CAPÍTULO 2. THOMPSON E AS CIÊNCIAS SOCIAIS BRASILEIRAS
2.1 O CONTEXTO BRASILEIRO E O IMPACTO DOS MOVIMENTOS POPULARES
Desde o fim da década de 1970, o movimento operário e sindical brasileiro experimentou um momento marcante em sua história com as greves no ABC paulista, tornando-se o protagonista político do Brasil, e cuja ação se desenrolava no maior ciclo grevista do mundo (SOUZA; TRÓPIA, 2012). O ciclo grevista que se iniciava então conheceu um salto quantitativo no decorrer da década de 1980. De acordo com os dados do Dieese, somente no ano de 1989, quase duas mil greves foram registradas. O gráfico 1 expressa o número de greves durante esses anos.
Fonte: Dieese44
44 Dados disponíveis em:
http://www.dieese.org.br/balancodasgreves/2012/estPesq66balancogreves2012.pdf. 250 408 621 1014 996 877 1962 0 500 1000 1500 2000 2500 1983 1984 1985 1986 1987 1988 1989
A década de 1980 foi um período politicamente intenso para a sociedade brasileira, na medida em que se apresentou como momento de transição política depois de quase duas décadas de controle autoritário do Estado pelos militares e, também, de crescimento das formas de contestações sociais de orientação nacional- popular (SANTANA, 2007). Enquanto o processo de reestruturação produtiva nos Estados Unidos e na Europa Ocidental teve forte impacto nas organizações dos trabalhadores, provocando a redução do número de greves e dos índices de sindicalização, o cenário brasileiro apresentou-se diverso, sobretudo se forem considerados acontecimentos como o nascimento da Central Única dos Trabalhadores (CUT), da CONCLAT (futura CGT) e do Partido dos Trabalhadores (PT), colaborando, significativamente, para o aumento expressivo do índice de sindicalização e do movimento grevista na década de 1980 (ANTUNES, 2008; AMORIM, 2012; RODRIGUES, 1998).
Assim, segundo Bertoncelo (2007, p. 73), a “(...) formação das centrais sindicais refletiu o maior espaço do sindicalismo e dos trabalhadores na cena pública e lhes proporcionou maior capacidade organizativa”. Além do aumento do índice de sindicalização, presenciou-se também na década de 1980 o surgimento de diversos movimentos sociais organizados. De acordo com Do Bem (2006), foi nesse período que ocorreu uma pluralização nos movimentos sociais e diversas temáticas foram agregadas, como a questão de gênero, dos índios, negros, homossexuais, meio ambiente, entre outras. Desmantelados entres as décadas de 1950 e 1960, os movimentos sociais ressurgiram na década de 1970, em torno do MDB, da rearticulação de bases populares e do movimento sindical do ABC.45 Assim, foi no
processo de luta pela anistia e pela redemocratização do país que novos movimentos populares urbanos e rurais surgiram, diversificando-se na década de 1980.
Destaca-se, nesse contexto, o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), criado em 1984 em Cascavel, no Paraná. Suas resoluções indicavam uma mudança fundamental na luta pela terra no Brasil (GRYNSZPAN, 2007), movimentos de bairros, associações, coletivos de luta pela moradia (GOHN, 1992), além de associações de trabalhadores (BERTONCELO, 2007) e o novo sindicalismo. Assim, com os diversos movimentos sociais e formas de organizações dos trabalhadores
45 Algumas instituições foram significativas na organização do movimento operário do ABC e dos movimentos populares entre a década de 1970 e 1980, entre elas, as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e, em seguida, as pastorais. (BERTONCELO, 2007).
presentes na década de 1980, o protagonismo do operariado dividiu-se com outros personagens nas pesquisas sociológicas, as quais procuraram ampliar o conceito de classes e de luta de classes, propondo que o protagonismo iria além do operariado.
