CAPÍTULO 3. OPÇÕES METODOLÓGICAS PERCURSOS E PERCALÇOS EM
3.2 TRATADO ETNOGRÁFICO COM CRIANÇAS
3.2.5 Procedimento de Registros das observações
Que argumentos justificam a opção em estudar as “culturas infantis”, havendo crianças pequenas como protagonistas da pesquisa? Se as crianças são tão pequenas, como vou gestar um estudo em que elas são sujeitos, em que seus pontos de vistas sobre os elementos que permeiam suas culturas serão por elas expostos? Como será que elas expõem?
Estranho alguém que acredita na competência das crianças chegar na “cara do gol” sem saber o que fazer com a bola. O fato é que esses conceitos históricos e sociais em ditar regras às crianças não desaparecem, estão incrustados e implodi- los requer um aparato metodológico de pesquisa. É preciso considerar posturas, valores, representações e conceitos que a história alicerçou. Os aportes teóricos não são sufi- cientes para as mudanças dos conceitos arraigados sobre a autonomia do adulto em relação às crianças. Nós, adultos, somos arbitrários, etnocêntricos ao que concerne o arcabouço cultural infantil. Faz-se a hora de conceber um mundo em que adultos e crianças se interponham no respeito às suas diversidades, em seus modos próprios em girarem a roda cultural.
Assumo que realmente não sabia como as crianças responderiam às questões que eram básicas à pesquisa que se iniciava. Até aquele ponto, havia muitas dúvidas, não somente em torno das competências das crianças, mas sobre a minha própria, por nunca haver olhado as ações por elas empreendidas, distante do ângulo habitual, costumeiro, descentralizado do modo histórico de ver.
Vou me deter aqui, de modo sumário, a explicitar a experiência investigativa, estando com as crianças, tendo que registrar o que se observava de forma criteriosa, que significa uma descrição dos acontecimentos em suas minúcias. Esse é o primeiro sentido e também a primeira aprendizagem. Estar com
crianças em uma pesquisa participante é abrir-se ao mundo delas, buscar formas de ouvi-las, explorando as múltiplas linguagens que “as crianças falam” (CRUZ, 2008, p.13); e tudo que falam é digno de notas.
A primeira sessão com as crianças foi observar as suas ações e as formas como desenvolviam tais ações, tentando apreender as mediações feitas por elas nas interações, intergeracional e intrageracional no modo delas atuarem– institucionalizarem a vida social no cotidiano. Quanto aos registros, deu-se nas sequências dos acontecimentos, buscava escrever o que diziam. Não separei as vozes das crianças da dos adultos, até porque tudo ocorre ao mesmo tempo e no mesmo espaço de relação, anotava o que conseguia captar, criando uma legenda extra, para reflexão sobre o olhar do adulto e da criança de um mesmo acontecimento para facilitar a análises posteriores.
Muitas vezes antes de pegar a estrada de volta para casa, dentro do carro, anotava alguns detalhes, ocorrências que haviam sido perdidos. “Construir um registro de dados é um trabalho penoso – maçador e exigente – “ (GRAUE & WALSH, 2003, p.157). O campo de trabalho é surpreendente a cada entrada; são muitos os transbordos e são eivados de significados; de tempo em tempo, novos elementos vinham à mente. Esse trabalho complementar da caderneta de campo foi útil posteriormente para localizar e materializar os acontecimentos. A compilação dos dados dos cadernos de campo foram organizadas no diário; as especificidade dos olhares de uma mesma realidade observada, apreendida de perspectivas diferentes.
O trabalho de organizar os dados cerzidos nos amiúdes do real observado não se fundiu em simples aglomerado de escritos, pressupondo “apenas o registro de ter estado lá, é o que se reuniu enquanto se esteve lá” (GRAUE & WALSH, 2003, p.171). O aporte dos dados serviram para alinhavar e descrever a narrativa completa, inferindo na íntegra o trabalho de campo como “lugar de fronteira”, no que pressupõe Caria, (2003, p.15); “o estar dentro, o estar fora dos contextos de acção em análise[...]”.
situações, até porque atravessam-se ocorrências multifacetadas. Os “episódios interativos” (CORSARO, 2011) implicam, por parte da pesquisadora uma habilidade em saber lidar com essas frentes, desenvolvendo estratégias de observação para não se perder nos registros. Devo dizer que, no início, perdi muitos dados, depois fui evoluindo nas experiências.
Outro ponto que merece atenção em relação com a pesquisa com crianças foi atentar-se aos detalhes na relação de sociabilidade em que elas investem e debruçam-se no cotidiano, apreendendo as ações significativas em que estão envolvidas, ou seja, construindo um discurso narrativo. Denzin traduz esse mergulho de campo em uma “descrição densa”.
A descrição densa faz mais do que registrar o que uma pessoa está a fazer. Ela vai além dos meros fatos de aparências superficiais, apresentando detalhes, contexto, emoção e as redes de relações sociais que unem pessoas umas as outras. A descrição densa evoca a emotividade e os autos-sentimentos e, inserindo história na experiência, estabelece a significação dessa experiência, ou a sequência de acontecimentos para a pessoa ou pessoas em questão. Nessa descrição ouvem-se as vozes, os sentimentos, as ações e os significados dos indivíduos em interação. (DENZIN, 1989, p.83 apud GRAUE e WALSH, 2003, p.163).
Busquei apontar, fidedignamente, o que as crianças verbalizavam para facilitar o apuro analítico do contexto observado. Somei os escritos do caderno de campo, à transcrição do áudio e imagens fílmicas, afinando as informações colhidas das pequenas realidades, nos revelando uma riqueza enorme em termos de vidas, de experiências e saberes.
Para além dos registros de campo, recolhi registros gráficos das próprias crianças. As crianças escreviam e desenhavam em meu diário de bordo; também guardei algumas atividades que foram fotocopiadas dos planos de aulas, gentilmente cedido por uma das professoras, para que pudesse analisar o olhar das crianças sobre as atividades propostas. Pesquisar com as crianças é legitimar seus saberes em suas maestrias culturais, observando os espaços que elas ocupam quando se relacionam entre si e quando se relacionam com o adulto, ou mesmo quando conversam consigo mesmas.