2.3 O SISTEMA DE EDUCAÇÃO FORMAL E DIVERSIDADE SOCIOCULTURAL NO BRASIL: COMPREENSÃO DO CONTEXTO ATUAL
2.3.2 O contexto da diversidade sociocultural no Brasil
A Cultura e sua diversidade no Brasil é algo que apresenta grande complexidade. Pois, cada uma das cinco regiões brasileiras constitui-se de caráter plural em sua identidade, também tem uma singularidade que caracteriza como única e diversa das demais, enquanto que nessa singularidade são adicionados elementos das outras regiões e são tomados como de si próprio, ao ponto de não se reconhecer onde se originaram estes elementos. Discutir a pluralidade e singularidade do Brasil, como está apresentado aqui, é fascinante e difícil, já que se trata de lidar com uma população de origem diversificada e portadora de culturas que preservaram as suas especificidades, ao mesmo tempo em que se amalgamou em novas configurações, como se encontra explicado abaixo:
[…] Convivem hoje no território nacional cerca de 210 etnias indígenas, guardando, cada uma delas, identidade própria, representando, em si, riquíssima diversidade sociocultural. Além de uma imensa população formada pelos descendentes dos povos africanos e um grupo igualmente numeroso de imigrantes e descendentes de povos originários de diferentes continentes, de diferentes tradições culturais e de diferentes religiões […]. (MEC/SEF, 1997, p. 20)
Observo aqui uma grande expressão numérica e qualitativa de grupos que compõe a malha social brasileira, provenientes de origens diferentes e todos chamados de ‘brasileiros’.
[…] A própria dificuldade de categorização dos grupos que vieram para o Brasil, formando sua população, é indicativo da diversidade. Mesmo para a elaboração de um simples rol, é difícil escolher ou priorizar certo recorte, seja continental ou regional, nacional, religioso, cultural, linguístico, racial/étnico.
Portugueses, espanhóis, ingleses, franceses, italianos, alemães, poloneses, húngaros, lituanos, egípcios, sírios, libaneses, armênios, indianos, japoneses, chineses, coreanos, ciganos, latino-americanos, católicos, evangélicos, batistas, budistas, judeus, muçulmanos, tradições africanas, situam-se entre outras inumeráveis categorias de identificação […]. (MEC/SEF, 1997, p. 20)
grupos a que dificulta a indicação de determinados recortes na discussão da diversidade.
[…] Além disso, um mesmo indivíduo pode vincular-se a diferentes grupos ao mesmo tempo, reportando se a cada um deles com igual sentido de pertinência. Quando se fala da situação atual da população, eventuais categorizações são ainda mais difíceis à circulação que existe entre tradições e culturas, do ponto de vista individual, sem falar de aproximações espontâneas e voluntárias entre grupos, com fins associativos, de cooperação ou de diálogo com vistas ao entendimento […]. (MEC/SEF, 1997, p. 20)
As estruturas que são comuns a todos os brasileiros, acima mencionadas, dos entrelaçamentos socioculturais que permitem valorizar aquilo que é próprio da identidade de cada grupo e o que permite acesso a uma construção comum a todos, onde cabe pronunciar
“nós”. Esse entendimento é muito importante e advêm do sentido, segundo Cunha (1989), de se atribuir a liberdade a cada grupo social organizar sua vida na forma que melhor convém, apenas respeitando o signo da solidariedade e da construção do bem comum.
Por um longo tempo no Brasil isso foi negado pelos grupos que exerceram o poder.
Entretanto, desde sempre foram feitos grandes esforços das esferas do poder na sociedade, nos sectores políticos e nos civis, em busca de atingir a “democracia social”. Porém, essa era entendida como homogeneidade social e cultural, talvez, devido à falta de compreensão do conceito ou da iniciativa autoritária da negação da diferença, como se essa fosse algo errado e perigoso. Hoje, o conceito de diversidade cultural como o reconhecimento, a afirmação e o diálogo de culturas diferentes é mais ou menos posta como legítima na sociedade brasileira.
Entretanto, o conceito de diversidade cultural é contestado por alguns elementos que tensionam o contexto da cultura brasileira. Como em primeiro elemento posso dizer sobre a dificuldade em reconhecer, no nível político as expressões locais e regionais. Então, estes são reconhecidos no cotidiano, e, só recentemente é que se tem dado tratamento - ainda incipiente - que beneficia as particularidades dessas expressões socioculturais na formulação das políticas públicas.
Um segundo elemento de tensão do atual contexto sociocultural brasileiro diz respeito ao contraditório e discriminatório tratamento em relação às expressões das culturas populares.
