nos séculos XVIII e XIX, a Europa era o centro do mundo, embora os

Estados Unidos já experimentassem acentuado processo de desenvolvimento e

viesse, no século seguinte, tornar-se a maior potência do planeta, posição que

ainda ocupa em nossos dias. Aquela posição de continente central levou a Europa

a passar por acentuadas transformações sociais, algumas já iniciadas nos séculos

XVII e XVIII, com o advento do Iluminismo.

O Iluminismo foi um movimento cultural e político que se caracterizou pelas

críticas que fez à estrutura e concepções da sociedade do passado, afirmando

que os valores estruturais dessa sociedade não mais atendiam às necessidades

presentes e com maior razão às do futuro. Esse rompimento com as crenças da

Idade Média mais se dirigia às idéias não mais concebidas de que Deus era a

explicação e justificativa de tudo, inclusive dos monarcas, das desigualdades

sociais e até da pobreza5.

No que concerne ao direito, as maiores críticas dirigidas por esse

movimento à sociedade de então apontavam: a) a desigualdade diante da lei

consagrada pelos Estados com privilégios fiscais para as ordens da nobreza e do

clero além de acesso limitado a cargos públicos; b) prévias limitações impostas às

pessoas e à propriedade; c) a servidão; d) ausência de participação popular nos

5LIMA JR. Jaime Benvenuto. Os Direitos Humanos Econômicos, Sociais e Culturais. Rio

(7)

assuntos públicos em oposição a privilégios concedidos à Igreja, que tinha nestes

assuntos influência significativa; e) intolerância religiosa; f) desumanidade do

direito penal e processual penal que adotava penas capitais, castigos corporais,

mutilações e a tortura no método investigativo.6

O século XVIII, marcado pelo questionamento à autoridade absoluta dos

reis, experimentou revoluções que destruíram impérios, dentre as quais a mais

importante foi a Revolução Francesa, pelos ideais de liberdade que criou e a ela

subsistiram. Tais questionamentos, nesse período da história, tinham cunho

estritamente político e visavam transformar o Estado autocrático, alcançando a

capacidade do cidadão de pensar e agir7.

Até final desse século havia marcante dicotomia entre o direito à liberdade e

o direito à igualdade. Na visão contratualista do Estado liberal então vigente os

direitos humanos reduziam-se aos direitos à liberdade, à segurança e à

propriedade. As idéias de Locke, Montesquieu e Rousseau norteavam o discurso

liberal da cidadania que nascia no seio do movimento pelo constitucionalismo e do

surgimento do liberalismo, assim entendida a doutrina que concebe o Estado

limitado em seus poderes e funções ou o Estado de Direito e Estado Mínimo, onde

o ser individualizado excluía o social8.

O modelo de Estado Liberal constitucional era concebido como o que

assegura na Constituição a proteção da liberdade e dos direitos dos cidadãos.

Exemplo marcante da consagração desse modelo é o artigo 16 da Declaração dos

Direitos do Homem e do Cidadão da França, de 1789, que nesse sentido é

expresso: “Qualquer sociedade em que não esteja assegurada a garantia dos

direitos, nem estabelecida a separação dos poderes, não tem Constituição”9.

Marcam o anseio de liberdade dessa época a Declaração Americana de

Direitos do Homem e a Declaração Francesa de Direitos do Homem e do Cidadão

ao consagrarem os direitos humanos, limitando a ação do Estado em relação ao

indivíduo.

6

LIMA JR., J. B. Obra citada, p. 14. 7

LIMA JR., J. B. Obra citada, p. 14-15. 8

(8)

1.1.1 Direitos humanos, direitos do homem e direitos fundamentais

A grande maioria da doutrina usa em um mesmo sentido, indistintamente,

os termos direitos humanos, direitos do homem, e direitos fundamentais,

cometendo assim, um equívoco desnecessário e prejudicial ao verdadeiro

significado desses termos.

Refletindo sobre o conceito de direitos humanos afirma Henkin citado por

Piovesan10:

Direitos Humanos constituem um termo de uso comum, mas não categoricamente definido. Esses direitos são concebidos de forma a incluir aquelas ‘reivindicações morais e políticas que, no consenso contemporâneo, todo ser humano tem ou deve ter perante sua sociedade ou governo’, reivindicações estas reconhecidas como ‘de direito’ e não apenas por amor, graça ou caridade

A expressão direitos humanos, segundo Sarlet11 relaciona-se a documentos

de direito internacional,

“por referir-se àquelas posições jurídicas que se reconhecem ao ser humano como tal, independentemente de sua vinculação com determinada ordem Constitucional, e que, portanto, aspiram à validade universal, para todos os povos e tempos, de tal sorte que revelam um inequívoco caráter supranacional (internacional)”

Já o termo Direitos do Homem, abundantemente usado na Declaração

Americana de Direitos do Homem, Declaração Francesa de Direitos do Homem e

do Cidadão, Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 e preferido por

Bobbio12, não deve ser usado com o mesmo sentido de direitos fundamentais, pois

9 PIOVESAN, Flávia. Obra citada, p. 143-145.

10 PIOVESAN, F. Obra citada, p. 29. Essa autora, na mesma obra e página citadas, analisando o tema, transcreve ilustrativo conceito de Antonio Enrique Pérez Luño para quem “Os direitos humanos surgem como um conjunto de faculdades e instituições que, em cada momento histórico, concretizam as exigências de dignidade, liberdade e igualdade humanas, as quais devem ser reconhecidas positivamente pelos ordenamentos jurídicos, nos planos nacional e internacional”. (Antonio Enrique Pérez Luño. Derechos humanos, Estado de derechos y Constitucion, 4ª ed., Madrid, Tecnos, 1991, .48).

11

SARLET, Ingo Wolfgang. A Eficácia dos Direitos Fundamentais. Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora, 2001, p. 33.

12

(9)

estes derivam da ordem jurídica e não da natureza humana, além do catálogo

desses direitos positivados na maioria das Constituições modernas não se

limitarem aos direitos consagrados pelo direito natural.13

Para Hesse, citado por Medeiros14, por direitos fundamentais deve-se

entender “aqueles direitos que o direito vigente assim qualifica”. Enquanto o termo

direitos humanos tem uso mais abrangente e muitas vezes impreciso, talvez

mesmo por não guardarem necessariamente vinculação com uma determinada

ordem jurídica, o direito fundamental é o direito positivado, garantido e

reconhecido no ordenamento jurídico de determinado Estado e “cuja denominação

se deve ao seu caráter básico e fundamentador do sistema jurídico do Estado de

Direito”15.

A busca de fundamento para os direitos humanos, e principalmente para

todos os direitos humanos, é tarefa difícil, não apenas por não haver um único

fundamento absoluto, mas por que esses direitos são heterogêneos, servindo,

muitas vezes, as razões justificadoras de uns para negar outros. Bobbio16 cita o

exemplo do direito de não ser escravizado em oposição ao direito de ter escravos,

o que parece, no caso, uma escolha de fácil justificativa. Entretanto, quando

confrontados o direito de expressão do produtor de filme com o do público de não

ser escandalizado, a escolha deixa de ser evidente e, principalmente, o

fundamento do primeiro caso não se presta ao segundo.

