O APERFEIÇOAMENTO DO SINDICALISMO DE ESTADO (1964-1979)
3.3. O controle das greves e o arrocho salarial
Como já vimos, em 1937, a greve foi proibida no Brasil, através do art. 139 da Constituição. Em 1946, pelo art. 158 da nova Constituição e através do Decreto-lei n° 9.070, de 15 de março de 1946, ela voltou a ser permitida (sob inúmeras restrições). As constantes greves ocorridas a partir deste período precisavam, segundo os setores mais conservadores do país, “urgentemente” ser “controladas”. Tanto foi assim que dois meses após a deflagração do golpe civil-militar de 1964 foi sancionada a Lei n°4.330, de 1° de junho de 1964, que definia as condições em que as greves seriam consideradas legais no país. Vejamos, de uma maneira geral, as principais exigências legais para o exercício de greve a partir da nova lei:
− a greve só seria reconhecida como legítima quando apresentasse um “caráter econômico”, ou seja, quando a categoria profissional estivesse apenas “interessada na melhoria ou manutenção das condições de trabalho vigentes na empresa”;
− os funcionários públicos federais, estaduais e municipais ou de empresas estaduais foram expressamente proibidos de entrar em greve;
− as greves de trabalhadores em serviços “essenciais”, as de “apoio ou solidariedade” e as consideradas “de natureza política, social ou religiosa” foram também expressamente proibidas 316;
314 ERICKSON, op. cit. (1979), p. 79. 315 SANDOVAL, op. cit. (1994), p. 18-19.
− a greve só seria considerada legítima se aprovada em uma Assembleia Geral da categoria, por 2/3 dos presentes em primeira convocação, e por 1/3 em segunda convocação;
− entre a primeira e a segunda convocação da Assembleia Geral da categoria deveria haver um intervalo mínimo de dois dias;
− a convocação da Assembleia Geral deveria ser feita através de editais publicados na imprensa, com a antecedência mínima de dez dias;
− realizada a Assembleia Geral e processada a votação, que deveria ser secreta (com a utilização das cédulas “sim” e “não”), os votos seriam apurados por uma mesa presidida por membro do Ministério Público do Trabalho ou “por pessoa de notória idoneidade”, designada pelo Procurador-Geral do Trabalho ou Procuradores Regionais;
− a partir das deliberações da Assembleia Geral, o empregador seria notificado e teria cinco dias para solucionar o conflito 317. Durante este período, o Diretor do Departamento Nacional do Trabalho ou o Delegado Regional do Trabalho tomariam uma série de medidas “conciliatórias”. Se, decorridos os cinco dias, não se chegasse a uma “conciliação”, os empregados poderão abandonar “pacificamente” o trabalho.
Como se vê, a aplicação rigorosa de todas estas exigências legais para a deflagração de uma greve tornou praticamente ilegais todas as greves no país 318. As restrições impostas pelo regime civil-militar à deflagração de uma greve eram tão grandes que se contavam à época o seguinte, em tom de blague: “Agora, a possibilidade de greve no Brasil ficou restrita aos
trabalhadores em perfumarias e salões de beleza, de vez que, por uma ou outra razão, todas as atividades são mais ou menos essenciais”.
O prazo exigido para notificação e conciliação (média de 12 a 15 dias), por exemplo, só vinha a facilitar e ajudar o empregador. Heloisa de Souza Martins lembrou que o prazo dado pelo governo para o empregador dirimir os conflitos era muito grande e impensável no que se refere a uma greve. Passado o prazo, muitas vezes não havia, por exemplo, mais motivo para a realização da greve, pois ela já tinha perdido o seu ímpeto inicial que lhe é tão
317 Quando a greve fosse motivada pela falta de pagamento de salário ou não cumprimento de decisão judicial, o
prazo de aviso seria de 72 horas, ou seja, de três dias, ao invés de cinco (prazo exigido em lei).
318 Segundo a opinião do presidente da OAB e especialista em Direito do Trabalho, Roberto Haddock Lobo: “A
legislação em vigor encerra uma contradição em si mesma. Ao regular o preceito constitucional do direito à greve, ela estabelece tantas restrições que, na verdade, extinguiu esse direito. Toda greve está sujeita a ser declarada ilegal. Assim, acho que apenas uma filigrana jurídica não será suficiente para alterar a essência da lei, que é uma lei antigreve”. OAB acha a lei contraditória. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, p. 20, 1 set. 1977.
característica, bem como, em alguns casos, o prazo teria dado tempo suficiente para o empregador efetuar o pagamento dos salários 319. Heloisa de Souza Martins argumentou:
A burocratização da greve, dificultando a sua deflagração e estabelecendo um longo prazo, descaracteriza-se como instrumento de pressão e reduz o poder de barganha do sindicato. Ainda que a lei não tenha retirado do sindicato a função de declarar a greve de direito, retirou-a de fato, devido à morosidade dos procedimentos para a deflagração da greve 320.