Há um reconhecimento do poder criativo do povo brasileiro na incorporação de elementos populares como símbolos de identidade cultural no Brasil, especialmente daqueles que são potenciais turísticos. Contudo, as culturas populares sempre sofreram tratamento discriminatório dedicado às classes menos favorecidas, que são, em primeiro lugar, detentoras de um rico patrimônio cultural.
mas como um conceito que, se for bem entendida, incrementa os recursos para desenvolver situações de inclusão social, que até recentemente não era considerada, tais como considerar o os direitos das minorias e afirmar as particularidades dos grupos que compõem a sociedade brasileira.
2.3.2.1 Do direito a diversidade sociocultural no Brasil
Diante das questões acima, vale a pena compreender a natureza do direito à diversidade sociocultural no Brasil. Desde o início, é importante falar como o direito político e o direito cultural está postos na Constituição brasileira e, dessa forma, verificar como estes são definidos na sociedade brasileira. Contudo, de acordo com as seguintes categorias: o direito ao patrimônio cultural, bem como o conjunto de expressões culturais locais e regionais, bem como, a cultura popular.
Com a conclusão da elaboração da Constituição do Brasil se abriu um novo momento no país. A intenção da carta constitucional do Brasil é a criação de um Estado Democrático, garantindo a exercício dos direitos sociais e individuais, da liberdade, da segurança, do bem-estar, do desenvolvimento, da igualdade e da justiça, como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos.
A Carta constitucional está baseada na harmonia social e comprometida com a resolução pacífica das controvérsias. Em seu texto, está claramente expresso que a base é a soberania, o pluralismo político, e, também, a cidadania e a dignidade da pessoa humana. Isto reforça seu objetivo básico que é o de construir uma sociedade livre, justa e solidária, para garantir o desenvolvimento nacional, visando erradicar a pobreza e a marginalização, ao reduzir as desigualdades sociais e regionais, no sentido de promover o bem de todos, sem preconceitos origem, etnia, sexo, idade e quaisquer outras formas de discriminação.
A consequência é que, pela Constituição, todos são iguais em direitos e deveres perante a lei, sem distinção de qualquer espécie, e todos são garantidos o direito à vida, liberdade, igualdade, segurança e propriedade. É realçada na Constituição que qualquer discriminação contra os direitos e liberdades fundamentais dos cidadãos, especialmente, a prática do racismo constitui um crime e com punição prevista por lei. São, também, direitos
maternidade e às crianças, e a assistência aos desabrigados.
A carta Constitucional certifica que é de competência comum da Federação, e de Estado e cada Município legislar e proporcionar meios de acesso à cultura, à educação e à ciência. Além disso, enfatiza que a Federação deve ser em forma republicana, sistema representativo e regime democrático, tendendo a seguinte hierarquia no processo legislativo:
correção para a Constituição, leis complementares, leis ordinárias e delegadas, medidas provisórias e resoluções.
Em relação ao ensino, a Carta Constitucional diz que este deverá ser ministrado com base em valores. Isso traz algumas peculiaridades, que são aqui apresentados: os conteúdos mínimos para o Ensino Fundamental devem ser fixados, de forma a afirmar a base comum e respeito pelos valores culturais e artísticos, nacionais e regionais. O Ensino Fundamental regular deve ser ministrado em língua Portuguesa e o ensino da história do Brasil deverá incluir as contribuições das diferentes culturas e etnias para a formação de seu povo.
A Carta Constitucional assevera o estabelecimento do Plano Nacional de Educação, de duração plurianual, onde está contido a articulação e o desenvolvimento do ensino em seus vários níveis, a saber, a erradicação do analfabetismo, a universalização do atendimento escolar, melhoria da qualidade do ensino, formação para o emprego, a promoção humanística, científica e tecnológica do país. O Plano Nacional de Cultura vem na sequência da integração das ações do governo para o desenvolvimento cultural e à proteção e valorização do patrimônio cultural do país, tendo em vista:
Produção, promoção e difusão de bens culturais;
Formação de pessoal qualificado para a gestão da cultura;
Democratizar o acesso aos bens culturais;
Recuperação da diversidade étnica e regional.
Destas ações acima citadas, posso destacar algumas características, especiais que estão contidas na Carta Constitucional, que remete ao desenvolvimento, proteção e valorização do patrimônio cultural, como está mais detalhado abaixo:
O Estado garante a todos os cidadãos o pleno exercício dos direitos culturais e o acesso às fontes da cultura nacional através do apoio e incentivo à valorização e difusão das expressões culturais e de manifestação da defesa culturas populares, indígena e afro-brasileira, e outros parceiros nacionais do processo civilizatório nacional.
individual e grupal, referente à identidade, memória e ação sobre dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira. Aqui estão incluídos os modos de expressão, os meios de criar, fazer e viver; as criações científicas, artísticas e tecnológicas, ademais das obras, dos objetos, dos documentos, e dos espaços destinados às manifestações artísticas e culturais; os conjuntos urbanos e sítios de importância histórica, paisagística, artística, arqueológica, paleontológica, ecológica e científica.