Na mesma linha de raciocínio, quando confrontamos o direito de liberdade

com o de igualdade, consistente o primeiro em um não fazer e o segundo em um

fazer, ou de prestar o Estado uma obrigação positiva, se invocados por uma

mesma pessoa, parece verificar-se uma antinomia. Essa contradição,

historicamente, serviu para justificar a não inclusão de alguns direitos sociais no

catálogo dos direitos fundamentais, por ausência de fundamento absoluto ou

mesmo por contrários ao fundamento absoluto de determinados direitos

individuais, notadamente ao direito de liberdade. O fundamento absoluto, no dizer

13

MALISKA, Marcos Augusto. O Direito à Educação e a Constituição. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor, 2001, p. 44.

14

MEDEIROS, M. J. S. P. de. Obra citada, p. 43. 15

(10)

de Bobbio17, “não é apenas uma ilusão; em alguns casos, é também um pretexto

para defender posições conservadoras”.

A busca do fundamento absoluto dos direitos do homem defendida pelos

teóricos jusnaturalistas, não é apenas utópica, mas merece a reflexão se: “ainda

que coroada de sucesso, é capaz de obter o resultado esperado, ou seja, o de

conseguir do modo mais rápido e eficaz o reconhecimento e a realização dos

direitos do homem”18.

A conclusão de Bobbio19 sobre o fundamento dos direitos do homem é que

de fato vivemos, e devemos reconhecer, a existência de uma crise desse

fundamento. Entretanto, este não é o problema principal desses direitos, mas sim

o de protegê-los, de efetivá-los, pois “Trata-se de um problema não filosófico, mas

político”. Devemos hoje buscar não um fundamento, mas os “vários fundamentos

possíveis (...)”. Essa busca “não terá nenhuma importância histórica se não for

acompanhada pelo estudo das condições, dos meios e das situações nas quais

este ou aquele direito pode ser realizado”.

A negação da necessidade de um fundamento absoluto para os direitos

humanos, não significa dizer que esses direitos não carecem de fundamento. O

respeito aos direitos humanos nasce da certeza universalmente compartilhada de

que eles possuem fundamento. Entretanto, esse fundamento no nível de

progresso da conquista desses direitos foi plenamente alcançado com a

Declaração Universal dos Direitos do Homem, aprovada pela Assembléia das

Nações Unidas, em 10 de dezembro de 1948. Essa declaração, no dizer de

Bobbio20, “representa a manifestação da única prova através da qual um sistema

de valores pode ser considerado humanamente fundado e, portanto, reconhecido:

e essa prova é o consenso geral acerca da sua validade”.

16

BOBBIO, N. Obra citada, p. 20-21. 17

BOBBIO, N. Obra citada, p. 22. 18

Idem. 19

BOBBIO, N. Obra citada, p. 24. 20

(11)

Segundo Rocha21, o constitucionalismo, assim entendido como o “modelo

estatal adotado por um povo”, tem na sua base e objetivo a “garantia do homem e

a segurança dos seus direitos fundamentais”22. O conceito, o conteúdo e a

extensão desses Direitos Fundamentais, na visão da autora

“não é uma idéia acabada, aprontada de forma definitiva e cabal. Ao contrário, os direitos fundamentais são conquistados e assim considerados segundo o ideário de cada povo e de cada época, tendendo a um alargamento contínuo. Principalmente, os direitos fundamentais são conquistados paulatina e historicamente. Por isso o próprio constitucionalismo é mutante, uma vez que o seu núcleo central caracteriza-se por esse alargamento de direitos a que tende o homem em sua convivência política”23.

Os direitos fundamentais são também denominados por diversas

expressões: direitos naturais, direitos humanos, direitos do homem, direitos

individuais, direitos públicos subjetivos, liberdades fundamentais, liberdades

públicas e direitos fundamentais do homem, cada uma delas particularizando ou

dando uma conotação especial ao termo, mas todas demonstrando a ampliação e

transformação desses direitos do homem24.

A expressão direitos fundamentais do homem é das mencionadas a mais

útil ao objeto deste estudo pela abrangência de seu significado. Ensina Silva25 que

esse termo, “além de referir-se a princípios que resumem a concepção do mundo

e informam a ideologia política de cada ordenamento jurídico, é reservado para

designar, no nível do direito positivo, aquelas prerrogativas e instituições que ele

concretiza em garantias de uma convivência digna, livre e igual de todas as

pessoas”. É fundamental, complementa o constitucionalista mencionado, por

indicar situações jurídicas que não se realizam sem a pessoa humana;

fundamental do homem pois a todos, de forma igual, devem ser esses direitos

garantidos formal e materialmente; e do homem, no sentido do ser humano. Seria

21

ROCHA, Cármem Lúcia Antunes. Princípios Constitucionais dos Servidores públicos. São Paulo: Saraiva, 1999, p. 2.

22

ROCHA, C. L. A. Obra citada, p. 4. 23

Idem. 24

SILVA, José Afonso da. Aplicabilidade das Normas Constitucionais. São Paulo: Malheiros, 2002, p. 161.

25

(12)

esse o sentido da expressão direitos fundamentais constante do Titulo II da CF

que se complementa como direitos fundamentais da pessoa humana segundo o

art. 17 desta Carta Política26.

1.1.2 Os direitos humanos no Estado liberal

O século XVIII, como visto, caracterizou-se pela negação à autoridade

absoluta dos reis com questionamentos constestatórios políticos tendentes a

valorizar a capacidade do cidadão para pensar e agir independente dos padrões

passados. Era necessário construir uma sociedade livre do Estado, ou ao menos

com um Estado cujas ações sobre as pessoas limitassem-se ao mínimo.

Nessa concepção liberal, os direitos humanos têm a finalidade de limitar o

poder do Estado sobre os indivíduos. Diante o absolutismo do Estado, era urgente

evitar os excessos e o abuso do seu poder, limitando-o e controlando-o de modo

que se pautasse na legalidade e observasse os direitos fundamentais.

O pensamento liberal vem assim excessivamente arraigado de um ideal

individualista de valores onde o homem é posto diante de si mesmo, só, alheio e

alienado do ambiente em que vive. O direito individual resultante dessa visão vai

refletir exatamente o modelo liberal27.

É nesse justo anseio por liberdade que florescem os direitos humanos tidos

como civis e políticos e que foram inicialmente consagrados na Declaração

Americana de Direitos do Homem e na Declaração Francesa de Direitos do

Homem e do Cidadão em 1776 e 1789, respectivamente.

1. 1.3 O fortalecimento dos direitos sociais

O excessivo individualismo e alheamento ao meio social que caracterizou o

modelo liberal, aliado às alterações sociais advindas do processo de

industrialização, favoreceram uma reação aquele modelo fazendo surgir a idéia de

26

SILVA, J. A. da. Obra citada, p. 163-164. 27

(13)

comunidade – em sentido amplo - e assim a concepção de direito social que vai

repensar um novo e atual papel para o Estado.

