O gás LP é uma mistura de hidrocarbonetos líquidos obtidos e processo convencional nas refinarias, quando produzido a partir do petróleo in natura. A utilização mais conhecida é na cocção dos alimentos, mas também é utilizado em várias aplicações industriais e agrícolas (SINDIGÁS, 2008).
De acordo com a ANP (2012), o gás LP apresenta densidade média de 522 kg/m3, e seu poder calorífico é de 11.300 kcal/kg. O gás LP é o último produto comercial resultante da cadeia de extração do petróleo, considerado o mais leve entre eles. Dessa forma antes da produção do gás LP, ainda são produzidos os óleos combustíveis, a gasolina, o querosene, o diesel e a nafta (ANP, 2012).
Segundo o Sindigás (2008), o gás LP, em seu estado líquido, é mais leve que a água, desta maneira pode ser armazenado de forma mais fácil sob pressão moderada. Já, em seu estado gasoso, o gás LP é mais pesado que o ar, razão pela qual se concentra mais próximo ao solo em caso de vazamento. Soma-se a isso as características típicas do produto, como ser incolor, inodoro, não tóxico e apresenta um alto poder calorífico, tendo grande aplicabilidade como combustível. No Quadro 5 constam os valores médios do poder calorífico do gás LP em relação a outros combustíveis.
Quadro 4 – Valores médios do poder calorífico do gás LP
Unidade de
Comercialização Combustíveis Poder Calorífico
1 kg Gás LP 11300 Kcal 1 m3 Gás LP 25300 Kcal 1 m3 Gás Natural 8806 Kcal 1 kg Carvão 5000 Kcal 1 kg Nafta 4200 Kcal 1 kg Lenha 4000 Kcal
1kwh Energia Elétrica 860 Kcal Fonte: Sindigás (2008).
O gás LP produzido no Brasil é obtido, basicamente do refino do petróleo. Dele são extraídos gases combustíveis, gasolina, nafta, solventes, querosene, óleo diesel e óleo pesado, denominado resíduo atmosférico, que, quando aquecido, resultem um produto genericamente definido como gasóleo. Aos ser submetido a uma temperatura alta e à presença de catalisadores químicos, esse composto é transformado em gás LP (LIQUIGÁS, 2012). Outro processo utilizado para extrair o gás LP acontece nas Unidades de Processamento de Gás Natural (UPGNs), nas quais as frações mais pesadas do gás são separadas dos demais componentes.
De acordo com a ANP (2010) no Brasil existem atualmente 12 refinarias, 07 (UPGNs) (isoladas), duas centrais petroquímicas de produção de gás LP e 179 bases de suprimento e unidades de engarrafamento espalhadas pelo país. Os dados mais recentes publicados pela Agência Nacional de Petróleo indicam que foram produzidos no Brasil 10.228,15 m3 de gás LP no ano de 2013 (ANP, 2012).
Quanto às formas de comercialização do produto gás LP, geralmente ocorre envazado em vasilhames de aço, conhecidos popularmente como “botijões de gás”, dentro dos quais o produto se encontra em estado líquido. Torna-se gasoso quando exposto à pressão atmosférias e à temperatura ambiente no momento de sua utilização (SINDIGÁS, 2008).
Existem diversos tipos de vasilhames para o acondicionamento do gás LP, normatizado pela NBR 8.460 da ABNT, tais como de 2 kg, 5 kg, 8 kg, 13 kg, 45 kg e 20 kg, sendo que esta última é a única regulamentada para ser utilizada no transporte (empilhadeiras). A forma mais comum de ser encontrado o gás LP é na embalagem de 13 kg, conhecido no setor de P13, utilizado principalmente em residências, superando 70,75% do mercado consumidor de gás LP brasileiro (ANP, 2010). Outra forma de comercialização do gás LP é o formato granel, para uso comercial, industrial e residencial em edifícios e condomínios, esta forma de comercialização compreende grandes volumes de consumo. Cabe
ressaltar que para o atendimento no formato granel é necessário uma estrutura diferenciada de abastecimento no que se refere ao recebimento e armazenagem do gás LP, normatizada pelo agente regulador do setor. Conforme a ANP (2010), o consumo de gás LP no formato granel e industrial representa 29,25% do mercado nacional.
