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que estão seguros de seu poder e que representam, com consciente orgulho, a força alcançada do homem.” [“WM/VP

6 2ª A NÁLISE DA A RTE (§ 25)

7. A RTE E O S ENTIDO DO H OMEM (§§ 26-28)

7.4. O Contra-ideal

De qualquer forma guarda-se da análise genealógica a possibilidade e a necessidade de um sentido alternativo, de um contra-ideal, baseadas na diferença tipológica: a

Gewissen nobre é consciência de poder, a Gewissen não-nobre é consciência de culpa [cf. item

1.5.2]. O que se mostra é a premente necessidade, bem como a auspiciosa possibilidade, de alcançar a primeira em detrimento (ou, pela auto-supressão) da última. Essa “metamorfose”, essa nova “aurora”14 da humanidade é tornada possível e necessária pelo mesmo evento, a saber, a auto-implosão do ascetismo, ou seja, pela vontade de verdade que termina por voltar-se contra si própria. Ora, não se pode viver sem valorar e avaliar15; só se pode existir com e a partir de uma perspectiva, qualquer que seja ela16. Deve-se então aproveitar esse evento ímpar, essa oportunidade repleta de significados e prenhe de promessas, e arriscar uma existência mais nobre, sem ideais ressentidos; deve-se querer a vida segundo a perspectiva trágica da arte autêntica e da gaia ciência.

Nesta perspectiva,

[o] conhecimento nada tem a descobrir; ele tem é que inventar. Procurar descobrir valores que tenham uma existência em si é uma atitude desesperada do decadente, é um desejo de segurança do fraco ⎯é a manifestação dos instintos de conservação. O que expressa a vontade afirmativa de [poder] é a criação de valores. [MACHADO, 1985, p. 103].

Certamente, a gaia ciência não pode se dar sob o domínio ressentido do ascetismo, pois este promove o auto-apequenamento do homem e do mundo, ele priva a humanidade de seus instintos positivos, “castra” inclusive seu intelecto [cf. GM/GM III 12], tudo, no interesse da preservação de formas de vida decadentes. Se isso é assim, pode-se então considerar ainda que o medo-fraqueza do homem perante a existência não é relativo à simples percepção do sem-sentido do mundo; é também de, em o vendo, imediatamente saber-se aquém da necessidade de (auto-)criação, para a qual é necessário um poder que o fraco não tem. Para o forte, essa necessidade de criação não só é suportável, mas desejável, estimulante, divina. Esta força ou vontade de poder ⎯nobre porque

14

“Há tantas auroras que não brilharam ainda.” (Rigveda) [cf. M/A (Epígrafe) (p. 7 tr. br.)]. 15

“[O] homem designava-se como o ser que mede valores, valora e mede, como ‘o animal avaliador’.” [GM/GM II 8 (p. 59 tr. br.)].

16

“[H]e holds that no one can do without any world view indefinitely. Unless we are able to achieve a new world view in

relation to which we may orient ourselves one that is more tenable than the traditional one even the strongest will not be able to endure.” [SCHACHT, 1995, p. 40].

ativa, criativa, positiva, afirmativa, corajosa, “guerreira”, “trágica”⎯ é abarcada, na filosofia madura de Nietzsche, em sua segunda concepção de “Dioniso”.

O Dioniso das últimas obras de Nietzsche “não é mais aquele de O nascimento da tragédia. [...] Esse princípio fundamental, ao qual Nietzsche ainda chamou de ‘dionisíaco’, é na verdade a união de Dionysus [sic] e Apollo: um criativo combater que dá forma a si mesmo.” [KAUFMANN, 1956, p. 245 (tr. pr.17); v. LEBRUN, 1985 e MARTON, 1994]. De fato, bem próximo à época de feitura de “Para a genealogia da moral” Nietzsche escreve, num aforismo que é todo marcantemente representativo da referida concepção: “eu, o derradeiro iniciado e último discípulo do deus Dioniso: e talvez eu pudesse enfim, caros amigos, lhes dar de provar um pouco dessa filosofia, tanto quanto me é permitido?“ [JGB/ABM 295 (p. 196 tr. br. - tr. alt.)]. E, no seu último ano de produção, esclarece como se coadunam vontade de poder e superação do ascetismo-niilismo em sua “filosofia dionisíaca”, em seu “ideal” de revaloração de todos os valores:

[m]eu conceito de “dionisíaco” tornou-se ali [i.e., no livro “Assim falou Zaratustra”] ato

supremo [EH/EH “Assim falou Zaratustra” 6 (p. 88 tr. br.)].

Precisamente nessa extensão de espaço, nessa acessibilidade aos contrários, é que Zaratustra se sente como a forma suprema de tudo o que é, e, ouvindo como ele a define, renuncia-se a procurar seu símile.