É compreensível que o movimento libertatório que caracterizou o século

XVIII, desse ênfase à liberdade dos indivíduos das amarras do Estado totalitário e

assim viesse consagrar, com primazia, os direitos humanos ditos civis e políticos

em detrimento dos direitos humanos sociais. Entretanto, estes direitos, por

estarem indissoluvelmente ligados aqueles, constituindo um todo indissolúvel, já

eram, a essa época, reclamados também como direitos humanos.

No século XIX, conquanto que ainda presente a anterior carga contestatória

e os ideais transformistas, os questionamentos buscavam proporcionar uma vida

melhor para as pessoas. As necessidades estavam relacionadas com as

condições de trabalho, educação, saúde, moradia, etc28.

O sistema capitalista de produção, implantado e consolidado, prometia uma

sociedade próspera com base no crescimento econômico que se daria através da

iniciativa privada. Apesar das dificuldades sociais generalizadas, durante um breve

período, mais precisamente a década de 1860 a 1870, a Europa viveu um

crescimento econômico sem precedente para, a seguir, entrar em depressão e

assim recrudescer a insatisfação social29.

É nesse cenário que crescem os movimentos trabalhistas com as

organizações sindicais e as greves de bases ideológicas socialistas. A

superpopulação das cidades – como resultado das migrações provocadas pela

industrialização – agravou problemas como a saúde pública, o transporte, a

educação e a segurança. A grande tensão social tinha, assim, motivação política e

econômica e levou o trabalhador a tomar consciência de que para conquistar

direitos tinha que se organizar e lutar.

Nessa fase de mudanças sociais as exigências de liberdade e igualdade se

impunham como indispensáveis às transformações sociais, caracterizando esses

dois séculos como um marco na luta pela conquista dos direitos humanos, como

se verá nos tópicos seguintes.

28

LIMA JR. J. B. Obra citada, p. 14-15.

(14)

Em outros termos, predominava o entendimento de que não basta a

liberdade; é indispensável que a ela se acresça a igualdade. Tanto que há indícios

de direitos sociais nas declarações americana e francesa de direitos do homem.

Tais indícios, como informa Salgueiro, citada por Lima JR.30, podem ser

constatados pelo teor do capítulo II da Declaração de Filadélfia: “Todos os seres

humanos, sem distinção de raça, credo ou sexo, têm direito a perseguir seu

bem-estar material e seu desenvolvimento espiritual em condições de liberdade e

dignidade, de segurança econômica e em igualdade de oportunidades”.

Assim, aprofunda-se o debate sobre esse novo direito que cresce, toma

corpo e floresce com a escola do objetivismo francês, seguindo o pensamento dos

juristas Hauriou e Duguit, em contraposição ao direito individual herdado do

passado31

Apesar de presentes na realidade social vivenciada no século XIX, os

direitos humanos sociais não alcançaram, como ocorreu com os direitos humanos

civis e políticos, a consagração constitucional de direitos fundamentais, o que só

viria a acontecer no início do século seguinte.

As transformações sociais, próprias desse período, impõem-se logo na

primeira década do século XX, impulsionadas pelo processo de industrialização

que vem acarretar profundas mudanças no modo de vida das pessoas, quer

consideradas individualmente ou em coletividades.

O modelo industrial, concentrando o trabalho nas fábricas, faz surgir e

crescer, sem tempo para planejamento, a chamada classe operária com reflexos

negativos na urbanização das cidades, gerando, posteriormente, preocupações

com os aspectos ecológicos e com a qualidade de vida.

Em 1917 a Constituição mexicana, de forma revolucionária, consagra

extenso catálogo de direitos sociais. Dois anos após este fato, tem lugar a

Declaração dos Direitos do Povo Trabalhador e Explorado da Rússia32, que tem a

primazia de consagrar os direitos humanos econômicos, sociais e culturais sob

orientação filosófica marxista. A esses marcos históricos do fortalecimento dessa

30

LIMA JR., J. B. Obra citada, p. 20. 31

MORAIS, J. L. B. Obra citada, p. 30. 32

(15)

categoria de direitos, segue-se sua incorporação às diversas constituições da

época, como a alemã de Weimar de 1919, a espanhola de 1931, a da própria

Rússia de 1936 e da irlandesa de 1937.

Dessas constituições, destaca-se a mexicana por fixar uma declaração

ideológica de direitos humanos econômicos e sociais, em cujo contexto

revolucionário objetiva construir uma nova sociedade com base no direito ao

trabalho. Essa constituição teve ainda, à época, a primazia de incluir em seu rol de

direitos fundamentais o direito à educação.

Não menos importante na constitucionalização dos direitos humanos

sociais, foi a Constituição alemã que, aliando as concepções liberais às

proposições socialistas, inicialmente inconciliáveis, tentou definir o primeiro projeto

social-democrático do mundo. Esse projeto alemão objetivava construir uma

social-democracia conciliando princípios socialistas e liberais que se

distanciassem, ao mesmo tempo, dos ideais da revolução soviética e dos

excessos do capitalismo e do liberalismo33.

A luta pela conquista de direitos sociais no cenário em análise culminou

com o último grande conflito mundial, em decorrência do qual ocorreu inegável

avanço no campo do reconhecimento universal dos direitos humanos por grande

número de Estados. As garantias e proteção desses direitos, entretanto, não

tiveram o mesmo avanço. Nesse sentido, com muita propriedade, Bobbio34

recomenda a seguinte reflexão:

“A quem pretenda fazer um exame despreconceituoso do desenvolvimento dos direitos humanos depois da Segunda Guerra Mundial, aconselharia este salutar exercício: ler a Declaração Universal e depois olhar em torno de si. Será obrigado a reconhecer que, apesar das antecipações iluminadas dos filósofos, das corajosas formulações dos juristas, dos esforços dos políticos de boa vontade, o caminho a percorrer é ainda longo. E ele terá a impressão de que a história humana, embora velha de milênios, quando comparada às enormes tarefas que está(sic) diante de nós, talvez tenha apenas começado”.

33

LIMA LJ. J. B. Obra citada, p. 23. 34

(16)

Nesse contexto histórico, portanto, e com maior ênfase após a Segunda

Guerra Mundial, o Estado que dessas transformações resulta, passa a ter funções

positivas. É o Estado regulador e promotor do bem-estar social, o welfare state

que definitivamente passa a constituir o modelo jurídico-político do século XX.

1.2. A Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948

Historicamente, o surgimento da Organização das Nações Unidas (ONU)

representa uma busca de proteção internacional contra as atrocidades cometidas

no decorrer da Segunda Guerra Mundial, finda em 1945.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada por 48 Estados

em 10 de dezembro de 1948 na Assembléia Geral das Nações Unidas, seguindo a

linha de pensamento à época dominante (segundo a qual é preciso criar uma nova

ordem mundial fundada no respeito ao pluralismo e na dignidade humana ), vem

consagrar valores básicos universais, superando a dicotomia entre o liberalismo e

o socialismo e estabelecendo assim igual valor entre os direitos humanos civis e

políticos e os direitos humanos econômicos, sociais e culturais.