Mesmo sendo utilizado majoritariamente em residências a cocção de alimentos no Brasil, o gás LP possui diversos usos e aplicações regulamentadas pela ANP. No Quadro 6 constam algumas das aplicações do gás LP no Brasil (SUPERGASBRAS, 2014).
Quadro 5 - Usos e aplicações do gás LP
Modalidade Utilização
Residencial Cocção de alimentos
Aquecimento: higiene pessoal e aquecimento ambiental
Comercial
Cocção de alimentos: cozinhas industriais em hotéis, restaurantes, hospitais, fábricas e universidades.
Aquecimento shopping centers, hotéis, bares e restaurantes etc.
Industrial
Metalurgia
Corte térmico e oxi-corte Fornos: indústria cerâmica Combustível de empilhadeiras
Agronegócio
Secagem e torrefação de grãos, frutas, vegetais e folhas; Matadouros: marcação de gado
Desinfecção: higienização a fogo de estabelecimentos; Controle do crescimento e proliferação de ervas daninha; Avicultura: aquecimento de criatórios de aves
Horticultura: aquecimento de estufas de plantas ornamentais. Fonte: Adaptado de Supergasbras, (2014).
As inúmeras aplicações do gás LP, conforme demostrado torna este produto um excelente substituto dos demais energéticos, devido seu alto poder calorifico e por sua disponibilidade em quase todos os estados brasileiros, além de ser ambientalmente sustentável e mais limpo que o óleo combustível (MONFORT; ENRIQUE, 1996).
As especificidades do produto gás LP e a sua forma de comercialização remonta a década de 1950, cuja contextualização histórica é relevante para compreender a dinâmica das empresas no mercado, frente a caracterização de commodity e baixo grau de diferenciação na processo de venda.
Em 1950 foi desenvolvido o vasilhame de 13 Kg de gás, que se tornou um vasilhame padrão de uso doméstico no Brasil. De acordo com Dinamarco e Pillegi (1995), este vasilhame foi regulamentado dentro dos padrões de segurança vigentes, alguns anos depois. Neste mesmo ano o gás LP é incluso no regime estabelecido no Decreto nº 4.071, de 12 de
maio de 1939, que regulamentou o abastecimento nacional de petróleo no país. Desta forma, o gás passa a ser escrito na lista de produtos que estavam sujeitos ao controle do Conselho Nacional do Petróleo2 (CNP). O órgão passou também a ser responsável por fiscalizar o gás LP, seu transporte e comercialização, a fim de garantir o abastecimento a toda população brasileira.
A partir do segundo mandato do presidente Getúlio Vargas, acontece a campanha pela autonomia brasileira no campo do petróleo. A campanha começa a ganhar força com o lema “O petróleo é nosso”. Assim o presidente Getúlio Vargas, sanciona a Lei nº 2.004, que dispõem sobre a politica nacional do petróleo e define atribuições a CNP , implantando um plano governamental para a exploração do petróleo e criando a Petrobrás. É decretado a partir do Artigo 1º e Artigo 2º da Lei 2.004 que: a pesquisa por jazidas de petróleo em território nacional, a refinação do petróleo, nacional ou estrangeiro, e o transporte marítimo do petróleo bruto de origem nacional ou de derivados de petróleo produzidos no Brasil, constituem como monopólio da união. A partir desta lei a Petrobras torna-se a única empresa a explorar, produzir, importar e distribuir o gás LP no Brasil, configurando um monopólio legal, e as distribuidoras não têm alternativa de abastecimento a não ser pela Petrobras. A importação do gás LP, pelas distribuidoras, tem suas atividades suspensas, e o domínio passa a ser completa pela Frota Nacional dos Petroleiros3 (FRONAPE).
Em 1954 inaugura a primeira refinaria de petróleo no Brasil, localizada em Mataripe, no Estado da Bahia, e um ano mais tarde a Petrobras começa a produzir gás LP no Brasil, dando inicio às operações em suas refinarias. Com o abastecimento regular, a quantidade de consumidores multiplicou-se, revolucionando os hábitos dos brasileiros (ULTRAGAZ, 2012). Dessa maneira o setor de distribuição desenvolveu-se de forma rápida, em todas as regiões próximas ao litoral, atingindo a marca de quase 500 mil consumidores (SINDIGÁS, 2008).