A Lei n° 4.330, ao pretender regulamentar o exercício do direito de greve, tornou-o praticamente impossível. Das 154 greves localizadas realizadas em 1962 e das 302 de 1963, o total caiu para 25 em 1965, 15 em 1966, 12 em 1970 e nenhuma em 1971 321. Maria Helena M. Alves destacou, por exemplo, que muitas das greves declaradas “legais” pelos tribunais de trabalho a partir da decretação da Lei n°4.330 ocorreram, em grande parte, “[...] em empresas
que há mais de três meses não pagavam a seus trabalhadores” 322.
Outra consequência da Lei n° 4.330 foi a nítida participação do Estado, desde o reconhecimento até os moldes, no exercício da greve. De 1946 até o golpe civil-militar de 1964, a greve era um instrumento de pressão exercido pelos trabalhadores diretamente sobre o patrão. Os sindicatos eram os únicos intermediários aceitos. Após a vigência da Lei n° 4.330, o exercício da greve passou a ter um intermediário mais poderoso: o Estado, através do aparelho judiciário. Nas palavras de Paul Singer:
Em 1964, ano em que o custo de vida subiu mais de 80%, foram proibidos os reajustamentos salariais em intervalos menores de um ano. Os sindicatos perderam sua autonomia face ao poder estatal, as greves por aumento de salário foram praticamente proibidas e, a partir de 1965, foi adotada uma política salarial uniforme para todo o país, de acordo com a qual as decisões sobre os reajustamentos salariais passaram da Justiça do Trabalho ao governo federal. O modo como esta política foi posta em prática resultou numa redução ponderável do salário mínimo real e, por extensão, dos salários do pessoal menos qualificado, cujo nível está preso ao mínimo 323.
Citamos a seguir a entrevista do ministro Arnaldo Prieto à revista VEJA que ilustra o pensamento do regime civil-militar acerca das greves:
O sindicato é um instrumento de luta, mas de luta pacífica. Não precisa de luta de rua, com sangue, pode ser através do diálogo, do argumento, do raciocínio, de uso do bom senso. Uma luta que se trava com toda a educação, de forma elegante, numa mesa-redonda sob a presidência do Ministério do
319 SOUZA MARTINS, op. cit. (1979), p. 121. 320 Ibid., p. 124.
321 Dados obtidos de: SANDOVAL, op. cit. (1994), p. 97-100; ERICKSON, op. cit. (1979), p. 159. 322 ALVES, M., op. cit. (2005), p. 93.
323 SINGER, Paul. A crise do “milagre”: interpretação crítica da economia brasileira. 8. ed. Rio de Janeiro: Paz
Trabalho, ou da Justiça do Trabalho, quando não conseguimos uma solução administrativa 324.
Por fim, é importante destacar o aspecto punitivo da Lei n° 4.330. Segundo ela, o trabalhador que “promover, participar ou insuflar greve” declarada ilegal podia ser punido com: a) advertência; b) suspensão até 30 dias; c) rescisão do contrato de trabalho; d) também podia ser enquadrado na Lei de Segurança Nacional (o Decreto-lei n° 898, de 29 de setembro de 1969, que no art. 45 falava em “greve proibida”). A pena era de 1 a 3 anos de reclusão.
Uma vez lançada a “Lei anti-greve”, o governo poderia pôr em prática a sua política de arrocho salarial. Decididamente, a Lei n° 4.330 e o sistema de reajustes salariais, em vigor no Brasil a partir de 1964, foram feitos um para o outro. A obediência aos índices oficiais anuais na concessão do aumento estava, de fato, salvaguardada pela Lei n° 4.330 que tornava praticamente impossível qualquer greve de reivindicação econômica.
