CAPÍTULO II “O CONTO TRADICIONAL INFANTIL”
“CONTO TRADICIONAL INFANTIL”
6. O CONTO NO DESENVOLVIMENTO INFANTIL
6.1. Definição e origem
O conto “surge na sequência evolutiva dos mitos, quando os povos de cultura oral começam a distinguir os mitos (as histórias verdadeiras) dos contos (as histórias falsas). Os mecanismos psicológicos que estão na origem dos mitos e dos contos têm grandes afinidades.” (Diniz, 1995:6)
Segundo Diniz (1995), a passagem da mitologia à História foi um longo processo de desmitização que se manifestou pela perda do conteúdo religioso do mito, que se transformou numa lenda ou num conto e ainda pela organização do pensamento filosófico que, através de um esforço sistemático procura entender a verdadeira origem e a natureza das coisas. Mas as formas de pensamento arcaico só muito lentamente desapareceram.
6.2. Características essenciais do conto infantil
Para Mesquita (2001), o destinatário extratextual da literatura infantil é a criança. Por isso, este tipo de literatura é vocacionado para responder às necessidades de ordem intelectual e afetiva que dominam a criança.
Ainda segundo Mesquita (2001), ao analisarmos um conto infantil, reconhecemos que há nele convenções muito particulares de ficcionalidade, resultantes de um conhecimento dos interesses deste jovem e particular destinatário e da sua evolução. Daí que uma obra literária para crianças deva ter as seguintes características principais, no sentido de enriquecer o imaginário infantil:
- relatar um episódio ou uma situação;
- texto de extensão mais reduzida;
- a ação tender á concentração e à linearidade; - protagonista, geralmente, jovem;
- o diálogo assumir grande importância; - descrição (quase) ausente;
47 - simplicidade diegética;
- o fantástico e a magia como componentes significativas;
- fórmulas relativas ao tempo («Era uma vez…»; «No tempo em que os animais falavam…»);
- fórmulas referentes ao espaço («Num país longínquo…»; «Num bosque…»);
- ter um final feliz.
6.3. A importância do conto na vida da criança
Com o passar dos tempos perde-se a origem e a importância que o conto tem na educação e na vida da criança.
Quantas vezes, pais e educadores/professores se apoiam num determinado conto para tentar explicar, à criança, uma determinada situação à qual são confrontadas. Vão buscar o conto, porque está mais ao nível da compreensão da criança, é mais fácil para ela entender quando se lhe é explicado com algo que ela gosta e assim compreende sem grande dificuldade.
As histórias são um meio que facilitam determinadas respostas a algumas questões postas pelas crianças. Por um lado, as histórias divertem as crianças, aumentam a sua curiosidade, fazem-nas sonhar, ativam a magia, as competências cognitivas e fomentam o diálogo. Por outro lado, as histórias ensinam-lhes e dão-lhes a conhecer muitos valores, tais como, o respeito pelo outro (diferente raça, religião, cultura, deficiência física, etc), a importância da amizade, a solidariedade, ….
Nenhuma história é igual, por isso a criança retirará de cada uma delas aquilo que, para ela, faz mais sentido, que se identifica mais com ela, com as suas vivências.
Nas histórias, assim como na vida real, nem tudo é maravilhoso e facilitado, para se alcançar determinados objetivos, tem que se passar por vários obstáculos, por vezes trabalhar muito para os conseguir atingir. É importante passar essa mensagem para a criança, para que ela, desde tenra idade, comece a entender/perceber que não se alcançam as coisas como se quer, mas sim com trabalho, sacrifício, dignidade, com a ajuda dos amigos e dos familiares, com o respeito pelos outros.
48 Segundo Silva (1991), todo o calor transmitido pela voz, pela entoação, pelas expressões, o envolvimento com que a história é lida e transmitida, e o próprio tempo e o espaço partilhados, é que o tornam realmente importante o ato de contar uma história. Afinal, é a partilha que cria relação, e esta estabelece-se com tempo. Através da linguagem, do gesto, do olhar, do sentimento transmitido, é que a criança se sente amada. Aos poucos, apodera-se da história que vai vivendo, identificando-se com ela e descobrindo o seu próprio mundo. A fantasia com que joga e brinca com a história, a imaginação de ir mais longe, experimentar e descobrir faz com que a própria história ganhe vida, e daí, surjam as trocas. É, portanto, indispensável, que a criança ouça contar e ler histórias desde cedo, pois, para além de toda a compreensão, quer de vocabulário, quer de sequência e de tudo o que pode ser transmitido, está a relação, a partilha de calor e de afeto, que dois seres, que vivem juntos, realizam numa mesma situação.