Nesse período foram surgindo também empresas de comercialização de gás LP no mercado, que até então era explorado de forma efetiva por apenas duas empresas a Ultragaz e a Esso-Gaz. Com a produção e distribuição do gás LP estabilizados no País, o consumo não parou de crescer, e as formas de uso e aplicação dos produtos se diversificaram. Além do uso doméstico, o gás LP passou a ser uma alternativa de combustível para aquecedores de água, no aquecimento controlado em máquinas de injeção de plásticos, vidros e em outras aplicações industriais.
2 Conselho Nacional do Petróleo: foi um órgão governamental brasileiro que atuou na política petrolífera do
Brasil, no período de 1939 a 1960. Foi a primeira tentativa de estruturar e regulamentar a exploração de petróleo no Brasil. Mais tarde foi incorporada pelo Ministério de Minas e Energia.
Em 1957, é instituído o Artigo 2º do Regimento do Conselho Nacional do Petróleo, aprovado pelo decreto nº 42.786, que estabelece diversas normas para a comercialização, instalação e uso do gás LP. Dentre eles estava o vinculo do consumidor com apenas uma única empresas que comercializava o gás LP, que se dava por meio de uma “ficha de registro do consumidor”. Na perspectiva de Dinamarco e Pillegi (1995) as fichas de registro do consumidor serviam principalmente para o controle da CNP, com intuído de comprovar a ligação entre o consumidor e a empresa distribuidora. Com o surgimento de mais empresas no mercado a ficha servia para garantir mais segurança ao consumidor e também cobertura de atendimento em relação à entrega do produto ao cliente.
Com a falência dos órgãos públicos de gás canalizado em 1962, a indústria do gás LP cresceu, principalmente na área industrial. O gás LP, considerado energia limpa, passa a ser utilizado como propelente (spray) substituindo agentes prejudiciais ao meio ambiente. Essas questões vieram a corroborar com o crescimento do gás LP no Brasil (DINAMARCO; PILLEGI, 1995).
Com a expansão da venda do gás LP, o governo passa a intervir de forma efetiva a comercialização deste produto no País, fiscalizando algumas práticas que foram instituídas por lei e discutindo a mudança e ampliação de normas já existentes. Essa intervenção sobre o mercado foi desenvolvida a partir da Resolução nº 13, de dezembro de 1976, pelo Conselho Nacional do Petróleo (CNP); consolidando desta maneira as regras do setor nas dimensões, abastecimento, distribuição e revenda, formalizando também o Sistema de Distribuição de gás LP, órgão que tinha como função controlar as atividades do setor (ARAÚJO, 2006 apud BITTAR, 2013). A portaria 13/76 do CNP estabeleceu a obrigatoriedade do recebimento de vasilhames de todas as marcas, por parte das distribuidoras, efetuando posteriormente a destroca, esta ação. Com esta ação o consumidor ficou livre para comprar o gás LP de qualquer marca, eliminando com isso o vínculo de consumidor com a distribuidora, o que antes era previsto em lei (BITTAR, 2013).
Nesse momento a CNP4 passa a controlar toda distribuição de gás LP em todo país, tendo também foco centrado na segurança e no armazenamento do produto pelas distribuidoras. A fiscalização de responsabilidade da CNP aborda desde a autorização para a comercialização do gás LP, pedidos, características técnicas das embalagens e das frotas, sistemas de entrega e normas de segurança até o acompanhamento dos preços de compra e venda.
De acordo com Dinamarco e Pillegi (1995) a Resolução 13/76 proporcionou grandes mudanças no setor, buscando controlar todos os aspectos do mercado tais como: volume, preço, quantidade de oferta e demando do produto, assim como canais de distribuição a fim de garantir o abastecimento para todas as classes sociais do país.
Os primeiros impactos decorrentes da nova regulamentação fizeram com que as empresas distribuidoras trabalhassem com uma baixa rentabilidade. As principais empresas do setor instaladas no Brasil buscaram através de acordos internos busca por soluções ocasionadas neste novo cenário, sendo a primeira delas a troca de mercado. A troca de mercado foi um acordo entre as duas maiores empresas atuantes no mercado brasileiro na época e consistiu na divisão do mercado nacional a fim de proporcionar redução dos níveis concorrenciais e consequentemente aumento das respectivas rentabilidades. O acordo foi realizado entre a Ultragaz e a Supergasbras, que perdurou por dez anos (ULTRAPAR, 2012).