A saber, a política de arrocho salarial do regime civil-militar foi inaugurada com a circular n° 10, de 19 de junho de 1964, do Ministério da Fazenda. De uma maneira geral, a circular estabelecia: que os salários seriam reajustados anualmente; que a proporção dos aumentos salariais dependeria do salário médio dos trabalhadores nos 24 meses anteriores ao aumento, da antecipação inflacionária estimada para os 12 meses seguintes ao aumento e da estimativa do aumento anual de produtividade; e que as normas aplicar-se-iam a todos os funcionários públicos federais, estaduais e municipais. Segundo Edmilson Silva Costa: “Esse
documento pode ser caracterizado como uma espécie de ‘código genético’ da política salarial do governo militar, uma vez que sua filosofia serviu de orientação para o conjunto de normas e decretos editados posteriormente” 325.
A ideia do governo em criar uma nova politica salarial era justamente instituir um mecanismo de reajustes dos salários que não mais gerasse pressões inflacionárias. Isto implicaria “despolitizar” as negociações salariais, adotando uma fórmula considerada neutra. A fórmula baseava-se na previsão da inflação para o ano seguinte. Entretanto, o reajuste salarial dar-se-ia através do salário real pela média, e não pelo pico. Como a inflação era anualmente subestimada, o resultado foi que os aumentos salariais ficaram sempre muito abaixo da inflação do período. Devido a essa fórmula, o salário mínimo real do trabalhador sempre apresentava uma queda de 10 a 15%. Portanto, como destacaram Luiz Prado e Fábio Sá Earp: “[...] os resultados estavam muito distantes da neutralidade apregoada pelo
324 O sindicato deve lutar em paz... Op. cit., p. 25.
325 COSTA, Edmilson. A politica salarial no Brasil, 1964-1985: 21 anos de arrocho salarial e acumulação
governo” 326. De maneira geral, as principais críticas dos trabalhadores e entidades sindicais à “política salarial” do regime civil-militar foram:
a) que os coeficientes baixados pelo governo estavam sempre abaixo do aumento custo de vida da classe trabalhadora. Um exemplo disto foi dado na fixação do resíduo inflacionário em 10% em 1966, quando o crescimento do custo de vida foi de 52,3% segundo os dados do DIEESE 327;
b) que o cálculo de um “coeficiente único” para todo o país, não levando em conta o custo de vida de acordo com a região, o estado e até mesmo a cidade, era irreal para o conjunto dos trabalhadores no país;
c) que o prazo de um ano para os reajustes salariais era um “roubo” para a classe trabalhadora, beneficiando apenas aos patrões, que teriam um de seus fatores de produção – a força de trabalho – a garantia de que não teriam o seu custo aumentado, no período inferior a um ano, e ao governo que teria o estabelecimento de um prazo – um ano – para permitir a programação da economia nacional;
d) que embora tenha havido reajustes anuais, na prática, havia uma redução do salário real médio dos trabalhadores com a consequente diminuição do poder aquisitivo dos salários;
e) que o aumento salarial a partir da estimativa do aumento anual de produtividade era uma tarefa irreal uma vez que era muito difícil estabelecer uma porcentagem do aumento de produtividade do trabalho em escala nacional, devido às falhas nos registros estatísticos do país;
f) que os reajustes salariais voltassem a ser fixados pela livre contratação entre patrões e operários, sem a intervenção do Estado. Este deveria apenas limitar-se a determinar os níveis de salário mínimo e a garantir esta remuneração mínima àqueles que não a recebessem;
g) e por fim, que tal política salarial esterilizaria os sindicatos como instrumentos de negociação coletiva.
A legislação salarial adotada no Brasil pós-64 – que atribuiu exclusivamente ao governo federal a fixação das margens de reajustamento salarial – chegou a um ponto que, em certa medida, retirou da Justiça do Trabalho e, especialmente, dos sindicatos de empregados a própria razão de existir. O que era antes uma relação entre empresários e trabalhadores regulada e mediada pelo Estado, no terreno da barganha salarial, com a instauração do regime
326 PRADO; EARP, op. cit. (2007), p. 236. 327 SOUZA MARTINS, op. cit. (1979), p. 151.
civil-militar, passou a ser uma imposição do Estado sobre os empresários e os trabalhadores. A Justiça do Trabalho perdeu uma de suas mais importantes atribuições: a de poder moderador nos dissídios coletivos. E aos sindicatos, despojados de sua função de negociadores na disputa salarial viram seu campo de ação restringido à prestação de serviços assistenciais aos associados e à fiscalização da aplicação das normas tutelares sobre as condições de trabalho 328. Isto é, como o Ministério da Fazenda controlava todos os aumentos salariais nesse sistema, nem os tribunais do Trabalho nem os sindicatos desempenhavam qualquer papel na determinação dos índices oficiais.
