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2 POLÍTICAS PÚBLICAS PARA A EDUCAÇÃO SUPERIOR A

2.2 UNIVERSIDADE ABERTA DO BRASIL–UAB

2.2.1 O contexto brasileiro

As primeiras experiências com a educação a distância no Brasil, segundo Sá e Muniz (2008) datam do início do século XX, quando registros apontam para os primeiros cursos exclusivamente por correspondência realizados por meio de instituições privadas em território nacional. Passadas duas décadas, aproximadamente no ano de 1923, Rodrigues (1998) salienta que algumas ações de EAD começam a ser difundidas também através da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro. Apesar dessas e outras iniciativas na mesma direção, somente a partir de 1970 tem-se a primeira ação concreta do Ministério da Educação voltada para essa modalidade de ensino. Na ocasião, o MEC valendo-se de um decreto presidencial e de uma portaria interministerial, obriga a transmissão de programas educativos em todas as rádios do país, dentro do que chamou de Serviço de Radiodifusão Educativa (UFSC, 2000).

Com o passar do tempo e a incorporação cada vez maior de novas tecnologias da informação e comunicação, diversas outras iniciativas foram surgindo no campo público, notadamente entre as instituições de ensino superior. Destaque para o pioneirismo da Universidade de Brasília, em 1979, de algumas ações da Universidade de São Paulo, em 1988, e das ofertas em nível de graduação e pós-graduação, a partir de 1995, da Universidade Federal de Mato Grosso e da Universidade Federal de Santa Catarina (ALMEIDA, 2007). Por essas experiências exitosas e diante das evidências do potencial de crescimento da EAD no Brasil, inclusive, por causa do avanço das instituições privadas nesse segmento, fora criada pelo Decreto nº 1917, de 27 de maio de 1996, a Secretaria de Educação a Distância – SEED/MEC3, cujos propósitos incluíam o desenvolvimento de políticas específicas para a área e o seu controle, por meio das regulamentações que passaria a estabelecer (BRASIL, 2011).

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O Decreto nº 7480, de 16 de maio de 2011 e o Decreto nº 7690, de 2 de março de 2012 tratam sobre a nova estrutura regimental do MEC e apontam para a extinção da Secretaria de Educação a Distância, cujas atribuições passaram a ficar sob a responsabilidade das outras secretarias desse Ministério.

Cabe registrar que toda a legislação existente hoje sobre educação a distância tem por fundamento primeiro, a própria Lei de Diretrizes e Bases para Educação (Lei nº 9394/96). Nela a EAD recebe distinção especialmente em seu artigo 80, quando assegura que “O Poder Público incentivará o desenvolvimento e a veiculação de programas de ensino a distância, em todos os níveis e modalidades de ensino, e de educação continuada” (BRASIL, 1996). Nove anos após a LDB, em dezembro de 2005, a educação a distância finalmente foi regulamentada por meio do Decreto nº 5622, cujo primeiro artigo, delineador da EAD, fora apresentado no capítulo anterior. O documento estabelece as diretrizes gerais para funcionamento dos cursos a distância no Brasil e recebe complementos ainda do Decreto nº 5773/2006, que trata sobre a regulação, supervisão e avaliação da educação superior e do Decreto 6303/2007, que atualiza os decretos anteriores (BRASIL, 2005a; 2006a; 2007b).

O mote da Lei de Diretrizes e Bases ao prenunciar incentivos do Poder Público para o desenvolvimento e a veiculação de programas de ensino a distância nutriu ainda mais o discurso de que a EAD poderia dinamizar e democratizar o acesso ao ensino superior, bem como suprir as carências de formação dos profissionais da educação. A esse respeito, Alonso (2010, p. 1.320) avalia que “a EAD é claramente tomada como modalidade de ensino para aceleração rápida da expansão de vagas no ensino superior”. Contudo, para essa mesma autora, essa expansão não se deu primariamente entre as instituições públicas e afirma haver “uma lógica na expansão do ensino superior brasileiro, claramente privatista (ALONSO, 2010, p. 1.324). Eis um paradoxo que reforça a necessidade de o Estado intervir com políticas públicas voltadas para além do simples mercantilismo da expansão da oferta de cursos superiores no Brasil.

Com esse propósito parecem não ter faltado intenções, Preti (2007) rememora um movimento inspirado em universidades abertas europeias, movido em 1986 pelo antropólogo Darcy Ribeiro, para criação de uma Universidade Aberta no Brasil e de algumas outras articulações para criação de consórcios entre as universidades públicas para oferta de cursos a distância, entre os quais o Consórcio Interuniversitário de Educação Continuada e a Distância (BRASILEAD) de 1996 e a Universidade Virtual Pública do Brasil (Unirede) de 1999. Em todos os casos buscava-se por um espaço compartilhado em que pudessem trocar saberes e experiências para fortalecimento dessa modalidade educacional. No rol de iniciativas dessa natureza, destaca-se, em outra perspectiva, o Fórum das Estatais pela Educação, instituído, em 2004, pelas grandes corporações públicas brasileiras com o propósito de também potencializar políticas públicas para a educação, especialmente aquelas concebidas pelo Ministério da Educação (ALONSO, 2005; PRETI, 2007).

Proposições como essas podem ser apontadas como precursoras e inspiradoras para o que, pouco mais tarde, viria a se constituir na Universidade Aberta do Brasil, provavelmente a maior e mais bem elaborada política pública do Ministério da Educação para promoção da democratização do acesso ao ensino superior, especialmente no que tange à formação de professores em todo o território brasileiro. Nesse sentido, é fundamental compreender a UAB como uma ação articulada nacionalmente entre entes públicos (instituições de ensino, prefeituras municipais, governos estaduais e governo federal), que diminui a escassez de ofertas de cursos superiores gratuitos para a população, ao mesmo tempo em que reage ao avanço das instituições privadas no campo da educação a distância. Com essa compreensão, Matias-Pereira (2008, p. 48) assevera que

[...] as políticas públicas têm sido definidas e implantadas como uma resposta do Estado para atender as demandas que surgem a partir dos anseios da população. Essas políticas podem ser traduzidas como uma manifestação efetiva dos governantes de atuar numa determinada área no longo prazo. Por sua vez, o processo de aprimoramento das políticas públicas, em especial no campo da educação, depende dos esforços de acompanhamento e avaliações sistemáticas. A desatenção nessas áreas sujeita essas políticas públicas à fragilidade e a descontinuidade.

Além do acompanhamento e das avaliações sistemáticas apontadas por Matias- Pereira (2008), o alcance ou suprimento dos anseios da sociedade, bem como as mudanças no cenário político partidário dos governos também podem levar à descontinuidade de uma política pública para a Educação. No entanto, nunca deixará de ser uma das obrigações do Estado, como assegura a própria Constituição Federal em seu artigo quinto: “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho” (BRASIL, 1998).

Feitas essas considerações, segue-se na próxima seção com os aprofundamentos necessários sobre a Universidade Aberta do Brasil, para chegar-se ao alvo desse estudo, saber sobre a estrutura e o sistema desenvolvidos em torno do seu projeto piloto, o curso a distância de Administração.