A Ultragaz que atuava nos estados do Sul, Sudeste e Nordeste, teve suas operações, após o acordo, direcionadas para os estados de São Paulo, Paraná, Bahia e parte do Estado de Santa Catarina; e a Supergasbras passou a atuar nos demais estados. O acordo também vislumbrava o compartilhamento de infraestrutura entre as empresas, bem como mão de obra especializada, garantindo para as duas empresas segurança contra eventuais forças competitivas que uma empresa poderia exercer sobre as operações da outra, garantindo assim a reserva de mercado sobre os mercados de atuação (FRANCESCHI, 2010 apud BITTAR, 2013, p.34).
De acordo com o Sindigás (2010) a década de 1980 foi marcada também pelo reflexo da crise do petróleo e pelo rigor das leis instituídas, além das questões políticas e econômicas do Brasil, que provocaram um achatamento no preço do gás LP no país. As empresas então começaram a enfrentar dificuldades financeiras e os investimentos foram abruptamente reduzidos, o mercado gás LP passa um período estático (SINDIGÁS, 2010).
Na década de 1990 ocorre a substituição da CNP pelo DNC (Departamento Nacional de Combustíveis). Em 1990 inicia-se o processo de desregulamentação implementado pelo Governo Federal, que ocasionou a flexibilização da maioria das regras da Resolução nº 13, que era considerada muito fechada e que deixava o processo de expansão mais lento. Essa grande mudança começa a ser implementada a partir de outubro de 1990, com a portaria nº 843, instituída pelo antigo Ministério da Infraestrutura (MIMFRA), que veio a ser concluído somente em maio de 2005, quando foi editada a Resolução nº15 da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Bicombustível (ANP).
Com a instituição desta nova portaria, o processo de abertura de novas distribuidoras passou a ser mais flexível e menos burocrático. Houve a partir daí uma desregulamentação do setor de gás LP, o que levou a redução das barreiras de entrada de novos distribuidores e revendedores no mercado. Ademais houve também a liberação das áreas de atuação, para as distribuidoras atuarem no País, gerando um aumento da capilaridade da rede de entrega (OLIVEIRA, 2006 apud BITTAR, 2013, p. 30).
Durante o inicio da década de 1990, ocorreu também uma grande mudança na política de preços que, “começou a ser adaptada para a introdução de uma economia de mercado, dando inicio a um processo gradual de liberação de preços e retirada dos subsídios” (MORAES, 2005, p. 14). Com essa medida foi possível uma razoável recomposição dos preços, porém, não suficiente para cobrir as perdas acumuladas pelas empresas na década de 1980. Apesar dos problemas a distribuição de gás LP no Brasil conseguiu atingir mais de 85% da população.
Com a Portaria nº843 da Agência Nacional do Petróleo, a mercado retoma o crescimento, porém começam a ser percebidas as fragilidades das leis implementadas. Devido a menor exigência para a comercialização do gás LP, a segurança do produto começa a ser comprometida, inclusive a própria configuração do mercado, que apresenta pequenas empresas despreparadas atuando no setor. Essa ação abre margem para a concorrência desleal, empresa que sonegavam seus impostos, reduziam seus custos com à segurança do produto, além da abertura ilegal de revendas, fomentando o crescimento de clandestinos. A falta de fiscalização e segurança gerou uma rápida elevação no número de acidentes, e uma deterioração dos padrões de qualidade do setor. Na tentativa de solucionar os problemas foi criado em 1996 o código de autorregulamentação que presava pela liberdade de marca, preço, qualidade e segurança (SINDIGÁS, 2010). Foram feitos investimentos na área de segurança que começou a devolver um padrão de qualidade para o setor e uma grande redução do número de acidentes com o gás LP.
No ano de 1997 é implementada a lei nº 9.478, conhecida como a Nova Lei do Petróleo, que permitiu que outras empresas além da Petrobras pudessem receber a concessão para exploração do petróleo (ANP, 2012). A mesma lei instituiu a criação de um Conselho de Política Energética (CNPE), além da fundação da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustível (ANP), órgão regulador da indústria do petróleo e responsável pela definição de diretrizes para a participação do setor privado em pesquisa, exploração, refino, exportação e importação de petróleo e derivados (SINDIGÁS, 2010).