A partir de 1967 o governo determinou que a Justiça do Trabalho somente estabelecesse, nos dissídios, reajustes até os índices oficiais decretados, o que transformava o Executivo na matriz das correções salariais, abolindo, na prática, o poder de barganha coletiva dos trabalhadores e as livres negociações entre patrões e empregados. Semelhante situação permaneceria inalterada até 1979 329.
O ministro Arnaldo Prieto, contudo, elogiou essa mudança nos reajustes salariais no país (antes por pressão dos trabalhadores e sindicatos e durante o regime civil-militar decidido exclusivamente pelos ministérios do governo):
Essa talvez tenha sido a modificação mais profunda que ocorreu nos últimos anos: a reivindicação salarial, que antes se fazia nas ruas, nas lutas, com resultados maiores para quem era mais forte, hoje deixou de ser um problema de rua para ser um problema de matemática, de estatística. Em obediência às leis, o governo baixa um percentual para o reajustamento mensal. Aquilo é o que as empresas são obrigadas a pagar para a categoria toda, ou através de acordo ou através de dissídio. Mas nada impede que uma empresa, se puder – desde que não transfira os custos finais para o produto, mas tire de seu lucro ou de sua produtividade –, conceda outros benefícios a seus trabalhadores. O governo tenta evitar o cálculo vicioso da transferência excessiva de salários para o preço final da mercadoria, gerando nova inflação e atingindo, fundamentalmente, o próprio trabalhador 330.
A respeito da política salarial do governo, vale ressaltar, como bem lembrou Paul Singer, que, na verdade, o “arrocho” não se fez sentir, igualitária e simultaneamente, sobre todos os níveis salariais, mas seletivamente, atingindo de modo muito mais grave os assalariados menos qualificados, cujo nível de ganhos dependia, em maior grau, do poder de barganha da classe em conjunto 331.
328 ALMEIDA, Maria Hermínia Tavares de. O sindicato no Brasil: novos problemas, velhas estruturas. Debate e
Crítica, São Paulo, p. 49-74, jul. 1975, p. 65.
329 MENDONÇA, Sonia Regina de.; FONTES, Virginia Maria. História do Brasil recente: 1964-1992. 4. ed.
São Paulo: Ática, 1996, p. 24.
330 O sindicato deve lutar em paz... Op. cit., p. 25. 331 SINGER, op. cit. (1989), p. 57-58.
A partir da publicação da Circular n°10 (primeiro documento do regime civil-militar estabelecendo critérios específicos para a nova política salarial), diversos outros documentos foram produzidos, cada qual destinado a atender às necessidades econômicas e políticas do momento. Pela enorme quantidade de decretos e leis baixados sobre a matéria salarial – às vezes, mais de um por ano – durante a vigência do regime civil-militar no Brasil, percebe-se a extrema importância deste tema para os militares. A política salarial foi concebida como um mecanismo fundamental para a continuidade do processo de desenvolvimento do capitalismo no país. Segundo Heloisa de Souza Martins:
A política salarial era um elemento de fundamental importância na política econômica-financeira estabelecida no PAEG e à medida que as sugestões feitas em1964 mostraram-se insuficientes para o combate à inflação, resolveu o Executivo “disciplinar” e tornar mais rígido o processo de reajustamento de salários, adequando-o à política de estabilização econômica
332.
Percebe-se, portanto, que o arrocho salarial obedecia à “racionalidade” do novo modelo econômico, centrado no padrão de acumulação de capital e, portanto, inseria-se dentre os mecanismos destinados a financiar internamente a expansão econômica do país 333. Como destacou Maria Helena M. Alves, os principais objetivos das medidas econômicas adotadas pelo governo eram, com toda evidência, “[...] a atração de capitais multinacionais e o
estabelecimento de uma política de controle salarial que maximizasse a exploração e com isso aumentasse os lucros” 334.
De todas as leis baixadas sobre a política salarial, uma delas merece um melhor detalhamento: é a Lei n° 5.107, de 13 de setembro de 1966, que criou o FGTS. O destaque desta lei se dá justamente por sua presença constante no debate dos trabalhadores ao longo das décadas de 1970 e 1980 e pela importância que teve nos discursos do “Novo sindicalismo”. Como se verá mais adiante, o FGTS foi um tema constante de crítica na fala dos trabalhadores do período e foi um dos pilares da legislação trabalhista no país que o “Novo sindicalismo” procurou demolir.