Com essa declaração, é incorporada a contemporânea idéia de

universalidade, unidade, interdependência e indivisíbilidade dos direitos humanos.

A Declaração Universal de 1948 foi e continua a ser um marco na história

da fundamentação e proteção dos direitos humanos, como bem expõe Bobbio35,

para quem ela “representa um fato novo na história, na medida em que, pela

primeira vez, um sistema de princípios fundamentais da conduta humana foi livre e

expressamente aceito, através de seus respectivos governos, pela maioria dos

homens que vive na terra”. Essa declaração, segundo o mesmo autor, tem a

primazia de consagrar um sistema de valores universais, considerando que o

“consenso sobre sua validade e sua capacidade para reger os destinos da

comunidade futura de todos os homens foi explicitamente declarado”.

35

(17)

O universalismo de que são dotados os valores consagrados na Declaração

Universal de 1948, foi uma árdua e lenta conquista na formação das declarações

de direitos nas quais, segundo o mesmo autor, distinguem-se três fases.

A primeira dessas fases corresponderia a das teorias filosóficas, onde

estudiosos desenvolvem idéias justificadoras, como a do jusnaturalismo moderno

cujo pai, John Locke, na expressão de Bobbio36 ensinava que “o verdadeiro

estado do homem não é o estado civil, mas o natural, ou seja, o estado de

natureza no qual os homens são livres e iguais”. Para esse filósofo o estado civil

seria “uma criação artificial, que não tem outra meta além de permitir a mais ampla

explicitação da liberdade e da igualdade naturais”. Exemplo da consagração do

pensamento filosófico que marcou o jusnaturalismo, está contido na própria

Declaração Universal quando dispõe que “Todos os homens nascem livres e

iguais em dignidade e direitos”, cujo sentido é o mesmo de que os homens são

livres e iguais por natureza.

A segunda fase do desenvolvimento das declarações de direitos seria o

momento em que aquelas idéias são aceitas pela primeira vez por um legislador e

adotadas como nova concepção de um Estado, ou seja, nesse momento as

teorias são postas em prática e o direito ganha concreticidade. Essa passagem é

exemplificada, no caso em análise, com as Declarações de Direitos dos Estados

Norte-Americanos e da Revolução Francesa. Nesta segunda fase, conquanto os

direitos, antes ideais, sejam positivados e ganhem em garantia, perdem em

universalidade, pois adotados no âmbito exclusivo do Estado que os consagra37.

A terceira e última fase, na divisão defendida por Bobbio, inicia-se

exatamente com a Declaração Universal de 1948, onde a afirmação dos direitos é,

ao mesmo tempo, universal e positiva. São universais no sentido de que “os

destinatários dos princípios nela contidos não são apenas os cidadãos deste ou

daquele Estado, mas todos os homens”. É positiva na medida em que essa

declaração desencadeia, diz o mesmo autor, “um processo em cujo final os

direitos do homem deverão ser não mais apenas proclamados ou apenas

36

BOBBIO, N. Obra citada, p. 28-29. 37

(18)

idealmente reconhecidos, porém efetivamente protegidos até mesmo contra o

próprio Estado que os tenha violado”.

Os direitos humanos elencados na Declaração Universal de 1948

representam os direitos concebidos e aceitos naquele momento histórico, mas não

são os únicos. O desenvolvimento das técnicas de produção, as alterações nas

condições econômicas, sociais e culturais, a ampliação dos conhecimentos e a

intensificação nos meios de comunicação produziram e continuarão a produzir

mudanças na organização da sociedade, afetando as relações sociais e exigindo

novas normas reguladoras dessas relações, com reflexo no catálogo desses

direitos e em especial nos chamados direitos sociais38.

Nesse sentido, o conteúdo dessa declaração deve ser aperfeiçoado e

atualizado para que ela não se cristalize no tempo e venha, no futuro, retratar

apenas o momento de sua idealização. Essa tem sido uma constante

preocupação de organismos internacionais que por um processo dinâmico vêm

desenvolvendo e multiplicando os ideais dessa declaração, gerando outros

documentos que lhe interpretam ou complementam o sentido. Dentre esses

documentos, Bobbio39 menciona que a Assembléia Geral aprovou, dentre outros:

a Convenção sobre os Direitos Políticos da Mulher, em 20 de novembro de

1952;

a Convenção para Prevenção e Repressão do Genocídio, em 9 de

dezembro de 1958;

a Declaração dos Direitos da Criança, em 20 de novembro de 1959;

a Declaração sobre a Concessão da Independência aos Países e Povos

Coloniais, em 14 de dezembro de 1960;

a Convenção Relativa à Luta Contra a Discriminação no Campo do Ensino

de 4 de dezembro de 1960, em vigor a partir de 22 de janeiro de 1962;

uma Declaração, seguida, dois anos depois, por uma Convenção sobre

todas as forma de discriminação, em 20 de novembro de 1963; e

38

BOBBIO, N. Obra citada, p. 33. 39

(19)

o Pacto sobre os Direitos Econômicos, Sociais e Culturais e o Pacto sobre

os Direitos Civis e Políticos, ambos em 16 de dezembro de 1966.

a Declaração Universal de 1948, que na interpretação de Piovesan40 dos

artigos 1º (3) e 55 da Carta da Organização das Nações Unidas, definiu a

expressão direitos humanos e liberdades fundamentais para, conjugando os

valores da liberdade aos valores da igualdade, estabelecer duas categorias de

direitos: os direitos civis e políticos (arts.3º a 21) e os direitos econômicos, sociais

e culturais (arts. 22 a 28).

A dignidade da pessoa humana, segundo essa autora, é, nessa nova

concepção, o fundamento dos direitos humanos que passa a integrar todos os

tratados e declarações desses direitos e que vem se internacionalizar como Direito

Internacional dos Direitos Humanos. A Declaração Universal de 1948, com

propriedade, ensina Piovesan41:

“ainda introduz a indivisibilidade destes direitos, ao ineditamente conjugar o catálogo dos direitos civis e político ao catálogo dos direitos econômicos, sociais e culturais. (...) estabelece duas categorias de direitos: os direitos civis e políticos e os direitos econômicos, sociais e culturais(...). Combina, assim, o discurso liberal e o discurso social da cidadania, conjugando o valor da liberdade ao valor da igualdade.”

Entretanto, as dificuldades no campo da tutela dos direitos humanos,

essencialmente os sociais, vai além do aspecto puramente jurídico-político para

englobar o conteúdo e a realização desses direitos. O fato de haver senso comum

quanto a aceitação e generalização desses direitos, não resolve o problema maior

da sua efetividade que é complexa. A grande dificuldade é que esses direitos não

são absolutos - assim entendido o direito válido em todas as situações e para

todos sem distinção - e muito menos constituem uma categoria homogênea42.