Como apontaram Sader e Paoli (1986), não seria por acaso que nesta década ocorrera uma mudança significativa entre as análises sobre as classes: ao invés do uso rigoroso desse conceito, o termo “classes populares” passou a ser utilizado pela teoria social brasileira, pois os estudos sobre os movimentos sociais apontariam mais para a heterogeneidade do que para a homogeneidade, ao contrário das análises tradicionais sobre classe social. Segundo os autores, “(...) os pesquisadores dos anos de 1980 construíram uma imagem de classe múltipla e diferenciada que, no entanto, articula-se por meio da noção de enfrentamento coletivo com um poder que também não é único”. (SADER; PAOLI, 1986, p. 61). A característica comum a esses “novos movimentos sociais”, ainda segundo Sader (1988), é a dos “novos sujeitos”, que, até então dispersos, passaram a definir e reconhecer-se mutuamente. Esses “novos sujeitos” são reconhecidos numa nova configuração, não como classe, mas como “classes populares”, cuja luta não se encontra no âmbito das relações do trabalho, mas do cotidiano. Nesse sentido, os “novos sujeitos” expressam sua coletividade e identidade e, ao mesmo tempo, seus interesses e lutas em lugares políticos novos a partir da experiência do cotidiano e numa nova prática e a partir da criação de direitos e consciência de interesses coletivos.
Assim, a década de 1980 foi um período em que as perspectivas analíticas tenderam, por um lado, a ampliar o protagonismo de classe para além do operariado, por outro, a produzir críticas à teoria marxista. Sendo assim, alguns autores sugeriram que o modelo clássico em Marx não era mais suficiente para explicar a sociedade e, ademais, os movimentos sociais clássicos (Partidos e Sindicatos) estariam com sua linguagem defasada e, ainda, sua ação política não representaria mais os anseios sociais, cujo papel agora passaria a ser representado pelos “novos movimentos sociais” (CITTADINO, 1988). Para Cittadino, a matriz marxista apresentava-se insuficiente para se pensar a ação política daquela década, pois vinculava todas as esferas da sociedade à economia. Segundo a autora:
Com efeito, no marxismo, a economia, enquanto sistema de relações abstratas e quantificáveis que, a partir de um determinado tipo de apropriação de recursos produtivos, determina a troca e a repartição de valores, passa a ser erigida em sistema autônomo cujo funcionamento é regido por leis
próprias, independentes de outras relações sociais. (CITTADINO,1988, p. 55).
Ainda à luz da autora, verifica-se que o marxismo ortodoxo (economicista) era incapaz de interpretar a ação política e autônoma dos “novos movimentos sociais”, o que a tornou insuficiente para compreender a sociedade contemporânea, pois a interpretação marxista tradicional decorreria da ideia de que o desenvolvimento das forças produtivas se transformaria em motor da história, como um “devir” do processo real sócio-histórico e determinado, em última instância, pela economia. Crítica, portanto, endereçada ao determinismo econômico de parte do marxismo.
Dessa maneira, foi nesse contexto de críticas ao marxismo ortodoxo que uma nova produção intelectual promoveu uma releitura do conceito de classes e dos conflitos sociais, introduzindo obras que destacavam os sujeitos como protagonistas nas lutas sociais, entre elas, as de E. P. Thompson que foram acolhidas com grande atenção pela teoria social brasileira. No período de efervescência política no país, o conceito de experiência integraria, em parte, as teses sobre os novos movimentos
sociais no Brasil e os novos sujeitos. A articulação entre o conceito de experiência
com os estudos de ação coletiva contribuiria para reafirmar a tese da luta de classes em Marx e o conceito de classes como um conceito-chave para compreender os conflitos sociais daquele contexto.
Contudo, entende-se também que a influência das obras de Thompson nas Ciências Sociais brasileiras esteja carregada de polêmicas, não somente por conta da crise no interior do marxismo (abalado pelas tribulações dos Partidos Comunistas e do bloco soviético), mas também pelas determinações e implicações políticas captadas pelas mais diversas correntes ideológicas nos meios acadêmicos (PAOLI, SADER, TELLES, 1984). Face ao exposto, passa-se em seguida à compreensão do debate acadêmico em torno do conceito de classes sociais na década de 1980, em sua dimensão crítica realizada pelos intelectuais daquele contexto e, sobretudo, procurando entender o imaginário desse debate crítico, no qual as obras de Thompson foram inseridas.