O reconhecimento dos índios e sua organização social, seus costumes, suas línguas, suas crenças e tradições, bem como o direito originário sobre as terras que tradicionalmente ocupam. Está dentro de a jurisdição Federal demarcar, proteger e respeitar todos os seus bens.
Além disso, o Ensino Fundamental também pode ser ministrado para as comunidades indígenas em suas línguas maternas, e também podem ser utilizados processos particulares de aprendizagem.
A partir da reedição da Constituição do Brasil ocorreram muitas discussões que podem ser, segundo seus representantes, a expressão do desejo e necessidade do povo. No entanto, o tempo foi responsável por apontar as questões inconsistentes que foram incorporadas no documento. Isso foi evidente nos sucessivos fragmentos que foram sendo acrescentadas ou substituídas na Constituição.
Inicialmente, é importante que os direitos políticos, os direitos sociais e os direitos culturais são constantes da Constituição do Brasil. Porém, os direitos políticos e direitos sociais são tratados na mesma sessão, o título II, enquanto que os direitos culturais não são tratados explicitamente. Antes, eles são abordados no título VIII, que estabelece a ordem social e posto como um benefício, como a educação e o desporto. Abaixo se encontra destacadas três segmentos da Carta Constitucional, que aborda a questão dos direitos sociais, direitos políticos e culturais, tal como eles são tratados.
[…] DOS DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS - Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: (...) XLII - a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei; DOS DIREITOS POLÍTICOS - Art. 14. A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos, e, nos termos da lei, mediante: I - plebiscito; II - referendo; III - iniciativa popular. (...) DA ORDEM SOCIAL: DA CULTURA - Art. 215. O Estado garantirá à todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais. Art. 216. Constitui patrimônio cultural brasileiro
conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem: I - as formas de expressão; II - os modos de criar, fazer e viver; […]
(Constituição Federativa do Brasil, 1998, p. 5).
Nos termos da Carta Constitucional, os cidadãos têm direitos individuais, coletivos e políticos, que pelo conteúdo da lei, posso dizer que eles estão segurados na sua escrita.
Diferentemente de tais direitos que se encontram no Título 1º, e que estandardiza os princípios basais, o direito cultural é um item que está posto como sendo da ordem social. A leitura sugere um aleijamento do que seja o direito de fato e o benefício que o Estado pode oferecer aos cidadãos.
Na Constituição Brasileira, no artigo nº 215 estabelece que o Estado garanta a todos o pleno exercício dos direitos culturais e o acesso às fontes da cultura nacional, apoiando e incentivando a valorização e a divulgação das expressões culturais. Neste sentido, quanto ao direito ao patrimônio cultural do Brasil, merece destaque as expressões culturais locais e regionais. As regiões do Brasil, as dimensões sociais, materiais e culturais, mostram grande diversidade, e reconhecimento destas características é extremamente importante, permitindo o conhecimento mútuo entre as regiões, grupos e indivíduos; bem como, a consolidação do espírito democrático na adoção de atitudes de solidariedade, cooperação e repúdio à injustiça, como forma de construir a noção de identidade nacional e senso de pertencimento social.
Neste aspecto, é importante...
[…] conhecer e valorizar a pluralidade do patrimônio sociocultural brasileiro, bem como aspectos socioculturais de outros povos e nações, posicionando-se contra qualquer discriminação baseada em diferenças culturais, de classe social, de crenças, de sexo, de etnia ou outras características individuais e sociais […]. (MEC/SEF, 1997, p: 08)
É importante aqui fazer a distinção entre as desigualdades sociais e a diversidade cultural. A primeira refere-se à grande diferença entre a produção de relações de dominação e exploração socioeconômica e político. E a compreensão da diversidade cultural implica em vislumbrar suas relações, causadas por desigualdades socioeconômicas. Além disso, neste sentido, posso dizer do conjunto de expressões culturais, locais e regionais, bem como a cultura popular.
A cultura popular ainda sofre as limitações da cultura de massa, como resultado da globalização. Além disso, se convencionou a contar a história do Brasil numa perspectiva unitária, mas todos os grupos sociais têm uma história. E esses são diferentes entre si e
necessário enfatizar que os grupos sociais têm forte produção cultural, mas nem sempre é considerado como algo de valor.
Considerar a diversidade significa respeitar e valorizar as diferenças culturais e muito mais, afirmar a existência de características comuns. Com isso, é gerada outra possibilidade, a de se construir uma nova mentalidade. É verdade que depende do exercício da cidadania a constituição desta nova mentalidade. Disso depende o bom futuro da convivência na sociedade brasileira, voltado para a superação de todas as formas de exclusão social e discriminação cultural. Nas palavras de Touraine (2005) nem todos partilham o mesmo mundo, pois há que pensar que não existe uma única unidade institucional que define os mesmos direitos de cada uma das pessoas, contudo, todos têm direitos culturais, que procedem de nosso relacionamento com nós mesmos e com os outros.