O conjunto dos direitos de liberdade e direitos sociais, no dizer de Bobbio43,

desde quando consagrados como direitos fundamentais, contém direitos

incompatíveis entre si, o que significa dizer não ser possível, quase sempre,

40

PIOVESAN, F. Obra citada, p. 143. 41

PIOVESAN, F. Obra citada, p. 143. 42

(20)

proteger um sem restringir outro. Assim, essa dificuldade de conjugar o direito à

liberdade com os direitos sociais leva as sociedades, no dizer desse autor, a

tornarem-se “mais livres na medida em que menos justas e mais justas na medida

em que menos livres”.

Outro óbice à realização dos direitos humanos, notadamente os sociais, são

as condições sócio-econômicas dos Estados e em especial daqueles em

desenvolvimento, onde os programas ideais tornam-se inócuos diante da

escassez de recursos materiais para implementá-los, além, é lógico, de fatores

políticos e culturais.

Às já mencionadas dificuldades procedimentais e substantivas de proteção

aos direitos humanos, o pensador italiano44 acresce os problemas da guerra e da

miséria que chama de excesso de potência e excesso de impotência. A primeira

sustenta materialmente o extermínio de massas humanas pelas armas, a segunda

leva ao mesmo resultado pela fome.

1.3. O Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais

A proteção dos direitos econômicos, sociais e culturais resulta da crença de

que o bem-estar individual, ao menos em parte, deriva de condições que devem

ser garantidas adequadamente pelos Estados a todos os indivíduos.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos, não sendo um tratado mas

apenas um padrão de referência, por si só não possui força vinculante aos

Estados membros da Organização da Nações Unidas, fato que motivou a

necessidade de um instrumento com força de juridicidade para garantir efetividade

aos Direitos Humanos ali consagrados. Firma-se assim, na comunidade

internacional, a idéia de constituição de um Pacto Internacional de Direitos

Humanos que especificaria esses direitos, além de estabelecer mecanismos para

sua exigibilidade45.

43

BOBBIO, N. Obra citada, p. 43. 44

BOBBIO, N. Obra citada, p. 45. 45

(21)

Nos trabalhos de elaboração desse instrumento, os efeitos da guerra fria

mostravam um mundo dividido em dois blocos econômicos, ideologicamente

distintos e fechados. Esse fato levou a uma solução conciliadora que se constituiu

na criação de dois pactos, um para cada uma das categorias dos direitos: O Pacto

Internacional dos Direitos Civis e Políticos (PIDCP); e o Pacto Internacional dos

Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (PIDESC), ambos de 1966 mas em vigor

dez anos após, apesar dos trabalhos de elaboração iniciarem-se desde 1947.

Esses dois pactos foram ratificados pelo Brasil em 24 de janeiro de 1992.46

A sistemática de implementação do PIDESC, diversamente da prevista para

o PIDCP - instituiu um Comitê de Direitos Humanos destinado a monitorar sua

aplicação, um sistema de comunicação interestatais e denúncias individuais –

previu o monitoramento por relatórios apresentados ao Secretário Geral da ONU,

onde são explicitadas as medidas adotadas pelo Estado-parte para observância

dos direitos previstos. Posteriormente foi criado, e encontra-se em plena atividade,

o Comitê de Direitos Econômicos Sociais e Culturais com a função de receber os

relatórios de implementação expedidos pelos países e emitir parecer.

No catálogo de direitos previstos nesse Pacto, constam direito: ao trabalho;

à associação em sindicatos; à greve; à previdência social; à constituição e

manutenção da família; à proteção especial de crianças e adolescentes contra a

exploração econômica e no trabalho; à proteção contra a fome; à cooperação

internacional; à saúde física e mental; à educação(que vise o pleno

desenvolvimento da personalidade humana e do sentido de sua dignidade e a

fortalecer o respeito pelos Direitos humanos e às liberdades fundamentais); ao

respeito à cultura de cada povo e região; e ao progresso científico e técnico.47.

A ausência de sanções por inobservância das obrigações assumidas pelos

Estados-parte, constitui sério impecilho à eficácia na implementação desse

importante instrumento internacional de proteção dos direitos humanos.

46

PIOVESAN, F. Obra citada, p. 236-237. 47

(22)

1.4. O Estado brasileiro e os direitos sociais

O latifúndio monocultural, o escravagismo e mesmo o autoritarismo, que

caracterizaram o Brasil até o século XIX, parece ter dificultado nossa percepção

dos movimentos sociais que experimentavam outras sociedades, principalmente

as européias, nesse período da história, podendo mesmo ser dito que esses

questionamentos por mudanças pouca influência exerceram sobre nós.

Nesse sentido, só com a revolução de 1930 – que, diversamente do que

ocorreu na Europa, não tinha a participação popular e sim das oligarquias

momentaneamente insatisfeitas -, verifica-se no Brasil as primeiras preocupações

com os direitos sociais e mesmo assim como dádiva do Estado. Esses direitos

dados à sociedade e não por ela conquistados, visavam impedir a luta de classes

e se materializaram em uma legislação trabalhista e previdenciária de direitos

sociais mínimos que controlava, dita legislação, as representações de

trabalhadores, mantendo-as, paternalisticamente, reféns do Estado48.

Os tênues movimentos por conquistas sociais, até a Constituição de 1934,

eram tidos como ilegais e nessa qualidade rechaçados pelos aparelhos de

repressão do Estado. A Constituição de 1934, cuja estrutura dos direitos sociais foi

seguida pelas subseqüentes, inclusive a de 1967, previu, ainda que apenas

formalmente e para os trabalhadores urbanos, alguns direitos, dentre eles, além

da pluralidade sindical e a completa autonomia dos sindicatos:

“a) proibição de diferença de salário para um mesmo trabalho por motivo de idade, sexo, nacionalidade ou estado civil; b) salário mínimo capaz de satisfazer, conforme as condições de cada região, as necessidades normais do trabalhador; c) trabalho diário não excedente de oito horas, reduzíveis, mas só prorrogáveis nos casos previstos em lei; d) proibição de trabalho a menores de 14 anos; de trabalho noturno a menores de 16; e em indústrias insalubres, a menores de 18 anos e mulheres; e) repouso hebdomadário, de preferência aos domingos; f) férias anuais remuneradas; g) indenização ao trabalhador dispensado sem justa causa; h) assistência médica e sanitária ao trabalhador e à gestante, assegurado a esta descanso antes e depois do parto, sem prejuízo do salário e do emprego, e

48

(23)

instituição de previdência, mediante contribuição igual da União, do empregador e do empregado, a favor da velhice, da invalidez, da maternidade e nos casos de acidente do trabalho ou de morte; i) regulamento do exercício de todas as profissões; j) reconhecimento das convenções coletivas de trabalho”.49

A Constituição Brasileira de 1988 é, das Cartas políticas que tivemos, a que

melhor recepciona os direitos humanos, tanto em quantidade como em qualidade,

podendo mesmo ser considerada avançada e atualizada no embasamento teórico

de fundamentação e mecanismos de proteção desses direitos.

Logo em seu preâmbulo, institui um Estado Democrático “destinado a

assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o

bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de

uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia

social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica

das controvérsias”50.