⎯a alma que possui a mais longa escala e mais fundo poder de descer, a alma mais extensa, que mais longe pode correr e errar e vagar dentro de si, a mais necessária, que com prazer se lança no acaso,

a alma que é, e mergulha no vir a ser, a que tem, e quer mergulhar no querer e desejar,

a que foge de si mesma, que a si mesma alcança nos círculos mais amplos, a alma mais sábia, à qual fala mais docemente a tolice,

a que mais ama a si mesma, na qual todas as coisas têm sua corrente e contracorrente, seu fluxo e refluxo [Z/Za III De velhas e novas tábuas 19]

Mas esta é a idéia mesma do Dioniso. ⎯Outra consideração conduz igualmente a ela. O

problema psicológico no tipo do Zaratustra consiste em como aquele que em grau inaudito diz Não, faz Não a tudo a que até então se disse Sim, pode no entanto ser o oposto de um espírito de negação: como o espírito portador do mais pesado destino, de uma fatalidade de tarefa, pode no entanto ser o mais além e mais leve ⎯Zaratustra é um dançarino⎯: como aquele que tem a mais dura e terrível percepção da realidade, que pensou o ‘mais abismal pensamento’, não encontra nisso entretanto objeção alguma ao existir, sequer ao seu eterno retorno ⎯antes uma razão a mais para ser ele mesmo o eterno Sim a todas as coisas, ‘o imenso ilimitado Sim e Amém’... ‘A todos os abismos levo a benção do meu Sim’... Mas esta é a idéia do Dioniso mais uma vez.” [id. (p. 90 tr. br.- tr. alt.)].

Essa inter-conexão é, vista por outro viés, a mesma que une ao “deus-filósofo” arte e gaia ciência, no questionamento da vontade de verdade ascética e sua respectiva Aufhebung [v. GT/NT Prefácio (1886) 2-7 e GD/CI X 5]. Nesse sentido ⎯também presente, como se vê, na tessitura da Terceira Dissertação⎯ é que se pode falar de uma nova “religiosidade” em Nietzsche: “Zaratustra anunciou a morte de Deus. Sabe que a capacidade criadora, enquanto poder especificamente divino, deverá

ser transferida aos homens em virtude daquela morte.” [MASSUH, 1985, p. 149 (tr. pr.18)]. Com efeito, para Nietzsche religião não é sinônimo direto de ressentimento, embora às vezes possa parecer que o seja. A religião, como criação humana, também pode ser de natureza nobre: vide suas considerações acerca do Olimpo homérico. Mas o “culto” a Dioniso que Nietzsche sugere certamente não teria a ingenuidade das religiões de outrora; estaria antes em acordo com a sabedoria “experimentada, séria, alegre, escaldada e profunda” [cf. FW/GC Prefácio 4] da gaia ciência.

E é enquanto “legislador” de tal vontade de poder nobre que o “filósofo do futuro” pode ser, também ele, considerado “divino”: aquele a quem, operando a revaloração de todos os valores, caberá por direito liderar a humanidade, determinar o Wohin da vontade humana. Assim “Nietzsche, determinando a tarefa fundamental do filósofo, fornece os elementos necessários para a manifestação plena da filosofia e para o abandono das máscaras do ideal ascético.” [AZEREDO, 2000, p. 169]. Como apontado anteriormente, esse “devoto” de Dioniso não será nem mais o “artista” que conhecemos, nem tampouco o “filósofo” tal como se deu até hoje; o filósofo do futuro, o homem do conhecimento que valora e comanda, com boa consciência, a partir de uma vontade de poder que é uma artística, trágica, sereno-jovial vontade de verdade (de autenticidade) permanece uma promessa, uma necessidade, um problema em aberto. Ainda vive-se tempos em que se deve perguntar:

[i]sto mudou realmente? O colorido e perigoso animal alado, o “espírito” que essa lagarta abrigava, foi afinal despido de seu hábito e solto na luz, graças a um mundo mais ensolarado, mais cálido e luminoso? Existe hoje suficiente coragem, ousadia, confiança, vontade do espírito, vontade de responsabilidade, liberdade de vontade, para que de ora em diante o filósofo seja realmente ⎯possível?... [GM/GM III 10 (p. 105 tr. br.)].

Pois a morte de Deus é um acontecimento que ainda “está a caminho” [FW/GC 125]; quer dizer, a vontade de verdade, e com ela o ascetismo, ainda encontra-se em processo de implosão, está implodindo-se, está ainda a se implodir. Contribuir para tal processo é o sentido da obra de Nietzsche, sua auto-imposta tarefa capital.

O secreto mistério por trás dos ideais ascéticos é a “verdade nova” que Nietzsche torna visível com a Terceira Dissertação de “Para a genealogia da moral”. O texto constrói-se pela questão: “de onde procede o tremendo poder do ideal ascético, do ideal sacerdotal, embora ele seja o ideal nocivo por excelência, uma vontade de fim, um ideal de décadence” [EH/EH “Para a genealogia da moral” (p. 97 tr. br.)]. A resposta desenvolvida por Nietzsche, como já se pôde

17

“[I]s no longer that of The birth of tragedy. [...] This fundamental principle, which Nietzsche still called ‘Dionysian’, is

actually a union of Dionysus and Apollo: A creative striving which gives form to itself.”

18

Zarathustra anunció la muerte de Dios. Sabe que la capacidad creadora, en tanto poder específicamente divino, deberá ser transferida a los hombres en virtud de aquella muerte.

depreender, é: “não porque Deus atue por trás dos sacerdotes, mas sim faute de miuex ⎯porque foi até agora o único ideal, porque não tinha concorrentes. ‘Pois o homem preferirá ainda querer o nada a não querer’... Sobretudo faltava um contra-ideal ⎯até Zaratustra. Fui compreendido.” [id.].