• Nenhum resultado encontrado

REFLEXÕES ACERCA DO EXERCÍCIO DO PODER EM UTOPIA, DE THOMAS MORE

3. O exercício do poder em Utopia

3.5 O controle do sexo

A experiência do sexo, uma das formas do desfrute do prazer, não passa despercebida na descrição de Rafael. As relações sexuais são alvo de grande regulamentação sendo subordinada ao casamento. Este só pode se realizar após os dezoito anos para as moças e após os vinte e dois para os rapazes. O sexo fora do casamento é alvo de punição, sendo-lhe previsto sanções que alcançam não só aqueles que o praticaram, mas também suas famílias:

Relações sexuais antes do casamento, quando devida- mente comprovadas, são motivo de punições severas tanto ao homem quanto à mulher, que não podem mais se casar pelo resto da vida, a menos que sua pena seja suspensa pelo perdão do príncipe. Adicionalmente, o pai e a mãe, chefes da família em cuja casa o ato foi praticado, ficam publicamente desonrados por terem sido relapsos em seus deveres (More, 2004, p. 93).

Com estas ameaças, fortalece-se o casamento enquanto espaço pri- vilegiado para as relações sexuais. A punição pela desobediência é ele- vada em tal grau, segundo Rafael, porque sem ela “poucas pessoas iri- am manter um casamento, restringindo-se à monogamia e sujeitando-se a todos os aborrecimentos da vida de casado” (More, 2004, pp. 93-94).

A monogamia, assim, é por lei instituída e mantida sob as ameaças e punições. Há de se notar que “naquela parte do mundo [onde está Utopia], são o único povo que pratica a monogamia” (More, 2004, p. 95). A maioria dos casamentos são mantidos até a morte, salvo em poucos casos em que ocorre o “divórcio por adultério ou por dificuldades intoleráveis de comportamento” (More, 2004, p. 95).

O matrimônio, portanto, na Utopia comporta apenas o modelo em que o casal é composto por um homem e uma mulher, sendo duramente reprimidos o adultério e a poligamia. O divórcio só é permitido em casos muito raros e isso mediante a aprovação dos senadores e suas esposas. No caso do adultério, por exemplo, aquele que o comete, além de ser-lhe proibido contrair novas núpcias, é condenado à “escravidão mais estrita” (More, 2004, p. 95). Em alguns casos, o príncipe se comove com o arrependimento do culpado e restitui-lhe a liberdade. Uma segunda condenação por adultério, porém, é punida com a morte.

3.6 (In)tolerância religiosa

A pluralidade religiosa em Utopia é, de certa forma, aparente. Ainda que parte dos utopianos opte por algum astro ou homem ilustre de outrora para adorar, a maioria deles “rejeita as crenças desse tipo e acredita num poder único, desconhecido, eterno, infinito e inexplicável, que escapa à compreensão humana e se difunde por todo o universo, não de forma física, mas por sua influência” (More, 2004, p. 113). Este deus é denominado de pai e somente a ele dedicam veneração. Além disso, gradualmente, segundo Rafael, “todos estão deixando de lado essa mistura de superstições para se unirem em torno de uma religião que parece mais razoável do que as demais” (More, 2004, p. 113).

Tal estado das relações, em que a tolerância parece se sobressair, é fruto da conquista do invasor Utopos que, ao chegar à ilha,

Decretou que cada um era livre para professar a religião de sua própria escolha, podendo fazer proselitismo por sua fé, desde que fosse de forma racional, discreta e moderada, sem agredir outras crenças. Se a persuasão falhar, a ninguém seria permitido recorrer ao abuso e à violência sob pena de ser condenado ao exílio ou à escravidão (More, 2004, p. 115).

Para este conquistador, impor a fé religiosa por meio do medo e da violência era uma loucura. Em sua opinião, a religião verdadeira com o tempo iria prevalecer diante das outras. Dessa forma, cada um poderia escolher aquilo em que acreditar desde que não fossem questionados dois dogmas: a imortalidade da alma após a morte do corpo e que o universo se move pelas mãos da divina providência e não ao acaso.

Alguns princípios morais deveriam ser aceitos, independentemente da forma de religião adotada pelo cidadão. Estes princípios são de suma importância para a manutenção da ordem social, pois aderir ou não a eles pode aumentar ou diminuir a possibilidade de que comportamentos desviantes e anormais surjam. Por exemplo, a crença de que “depois desta vida, os vícios serão punidos e a virtude, recompensada” (More, 2004, p. 116) contribui para que os valores designados como vícios e virtudes, inculcados nas crianças pelos sacerdotes e pelos demais membros da sociedade, sejam obedecidos. É notável que o fato de alguém não crer nas recompensas e punições futuras, após a morte do corpo, coloca em xeque o funcionamento da sociedade:

Esses indivíduos nem deveriam ser considerados como cidadãos, uma vez que, certamente iriam trair e desrespeitar as leis e os costumes da sociedade se não fossem contidos pelo medo. Quem irá duvidar de que um homem, que nada teme além da lei e que não tem nenhuma esperança numa vida depois da morte, fará de tudo para infringir as leis de seu país por meio da astúcia

ou da violência para satisfazer sua avidez por vantagens pessoais (More, 2004, p. 116).

Aos que assim acreditam, é-lhes retirada qualquer possibilidade de honrarias, funções e responsabilidades públicas, além de ser estigma- tizado pelos demais como “um ser sórdido e de natureza baixa” (More, 2004, p. 116). Ainda que Rafael afirme que por compartilharem esta visão de mundo não são punidos, pode-se perceber que há uma série de sanções que os acompanham por não se sujeitarem a esta moral de rebanho cujos valores ajudam a domesticá-los.

Além disso, o fato de pensarem diferentemente da religião “oficial” obriga-os ao silêncio sobre tais assuntos, pois não lhes é “permitido discutir suas opiniões com a gente comum, mas, [apenas] diante de padres e outras personalidades destacadas, não apenas tem permissão mas é até mesmo estimulado a discutir suas idéias, pois os utopienses acreditam que, dessa forma, ao final, sua loucura irá dar lugar à razão” (More, 2004, p. 117). Ora, o estimulo a discussão com aqueles responsáveis por inculcar valores morais é também uma fora de trazer à luz o que estava escondido no âmbito dos pensamentos, da reflexão. Trata-se de uma forma de abrir possibilidades para transformar o desviante, corrigindo-o ou, segundo Rafael, aproximá-lo da razão.

Quem é diferente, quem pensa e crê de forma alternativa nesses assuntos abordados, é convocado e submetido à censura dos sacerdotes por não levar uma vida honrada, sendo este motivo de grande vergonha. Em alguns casos, os sacerdotes podem excluir das cerimônias e cultos “indivíduos considerados excepcionalmente maus” (More, 2004, p. 121). Tal punição é uma das mais temidas, pois ser “excomungado constitui uma grande desgraça e significa ser torturado pelo medo da danação. Nem mesmo seu corpo está em segurança por muito tempo pois, a menos que consiga convencer os sacerdotes de seu arrependimento, ele será preso e punido pelo senado como ímpio”

(More, 2004, p. 121).

Como pode-se ver, em Utopia o mecanismo de controle composto pela tríade religião, educação e moralidade tem papel fundamental no controle social.