A cidadania, a dignidade da pessoa humana e os valores sociais do

trabalho constituem, segundo o artigo 1º, incisos II a IV dessa Constituição,

fundamentos do Estado Democrático de Direito cujos objetivos consagrados por

seu artigo 3º são: “construir uma sociedade livre, justa e solidária; garantir o

desenvolvimento nacional; erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as

desigualdades sociais e regionais; promover o bem de todos, sem preconceitos de

origem, raça, sexo, cor, idade, e quaisquer outras formas de discriminação”.

Do mesmo modo, a Constituição de 88 consagra o princípio da prevalência

dos direitos humanos nas relações internacionais com o Estado brasileiro,

segundo os termos do artigo 4º daquela Constituição, o que na prática levou à

ratificação do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos, do Pacto

Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, além da Convenção

Americana de Direitos Humanos.51

Quanto a efetividade dos direitos humanos, o § 1º do artigo 5º consagra o

princípio da aplicabilidade imediata. Avança a Constituição de 1988 ao incluir os

49

LIMA JR., J. B. Obra citada, p. 54. 50

(24)

direitos sociais no catálogo de direitos fundamentais, consagrando o moderno

princípio da indivisibilidade e interdependência dos direitos humanos, onde o valor

da liberdade é conjugado ao da igualdade.

Na lição de Piovesan52, Jorge Miranda, constitucionalista português que

auxiliou os trabalhos do constituinte brasileiro de 88, entende que “a Constituição

confere uma unidade de sentido, de valor e de concordância prática ao sistema de

direitos fundamentais. E ela repousa na dignidade da pessoa humana, ou seja, na

concepção que faz a pessoa fundamento e fim da sociedade e do Estado”.

Os direitos sociais, na interpretação de Rocha53, têm sido considerados,

quando analisados os efeitos que o seu reconhecimento acarreta, direitos que

geram prestações estatais positivas, pois em sua base reside

“a necessidade social constatada de se passar da formalização liberal dos direitos fundamentais para a concretização das condições materiais, políticas, econômicas e sociais, possibilitadoras da efetivação daqueles. Os direitos sociais foram e são conquistas dos necessitados. Não foram concessões dos favorecidos, conquanto seja certo que estes tentaram ‘fazer a revolução para que nada mudasse’, ou seja, aceitar algumas modificações para que os proletários não aprofundassem as suas lutas”.

No mesmo sentido é o entendimento de Silva54

, para quem

“(...) podemos dizer que os direitos sociais, como dimensão dos direitos fundamentais do homem, são prestações positivas estatais, enunciadas em normas constitucionais, que possibilitam melhores condições de vida aos mais fracos, direitos que tendem a realizar a igualização de situações sociais desiguais. São, portanto, direitos que se conexionam com o direito de igualdade. Valem como pressupostos do gozo dos direitos individuais na medida em que criam condições materiais mais propícias ao auferimento da igualdade real, o que, por sua vez, proporciona condição mais compatível com o exercício efetivo da liberdade”.

Dessa concepção de direitos sociais, segundo Rocha55, resultam dois

aspectos fundamentais à sua concretização: a) ao cidadão, para buscar esses

51

LIMA JR., J. B. Obra citada, p. 56-57. 52

PIOVESAN, F. Obra citada, p. 52-53. 53

ROCHA, C. L. A. Obra citada, p. 40. 54

(25)

direitos e suas garantias é indispensável uma atuação marcante, presente,

vigilante e comprometida com o seu papel de participante ativo nos destinos da

sociedade, exigindo do Estado Social a prestação dos serviços essenciais a que

está obrigado; b) no Estado organizado constitucionalmente na forma de um

prestador de serviços, o Estado do bem-estar, quando o ente público desatende o

seu dever de prestar o serviço constitucionalmente previsto, sujeita-se ao controle

da constitucionalidade incidente sobre essa inação, a inconstitucionalidade por

omissão.

1.5. Internacionalização e universalização dos direitos humanos

Os fundamentos para os direitos humanos são ainda polêmicos. São

direitos naturais e inatos, direitos positivos, direitos históricos ou mesmo derivam

de um sistema moral? Segundo Bobbio56, esses direitos “nascem como direitos

naturais universais, desenvolvem-se como direitos positivos particulares, para

finalmente encontrarem sua plena realização como direitos positivos universais”.

O processo de internacionalização dos direitos humanos deriva do Direito

Humanitário, da antiga Liga das Nações e da Organização Internacional do

Trabalho (OIT). O Direto Humanitário ou o direito Internacional da Guerra,

constitui, segundo Buergenthal,57 componente de direitos contidos na lei da guerra

para estabelecer limites à atuação do Estado na observância de direitos

fundamentais aos militares fora de combate e à população civil. Esse direito foi o

primeiro reconhecimento da comunidade internacional de que, mesmo em caso de

conflito armado, devem ser observados limites à liberdade e à autonomia dos

Estados.

Ao seu turno, a Liga das Nações foi criada após a Primeira Guerra Mundial

para, nos termos do seu preâmbulo:

55

ROCHA, C. L. A. Obra citada, p. 47. 56

BOBBIO, N. Obra citada, p. 30. 57

(26)

(...) promover a cooperação internacional e alcançar a paz e a segurança internacionais, com a aceitação da obrigação de não recorrer à guerra, com o propósito de estabelecer relações amistosas entre as nações, pela manutenção da justiça e com extremo respeito para com todas as obrigações decorrentes dos tratados, (...).

A Convenção da Liga das Nações continha previsões genéricas de

proteção aos direitos humanos pela qual os Estados, abrindo mão de parcela da

sua soberania ou relativisando-a, comprometiam-se a assegurar condições justas

e dignas de trabalho para homens, mulheres e crianças e estabelecia sanções

econômicas e militares, impostas pela comunidade internacional, aos Estados que

violassem as obrigações resultantes dessa convenção.

Do mesmo modo que os dois outros organismos internacionais

supramencionados, a OIT, também criada após a Primeira Guerra Mundial com a

finalidade de promover e regular as condições de trabalho no âmbito mundial,

contribuiu sobremaneira para a internacionalização dos direitos humanos,

projetando-os na ordem internacional e fixando o entendimento de que no âmbito

dessa categoria de direitos a soberania dos Estados estava de fato limitada,

impondo-se a observância da salvaguarda dos direitos do ser humano de forma

cooperativa no seio da comunidade de nações.

A OIT, na lição de Henkin, citado por Piovesan58

“foi um dos antecedentes que mais contribuiu à formação do Direito Internacional

dos Direitos Humanos. A Organização Internacional do Trabalho foi criada após a Primeira Guerra Mundial para promover parâmetros básicos de

trabalho e de bem-estar social. Nos setenta anos que se passaram, a Organização Internacional do Trabalho promulgou mais de uma centena de Convenções internacionais, que receberam ampla adesão e razoável observância”.