332 SOUZA MARTINS, op. cit. (1979), p. 137.
333 A respeito da “racionalidade” da economia brasileira no pós-64, Vera Lúcia Ferrante ressaltou o seguinte:
“[...] sob a justificativa da busca da racionalidade, verifica-se a contenção dos salários (baixa do preço de mão-
de-obra), restrição do crédito e aumento da carga tributária. A busca da “racionalização” da economia vem favorecer a concentração de capitais, o que beneficia diretamente os grupos estrangeiros e a grande burguesia nacional (empresas multinacionais). Tais medidas exigem o fortalecimento do poder executivo e a consolidação da tecno-estrutura estatal. O aparelho estatal incorpora o pensamento tecnocrático, científico e as técnicas de planejamento para melhor desempenhar suas funções econômicas”. FERRANTE, Vera Lucia Botta. FGTS: ideologia e repressão. São Paulo: Ática, 1978, p. 124.
Como já vimos, em 5 de Junho de 1935, Getúlio Vargas baixou a Lei nº 62, que assegurou a “estabilidade” aos trabalhadores empregados há mais de dez anos na mesma empresa, podendo ser demitidos apenas se o empregador provasse falta grave na justiça. Se o empregador perdesse na Justiça ao tentar demitir um trabalhador com “estabilidade”, era obrigado por lei a readmiti-lo e pagar-lhe os salários atrasados, além de arcar com os custos judiciários. Com a concordância do trabalhador, o empregador poderia deixar de readmiti-lo, pagando-lhe o dobro da indenização. A partir deste sistema de “estabilidade”, os empregados estáveis (com mais de 10 anos de casa) e os que estavam há mais tempo na firma – mesmo sem terem alcançado ainda a estabilidade – tornaram-se, em diversas ocasiões, uma “liderança natural” nas lutas reivindicatórias dentro das empresas, devido a sua maior experiência e, sobretudo, pelo fato de serem “intocáveis” pela principal arma patronal: a “demissão” 335. Segundo Maria Helena M. Alves, este sistema “[...] irritava as empresas multinacionais, que
desejavam a liberdade de determinar níveis salariais e transferir capitais para investimento em que os custos de mão-de-obra fossem mais baixos e, em conseqüência, mais altos os lucros” 336.
Em meados de 1966, o governo brasileiro começou a agitar a questão da “estabilidade no emprego” no sentido de substituir a Lei nº 62 por um esquema mais racional, mais maleável, que propiciasse a reprodução ampliada do capital e atraísse os “investimentos” estrangeiros. Seguindo essa visão, o governo baixou a Lei n° 5.107, de 13 de setembro de 1966, criando o FGTS. Este novo sistema não reconhecia qualquer espécie de estabilidade, reduzindo significativamente os custos imediatos da demissão de estabilidade.
Na “Lei da Estabilidade”, os trabalhadores demitidos “sem justa causa” tinham o direito de receber em pagamento, uma soma equivalente a um salário mensal por cada ano de serviço. O pagamento deveria ser feito com base no salário mensal mais alto recebido por eles durante os anos de emprego. Com o FGTS, para cada trabalhador, a empresa depositava 8% do salário básico numa conta, todo mês. O dinheiro dessa conta era usado pelo BNH, que pagava juros e correção monetária por isso 337. Quando um operário fosse demitido “sem justa
335 SINGER, op. cit. (1989), p. 80.
336 ALVES, M., op. cit. (2005), p. 118-119.
337 Para Luiz C. D. Prado e Fábio Sá Earp, como a remuneração do fundo do FGTS e o destino de suas aplicações
são totalmente controlados pelo governo, o programa acabou funcionando na prática como uma “poupança privada forçada”. PRADO; EARP, op. cit. (2007), p. 216.
causa”, a firma acrescentaria 10% à quantia depositada e a soma total seria paga como indenização 338.
É fundamental salientar que a ideia de criação do FGTS foi muito além de apenas uma pequena alteração na forma e no modo de pagamento das indenizações dos trabalhadores brasileiros. Compartilhamos da ideia de Vera Lúcia Ferrante, para quem a ideia de criação do novo sistema foi o de “modernizar” a legislação trabalhista na busca de uma maior integração da economia brasileira ao sistema capitalista internacional. Para a autora, uma vez em que um