CAPÍTULO 4 A INSTITUIÇÃO E A CARACTERIZAÇÃO DA COMUNIDADE
4.1 O CONTEXTO ESPECTROGRAFIA DA COMUNIDADE QUILOMBOLA
O território negro de Retiro é um lugarejo localizado no distrito de Mangaraí, na região de Santa Leopoldina- ES. O município foi emancipado em 21 de abril de 1884, da capital Vitória. Sua área é de 724,25km e dista 46 km da capital. Segundo moradores, a localidade teve esse nome de batismo devido ao fato de ser um lugar que vinha sendo usado para a retirada dos ex-escravizados e de seus descendentes. Por esse histórico, essas terras quentes, acidentadas chuvosas e fracas (INCAPER/ NEPUT, 1999) foi batizada de Retiro. O lugar é cortado pelos Rios Mangaraí e Santa Maria. O solo de Retiro é considerado argiloso e, no ponto de vista de suas fertilidades, as terras são consideradas fracas pela sua baixa reserva de nutrientes.
No século XIX, essas terras foram ocupadas pelos primeiros portugueses. A população europeia se estabelecia na localidade, empregando a mão-de-obra escrava nas fazendas que se formavam. Havia o plantio de uma imensa produção de cana- de-açúcar, café, mandioca, arroz e milho.
De acordo com relatos historiográficos descritos nos relatórios dos presidentes da província do Espirito Santo, além dessa possibilidade de exploração da mão-de- obra escrava nas fazendas locais, há registros de negros que, em fuga, se deslocavam para esse lugar, formando quilombos nessa faixa territorial.
Segundo Oliveira (1999), os membros da Comunidade Quilombola de Retiro traçam a sua história a partir do ex-escravo Benvindo, que lhes transmitiu a herança de um território.
Benvindo Pereira dos Anjos era casado com Maria Pereira das Neves, escrava forra. Maria trabalhava com artesanato e a venda dos objetos feitos por ela teria proporcionado uma reserva para a compra da primeira terra de Benvindo. Existe um registro no cartório de Mangaraí de Benvindo ter documentado, no ano de 1892, uma área de terras em um local denominado Conceição. Em 1912, no cartório do tabelião Joaquim José do Nascimento, em Santa Leopoldina, Benvindo documentou, por meio de escritura, as terras onde vivem hoje seus descendentes.
Apontam as pesquisas de Oliveira (2005) que, nos tempos atuais, essa localidade é habitada por um agrupamento familiar, composto por 68 casas, onde vivem 71 famílias e 234 pessoas, formando vários núcleos ligados por laços de parentesco.
É comum reviverem, na atualidade, práticas de outrora, permeadas por conflitos entre negros e brancos. Os catos e formas de resistências são vivenciados e simboliza- dos, rememorando modos vividos dos negros em aquilombamentos. Ainda praticam, simbolicamente, frentes de resistências. A exemplo, a Caminhada dos Zumbis Contemporâneos até o distrito vizinho, lugarejo batizado de São José de Queimados.
Queimados é um povoado pertencente ao município de Serra e faz divisa com Santa Leopoldina. Conta-se que nessas cercanias se travou a maior revolta de escravos, uma grandiosa rebelião em favor da libertação, ou seja, da alforria dos negros escravizados na província do Espírito Santo. Essa ocorrência data do Período Imperial do Brasil e o movimento foi de tal monta, que tornou-se conhecido como a “Insurreição de Queimados” (a classe dominante usava esse nome para se referir à revolta). A vila dista, aproximadamente, seis quilômetros de Retiro.
Os descendentes do escravo Benvindo Pereira dos Anjos, herdeiros da comunidade de Retiro, contam que essa revolta tomou conta de todos os escravos que habitavam e transitavam nessa faixa de terra. Relatam, em suas minúcias, o ocorrido em 19 de março de 1849. O levante tomou corpo quando a Vila em festa de inauguração da igreja local tornou-se palco de escravos em rebelião. A construção da igreja fora feita por eles, homens cativos, que depositavam uma esperança no futuro em liberdade. Trabalhavam noite adentro
para o padre da Vila, que, em troca do trabalho, comprometeu-se em doar as cartas de alforrias para aqueles homens que, arduamente, construíram a igreja da Vila, no entanto a promessa de alforria fora quebrada, o que gerou a grande a revolta.
O que se conta foi que, no dia da inauguração, os escravos revoltados colocaram fogo na igreja, gerando muitos ataques e fuga em massa de escravos não somente dessa região, como também das fazendas do norte do estado. Essa história é confirmada pela memória social local, tanto pelos moradores de Retiro, como pelos moradores que permanecem em Queimados. Os historiadores reforçam essas narrativas e até relatam que a população escrava de Queimados achou refúgio nos Quilombos de Retiro. Essa região também abrigou muitos escravos forros que compravam suas terras e permaneciam na localidade. Atualmente, os moradores da comunidade esforçam-se para garantir a posse dessa terra, como também fortalecem a identidade na negritude. A história de Retiro, proclamado nos enunciados dos moradores, é composta de resenhas em torno da chegada da população negra no lugar.
A escolha dessa comunidade quilombola deveu-se devido à localidade relativamente próxima a Vitória, e por haver ciência de que o trabalho etnográfico demanda uma vivência intensa, uma experiência profunda com a população estudada. A facilidade de acesso possibilitou-me participar, ativamente, das rotinas das crianças no CEMEI – Centro de Educação Infantil, três vezes por semana, permanecendo ao longo de todo o dia.
Nesse espaço educativo, as crianças permanecem em tempo integral. Pretendi, assim, desvendar a construção de identidade das crianças na interação complexa com os pares na sala de aula, crendo que o composto de culturas a serem construídas se envereda ao aramado histórico-cultural do lugar, produzida nas lógicas sociais das crianças nas brincadeiras e em seus conluios culturais.
Entrever o alocamento-deslocamento da cultura quilombola nas culturas de infâncias tornou-se o critério básico para a finalidade da minha permanência com o grupo de crianças em seus trâmites educativos, observando as culturas
de pares impressas nos fluxos, movimentos, tensões, contradições nas relações cotidianas no espaço formativo de Educação Infantil.
Conhecer o espaço político da comunidade e a interpretação desse pelas crianças tornou-se significativo na percepção das ações desses atores que também produzem e transformam os espaços em que atuam, portanto pertinente à investigação do reconhecimento identitário.
Retiro é um lugar pequeno e todas as pessoas são conhecidas, mesmo as que moram em casas mais distantes. No trajeto pelo caminho que leva à escola é raro ver alguém caminhando, o que interpreto como um mundo comunitário em que os homens aram a terra e as mulheres se entranham ao lar, produzindo um “silêncio só”.
Nesse lugarejo específico, refletir a construção da identidade, compreende- se como Cuche (2002), não uma ilusão, pois ela se faz no interior de contextos sociais que determinam a posição dos agentes e, por isso mesmo, orientam suas representações e suas escolhas. A abordagem subjetivista tem o mérito de considerar o caráter variável da identidade (CUCHE, 2002: p.182). Supõem-se que, no caso das crianças, elas constroem nesse arcabouço cultural demarcações próprias, mas não deixam de incorporar os símbolos culturais que permeiam as ações no coletivo. Assim sendo, eis os percursos.
O centro de educação Infantil foi fundado em 11 de dezembro de 1996, atendendo às necessidades das famílias do lugarejo, uma vez que as crianças maiores são encaminhadas para escola de Educação Básica em Mangaraí.