1.6. Proteção internacional dos direitos humanos

As atrocidades praticadas pelo nazismo durante a Segunda Guerra Mundial

tiveram como conseqüência um movimento no sentido da internacionalização dos

58

(27)

direitos humanos. Os horrores praticados pelo Estado nazista fortaleceu a crença

de que os direitos humanos devem ser protegidos além das fronteiras de um

Estado, flexibilizando assim a noção de soberania.

É nesse sentido o pensamento de Buergenthal, para quem, segundo

Piovesan59

:

“O moderno Direito Internacional dos Direitos Humanos é um fenômeno do pós-guerra. Seu desenvolvimento pode ser atribuído às monstruosas violações de direitos humanos da era Hitler e à crença de que parte destas violações poderiam ser prevenidas se um efetivo sistema de proteção internacional de direitos humanos existisse”.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 já tratada em tópico

anterior, constitui verdadeiro marco histórico no processo de universalização e

proliferação dos instrumentos de proteção desses direitos, permanecendo, desde

sua adoção, como fonte de inspiração e irradiação tanto em nível global quanto

em nível regional.

Os Pactos das Nações Unidas sobre Direitos Humanos de 1966, já

mencionados, e que compreendem, inclusive medidas de implementação, vieram

completar a idéia original contida naquela Declaração de uma Carta Internacional

de Direitos Humanos. Segundo Trindade60, quando da adoção desses Pactos,

outros instrumentos globais já existiam como a Convenção da ONU sobre a

Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, de 1965, seguindo-se à

Declaração de 1963 sobre essa matéria e outros especiais adviriam como a

Convenção sobre a Eliminação e a Punição do Crime de Apartheid, de 1973, a

Convenção das Nações Unidas sobre a Eliminação de Todas as Formas de

Discriminação contra a Mulher, de 1979, a Convenção das Nações Unidas contra

a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes, de

1984.

A esses tratados de direitos humanos da ONU conjugam-se mecanismos

de proteção estabelecidos pelas agências especializadas dessa importante

organização internacional - notadamente as estabelecidas pela já mencionada

59

PIOVESAN, F. Obra citada, p. 129. 60

(28)

OIT, além do Conselho Executivo da Organização das Nações Unidas para a

Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), que compreendem medidas de

implementação não judiciais -, e outras convenções em nível regional, como a

Convenção Européia de Direitos Humanos, de 1950, a Convenção Americana

sobre Direitos Humanos, de 1969, e a Carta Africana de Direitos Humanos e dos

Povos, de 1981.

De igual modo, além dos tratados de direitos humanos gerais e

especializados mencionados, as resoluções ou decisões de organizações

internacionais constituem procedimentos adotados com o mesmo objetivo de

proteção desses direitos.

Os instrumentos citados de proteção e salvaguardas dos direitos humanos

constituem um complexo conjunto de regras diversas pela origem, destinatários,

âmbito de aplicação, efeitos jurídicos, força e conteúdo. Essa diversidade,

aparentemente inconciliável, entretanto, coexiste harmoniosamente orientada

pelo sentido de um valor maior da proteção dos seres humanos, cujas

reclamações de violações a seus direitos devem ser recebidas, objetivamente

averiguadas e os resultados, se violadores desses direitos, coibidos na forma

disposta em tais instrumentos61.

A implementação dos direitos humanos pelos organismos internacionais é

analisada por Bobbio62 sob três aspectos: promoção, controle e garantia. A

promoção é explicada como as ações tendentes a induzir os Estados que “não

têm uma disciplina específica para a tutela dos direitos humanos a introduzi-la” e

aos “que já a têm a desenvolvê-la”. Controle compreende as medidas adotadas

pelos organismos internacionais tendentes a verificar o grau de atendimento das

recomendações e observância dos preceitos das convenções. Garantia seria a

“organização de uma autêntica tutela jurisdicional de nível internacional que

substitua a nacional”.

A atividade de garantia internacional dos direitos humanos é ainda

incipiente por ausência de mecanismos jurisdicionais a esse nível. O exemplo

61

TRINDADE, A. A . C. Obra citada, p. 3. 62

(29)

primeiro é o previsto na Convenção Européia dos Direitos do Homem, em vigor

desde 3 de setembro de 1953, consistente nos procedimentos de demanda

individual à Comissão Européia dos Direitos do Homem.

A Constituição Brasileira de 88, em seu artigo 4º, inciso II, consagra a

prevalência dos direitos humanos como princípio a orientar as relações

internacionais do Estado brasileiro. A conseqüência que desse fato resultou para

esses direitos foi a ratificação, após a promulgação daquela Carta, de importantes

tratados internacionais de direitos humanos, como: a) a Convenção

Interamericana para Prevenir e Punir a Tortura, em 20 de julho de 1989; b) a

Convenção contra a Tortura e outros Tratamentos Cruéis, Desumanos ou

Degradantes, em 28 de setembro de 1989; c) a Convenção sobre os Direitos da

Criança, em 24 de setembro de 1990; d) o Pacto Internacional dos Direitos Civis e

Políticos, em 24 de janeiro de 1992; e) o Pacto Internacional dos Direitos

Econômicos, Sociais e Culturais, em 24 de janeiro de 1992; f) a Convenção

Americana de Direitos Humanos, em 25 de setembro de 1992; g) a Convenção

Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher, em 27

de novembro de 1995; h) o Protocolo à Convenção Americana referente à

Abolição da Pena de Morte, em 13 de agosto de 1996; e i) o Protocolo à

Convenção Americana referente aos direitos Econômicos, Sociais e Culturais, em

21 de agosto de 1996 ( Protocolo de San Salvador )63.

Assim, na área internacional, o Brasil, após a adesão dos dois Pactos

Internacionais da ONU e do Pacto de San José, em 1992, atendeu as

formalidades necessárias à sua integração ao sistema internacional de proteção

aos direitos humanos e no campo interno a Constituição de 88 contempla

garantias suficientes para proteger esses direitos, inclusive de Emendas

Constitucionais, além de estender essa proteção a outros direitos resultantes de

tratados de que o Brasil faça parte, conforme dispõe o § 2.º do artigo 5.º dessa

Carta Política64.