Ainda para Silva (1991), a criança, que tem acesso ao livro, mais facilmente se sente perto dele, entrando no seu conteúdo e maravilhando-se com ele, descobre e cresce. Acredita que, mais importante do que prevenir o insucesso escolar, o livro pode prevenir o insucesso na vida, criando a imagem de que só depende de nós o virar da folha, para irmos mais longe…
6.4. Vertentes lúdica e pedagógica
A educação estética “por meio do folclore afina a sensibilidade, que é inseparável da inteligência; as crianças criadas sem canções, sem contos, sem poesia, são crianças espiritualmente mais pobres do que as outras. (Traça 1992:113)
Segundo Ferreira (1983), toda a gente sabe do interesse e do entusiasmo das crianças por ouvirem contar histórias. Habitualmente, um dos objetivos dos educadores de infância, ao contar uma história, ao ler uma poesia, ao ensinar uma lengalenga é proporcionar, ao seu grupo, momentos de prazer, de fantasia, despertando nele, o interesse, a curiosidade, a atenção. Mas, na verdade, o educador coloca-se, geralmente, face ao papel educativo destas atividades numa perspetiva mais profunda, pretendendo ultrapassar o simples divertimento, para introduzir novos conhecimentos, novas aquisições, novos hábitos, novos conceitos. Progressivamente, as crianças vão ganhando gosto pela leitura, sentindo necessidade de permanecerem atentas ao que lhes é proposto, de discutirem amiúde as suas interpretações necessariamente diferentes umas
49 das outras, de colocarem perguntas e dúvidas ao educador, de, timidamente, algumas avançarem com opiniões, nem sempre concordantes sobre o que escutaram. Aos poucos, a socialização, em cada elemento do grupo, desenvolve-se. As crianças aprendem a comunicar umas com as outras, a aceitarem opiniões divergentes, a integrarem-se no mundo.
Segundo Traça (1992), no conto transmite-se uma certa concepção do mundo que, até certo ponto, se mantém vigente na comunidade a que pertencem narrador e ouvintes, encontram-se implícitos valores, que permanecem válidos para essa comunidade, e a transmissão oral propicia inter-relações fundamentais para o desenvolvimento da criança.
Para Emília Traça (1992), o conto infantil, pelo seu caráter versátil de ser trabalhado ludicamente, pode dar origem a atividades perfeitamente concretizáveis e através das quais se atingem grupos de objetivos diferentes. A utilização pedagógica dos contos infantis terá de ser diferente consoante a idade das crianças com que se está a trabalhar. Temos, deste modo, atividades que podem ser trabalhadas e exploradas com crianças mais novas e atividades que envolvem outras competências, para crianças mais velhas. Para aquelas crianças podem ser criados espaços/ateliers dos contos a partir dos quais se pretendem atingir vários grupos de objetivos: o primeiro, centrado na palavra e na língua como comunicação e criação; o segundo, correspondendo a jogos de expressão e comunicação; e o terceiro, trabalhando a relação/passagem do código oral ao código escrito. “Escutar e repetir, compreender e fixar, repetir e contar, recriar e compor, são passos da aprendizagem psicolinguística presente no processo de transmissão oral dos contos tradicionais” (Traça, 1992:141).
Para Diniz (1995), se o medo faz parte do quotidiano da criança, poder ajudá-la a ultrapassá-lo é uma tarefa pedagógica da maior importância, para que possa adquirir uma suficiente autonomia e tornar-se um adulto equilibrado e bem adaptado.
Um dos contos, que contámos no jardim onde estivemos a estagiar (contado com fantoches), foi “Um ladrão debaixo da cama”, em que as crianças inicialmente estavam com receio do que ia acontecer à avó e ao neto, mas, com o final da história, esse receio, que estava estampado nos seus rostos, transformou-se num belíssimo sorriso de vencedores.
50 Reforçando ainda esta ideia, diz a autora Diniz (1995) em todos os casos se demonstra que a pequenez e a fraqueza não impedem a resolução da situação de perigo que se apresenta, porque a esperteza e o engenho acabam por levar a melhor sobre a força física. Isto corresponde a colocar a criança perante a dramatização de uma situação na qual ela pode sentir, através da identificação com a personagem fisicamente mais fraca que, afinal, dispõe de outras forças e capacidades que a podem tornar vencedora.
Segundo Maria Cristina Ferreira (1983), não é suficiente contar uma história, ler uma poesia, soletrar uma lengalenga, decorar uma frase. É também preciso explorar as inúmeras potencialidades que se escondem atrás de cada uma destas atividades. É nesta tarefa de extrema importância, que visa o bom desenvolvimento intelectual das crianças, que os educadores profissionais ocupam um papel preponderante, no qual dificilmente os pais poderão substituir.
A audição das histórias infantis suscita na criança ouvinte curiosidade pelo que ouviram e também por aquilo que ainda possam descobrir. Poderá assim, considerar-se o primeiro contacto com a literatura infantil um passo importante para que este ouvinte se torne uma criança leitora.
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