63

PIOVESAN, F. Obra citada, p. 236-237. 64

(30)

A adesão e ratificação pelo Brasil dos dois Pactos Internacionais da ONU

foram justificadas na Mensagem nº 620, de 28 de novembro de 1985 do

Presidente da República ao Congresso Nacional, transcrita por Piovesan65, nos

termos seguintes:

Excelentíssimos Senhores Membros do Congresso Nacional, em conformidade com o disposto no art. 44, inciso I, da Constituição Federal, tenho a honra de submeter à elevada consideração de Vossas Excelências, acompanhados de Exposição de Motivos do senhor Ministro de Estado das Relações Exteriores, os textos do Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais e do Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos, ambos aprovados, junto com o Protocolo Facultativo relativo a esse último Pacto, na Sessão XXI (1966) da Assembléia Geral das Nações Unidas. (...). Os dois Pactos em questão, que entraram em vigor em 1976, não incluem entre seus Estados-partes o Brasil. Creio, contudo, que várias e de diversas naturezas são as razões pelas quais o Brasil deveria aderir àqueles instrumentos jurídicos internacionais: a) o Brasil

participou ativamente dos trabalhos de elaboração dos Pactos Internacionais

sobre Direitos Humanos; b) o Brasil votou a favor da Resolução n. 2.200/66 da Assembléia Geral das Nações Unidas, pela qual os referidos instrumentos foram adotados e abertos à assinatura; c) os Pactos contam, cada um, com mais de oitenta Estados Partes, pertencentes a diferentes sistemas de organização jurídica, social e econômica, fato que demonstra, por si só, o elevado grau de universalidade dos Pactos; d) a adesão do Brasil àqueles instrumentos internacionais de grande relevância constituirá uma das manifestações externas – e das mais expressivas – do processo de modificação interna por que passa o Brasil, no curso do qual, procurando reorganizar-se social, econômica e politicamente, inaugura nova fase de sua história; e) a adesão aos Pactos do Brasil teria excelente repercussão tanto no plano externo quanto no interno e constituiria compromisso ou garantia adicional da efetiva proteção dos direitos humanos em nosso país; f) a assinatura de tratados na área dos direitos humanos ou a adesão a eles – de cunho eminentemente ético e humanitário – faz parte da verdadeira tradição jurídica e diplomática do Brasil, que é Parte de numerosos tratados destinados à proteção dos direitos humanos, tais como, e.g. a Convenção

65

(31)

Relativa ao Estatuto dos Refugiados, a Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial e a Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a mulher; g) a adesão do Brasil aos Pactos em apreço estaria de acordo com a evolução do Direito Internacional contemporâneo, que vem reconhecendo, em escala crescente, a legitimidade das preocupações e da cooperação internacional no tocante às questões de direitos humanos.

A posição assumida pelo Estado brasileiro no sistema internacional de

proteção dos direitos humanos submete-o ao compromisso de manter e

desenvolver o Estado Democrático de Direito, preservando, ainda que em situação

de emergência, um núcleo de direitos básicos e inderrogáveis66, além de

sujeitar-se à fiscalização e controle dessas obrigações pela sistemática de monitoramento

dos órgãos de supervisão da comunidade internacional.

Mais do que compromissos, a posição brasileira diante da comunidade

internacional no campo dos direitos humanos, objetiva obter uma imagem positiva

de país respeitador e garantidor desses direitos, idéia essa mais contemporânea

do mundo atual de direitos globalizados.

Igualmente significativo é o alargamento que resulta do fato para o termo

cidadania, agora (ainda que apenas formalmente) ampliada pois acrescida de

novos direitos, inclusive possíveis de serem acionados também no âmbito

internacional. “Assim, o universo de direitos fundamentais se expande e se

completa, a partir desta conjugação dos sistemas nacional e internacional de

proteção dos direitos humanos”67.

A efetiva proteção desses direitos, entretanto, continua ainda carente de

solução a depender da ampliação dos poderes do Estado, neste termo incluída a

consciência da necessidade de implementação de políticas públicas objetivamente

voltadas ao combate à desigualdade social.

66

PIOVESAN, F. Obra citada, p. 240. 67

(32)

1.6.1 Discriminação no campo do ensino – Convenção Relativa à Luta Contra a Discriminação no Campo do Ensino (1960)

A Convenção Relativa à Luta Contra a Discriminação no Campo do Ensino,

em vigor desde 22 de maio de 1962 e da qual o Brasil é signatário, pois a ratificou

em 19 de abril de 1968, é incisiva na condenação da discriminação na atividade

de ensino para a qual estabelece conceito próprio e compromissos dos Estados

que a adotaram para a implementação de ações tendentes à sua eliminação e

realização da igualdade material.

Os dispositivos mais ilustrativos no combate à discriminação constantes da

mencionada Convenção são a seguir transcritos e comentados68:

A Conferência da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura - UNESCO, reunida em Paris de 14 de novembro a 15 de dezembro de 1960, em sua décima primeira sessão,

Lembrando que a Declaração Universal dos Direitos do Homem afirma o princípio de não-discriminação e proclama o direito de toda pessoa à educação,

Considerando que a discriminação no campo do ensino constitui violação dos direitos enunciados nesta Declaração,

Considerando que, nos termos de sua Constituição, a UNESCO se propõe a instituir a colaboração entre as nações para assegurar a todos o respeito universal dos direitos do homem e oportunidade igual de educação,

Consciente de que incumbe conseqüentemente à UNESCO, dentro do respeito da diversidade dos sistemas nacionais de educação, não só proscrever qualquer discriminação em matéria de ensino, mas igualmente promover a igualdade de oportunidade e tratamento para todos neste campo,

Tendo recebido propostas sobre diferentes aspectos da discriminação no ensino, questão que constitui o item 17.1.4. da ordem do dia da sessão.

Tendo decidido em sua décima sessão que essa questão seria objeto de uma convenção internacional, assim como de recomendações aos Estados-membros. Adota neste décimo quarto dia de dezembro de 1960, a presente Convenção:

68

(33)

Artigo I

1. Para fins desta convenção, o termo ‘discriminação’ abarca qualquer distinção, exclusão, limitação ou preferência que, por motivo de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião pública ou qualquer outra opinião, origem nacional ou social, condição econômica ou nascimento, tenha por objeto ou efeito destruir ou alterar a igualdade de tratamento em matéria de ensino, e, principalmente:

a) privar qualquer pessoa ou grupos de pessoas do acesso aos diversos tipos ou graus de ensino;

b) limitar a nível inferior a educação de qualquer pessoa ou grupo;

c) sob reserva do disposto no artigo II da presente Convenção, instituir ou manter sistemas ou estabelecimentos de ensino separados para pessoas ou grupos de pessoas; ou

d) de impor a qualquer pessoa ou grupo de pessoas condições incompatíveis com a dignidade do homem.

2. Para os fins da presente Convenção, a palavra ensino refere-se aos diversos tipos e graus de ensino e compreende o acesso ao ensino, seu nível e qualidade e as condições em que é subministrado.

Artigo III

A fim de eliminar e prevenir qualquer discriminação no sentido da presente Convenção, os Estados Partes se comprometem a:

a) ab-rogar quaisquer disposições legislativas e administrativas e fazer cessar quaisquer práticas administrativas que envolvam discriminação;

b) tomar as medidas necessárias, inclusive legislativas, para que não haja discriminação na admissão de alunos nos estabelecimentos de ensino;

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Tabela 1 - Médias de desempenho no Saeb, em Língua Portuguesa  4ª série do Ensino Fundamental – Brasil e Regiões – 1995 a 2001  Brasil e  Regiões  Ano  1995 1997 1999 2001  Média  Erro-padrão  Média  Erro-padrão  Média  Erro-padrão  Média  Erro-padrão  Bra
Tabela 3 - Pessoas que freqüentavam creches ou escolas, por nível de  ensino, segundo a rede de ensino e o sexo no censo de 2000
Tabela 4 - População brasileira por cor ou raça segundo o sexo.
Tabela 5 - Composição racial da pobreza e da indigência na população  brasileira
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